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AS CRUZADAS

por Thynus, em 05.03.16
"Os homens nunca fazem o mal tão plenamente 
e com tanto entusiasmo 
como quando o fazem por convicção religiosa".
(Blaise Pascal)

"Deus matou 2.270.365 pessoas e o diabo 10".
(Elias Ramos - 101 CURIOSIDADES sobre a Bíblia Sagrada)
 

Mas Jesus lhe ordenou: 

“Embainha a tua espada; pois todos os que lançam 

mão da espada pela espada morrerão!

(Mt. 26,52)

 

A intolerância é intrínseca apenas ao monoteísmo: um deus único é, por natureza,
um deus ciumento, que não tolera nenhum outro além dele mesmo.

(Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR)  

 
 
No século 11, quando a influência muçulmana sobre o Oriente Médio e Jerusalém começou a aumentar, o papa Urbano 2º reagiu com fúria

APÓS A BATALHA DE MANZIKERT, em 1071, os bizantinos perderam quase toda a Ásia Menor para os Seldjúcidas e constataram que o Islã estava praticamente à sua porta. O poderio dos turcomanos, contudo, declinava, e o imperador Aleixo I Comneno acreditava que algumas campanhas vigorosas os aniquilariam para sempre. No início de 1095, o monarca bizantino pediu ajuda militar ao papa Urbano II, esperando receber alguns destacamentos dos mercenários normandos que já haviam lutado para ele. O pontífice, porém, tinha planos mais ambiciosos. Dirigindo-se aos clérigos, aos cavaleiros e aos pobres da Europa no Concílio de Clermont, realizado em novembro daquele mesmo ano, pregou uma guerra santa de libertação. Disse aos cavaleiros que, em vez de lutar entre si nas absurdas disputas feudais que estavam despedaçando a Europa, deviam partir para a Anatólia a fim de ajudar seus irmãos cristãos, que por mais de duas décadas sofriam o jugo dos turcos muçulmanos; depois deviam marchar sobre Jerusalém e libertar a Tumba de Cristo do domínio dos infiéis. Assim a Paz de Deus reinaria na Europa, e a Guerra de Deus assolaria o Oriente. Não temos nenhum registro contemporâneo de suas palavras textuais, mas provavelmente Urbano via essa expedição — que depois recebeu o nome de Primeira Cruzada — como uma peregrinação armada, semelhante às três grandes multidões de fiéis que se dirigiram à Cidade Santa no decorrer do século XI. Até então os peregrinos estavam proibidos de portar armas; agora o papa lhes entregava uma espada. No final de seu discurso Urbano recebeu uma clamorosa ovação, sua imensa plateia gritando a uma só voz: “Deus hoc vult!” [Deus o quer!].
A reação foi extraordinária, generalizada e imediata. Pregadores famosos difundiram a ideia, e na primavera de 1096 cinco exércitos de aproximadamente 60 mil soldados tomaram o rumo de Jerusalém, seguidos por hordas de camponeses e peregrinos que levaram suas famílias. A maioria morreu na perigosa viagem pela Europa oriental. No outono outros cinco exércitos de 100 mil homens e uma multidão de sacerdotes partiram para a Cidade Santa. Quando os primeiros destacamentos se aproximavam de Constantinopla, a princesa Ana Comnena teve a impressão de que “todo o Ocidente, toda a terra que se estende do mar Adriático até as Colunas de Hércules, mudou de lugar e irrompeu na Ásia como uma massa compacta com todos os seus haveres”.