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AMOR E LIBERDADE: ISTO EXISTE?

por Thynus, em 27.07.14
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir têm sido considerados ícones de um relacionamento perfeito. Embora “casados”, moraram em casas diferentes e se amaram até o fim.
No livro biográfico de Hazel Rowley a realidade era bem outra. É verdade que Simone de Beauvoir e Sartre relacionaram-se intensamente até o fim da vida dele, que faleceu aos 76 anos, seis anos antes dela. Contudo, Sartre nunca fora fiel a ela, nem ao amor que ela nutria por ele, e no fim da vida tinha um rosário de nove mulheres, um caso com outra de 24 anos, fora seu relacionamento conturbado e “fiel” a seu modo com Beauvoir.
Ao se conhecerem, ela com 21 anos, os dois se apaixonaram pela inteligência literária e filosófica um do outro. Fizeram um pacto de que nunca casariam, nem teriam filhos e que seriam fieis um ao outro para sempre. Iniciaram um conceito de “amor essencial”( que seria o amor entre eles dois), e “amor contingente”( todos os outros que eles teriam fora seu próprio relacionamento a dois). Isto é: todo caso de paixão ou sexual que tivessem fora de seu relacionamento seria “contingente”, mas somente o deles seria “essencial” e eles não permitiriam que ninguém atrapalhasse o seu relacionamento. Outro pacto foi de que falariam tudo que acontecesse entre eles e os outros parceiros e parceiras um para o outro. Seriam sinceros e transparentes um com o outro, custasse o que custasse.
Sartre, feio, baixinho, com uma baixa autoestima, desenvolveu o hábito de seduzir através das palavras. Seu relacionamento sexual com Beauvoir duraria somente seis a nos, a partir daí, amava-a através das palavras, e o que tinham em comum era uma profunda amizade e dedicação um ao outro. Simone de Beauvoir também teve inúmeros casos, mas para ela, Sartre era o que ela realmente queria.
O desejo de ser diferente e de ser uma mulher livre na época em que viveu, veja bem que falamos aqui das décadas de 40 e 50, quando o papel social que se esperava de uma mulher era casar bem ( leia-se, com um homem capaz de lhe sustentar financeiramente) e ter filhos. A cada ano Sartre envolvia-se com maior número de mulheres, enquanto Beauvoir tentava manter a sensação de que ela ainda era sua predileta e principal, causando inúmeras vezes problemas para Sartre por ciúmes das mulheres “contingentes”.
O único que ela realmente amara e se apaixonara a ponto de querer se casar e dedicar a ele fora um escritor americano Nelson Algren, que no futuro tornar-se-ia um ferrenho crítico da autobiografia dela ao se ver exposto nela. Para ele, o que acontecia entre os dois nunca deveria ter sido revelado em público. Levaria para sempre esta mágoa da exposição pública do seu relacionamento com Beauvoir.. Ele faleceu aos 72 anos de  enfarto cardíaco. No momento final de decidir entre os Estados Unidos com Algren e magoar Sartre, Simone preferiu voltar para Paris, embora Sartre, por sua vez, estivesse sofrendo por ter acabado um de seus relacionamentos, necessitando de sua “castorzinha”(maneira como a chamava na intimidade) para consolá-lo.
Algumas conclusões pessoais pode-se tirar deste tipo de relacionamento:
Amor essencial” e amor contingente “são conceitos ilusórios. Onde há relacionamento entre duas pessoas, sempre se corre o risco de se envolver mais que contingencialmente. No coração não se manda. A paixão pode acontecer a qualquer momento.
Nas palavras de Simone de Beauvoir: “Julguei que seria resolvido com muita facilidade: é possível conciliar fidelidade e liberdade? E se for, a que preço? (…) Se os dois aliados permitem-se apenas ligações sexuais passageiras, não há dificuldade, mas isso também significa que a liberdade que se permitem não merece o nome que tem. Sartre e eu fomos ambiciosos; foi nosso desejo experimentar amores contingentes. Mas, há uma pergunta que evitamos deliberadamente: como a terceira pessoa se sentiria em relação ao acerto?”( p.352)
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre várias vezes quiseram romper seu trato. Por duas ou três vezes ele quis propor casamento a outras mulheres, e ela quis casar com o próprio Sartre, somente não teve a coragem de lhe declarar isso. Certa vez ela se perguntou ”será que não teria sido melhor nós dois termos nos casado e termos tido filhos?” Ela também quis casar com Algren, mas seu pacto com Sartre falou mais alto. Os dois realmente mantinham um vínculo muito forte, mas o amor ao conceito de liberdade que eles mesmo se auto-infligiram os prendeu e os impediu de viverem intensamente o amor pleno. Sempre levavam uma vida dividida- quero isso, mas tenho aquilo.
Simone afirma:
“Eu estava querendo iludir quando dizia que éramos uma pessoa só. Entre dois indivíduos, a harmonia nunca é dado: precisa ser conquistada constantemente. “(p.407).
Simone de Beauvoir e Sartre eram o casal protótipo do que o sociólogo Zygmunt Baumman disserta sobre a pós-modernidade. A liberdade individual reinando soberana, o reclamo demasiadamente humano do prazer, de sempre mais prazer e sempre mais aprazível prazer – um reclamo outrora desacreditado como base e condenado como autodestrutivo. “ (p.11)
Segundo Baumman, quando se ganha alguma coisa, em troca perde-se outra coisa. Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre prezavam sua liberdade, mas perderam a segurança de um amor pleno, com suas renúncias, mas com seus ganhos, com alguns dias de monotonia, mas com bom sono, ao saber que quando despertassem teriam um ao lado do outro, em todas as circunstâncias. Mas, segundo Baumman, os homens e as mulheres pós-modernos trocaram um quinhão de duas possibilidades de segurança, por um quinhão de felicidade. Pergunto-me eu: que felicidade?
