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As Diretrizes Alimentares Americanas de 2015, apesar de serem renovadas a cada 5 anos, ainda não acompanham os avanços das recomendações nutricionais comprovadas pelos estudos científicos.

Adormeci com as mesmas roupas que usei o dia inteiro. Por vezes, após um turno particularmente longo no hospital, isso simplesmente acontece. Conseguir chegar em casa, subir as escadas e cair na cama são atos que consomem cada porçãozinha de energia que me restava, e vestir o pijama soa como um luxo ao qual simplesmente não posso me dar.

Era pouco mais de meia-noite quando capotei sobre as cobertas. Eu poderia jurar que não haviam se passado mais do que alguns minutos quando meu pager começou a apitar sobre a mesinha de cabeceira.

Com o rosto ainda enterrado no travesseiro, estendi a mão para alcançar a maldita caixinha preta. Não conseguindo encontrá-la de imediato, levantei o pescoço e abri os olhos com relutância. Os números azuis que brilhavam em meu despertador passaram das 3:36 para as 3:37 da madrugada.

Três horas e meia, pensei comigo mesmo, já tentando calcular quantas horas a mais de vigília eu teria conseguido assegurar com esse depósito de meio período noturno de sono. Não é tão mau assim.

Não são necessários muitos chamados no pager de madrugada para que você comece a reconhecer os números: 175075 é o do setor de emergência; 177368 é da ala de internação. E 0000 significa que é uma chamada externa, à espera, aguardando para falar com você.

O desafio em chamadas desse tipo reside no fato de que você nunca sabe o que esperar. Algumas vezes são pacientes aflitos, que já sabem que seu filho ou filha sofre de uma doença genética rara, mas não têm certeza se uma nova série de sintomas que estão presenciando significa algo com que devam se preocupar. Em outras situações, trata-se de um médico de outro hospital que acaba de atender um paciente e está encontrando dificuldades para decidir como tratá-lo, e liga em busca de aconselhamento. Em alguns casos, a chamada é aquela que nenhum médico quer receber: um paciente que teve uma piora.

Peguei meu telefone e tentei me levantar da cama sem acordar minha mulher, que dormia suavemente ao meu lado. Caminhando nas pontas dos pés para fora do quarto, fechei a porta delicadamente, dando uma última espiada pela fresta conforme eu saía. Nenhum resmungo. Nenhuma agitação manifestando incômodo. Ela continuava apagada.

Sucesso! Sou um ninja noturno.

Pressionei o botão de repetir a última chamada no pager. O temido 0000 me encarava como dois minúsculos pares de olhos de coruja. Os números azuis brilhantes se acenderam no corredor escuro. Disquei o número e aguardei.

“Localizando hospital…”

“Aqui é o dr. Moalem. Estou ligando para…”

“Obrigado por retornar a ligação. Conectando…”

Houve um bip suave, e em seguida uma torrente de palavras.

“Dr. Moalem? Eu sinto muito, sei que é muito tarde… ou seria cedo? Seja como for, sinto muito por incomodá-lo. É apenas que… Minha filha Cindy. Ela teve uma febre poucas horas atrás, e eu estou preocupada porque ela se alimentou muito bem hoje.”

Para algumas pessoas, isso poderia soar como uma mãe excessivamente ansiosa. Mas eu sabia que o hospital não a teria colocado em contato comigo se o caso não fosse mais grave que isso.

Ela fez uma breve pausa. Em vez de interromper, eu deixei que o silêncio se manifestasse na linha.

“Ah, eu deveria ter mencionado”, disse a mulher. “Minha filha tem deficiência da OTC.”

Lá estava. Na deficiência de ornitina transcarbamilase, ou OTC, uma condição genética rara que afeta aproximadamente oitenta mil pessoas, o corpo luta para encontrar um caminho no processo de transformar amônia[*] em ureia, que, em circunstâncias normais, seria expelida rapidamente do corpo quando urinamos.

Esse processo, conhecido como ciclo da ureia, se dá principalmente no fígado e, em escala menor, nos rins. Ele é um barômetro quebra-galho para nossa saúde metabólica geral. Quando está funcionando bem, significa que estamos fazendo aquilo que é necessário para metabolizar proteínas. Quando não está funcionando corretamente, nosso corpo fica sobrecarregado de amônia – o que é exatamente tão terrível quanto parece.

E, assim como uma fábrica bombeando para fora nosso lixo tóxico, quanto maior a demanda metabólica, maior o nível de amônia residual produzido. E normalmente é isso que acontece quando temos uma febre. Aproximadamente a cada um grau Celsius extra na temperatura, nosso corpo queima cerca de 20% a mais de calorias que o normal. A maioria das pessoas é capaz de lidar com essa demanda extra por um tempo. Na verdade, para a maioria das pessoas, uma pequena febre faz algum bem, elevando a temperatura apenas o suficiente para dificultar a vida de alguns micróbios causadores de doenças, tornando mais lento o desenvolvimento destes e dando ao corpo uma chance de contra-atacar.