(Alexíada 10: 5, 7) O imperador havia pedido uma ajuda militar convencional e descobriu que acabara inspirando o que parecia uma invasão dos bárbaros. Primeiro empreendimento conjunto do Ocidente que emergia da Idade das Trevas, a Cruzada compreendia representantes de todas as classes sociais: padres e prelados, nobres e camponeses. Animava-os a paixão por Jerusalém, e não apenas a busca de terra e riqueza: a Cruzada era uma aventura assustadora, perigosa e cara. A maioria dos participantes perdia tudo que tinha e precisava de muito idealismo para sobreviver. Não é fácil definir seu ideal, já que esses peregrinos tinham concepções muito diferentes de sua expedição. O alto clero provavelmente partilhava o ideal de Urbano: uma guerra santa de libertação que aumentasse o poderio e o prestígio da Igreja ocidental. Muitos cavaleiros se sentiam na obrigação de lutar pela Cidade Santa, pelo patrimônio de Jesus, assim como lutavam pelos direitos de seu senhor feudal. Os cruzados mais pobres pareciam inspirados pelo sonho apocalíptico de uma Nova Jerusalém. A chave era sempre Jerusalém. Provavelmente Urbano não provocaria a mesma reação se não mencionasse a tumba de Cristo.
Esse idealismo tinha, porém, um lado sombrio. Logo se evidenciou que a vitória de Cristo significaria morte e destruição para outras crenças. Na primavera de 1096, um bando de cruzados alemães massacrou as comunidades judaicas de Speyer, Worms e Mainz, situadas às margens do Reno. Certamente não era essa a intenção do papa, mas os cruzados deviam achar absurdo marchar milhares de quilômetros para combater os muçulmanos — dos quais pouco ou nada sabiam —, quando os verdadeiros assassinos de Cristo (assim pensavam eles) estavam bem ao alcance de sua mão. Esses foram os primeiros grandes pogroms da Europa, que se repetiriam a cada anúncio de uma nova Cruzada. O fascínio da Jerusalém cristã contribuiu, portanto, para fazer do antissemitismo europeu uma doença incurável.
Mais ordeiros que seus predecessores, os cruzados que partiram no outono de 1096 não desviaram de seu caminho para matar judeus. A maioria chegou a Constantinopla em paz e ali jurou restituir territórios anteriormente pertencentes a Bizâncio — juramento que alguns deles não tinham a intenção de cumprir. As circunstâncias favoreciam um ataque aos Seldjúcidas, pois sua solidariedade inicial cedera lugar a lutas de facções e os emires se engalfinhavam entre si. Os cruzados começaram bem, infligindo derrotas aos infiéis em Niceia e Dorileia. No entanto, a viagem era longa e a comida escassa, e os turcos adotaram a tática da terra arrasada, que consistia em devastar uma região antes de abandoná-la ao inimigo. Foram necessários três anos de agruras inimagináveis para os cruzados chegarem a Jerusalém. No terrível inverno de 1097-8, sitiaram a bem fortificada Antioquia; durante o cerco um a cada sete homens morreu de fome e a metade do exército desertou. Apesar de tudo obtiveram a vitória e, quando se viram diante dos muros da Cidade Santa, em 1099, haviam mudado o mapa do Oriente Próximo. Destruíram a base dos Seldjúcidas na Ásia Menor e criaram dois principados governados por ocidentais: um em Antioquia, sob o normando Boemundo de Tarentino, e o outro em Edessa, na Armênia, sob Balduíno de Bolonha. Foram vitórias suadas, porém. Uma fama temível precedera esses implacáveis guerreiros.
