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AMOR E MORTE 1

por Thynus, em 02.12.15
Tenha sempre em mente que as preocupações com a morte freqüentemente se disfarçam em trajes sexuais. O sexo é o grande neutralizador da morte, a antítese vital absoluta da morte. (...)
O termo francês para orgasmo, la petite mort ("pequena morte"), aponta para a perda orgásmica do self, que elimina a dor da separação — o "eu" solitário desaparecendo no "nós" fundidos.
(Irvin D. Yalom - Os desafios da terapia)
 
O comportamento erótico se opõe ao habitual, como o gasto à compra. Se nos conduzimos de acordo com a razão, tentamos adquirir bens de todas as espécies, trabalhamos para aumentar nossos recursos — ou nossos conhecimentos —, nos esforçamos por todos os meios para enriquecer e possuir mais. É, em princípio, em tais comportamentos que se funda nossa posição no plano social. Mas no momento de excitação sexual, nós nos conduzimos de uma maneira oposta:
gastamos nossas forças desmedidamente e, às vezes, na violência da paixão, dilapidamos à toa recursos consideráveis. A volúpia está tão próxima da dilapidação ruinosa que nós chamamos de petite mort (pequena morte) o momento de seu paroxismo. Em conseqüência disso, os aspectos que evocam para nós o excesso erótico representam sempre uma desordem.
  
(Georges Bataille - O Erotismo)
 
Amor dói...
NESTE CAPÍTULO, PARTO DA POSTULAÇÃO PRINCEPS de Lacan sobre a relação entre sexo e amor (“O amor é o que vem precisamente em suplência à inexistência da relação sexual”) (J. Lacan, O Seminário, livro 20, Mais, ainda, p.62.)2 para, em seguida, tematizar a relação – antitética – entre amor e morte.
- No seminário Mais, ainda, na lição sobre “O amor e o significante”, ele pondera:
Nós dois somos um só. Todo mundo sabe, com certeza, que jamais aconteceu, entre dois, que eles sejam só um, mas, enfim, nós dois somos um só. É daí que parte a ideia do amor. É verdadeiramente a maneira mais grosseira de dar à relação sexual, a esse termo que manifestamente escapa, o seu significado.(Ibid., p.64)
Freud já tematizara a relação entre o amor e a sexualidade salientando que, embora seja uma expressão dela, o amor não pode ser inserido na dimensão exclusiva do pulsional:
O caso do amor e do ódio adquire um interesse particular pela circunstância de que é refratário a se ordenar em nossa exposição das pulsões. O vínculo mais íntimo une esses dois sentimentos opostos com a vida sexual; não podemos duvidar disso, mas naturalmente relutamos conceber o amar como se fosse uma pulsão parcial da sexualidade, entre outras. Preferiríamos discernir no amar a expressão da aspiração sexual como um todo … .(S. Freud, “Pulsões e destinos da pulsão”, in AE, vol.XIV, p.128; ESB, vol.XIV, p.154)
O amor expressa a aspiração sexual como um todo – em outras palavras, é a esse “todo” que Lacan está se referindo ao dizer que o amor tenta preencher a falha, esse “não-todo” que o sexo não consegue colmatar.
