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Apimentar de novo o sexo

por Thynus, em 11.02.14

 

O amor nunca morre de morte natural. 

 

Morre porque não sabemos reabastecer sua fonte

 

Anaïs Nin

 

 

É preciso coragem para se forçar a ir aonde nunca se esteve antes... 

 

testar seus limites... romper barreiras. 

 

E chegou o dia em que o risco de continuar espremido 

 

dentro do botão era mais doloroso que o de desabrochar

 

Anaïs Nin

 

 

 

 SEMPRE ME ESPANTA A DISPOSIÇÃO que as pessoas têm para fazer experiências sexuais fora da relação séria, e a contenção e o puritanismo que têm em casa com os parceiros. Muitos de meus pacientes têm, segundo eles mesmos, vidas domésticas sem graça e sem erotismo, mas são consumidos e excitados por uma vida sexual ricamente imaginativa fora de casa — casos, pornografia, sexo virtual, devaneios ardentes. Para eles, o amor sexual fica comprometido quando se forma uma família, até mesmo de duas pessoas. Eles se anestesiam eroticamente. Depois, não tendo se permitido liberdade, nem mesmo de imaginação, em suas relações, saem de casa para se imaginar novamente liberados das restrições do compromisso. Segurança em casa, aventura e paixão na rua. Então, quando a mídia frenética (mas regularmente) anuncia que os casais não estão transando, não consigo deixar de pensar que talvez estejam transando muito, mas não conjugalmente. 

 

A paixão pode ou não alimentar os primeiros estágios de uma relação. De uma maneira ou de outra, é previsível que a volatilidade do erotismo apaixonado se transforme numa alternativa mais discreta, estável e administrável: o amor maduro. É sabido que até mesmo a bioquímica da paixão tem vida curta. A antropóloga evolucionista Helen Fisher (Helen Fisher. "The Drive to Love." Discurso na conferência "ChallengingCouples, Challenging Therapists" [Casais provocadores, terapeutas provo-cadores], patrocinada pela Milton H. Erikson Foundation, Los Angeles, CA, 28 de maio de 2004) nos diz ser sabido que o coquetel hormonal da paixão — dopamina, norepinefrina e b-feuiletilamina — dura, no máximo, alguns anos. A oxitocina, o hormônio do carinho, dura mais que todos esses. Os frutos desse amor maduro — companheirismo, respeito profundo, reciprocidade e afeto — são considerados por muitos uma boa troca pelo ardor erótico. Se atração e desejo foram os atores centrais de seu namoro, agora, eles saem de cena para deixar acontecer o ato principal: a construção de uma vida a dois. 

 

O erotismo está conspicuamente ausente de nossa idéia de casamento. Claro, espera-se que os casais formais transem, e até gostem de fazê-lo hoje em dia. O sexo exclusivamente para procriação é, teoricamente, passe. Mas sexo e erotismo não são a mesma coisa, e o sexo lascivo, íntimo, ardente, carente e frívolo dos amantes rareia após a festa de inauguração da casa. Apesar da mídia saturada de sexo que promete excitação irrestrita desde que sigamos as dez idéias sugeridas no número daquela semana, ainda há algum anti-hedonismo envolvendo o sexo domesticado. Será que nos inundam de artigos ensinando como ter transas tórridas com nossos parceiros porque não acreditamos de fato que elas possam ser tórridas com nossos parceiros? Mais exatamente, será que, no fundo, acreditamos que não é suposto serem? Será que acreditamos que, independentemente de quão sexualmente livres possamos ter sido antes de nos amarrarmos, o casamento não é lugar para a indecência da concupiscência? 

 

Se o casamento tem a ver com amor, como gostamos de achar, o sexo no casamento precisa ser uma declaração de amor. Tem que ser significativo. Mas a terapeuta sexual Dagmar O'Connor diz:
Para ser "significativo, o sexo [no casamento] precisa sempre ser uma manifestação de amor — de preferência constante e duradouro — sempre que vamos nos deitar juntos. E que fardo incrível isso é! Elimina a transa estimulada por uma quantidade de outras emoções e sensações: a transa travessa e a zangada, a rápida, a desatenta e a cheia de malícia. Elimina, na verdade, praticamente qualquer ocasião para se transar. Afinal de contas, quem pode sentir "amor constante e duradouro " tão pontualmente — sobretudo às 11 da noite? (Dagmar O'Connor. 1986. Hoiv to Make Love to the Same Person for the Rest of Your Life and Still Love Lt. Londres: Virgin, p. 37)

 

Casamento, ensinaram-nos, tem a ver com compromisso, segurança, conforto e família. É um assunto sério, um empreendimento responsável e refletido; é todas as coisas de que precisamos, e todas as que precisamos fazer. O divertimento e tudo que o acompanha (risco, sedução, malícia, transgressão) ficam tendo que se defender fora da arquitetura sólida de nossos lares. 

 

Muitos em minha área presumem que a intensidade que molda os primeiros estágios do namoro é um tipo de loucura temporária, destinada a ser curada pelos rigores do longo prazo. Os clínicos muitas vezes interpretam o desejo de aventura sexual — desde simples flerte até a paixão, desde manter contato com namorados anteriores até travestimento, triângulos e fetiches — como fantasia infantil ou medo de compromisso. Dão preferência a um modelo de amor como parceria de companheirismo, intimidade e colaboração. Ficamos então com uma relação forte em cooperação e comunicação, mas fraca em cumplicidade e diversão. Mas a amizade desapaixonada é um ambiente problemático para o cultivo do erotismo.

 

 

(Esther Perel - Sexo no cativeiro)

 

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publicado às 14:11



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