Comentava-se que em Antioquia ocorreram atos de canibalismo, e afirmava-se que os bárbaros cristãos europeus eram impiedosos e fanáticos em seu zelo religioso. Ao tomar conhecimento dessas histórias alarmantes, muitos gregos ortodoxos e monofisistas de Jerusalém fugiram para o Egito. Os que permaneceram na cidade foram expulsos pelas autoridades muçulmanas, que baniram também os cristãos latinos. Tidos como simpatizantes dos cruzados, estes últimos de fato os ajudaram durante o cerco, fornecendo-lhes valiosas informações sobre a cidade.
Os comandantes dos cruzados espalharam suas tropas em torno das muralhas. Roberto da Normandia posicionou-se perto da arruinada igreja de Santo Estêvão, no norte; Roberto de Flandres e Hugo de St. Poll ficaram no sudoeste; Godofredo de Bouillon, Tancredo e Raimundo de St. Gilles acamparam em frente à Cidadela, enquanto outro exército se colocou no monte das Oliveiras para prevenir um ataque vindo do leste. Depois Raimundo deslocou seus provençais para defender os lugares santos fora dos muros do monte Sião. A princípio os cruzados pouco progrediram. Ainda não estavam habituados a sitiar as cidades de pedra do Oriente, muito maiores e mais imponentes que as suas, e não possuíam nem técnica nem material para fabricar as máquinas necessárias. Com os mastros, cordas e ganchos de uma frota genovesa que aportou em Jafa construíram duas torres móveis que podiam transportar sobre rodas até as muralhas — um engenho de ataque que os muçulmanos desconheciam. Foi utilizando uma dessas torres que, em 15 de julho de 1099, um soldado do exército de Godofredo conseguiu entrar em Jerusalém. Os demais cruzados o seguiram e, como os anjos vingadores do Apocalipse, caíram sobre os maometanos e judeus que defendiam a cidade. Durante três dias eliminaram sistematicamente cerca de 30 mil jerosolimitas. “Mataram todos os sarracenos e os turcos que encontraram”, escreveu com aprovação o autor das Gesta Francorum, “mataram todos, homens ou mulheres.” (The deeds of the Franks and the other pilgrims to Jerusalem, trad. R. Hill
(Londres, 1962), p. 91.)
Massacraram 10 mil muçulmanos que se refugiaram no teto de al- Aqsā e passaram à espada os judeus que reuniram na sinagoga, praticamente não deixando sobreviventes. Ao mesmo tempo, se apoderaram friamente de bens locais, diz Fulcher de Chartres, um capelão do exército. “Quem primeiro entrasse numa casa, fosse rico ou pobre, não era molestado por nenhum outro franco. Podia apossar-se da casa ou do palácio, bem como do que ali encontrasse.” (Fulcher de Chartres, History of the expedition to Jerusalem, 1095-1127, trad. F. R. Ryan, 3 vols. (Knoxville, 1969), 1, p. 19) O sangue literalmente corria pelas ruas. “Cabeças, mãos e pés se amontoavam”, informa o provençal Raymond de Aguiles, testemunha ocular da matança. Longe de apiedar-se, ele interpretou a carnificina como um sinal do triunfo do cristianismo, sobretudo no H. aram:
Se eu contar a verdade, não conseguireis acreditar. Basta, pois, dizer que no Templo e no Pórtico de Salomão homens cavalgaram com sangue até os joelhos e as rédeas. Foi a esplêndida justiça de Deus que fez o sangue dos descrentes inundar esse lugar, que durante muito tempo sofreu com suas blasfêmias.(August C. Krey, The first Crusade: the accounts of eye witnesses and participants
(Princeton e Londres, 1921), p. 266)