A certa altura da vida, Beauvoir constata o fato de que dois podem fazer um pacto de terem outras pessoas e até funcionar para eles, mas e para o outro envolvido nesse relacionamento? Certa vez ela questiona Sartre se não estariam brincando com os sentimentos das outras pessoas, embora todas elas fossem adultas.
Um cuidado que se deve tomar ao lidar com qualquer ser humano, é entender que nem todos têm a mesma estrutura mental ou emocional.
Outra conclusão importante: Liberdade a dois existe? Simone e Beauvoir se pergunta: queríamos a liberdade, mas a que preço?
Por mais que queiramos que homem e mulher sejam iguais, precisamos entender que emocionalmente, principalmente no que concerne o amor a mulher é diferente: homem faz sexo, mulher faz amor, homem mente e mulher chora. Até rendeu títulos de livros. O que isso significa?
Para Sartre não importava ter duas, três, nove mulheres. Ele conseguia se dar a cada uma sem o menor constrangimento e sem se sentir dividido, a não ser duas ou três vezes em que o seu ser amado morava longe, tais como a russa, a americana e a japonesa. É fácil amar apaixonadamente de longe, quando se utilizam mais as palavras do que as atitudes ou as ações. Afinal de contas, se nada funcionasse, a Castor estaria lá, como um cão fiel para lhe fazer companhia, ler seus escritos antes de serem publicados. Sem dúvida, eram parceiros de trabalho e de trapalhadas amorosas.
Porém, para Beauvoir, não funcionava do mesmo jeito. Ela sofria quando ele se dedicava muito a outra mulher. Ela sofria quando ele viajava e ficava muito tempo sem lhe dar notícias. Ela sofria toda vez que se via ameaçada de perde-lo para outra mulher. Contudo, sua opção de ser uma mulher independente e racional a impedira de demonstrar ciúme, reclamar ou mesmo lhe propor ficar somente com ela. Seu medo de perdê-lo levou-a a gestos extremos, como o de acobertar casos dele com mulheres casadas, viajando com os dois, pois para a sociedade Sartre estava com Mademoiselle Beauvoir, a sua eterna amante.
Ela se vinculara a ele de tal maneira que não concebia a ideia de vê-lo morrer antes dela: “É terrível não estar presente para consolar uma pessoa pela dor que você lhe causou ao deixá-la . É terrível ela nos deixar e depois não tornar a falar mais conosco. “(p.323).
No fim da vida, já cansada, enfrentando um vazio existencial ela confessa que olhando para trás vira como fora enganada em suas promessas, embora tenha-as vivido. Um relacionamento essencial com liberdade. Que preço os dois pagaram por isso?
Sartre teria sido realmente amado pelas inúmeras mulheres com quem se relacionara? Simone de Beauvoir, aquela a quem ele realmente não se dedicara como prometera, parece ter sido a única mulher que realmente o amou. Entrevistado por um jornalista que lhe questionou como fazia para conviver com tantas mulheres ao mesmo tempo, replicou que lhes mentia, principalmente para Beauvoir.
Amor e liberdade são excludentes. Quando se ama se quer exclusividade. Quando se ama se sente ciúme, porque se teme a iminência da perda. Nenhum amor é tão seguro e certo que não venha a ser abalado e ameaçado.
O amor precisa ser nutrido. Segundo Beauvoir, é senso comum que para o homem o hábito mata o desejo, tentando explicar interiormente porque Sartre não a desejava mais.
Contudo, o amor vai além do desejo sexual, implica em memórias de momentos agradáveis que os dois passam ou passaram juntos, implica em laços interiores construídos ao longo da parceria. Gostos em comum, gargalhadas que conseguem dar juntos, pensamentos parecidos, ideais em comum.
Precisamos nos conscientizar de que quando nos relacionamos sempre aparecerão mulheres mais novas, mais bonitas, mais inteligentes que você. Sempre aparecerão homens mais vigorosos, mais fortes, mais bonitos, mais sedutores e inteligentes que você. O essencial é invisível para os olhos, já dizia Saint – Exupéry . O exterior não conta com o passar do tempo, porque os novos também envelhecerão um dia. O laço de amizade, amor, vínculo positivo que se construiu durante o relacionamento é o que contará naquele seu último suspiro de vida.
Quando Sartre faleceu, havia adotado uma moça bem mais nova para deixar sua herança. Beauvoir deitou-se por duas horas ao lado de seu corpo morto, enquanto Alkemi, a jovem adotada corria para seu apartamento para esvaziá-lo e levar todos os seus escritos, quadros caros (havia dois originais de Picasso), não autorizando muitos biógrafos a publicar certos artigos que seriam de grande interesse literário. Enquanto Beauvoir prezava mais um pouco da companhia do homem que amara intensamente, a outra mulher preocupava-se com o material.
Simone de Beauvoir esteve ao lado de Sartre no seu último suspiro. Cuidou dele na sua enfermidade, sofreu com sua morte. Poderiam ter vivido intensamente um ao lado do outro, mas seus conceitos, sua vontade de viver diferente, os aprisionou!
Quem ama tem sua liberdade individual reduzida, por outro lado, quem não ama plenamente, não vive plenamente.
Quanto a mim, prefiro viver plenamente! E você?

( SILVIA GERUZA RODRIGUES )

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publicado às 18:52



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