Por isso, o amor rivaliza continuamente com o gozo sexual e é com o gozo que ele se defronta de modo radical. Amor e gozo são, de algum modo, antinômicos, pois, se por um lado o que é visado no amor é o sujeito, por outro esse sujeito não tem grande coisa a fazer com o gozo.(J. Lacan, op.cit., p.69)
Assim, tratarei do amor em uma vertente particular, aquela colocada pela relação entre o amor e a morte. Essa relação entre amor e morte parece universal. Na paixão, ela pode exibir francamente sua face destrutiva, embora de modo diverso para o homem e para a mulher. Conforme observa Eugénie Lemoine-Luccioni, se o homem apaixonado diz para a amada: “Se você me deixar eu te mato!”, a mulher apaixonada, por sua vez, ao contrário, costuma dizer ao homem amado: “Se você me deixar eu me mato!”(E. Lemoine-Luccioni, Le partage des femmes, p.73. H. Neri chama a atenção para essa aguda observação em sua dissertação de mestrado O feminino, a paixão e a criminalidade, além de desenvolver de modo original nosso gráfico sobre a pulsão de morte.) O vetor da pulsão de morte pode manifestar aqui suas duas diferentes direções: o próprio eu (vertente masoquista) ou o outro (vertente sádica). Pois o verdadeiro embate entre amor e morte depende da radical rivalidade que aí se opera entre o real e o imaginário. E como o vetor masoquista da pulsão de morte é o mais originário, e o sádico uma defesa contra ele, não é incomum que o sujeito mate e, em seguida, cumprindo o ciclo do vetor da pulsão de morte até o fim, se mate.

Clínica da separação
De fato, o que se observa na clínica da separação amorosa é que a perda do amor desencadeia muitas vezes aquilo que parece estar sempre ali, à espreita: a morte. Como vimos ao estudar a pulsão de morte, por trás da pulsão sexual (primeiro e mais relevante nome dado por Freud à pulsão de vida) surge sempre a pulsão de morte, uma vez que toda pulsão é, no fundo, pulsão de morte. A pulsão sexual representa o segmento da pulsão de morte que foi sexualizado pela linguagem, e doravante freado pela ação onipresente da fantasia inconsciente, desde o momento em que se produziu o recalque originário. Isso é o que se produz (de formas particulares) na neurose e na perversão, e é isso o que fracassa na psicose.(Cf. Parte II, Cap.1, “A pulsão de morte: segunda subversão freudiana”.)
Sobre isso nos fala Ferenczi de maneira especialmente esclarecedora em seu breve e luminoso texto “A criança mal-acolhida e sua pulsão de morte”. Nove anos após a publicação do ensaio freudiano “Mais além do princípio de prazer”, ele escreveu esse artigo em que tematiza a pulsão de morte a partir de sua experiência clínica e nos ajuda a compreender o que Freud trouxera em 1920: a ideia aparentemente paradoxal de que a primeira pulsão é a pulsão de morte, uma pulsão que visa retornar ao estado inanimado.(S. Freud, “Mais além do princípio de prazer”, in AE, vol.XVIII, p.38; ESB, vol.XVIII, p.56)
Abordando a complexa relação entre pulsões de vida e pulsão de morte, Ferenczi menciona que considera “todos os fenômenos vitais, mesmo os da vida psíquica, em última instância, como um emaranhado de formas de manifestação de duas pulsões básicas: a pulsão de vida e a pulsão de morte”.(S. Ferenczi, “A criança mal-acolhida e sua pulsão de morte”, in Obras completas, p.47) Relata ter podido observar, a partir das indicações freudianas sobre o assunto, o quanto as crises epiléticas seguem-se a experiências de desprazer, “as quais davam ao paciente a impressão de que a vida não valia a pena ser vivida”.(Idem) Outras patologias orgânicas, como distúrbios circulatórios e respiratórios de origem nervosa, em particular a asma brônquica, assim como casos de espasmo da glote infantil, foram igualmente estudados por ele com o intuito de “examinar mais a fundo a gênese das tendências inconscientes de autodestruição”.