Os vencedores eliminaram muçulmanos e judeus da Cidade Santa como se a purgassem de vermes.
Por fim, quando não tinham mais a quem matar, lavaram-se e seguiram em procissão até a Anástasis, entoando hinos entre lágrimas de alegria. Ao redor do Santo Sepulcro celebraram o Ofício da Ressurreição, cuja liturgia parecia anunciar o alvorecer de uma nova era. Raymond assistiu à cena: Este dia, afirmo, será famoso em todos os tempos futuros, pois converteu nossos esforços e nossos sofrimentos em alegria e exultação. Este dia, afirmo, assinala a justificação de toda a cristandade, a humilhação do paganismo, a renovação da fé. “Este é o dia que o Senhor preparou, regozijemo-nos com ele”, pois neste dia o Senhor se revelou a seu povo e o abençoou.(Ibidem)
Tal visão dos fatos foi logo adotada pelos poderosos da Europa, que provavelmente se horrorizaram com as primeiras notícias do massacre. Apesar de tudo, o sucesso da Cruzada foi tão retumbante que os levou a acreditarem que desfrutavam uma bênção especial de Deus. No espaço de dez anos três religiosos eruditos — Guibert de Nogent, Robert, o Monge, e Baldrick de Bourgueil — escreveram sobre a Primeira Cruzada, endossando inteiramente a belicosa devoção de seus participantes. O Ocidente, que até então vira os muçulmanos com relativa indiferença, passou a considerá-los uma “raça vil e abominável”, “absolutamente estranha a Deus”, digna apenas do “extermínio”.(Robert, o Monge, citado em Jonathan Riley-Smith, The first Crusade and the idea of crusading (Londres, 1987), p. 143) A Cruzada fora um ato divino comparável ao Êxodo do Egito; os francos eram agora o novo Povo Eleito, os que assumiram a vocação abandonada pelos judeus.(Baldrick de Bourgueil, em ibidem)
Robert, o Monge, chegou a formular a espantosa afirmação de que a recente conquista da Cidade Santa constituiu o maior acontecimento da história mundial desde a Crucifixão.(Ibidem, p. 140) Logo o Anticristo surgiria em Jerusalém e teriam início as batalhas do fim dos tempos.(Krey, First Crusade, p. 38)
Mas os cruzados eram essencialmente práticos e, antes desses triunfos apocalípticos, trataram de limpar a cidade. Guilherme de Tiro diz que queimaram os corpos com grande eficiência, de modo que puderam dirigir-se aos lugares santos “com maior segurança”(Guilherme, arcebispo de Tiro, A history of deeds done beyond the sea, 2 vols., trad. E. A. Babcock e A. C. Krey (Nova York, 1943), 1, p. 368.) — provavelmente sem sofrer o inconveniente de tropeçar em membros decepados. Na verdade, tratava-se de uma tarefa imensa, e cinco meses depois ainda havia cadáveres espalhados pela cidade. Naquele ano, quando chegou a Jerusalém para celebrar o Natal, Fulcher de Chartres ficou horrorizado:
Oh, que fetidez exalavam, dentro e fora das muralhas, os corpos putrefatos dos sarracenos que matamos por ocasião da captura da cidade e que [ainda] jaziam no lugar onde os abatemos.(Fulcher de Chartres, History, 1, 33.)
Da noite para o dia, os cruzados transformaram a florescente e populosa Jerusalém num fétido ossário. Corpos amontoados ainda apodreciam nas ruas três dias após o massacre, quando os cruzados organizaram uma feira. Com grandes festividades eles venderam seus saques, indiferentes à carnificina que haviam realizado e às hediondas evidências que jaziam a seus pés. Se o respeito pelos sagrados direitos dos predecessores indica o grau de integridade dos monoteístas que conquistaram Jerusalém, os cruzados devem figurar no fim da lista.
Não visavam a nada além da conquista e não definiram nenhuma forma de governo. Os clérigos desejavam uma administração inspirada em princípios teocráticos e liderada por um patriarca; os cavaleiros queriam que um de seus pares assumisse o poder; e os pobres, que exerciam considerável influência sobre os cruzados, aguardavam a Nova Jerusalém e repudiavam todo e qualquer governo convencional. Por fim chegaram a um acordo. Como durante o cerco os muçulmanos haviam expulsado o patriarca ortodoxo, os conquistadores designaram para ocupar o cargo Arnulf de Rohes, o capelão de Roberto da Normandia, substituindo um grego por um latino. Depois escolheram como seu líder Godofredo de Bouillon, jovem piedoso, dotado de extrema coragem física e de mínima inteligência. Declarando que não podia usar uma coroa de ouro na cidade em que seu Salvador usara uma coroa de