No caso de pessoas como Cindy, no entanto, cujo sistema de equilíbrio é no mínimo mais precário, basta uma febrezinha à toa para que tudo vá mal, e de maneira muito rápida. O sistema nervoso é, afinal de contas, um tanto sensível a elevações no nível de amônia e à queda do nível de glicose, a qual utilizamos como fonte de energia. E, caso não seja devidamente equilibrada, essa situação metabólica pode causar convulsões e falência de órgãos, o que, por sua vez, pode levar ao coma.

Em outras palavras, a mãe de Cindy tinha bons motivos para estar preocupada com a filha. E eu tinha bons motivos para ter levantado de minha cama de madrugada.

Peguei meu laptop e digitei a senha que me permite acesso remoto ao sistema do hospital. Dado o histórico prévio de Cindy – nos últimos anos ela havia sido hospitalizada inúmeras vezes –, estava claro que ela precisava ser encaminhada ao setor de emergência.

Por sorte, sua família morava nas proximidades.

Eu também moro perto. Médicos que fazem plantão e optam por residir a mais de cinco minutos de distância do hospital com frequência se arrependem dessa decisão. Juntei algumas coisas em uma mochila e me considerei com sorte por não ter que voltar ao meu quarto para trocar de roupa, pois na verdade não sou nenhum ninja. Quando está escuro sou um tanto desajeitado e barulhento. Pelo menos assim minha esposa poderia se manter aquecida e confortável, sem ser incomodada àquela hora da madrugada.

Peguei uma banana na bancada da cozinha e fechei a porta de casa. Ainda não eram quatro horas da manhã, mas eu já me encontrava totalmente desperto.

* * *

Enquanto eu dirigia para o hospital e mordia a banana, divagava a respeito do quanto eu era privilegiado por não ter que me importar muito com o que comia. Como a maioria das pessoas, procuro consumir pouco açúcar e pouca gordura. Em raras ocasiões, quando estou me sentindo gastronomicamente corajoso e matematicamente capaz, procuro combinar café da manhã, almoço e jantar que me ajudem a atingir os 100% das 21 vitaminas e minerais recomendados pelo Food and Nutrition Board [Conselho de Alimentação e Nutrição]. Tente fazer isso algum dia. É muito mais difícil do que parece.

A verdade, no entanto, é que uma dieta fundamentada unicamente em tais recomendações raramente é perfeita para a maioria das pessoas. De fato, é extremamente improvável (para você ter uma ideia, seria mais fácil ganhar na loteria) que as recomendações de porções e os percentuais que você costuma avaliar nas embalagens de comida industrializada nem sequer cheguem perto de se adequar com exatidão às suas necessidades individuais. Isso acontece porque esses números têm como base uma estimativa média da ingestão necessária de calorias, vitaminas e minerais essenciais para uma maioria de pessoas saudáveis nos Estados Unidos com mais de 4 anos de idade. E para o Food and Nutrition Board, “maioria” significa 50% mais uma pessoa, o que exclui uma minoria imensa para a qual as diretrizes simplesmente não se aplicam.

A realidade, obviamente, é que as necessidades de cada um de nós são um tanto distintas. A maioria dos meninos de 4 anos (para os quais 275 gramas de vitamina A por dia em geral serão suficientes) são muito diferentes da maioria das mulheres grávidas de 32 (que geralmente precisam de pelo menos três vezes mais vitamina A). Até mesmo duas pessoas de mesmo sexo, idade, origem étnica, altura, peso e estado geral de saúde provavelmente terão necessidades distintas no que se refere à ingestão de cálcio, ferro, ácido fólico e uma série de outros nutrientes. O estudo do impacto da herança genética em nossas necessidades dietéticas é chamado de nutrigenômica.

No capítulo 1 você conheceu Jeff, o chef que sofre de intolerância hereditária à frutose (HFI). Trata-se de uma doença relativamente rara, mas até certo ponto todos nós poderíamos nos beneficiar por conhecer os genes que compõem nossos genomas. E, para os milhões de pessoas que têm exigências nutricionais específicas causadas por seus genes, é bastante comum sentir-se como se a comida não fosse sua amiga. É por isso que existem inúmeras pessoas pelo mundo afora com condições similares que olham para os cardápios de restaurantes como se fossem campos minados e para as listas de compra de verduras como se atravessassem fogo cruzado.

