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Angústia e esperança

por Thynus, em 02.02.14
"Se a morte é não ser, 
já vencemos uma vez no dia em que nascemos"
Fernando Savater
 

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Rolamos velozmente na estrada e, de repente, ali ao lado, quase na valeta - consequência da brutalidade de um acidente - somos confrontados com o corpo morto do que já foi um ser humano. Ali está, esfacelado, torcido, morto, absolutamente morto. Depois de um calafrio, pode então desabar sobre nós, fulminante, a pergunta: Qual a diferença entre aquilo e o que mais frequentemente encontramos nas mesmas circunstâncias: um cão morto? O resultado brutal é o mesmo: uma coisa que apodrece.
O resultado é, pois, aparentemente de coincidência, mas, consideradas as coisas de cá para lá, isto é, antes da morte, tudo se modifica, como foi dito de modo cru por Erich Fried: "Um cão/que morre/e sabe/que morre/como um cão/e que pode dizer/que sabe/que morre/como um cão/é um homem". Este duplo percurso - de cá para lá, de lá para cá -situa-nos no ponto preciso de confluência do enigma trágico da morte: a coisa mais natural da evidência - tudo o que nasce morre -, e o sobressalto da impossibilidade: como é que alguém autoconsciente - consciente do mundo e de si mesmo - pode morrer? Que momento é aquele em que se deixa de ser neste mundo, mas precisamente assim: nunca mais ser para sempre? É um instante sem antes, sem depois, insecável, único, intangível, irreversível, que escapa a toda a compreensão, pois é absoluto. Dostoievski, em O Idiota, referiu-se-lhe nestes termos: "Pintar o rosto de um condenado no momento em que vai ser guilhotinado... no último quarto de segundo, quando a cabeça já está sob a lâmina decapitante e o homem espera... e sente."
Porque ser homem é viver nessa confluência da evidência da mortalidade e da impossibilidade da representação do morrer e estar morto, estamos marcados por um duplo afecto fundamental (qual será o mais radical?): a angústia e a esperança. Marcel Conche fala-nos do medo, que nos marca desde a raiz e que é como que o eco de nos sabermos temporais, arrastados para um termo inexorável: "Um Medo difuso é o fundo afectivo do nosso ser, a tonalidade afectiva fundamental. O medo está sempre aí. Uma ninharia e temos medo, pois essa 'ninharia', quem sabe?, talvez não seja uma ninharia, talvez seja a morte". Preocupar-nos-íamos com a temporalidade, se fôssemos imortais? Para Ernst Bloch, pelo contrário, a esperança, contra o medo e a angústia, é "o mais humano de todos os movimentos afectivos, só acessível aos seres humanos e ao mesmo tempo referido ao horizonte mais vasto e iluminado". Como escreveu Espinosa, experienciamos e sabemos que somos imortais.
Mas morreremos. De qualquer modo, porquê envenenar a vida com a morte, se precisamente a vida é que é decisiva? Como sublinha o filósofo Fernando Savater, deveríamos reflectir muito mais sobre "a maravilha de ter nascido, que é tão grande como o espantoso assombro da morte. Se a morte é não ser, já vencemos uma vez no dia em que nascemos". Pelo nascimento roubámos algum tempo ao nada. Lembrando o velho Epicuro, nunca coexistimos com a morte: enquanto eu estou, ela não está; quando ela estiver, eu já não sou. Se a morte desembocar no nada, já não estaremos lá para nos revoltarmos, para nos darmos conta da angústia de que já não existimos. Mas, por outro lado, precisamente o pensamento de que tudo acaba na morte é intolerável: não se tolera não ir para lado nenhum. Mais do que intolerável é impensável: como é que um existente consciente pode pensar o nunca mais existir?
Por isso, acena sempre um outro pensamento na esperança: Ou será que aquele instante da morte no qual deixamos de pertencer ao tempo é coincidente com o instante da memória criadora de Deus?

(Anselmo Borges - Janelas do (In)Visível)

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publicado às 13:55



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