espinhos, Godofredo assumiu o título de “Advogado do Santo Sepulcro”. Daria proteção militar [advocatia] ao patriarca, que assumiria o governo. Poucos meses mais tarde, Daimbert, arcebispo de Pisa, chegou a Jerusalém na condição de legado oficial do papa. Sumariamente depôs Arnulf, apoderou-se do patriarcado e baniu da Anástasis e das outras igrejas jerosolimitas todos os cristãos locais — gregos, jacobitas, nestorianos, georgianos e armênios. Urbano II encarregara os cruzados de ajudarem os cristãos orientais, mas agora eles estendiam a seus próprios irmãos de fé a intolerância dos dominadores que os precederam. Na Páscoa de 1100, Godofredo entregou a Daimbert “Jerusalém, com a Torre de Davi e tudo que pertencia à cidade”,(F. E. Peters, Jerusalem: the Holy City in the eyes of chroniclers, visitors, pilgrims and prophets from the days of Abraham to the beginnings of Modern Times (Princeton, 1985), p. 292.) sob a condição de utilizá-la enquanto conquistava mais terras para o reino.
Essa era a tarefa mais urgente dos cruzados, pois a tomada de Jerusalém não significava a libertação de toda a Palestina. Os Fatímidas ainda controlavam boa parte do país, inclusive os importantes centros urbanos do litoral.
Godofredo começou por atacar suas bases, com o apoio da frota pisana. Obteve em março de 1100 a rendição dos emires de Ascalon, Cesareia, Acre e Arsuf, que o aceitaram como seu suserano. Os xeiques da Transjordânia os imitaram, enquanto Tancredo estabelecia um principado na Galileia. Contudo, a situação era precária. O reino tinha agora fronteiras defensáveis, mas nos 25 anos seguintes precisaria lutar pela própria sobrevivência, já que o rodeavam inimigos hostis.
O principal problema era o efetivo militar. A maioria dos soldados voltara para sua terra após a conquista da Cidade Santa, de modo que o exército minguara consideravelmente. A desolação reinava em Jerusalém, cuja população de aproximadamente 100 mil pessoas se reduzira a algumas centenas. “Nossos compatriotas eram tão pouco numerosos e tão necessitados que mal enchiam uma rua”, anotou Guilherme de Tiro.(Guilherme de Tiro, History, 1: 507) Procurando segurança, eles se apinhavam no bairro do Patriarca, em torno do Santo Sepulcro.(Joshua Prawer, “The settlement of the Latins in Jerusalem”, Speculum, 27 (1952)) O resto da cidade estava desabitado, ladrões e beduínos rondando pelas ruas e arrombando as casas desertas. A defesa adequada era impossível: quando Godofredo saía em missão com seus soldados, apenas alguns civis e peregrinos ficavam incumbidos de enfrentar eventuais ataques. Cessadas as hostilidades, muçulmanos e judeus começaram a voltar pouco a pouco para cidades como Beirute, Sidônia, Tiro e Acre, e os camponeses islamitas permaneceram na zona rural. Os cruzados promulgaram uma lei banindo os judeus e muçulmanos da Cidade Santa; expulsaram também os cristãos locais, suspeitando que fossem cúmplices do Islã. Para os rudes ocidentais não havia diferença entre os árabes e esses cristãos palestinos, coptas e sírios. Poucos francos queriam viver na santa Jerusalém, agora reduzida a uma sombra do que fora no passado. A maioria preferia as cidades litorâneas, onde a vida era mais fácil e havia mais oportunidades para os negócios.
Imediatamente após a conquista, Godofredo instalou-se na mesquita de al- Aqsā, que se tornou a residência real, e converteu a Cúpula do Rochedo numa igreja denominada “Templo do Senhor”, a qual Daimbert fez sua residência oficial. O H. aram não despertara o interesse dos bizantinos, mas significava muito para os cruzados, que se consideravam o novo Povo Eleito e, portanto, herdeiros desse lugar santo dos judeus. Desde o início o H. aram desempenhou importante papel na vida espiritual da Jerusalém dos cruzados, como atesta o fato de o patriarca e seu advogado decidirem morar nesse local solitário, distante dos principais alojamentos de seus comandados, na Colina Ocidental. Seus vizinhos mais próximos eram os beneditinos que Godofredo instalara na Tumba da Virgem Maria, no vale do Cedron.