Tal gênese é situada por Ferenczi no âmbito da má recepção feita a esses sujeitos em seu nascimento por seus familiares. Por diferentes motivos, eles não foram “hóspedes bem-vindos na família”: seja porque chegaram num momento em que o pai estava muito doente e prestes a morrer, seja porque se somaram a uma prole já numerosa, seja por outros fatores contingenciais de cada caso em particular, tais sujeitos têm como denominador comum o fato de terem sido acolhidos “de maneira muito pouco amorosa”.(Ibid., p.48-9)
Ferenczi repertoria toda uma gama de problemas para os quais a explicação orgânica falta: disposição para resfriados, pronunciada queda de temperatura, frigidez, distúrbios da potência etc. E sugere a probabilidade de que “crianças acolhidas com rudeza e sem carinho morrem facilmente e de bom grado. Ou utilizam um dos numerosos meios orgânicos para desaparecer rapidamente ou, se escapam a esse destino, conservarão um certo pessimismo e aversão à vida”.(Ibid., p.49)
Com essa argumentação baseada em observações clínicas, Ferenczi – lido com Lacan – acrescenta um elemento precioso à elaboração freudiana sobre a pulsão de morte: o fato de que o amor e o desejo do Outro são responsáveis pelo desejo de viver e pelo florescimento, na criança, da pulsão de vida. Assim, aparentemente de modo paradoxal, é da pulsão de morte que, por ação do amor e do desejo do Outro, nasce a pulsão de vida. Pois, ao nascer, a criança está muito mais próxima do não-ser do que do ser para o qual ela acaba de advir. Ela está mergulhada na pulsão de morte, da qual, sob a incidência do amor e do desejo de vida proveniente do Outro, nascerão pouco a pouco pulsões de vida. A criança adquire assim, gradativamente, bons motivos para querer viver e sua pulsão de vida cresce e amplia seu domínio de ação. Cabe recordar aqui como Lacan, ressaltando precisamente a dimensão inarredável do desejo do Outro na vida de todo sujeito, resumiu a polêmica sobre a teoria do trauma do nascimento desenvolvida por Otto Rank(Freud discorda, abertamente, da teoria de Otto Rank no último capítulo de “Inibição, sintomas e angústia”: “A fórmula [de Rank] – de que se tornam neuróticas as pessoas nas quais o trauma do nascimento foi tão forte que jamais foram capazes inteiramente de abreagi-lo – é altamente discutível de um ponto de vista teórico. Não sabemos ao certo o que se quer dizer por ab-reação do trauma”, in AE, vol.XX, p.142; ESB, vol.XX, p.175.) ao enunciar: “Não existe outro trauma do nascimento senão o de nascer enquanto desejado. Desejado ou não – dá tudo na mesma, posto que é pelo falasser.”(J. Lacan, “Le malentendu”, Ornicar?, p.13)
A argumentação de Ferenczi parte justamente desse “ou não” de que fala Lacan, isto é, da preponderância da pulsão de morte sobre a pulsão de vida, que só entra em ação posteriormente e em condições favoráveis para sua ocorrência, quais sejam, os cuidados dispensados ao bebê de forma amorosa e desejante:
A criança deve ser levada, por um prodigioso dispêndio de amor, de ternura e de cuidados, a perdoar aos pais por terem-na posto no mundo sem lhe perguntar qual era a sua intenção, pois, em caso contrário, as pulsões de destruição logo entram em ação.(S. Ferenczi, op.cit., p.50)
A proximidade da criança do não-ser, muito maior do que a do adulto, favorece que ela deslize e retorne para ele muito facilmente. A “experiência da vida” afasta o bebê do não-ser do qual ele adveio, desde que se lhe apresentem bons motivos para se apegar a ela. Assim, o bebê adquire uma espécie de “imunização progressiva contra os atentados físicos e psíquicos”.(Idem)
Creio que dificilmente poderíamos encontrar palavras mais eloquentes para retratar o desconforto pela vinda ao mundo, a recepção insatisfatória, a lancinante decepção com a vida e o desejo de morte a eles inerentes do que o poema de Florbela Espanca chamado “Deixai entrar a morte”:(F. Espanca, Poemas, p.300)
Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem para mim, pra me levar.
Abri todas as portas par em par
Como asas a bater em revoada.
Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar 
E que, ao abri-las, não encontrou nada!
Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste 
Dentro de ti?… Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!
Tendo chegado à psicanálise através de Ferenczi, que o encaminhou a Freud para se analisar, René Spitz mostrou igualmente em suas precursoras observações sobre o “hospitalismo”(Spitz precisa que “o termo hospitalismo designa uma condição viciada do corpo devido a um longo confinamento num hospital, ou a condição mórbida da atmosfera de um hospital. O termo foi cada vez mais apropriado para especificar o efeito maléfico dos cuidados institucionais nas crianças, colocadas em instituições numa idade precoce, particularmente do ponto de vista psiquiátrico. Esse estudo concerne especialmente ao efeito dos cuidados institucionais continuados de crianças com menos de um ano de idade, internadas por outras razões que não a doença. O modelo de tais instituições é a casa dos expostos”. R. Spitz, “Hospitalism: An inquiry into the genesis of psychiatric conditions in early childhood”, in The Psychoanalytic Study of the Child, vol.I, p.53) o quanto o tratamento meramente técnico, asséptico, sem calor humano e contato afetivo, pode ser fatal para a vida do recém-nascido. Os frequentes casos de morte súbita em neonatologia, na maioria das vezes inexplicáveis pelo discurso médico, adquirem assim, para nós, um contorno palpável: trata-se de um não acolhimento pelo amor e pelo desejo do Outro.
Spitz investigou o desenvolvimento infantil fazendo um estudo comparativo entre o desenvolvimento de crianças de um excelente orfanato e o de crianças do berçário de uma prisão. Se, por um lado, no orfanato, apesar de organizado e limpo, elas demonstraram um sensível atraso mental e debilidade física acentuada, na prisão, onde mantinham contato (ainda que não permanente) com as mães, além de serem o objeto privilegiado da atenção das outras prisioneiras, seu desenvolvimento era não só sadio como até acelerado. Spitz concluiu que a privação afetiva completa no primeiro ano de vida era a responsável pelo “hospitalismo”, cujo prognóstico é bastante grave; quando a privação era parcial, respondia por estados de depressão. Em seu trabalho, cita como epígrafe uma antiga observação, feita em um diário de 1760 por um bispo espanhol: “En la Casa de Niños Expositos el niño se va poniendo triste y muchos de ellos mueren de tristeza.”(Idem)
Ainda que Spitz, surpreendentemente, não mencione o trabalho de Ferenczi sobre “A criança malacolhida e sua pulsão de morte”, nem a própria teoria freudiana da pulsão de morte, ele fala em destrutividade e pondera que “cuidados institucionais são destrutivos para as crianças durante seu primeiro ano de vida; mas no berçário prisional os fatores destrutivos foram compensados pelo aumento da intensidade da relação mãe-criança”.(Ibid., p.70) Ao formular ainda que a criança na casa dos expostos deve partilhar sua “mãe” com muitas outras crianças, mostrando que o fator quantitativo nesse caso é evidente, Spitz formula uma visão bastante próxima da de Winnicott, que assinalou, em seus estudos sobre a psicose, que a constância dos cuidados maternos no início da vida do bebê é responsável por sua saúde psíquica.
Winnicott resume suas formulações salientando que a mãe “fornece continuidade”(D. Winnicott, “Pediatria e psiquiatria”, in Da pediatria à psicanálise, p.238) e acrescenta que, aos poucos, ela poderá se tornar cada vez menos atenta às necessidades do bebê – isso de acordo com a evolução da criança e sua condição cada vez maior de poder prescindir desse cuidado. Segundo ele,
no curso normal dos acontecimentos, a mãe tenta não permitir que o bebê seja alcançado por complicações maiores que as que se encontram dentro da sua capacidade de tolerar, e trata especialmente de isolá-lo das coincidências e de outros fenômenos que estarão forçosamente fora das suas possibilidades de compreender. De um modo geral, ela tenta manter o mundo do bebê tão simples quanto possível.(D. Winnicott, “A mente e sua relação com o psicossoma”, in op.cit., p.335)
Observando ainda que a criança, no caso das mulheres presas, “se torna um evidente substituto fálico”,(R. Spitz, op.cit., p.53) Spitz nos ajuda a compreender o quanto a fantasia dos progenitores em relação ao bebê pode ser decisiva, na medida em que, investindo narcisicamente o corpo do bebê, protege-o da tendência à autodestruição que parece espreitá-lo desde sempre. É preciso supor que a fantasia amorosa dos pais é, assim, o primeiro escudo protetor em relação à pulsão de morte originária do bebê; ela constitui a primeira forma de erotismo da qual este participa, no caso, na condição de objeto do amor e do desejo do Outro. Posteriormente, será a sua fantasia de sujeito que irá preserválo dos ataques destrutivos da pulsão de morte, mas então ele estará na condição de sujeito do desejo, numa relação com o objeto causa do desejo.