Godofredo não reinou por muito tempo. Morreu de febre tifoide em julho de 1100 e foi enterrado na Anástasis, que os cruzados preferiam chamar de igreja do Santo Sepulcro. Daimbert se preparou para assumir o comando secular, além do espiritual, mas se viu suplantado por Balduíno, conde de Edessa, que seus concidadãos fizeram vir da Lorena. Muito mais inteligente e cosmopolita que seu irmão Godofredo, Balduíno recebeu na juventude formação eclesiástica; era mais culto que a maioria dos leigos, tinha uma tremenda presença física e podia viabilizar o Reino de Jerusalém. Quando chegou à Cidade Santa, em 9 de novembro de 1100, foi recebido com tumultuosa alegria não só por seus compatriotas, como pelos cristãos locais, que o esperavam no exterior das muralhas. Balduíno percebeu que para sobreviver no Oriente Próximo os francos precisavam de amigos, e, como os judeus e os muçulmanos estavam fora de cogitação, seus aliados naturais eram os cristãos gregos, sírios, armênios e palestinos. Ele próprio era casado com uma armênia e conquistara a confiança dos cristãos orientais, que Daimbert tratara com tanto desprezo.
Sua coroação ocorreu em 11 de novembro na igreja da Natividade, em Belém, cidade de Davi. Balduíno não demonstrou o menor escrúpulo em usar uma coroa de ouro, nem em ser chamado de “rei dos latinos”. Sob seu comando os cruzados conheceram uma série de triunfos. Em 1110, haviam conquistado Cesareia, Haifa, Jafa, Trípoli, Sidônia e Beirute. Agora estabeleceram um quarto Estado: o condado de Trípoli. Nessas cidades massacraram a população e destruíram as mesquitas, obrigando os sobreviventes a refugiaremse em território islâmico. Mais tarde teriam grande dificuldade em estabelecer relações normais com seus “súditos”, que guardavam na memória a lembrança de sua carnificina e de suas desapropriações. Pareciam imbatíveis, se bem que não encontrassem maior resistência por parte dos emires Seldjúcidas e dos dinastas locais, que, sempre às voltas com suas disputas pessoais, achavam impossível compor uma frente única. Bagdá não tinha como reagir. O califado estava irremediavelmente fraco e não podia arcar com essas guerras na distante Palestina. Assim, os cruzados conseguiram fundar as primeiras colônias ocidentais no Oriente Próximo.
Balduíno precisava também resolver o problema de Jerusalém, que permanecia praticamente deserta. Os francos continuavam preferindo as cidades mais afluentes do litoral. Eram na maioria camponeses e soldados, não artesãos, e tinham dificuldade em ganhar o sustento numa cidade que vivia da indústria leve. Pela Lei da Conquista, promulgada em 1099, todos os participantes da Cruzada estavam livres da hierarquia feudal vigente na Europa e, portanto, podiam tornar-se proprietários. Alguns desses “burgueses”, como eram chamados, agora possuíam imóveis em Jerusalém ou campos e vilas nos arredores. Para evitar que partissem em época de crise, esperando retornar quando a situação melhorasse, Balduíno criou uma lei que concedia a posse de uma casa a quem nela estivesse residindo durante o período de um ano e um dia. Os burgueses se converteram na coluna dorsal da Jerusalém franca, onde atuavam como cozinheiros, açougueiros, lojistas e ferreiros. Mas seu número era insuficiente.
Balduíno esperava reconduzir os cristãos da região às igrejas e aos mosteiros jerosolimitas, e em 1101 a oportunidade caiu-lhe do céu. Na noite anterior à Páscoa, as multidões aguardavam, como sempre, o milagre do Fogo Santo. Nada aconteceu: não se fez a luz divina. Provavelmente os gregos haviam levado o segredo consigo e agora não queriam contá-lo aos latinos. O fracasso parecia um mau sinal: teriam os francos desagradado a Deus de algum modo? Daimbert sugeriu enfim que os latinos o seguissem ao Templo do Senhor, onde Deus havia atendido às preces de Salomão. Os cristãos locais foram convidados a rezar também. Na manhã seguinte, anunciou-se que o fogo aparecera em duas das lâmpadas que ladeavam a tumba. A mensagem do céu parecia clara. O historiador armênio Mateus de Edessa afirmou que Deus se zangara quando “os francos expulsaram dos mosteiros os armênios, os gregos, os sírios e os georgianos” e só se dignara a mandar o fogo porque os cristãos orientais lhe pediram.(Joshua Prawer, The Latin Kingdom of Jerusalem, European colonialism in
the Middle Ages (Londres, 1972), p. 214)
Os gregos recuperaram as chaves da tumba, e outras congregações receberam permissão para retornar a seus santuários e monastérios.
A partir desse episódio, o rei de Jerusalém tornou-se protetor dos cristãos locais. O alto clero continuou sendo latino, mas havia cônegos gregos na igreja do Santo Sepulcro. Quando voltaram do Egito, para onde haviam fugido em 1099, os jacobitas recobraram o mosteiro de Maria Madalena.