Colette Soler assinala a referência feita por Lacan à síndrome do hospitalismo, ao final de sua “Nota sobre a criança” endereçada a Jenny Aubry, chamando a atenção para o fato de que  
as necessidades vitais podem ser satisfeitas por cuidados relativamente anônimos, mas, na falta desse “interesse particularizado” evocado por Lacan, a criança fica carente do Outro intérprete, bem como do Outro a ser interpretado, através do que ela mesma poderia vir a sê-lo num desejo não anônimo.(C. Soler, O que Lacan dizia das mulheres, p.106)
Pode-se esquematizar a travessia em jogo na constituição do sujeito no que diz respeito à fantasia da seguinte forma, mostrando que o essencial é a passagem do lugar de objeto (do Outro) para o lugar de sujeito (numa relação desejante com o objeto perdido).
Petite mort
Como vimos, se a característica mais básica das pulsões desvendada por Freud desde o início é seu caráter conservador, esse traço é aquele que mostra a continuidade, invisível, entre pulsão de vida e pulsão de morte. A pulsão de morte é responsável pela tendência ao retorno a um estado anterior de quietude absoluta e de ausência das tensões que constituem um sinônimo mesmo da vida. Freud chamou essa tendência de retorno ao inorgânico, e pode-se traduzi-la pela tendência de retorno ao não-ser do qual o ser adveio. A vida tende a retornar à morte, formulou Freud, de forma direta, ao dizer que “o objetivo de toda a vida é a morte”.(S. Freud, “Mais além do princípio de prazer”, in AE, vol.XVIII, p.38; ESB, vol.XVIII, p.56) Mas, no interior da vida já constituída, surge igualmente uma tendência – também conservadora – de manter e preservar a vida, isto é, uma tendência de perseverar no ser.
Doravante, as duas tendências conservadoras conviverão, e a resultante dessas duas forças atuará a cada momento da vida dos sujeitos, produzindo um empuxo maior numa ou noutra direção, da vida ou da morte. O sujeito deseja morrer, mas morrer significa aqui esgotar dentro do interior da vida
todas as suas capacidades de perseveração no ser das quais ela é capaz, para poder, enfim, se entregar à tendência ao retorno ao não-ser. Por isso Freud acrescentou que “o organismo deseja morrer apenas do seu próprio modo”.(Ibid., AE, vol.XVIII, p.39; ESB, vol.XVIII, p.57) A expressão “morte natural” parece implicar a percepção de que há algo na vida que aspira a essa morte que brota dela mesma sem nenhuma outra interferência externa.
Sob a nova ótica introduzida pela pulsão de morte, Freud relativizará enormemente a importância das chamadas pulsões do eu ou de autoconservação. Dirá que elas são “pulsões componentes, cuja função é garantir que o organismo seguirá seu próprio caminho para a morte, e afastar todos os modos possíveis de retornar à existência inorgânica que não sejam os imanentes ao próprio organismo”.(dem.) As pulsões de autoconservação, portanto, apenas preservam a manutenção da genuinidade das vias para a morte traçadas no interior do próprio organismo vivo.
Vê-se quanto a exposição de Ferenczi se coaduna com a ideia de que é da fantasia do Outro parental que provêm os elementos que vão desencadear no sujeito em constituição tendências que serão marcantes para o decorrer de sua vida. A fantasia amorosa do Outro parental e o desejo que ela  sustenta, ao erogeneizar o corpo do bebê e nele investir maciçamente sua libido, produz um  aplacamento da pulsão de morte e traz uma grande porção desta para o âmbito do princípio de prazer.
Complementando seu estudo, Ferenczi menciona ainda os casos, por ele nomeados de “casos de diminuição do prazer de viver”, isto é, crianças que foram tratadas com entusiasmo no início, até mesmo com amor apaixonado, mas que depois foram “postas de lado”.(S. Ferenczi, op.cit., p.50-1.)
Confrontado com a própria finitude e tendo recebido um acolhimento francamente mortífero por parte de seus progenitores, Édipo formula um radical lamento pelo não-ser em sua impressionante e terrível invocação: “… A Morte, epílogo de tudo./ Melhor seria não haver nascido;/ como segunda escolha bom seria/ voltar logo depois de ver a luz/ à mesma região de onde se veio.”(Sófocles, “Édipo em Colono”, in A trilogia tebana, p.167) Para Édipo, filho rejeitado pelo amor e pelo desejo do Outro, destinado a não nascer, não há saída possível. De dentro da vida, ele enuncia o lamento impossível que esteve na base de sua existência: sua primeira escolha é a morte – e a segunda também.(Ver Parte II, Cap.4, “O saber de Édipo”) Voltaremos à tragédia de Édipo adiante.

Fetichismo: sexo + morte
Antes de falar sobre amor e morte, cabe uma palavra sobre a relação entre sexualidade e morte.
Talvez se possa ver no fetichismo uma outra espécie de aliança entre sexo e morte, instaurada por meio da paixão pelo objeto inanimado.(Lacan chama a atenção para o fato de que é no fetiche “que se desvela a dimensão do objeto como causa do desejo”. Cf. J. Lacan, O Seminário, livro 10, A angústia, p.116) Como, por exemplo, no conto de Guy de Maupassant “La chevelure”, no qual um sujeito, colecionador de móveis, compra um móvel italiano raro do século XVII e descobre escondida nele uma cabeleira feminina, de “cabelos louros, quase ruivos”, que passa a obcecá-lo. Ele não cessa de imaginar em que circunstâncias aquela mecha teria sido deixada na gaveta secreta; quem teria sido aquela mulher; quem teria cortado a mecha. Para ele, a mecha era “a única coisa que ele pôde conservar dela, a única parte viva de sua carne que não deve jamais morrer, a única que ele ainda podia amar e acariciar, e beijar em seus acessos de dor”.(M.P. Legemann foi quem nos chamou a atenção para esses contos, em sua dissertação de mestrado A construção do olhar em alguns contos fantásticos de Guy de Maupassant) Em outro conto do mesmo autor, “La tombe”, o personagem desenterra a mulher pela qual era apaixonado para cortar-lhe uma mecha de cabelos e poder conservar assim, para sempre, o seu perfume. E num terceiro conto ainda, “L’apparition”, o fantasma de uma mulher morta aparece pedindo que o homem penteie seus cabelos e ele passa toda a vida se lembrando dessa cena considerada por ele mesmo como impossível.(Cumpre notar a equação inconsciente entre cabelos e castração, que surge no texto freudiano “A cabeça de Medusa”, in AE, vol.XVII; ESB, vol.XVII. O conto “Uma aparição” foi incluído na coletânea, organizada por B. Tavares, Freud e o estranho: Contos fantásticos do inconsciente, p.266) Tudo leva a crer que o fetichismo parece aliar de modo sutil a pulsão de vida à pulsão de morte, introduzindo no campo do gozo fálico, sexual, uma porção do gozo ilimitado da pulsão de morte.