Através de seu casamento Balduíno estabelecera um vínculo especial com os armênios, que foram particularmente favorecidos. A comunidade e o convento de São Tiago prosperaram. Importantes personalidades armênias peregrinavam a Jerusalém, levando ricos presentes: vestes bordadas, cruzes e cálices de ouro, crucifixos incrustados de pedras preciosas — que ainda hoje são usados nos dias de grandes festas — e manuscritos com iluminuras para a biblioteca do convento. Os armênios também obtiveram a custódia da capela de Santa Maria na igreja do Santo Sepulcro.
Finalmente, em 1115, Balduíno conseguiu resolver o problema populacional, importando cristãos sírios da Transjordânia, que em função das atrocidades cometidas pelos cruzados haviam se tornado personae non gratae no mundo muçulmano. Para atraí-los prometeu-lhes privilégios especiais e alojou-os nas casas abandonadas do noroeste de Jerusalém. Ademais, permitiu que construíssem e restaurassem igrejas para seu próprio uso: a de Santo Abraão, perto da Porta de Santo Estêvão, e as de São Jorge, Santo Elias e São Jacó no bairro do Patriarca.
A estratégia deve ter funcionado, pois Jerusalém se desenvolveu — chegou a abrigar cerca de 30 mil pessoas — e não só voltou a ser capital, como se converteu na principal metrópole de todos os estados francos, graças a sua importância religiosa. Com isso ganhou vida nova. Sob alguns aspectos apresentava a organização de uma cidade ocidental. A sharī‘ah, corte de justiça muçulmana, cedeu lugar a três organismos encarregados de causas civis e criminais: a Suprema Corte, para os nobres, a Corte dos Burgueses e a Corte dos Sírios, administrada pelos cristãos locais e a eles destinada. Os cruzados se apossaram dos mercados que haviam surgido no antigo fórum romano, ao lado do Santo Sepulcro, e ao longo do Cardo. Provavelmente aprenderam a organização do sūq com os cristãos de Jerusalém, pois mantiveram o sistema oriental de mercados distintos para aves, tecidos, especiarias e comida pronta. Francos e sírios trabalhavam juntos, mas em lados opostos da rua. Jerusalém não poderia se converter num centro comercial, pois se situava muito longe das principais rotas. Não atraía os mercadores italianos estabelecidos nas cidades costeiras, onde desempenhavam importante papel. Continuou — como sempre — dependendo do turismo. Balduíno acabara com a ideia de governála como uma teocracia. Depois que se livrou de Daimbert,(Daimbert foi deposto em 1102, acusado de peculato e simonia) tratou de escolher patriarcas que se contentassem com uma posição de subserviência. A partir de 1112, o patriarca exercia absoluta autoridade sobre o antigo bairro cristão, porém Balduíno administrava o restante da cidade. O reino estava mais livre do controle eclesiástico que qualquer Estado europeu contemporâneo.
Tendo surgido em meio a fanática religiosidade, a Jerusalém dos cruzados ironicamente se secularizou. Logo que se instalaram, os francos passaram a ocidentalizá-la, começando, em 1115, pela Cúpula do Rochedo — mais um indício da importância que atribuíam a esse local. Não conheciam bem a história do edifício. Sabiam que não era o Templo de Salomão, mas aparentemente achavam que Constantino ou Heráclio o construíra e que os muçulmanos o converteram para seu próprio uso impio. Em 1115, trataram de supostamente restaurá-lo a sua pureza original. Colocaram uma cruz no alto da Cúpula, revestiram a Rocha de mármore, transformando-a em altar e coro, e cobriram as inscrições do Alcorão com textos latinos. Foi um gesto típico, destinado a apagar a presença islâmica, como se ela nunca tivesse existido. Realizaram, porém, um trabalho da mais alta qualidade: a grade com a qual rodearam a Rocha é uma das melhores peças da metalurgia medieval que chegou até nós. Dedicaram-lhe anos: o “Templo do Senhor” só foi oficialmente consagrado em 1142. Ao norte da nova igreja construíram claustros para os agostinianos e converteram a Cúpula da Corrente numa capela dedicada a Tiago, o Tzaddik, que, segundo se acreditava, fora martirizado no monte do Templo.

(Karen Armstrong - JERUSALÉM: uma cidade, três religiões)

Primeira cruzada marcou época de conflitos religiosos sangrentos

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