“O amor é a saudade de casa” é um provérbio que Freud cita em “O estranho”, ao se referir à ligação que o objeto sexual mantém, para todo sujeito, com o objeto incestuoso primordial. Tal ligação adquire, no caso do fetichismo, um valor particular onde a sexualidade retira a sua força precisamente do empuxo mortífero da pulsão. O retorno ao inanimado, na metáfora utilizada por Freud para falar do mais além do princípio de prazer e da vocação inerente à pulsão de retornar a umestado anterior de absoluta quietude, se traduz aqui em outra espécie de retorno, o retorno ao objeto primordial.
Nesse sentido, a perversão fetichista seria muitas vezes uma forma intensamente transfigurada de necrofilia, uma paixão sensual pelo objeto enquanto morto, enquanto separado do corpo vivo – sapato, peça íntima, mecha de cabelos etc. O objeto fetiche retiraria, assim, a sua condição préfetichista de sua conexão íntima com a morte, através de uma relação com o inanimado. O fetichismo dos pés e dos cabelos, atribuído por Freud à sua conexão com o odor e a pulsão olfativa, não estaria igualmente relacionado ao fétido, ao pútrido e, assim, indireta e remotamente, à morte?(Freud elaborou a relação entre odor e fetichismo dos pés numa conferência feita nas reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, em 24 de fevereiro de 1909, na qual assinala a existência de uma pulsão olfativa (Riechtrieb). S. Freud, “Sobre a gênese do fetichismo”, in Revista Internacional da História da Psicanálise, n.2, p.371. Desenvolvi alguns elementos relativos à pulsão olfativa em Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan – vol.1: As bases conceituais, p.53) Pode-se ver, ainda, embutida na paixão fetichista, uma forma poderosa de renegação (Verleugnung) da morte, ao vir a afirmar nela algo que desperte a paixão sensual e, logo, algo inerente à vida.
As perversões sádicas e masoquistas revelam, igualmente, uma forte conexão entre as pulsões sexuais e de morte. Nelas, o gozo sexual, gozo fálico, parcial, é arrebatado, com maior ou menor intensidade, pelo gozo mortífero da pulsão de morte. Fica uma pergunta pontual: não estaríamos vendo na cultura contemporânea um desvelamento crescente dessa conexão íntima entre erotismo e morte através das práticas sadomasoquistas que se tornaram bastante frequentes, se não universais?
No fundo, tais práticas ostentam o quanto a pulsão sexual é tributária da pulsão de morte. Lembre-se que a relação entre sexo e morte foi tratada por Jacques Ruffié como a de duas necessidades inerentes à evolução das espécies. Primeiro, a “necessidade de sexo”, que permite um modo de reprodução que mantém sem cessar uma grande variedade nos patrimônios genéticos dos indivíduos: 
cada sujeito é o fruto de uma mistura: a metade de seu patrimônio lhe vem de seu pai, a outra metade de sua mãe. Ele é um misto de seus pais. Consequentemente, ele jamais se parece com eles exatamente; ele não será idêntico a nenhum de seus dois progenitores; ele será outro.(J. Ruffié, Le sexe et la mort, p.18-9.)
E também “necessidade da morte”, que permite à evolução seguir o seu caminho ao “substituir antigas gerações pelas novas”.(Ibid., p.20) A sexualidade e a morte constituem, assim, “os dois polos de um ciclo vital que forma, de gerações em gerações, uma longa cadeia cuja origem se perde na noite dos tempos”.(Ibid., p.22)
Mas não tratarei mais aqui da relação geral entre o sexual e a morte, e sim daquela entre o amor e a morte. Se sexo e amor estão relacionados com a morte, o amor revela, contudo, um embate violento com a morte. Se o sexo admite a morte e mesmo parece se nutrir dela, já que, sem ela, ele não haveria, como afirma Lacan no Seminário 11,(“Pois a presença do sexo está ligada à morte.” J. Lacan, O Seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p.168) o amor quer aboli-la, vencê-la e, no fundo, mostrar-se mais forte que ela.
 

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