Agora, talvez você se lembre que a HFI exige de pessoas como Jeff que criem cardápios pessoais livres de frutas e verduras (e também de frutose, sacarose e sorbitol, os quais com frequência são adicionados a alimentos processados). A deficiência de OTC de Cindy constitui um tipo de contraponto dietético a isso. Em muitos casos as pessoas que são moderadamente afetadas pela OTC não chegam a ser diagnosticadas para essa condição. Elas provavelmente dirão que apenas não se sentem bem quando comem carne, e dessa maneira evitarão refeições altamente proteicas durante toda a vida. Geneticamente falando, elas se sairão muito melhor como vegetarianas ou veganas, porque pode ser mais fácil para elas administrar uma ingestão de baixa quantidade de proteínas.

Não muito diferentes de nossas convicções políticas, que podem percorrer uma escala que vai do anarquismo ao totalitarismo, mas em geral cai em algum ponto intermediário entre os dois extremos, o escopo de nossas dietas é amplo e diversificado. Assim como a maioria de nós é capaz de tolerar muitas ideias políticas mesmo discordando ligeiramente de algumas, nossos corpos costumam digerir bem a maioria dos tipos de alimentos. E da mesma maneira como há algumas ideias que você considera simplesmente abomináveis – como a rejeição ao sufrágio universal, por exemplo –, alguns alimentos podem ser simplesmente incompatíveis com sua constituição genética.

Muitos de nós nunca despendemos um bom tempo refletindo sobre o funcionamento interno de nossas concepções políticas, muito menos sobre por que adotamos tais concepções. Da mesma forma, existe uma boa probabilidade de que haja alimentos dos quais seu corpo simplesmente não goste. E também é grande a probabilidade de que você não saiba o porquê.

No entanto, isso está começando a mudar. Nos últimos anos, pessoas preocupadas quanto à possibilidade de que seus problemas de saúde tenham relação direta com os alimentos que ingerem vêm encontrando uma ajuda inicial em dietas de eliminação, nas quais reduzem a ingestão a um pequeno número de itens e, a partir dali, vão voltando a uma maior gama de alimentos lentamente. O equivalente educacional disso poderia ser um curso de introdução à filosofia política que expusesse os alunos à avaliação e história de uma ampla gama de ideias sociais e governamentais.

Só há um problema nisso: a solução não é tão simples assim.

* * *

A essa altura, muitos de nós simplesmente já nos resignamos a nos alimentarmos da maneira como os médicos nos ensinaram há tempos: coma uma grande quantidade disso e nada daquilo; coma isso de vez em quando e aquilo raramente. E para a maioria das pessoas esses conselhos constituem no mínimo um bom ponto de partida.

Assim como nossas políticas são com frequência um reflexo de nossa herança regional e cultural, também nossas dietas são um reflexo de nossa herança genética.[*]

Para a maioria das pessoas de ascendência asiática, por exemplo, o leite e os laticínios não são apenas alimentos intragáveis; podem também ser muito difíceis de digerir. Se os seus ancestrais criavam animais para obter leite,[*] há uma grande probabilidade de que os genes deles tenham sustentado mutações que hoje tornam os seus genes excelentes fabricantes de enzimas necessárias à quebra da lactose, um dos açúcares encontrados naturalmente no leite, ao longo de sua vida adulta. Entretanto, na maioria das demais partes do mundo, onde o cultivo de gado não era tão comum historicamente, a intolerância à lactose na vida adulta é muito mais predominante.

Apesar disso, a China experimentou um aumento substancial no consumo de laticínios na última década. Não é de surpreender, contudo, que os chineses manifestem preferência por tipos de queijos mais duros, ou por variedades locais como o rubing, um delicioso queijo feito de leite de cabra da Província de Yunnan, semelhante ao mediterrâneo halloumi. O motivo para isso é que, diferentemente dos queijos mais moles, como a ricota, os mais duros geralmente contêm menos lactose.[1]

De certa forma, a atitude de se alimentar como seus ancestrais o faziam tem uma relação direta com o fato de que hoje em dia os históricos médicos das famílias de pacientes são considerados ferramentas úteis para a avaliação de riscos. Se você provém de uma herança etnicamente distinta e lança mão dessa abordagem para avaliar suas necessidades dietéticas, pode acabar chegando a combinações muito interessantes de aspectos genéticos e culinários. Isso pode, em alguns casos, levar a confusão e frustração, especialmente em função dos caldeirões de misturas étnicas e genéticas que originaram tantos de nós. Por exemplo, indivíduos hispânicos são uma miríade de tecidos genéticos. Se você for hispânico, seu grau de tolerância à lactose depende de qual parte da colcha de retalhos genética de seus ancestrais você herdou.

Mais uma vez, independentemente de provirmos de uma única origem cultural e étnica ou de 16 delas, hoje quase todos nós possuímos paladares um tanto globalizados, fato que tem o potencial de suplantar nossas reais necessidades nutricionais. No mundo desenvolvido, até mesmo a menor das quitandas na mais pacata das cidades oferece uma seleção de carnes, frutas e grãos à qual nossos ancestrais não tão distantes, nem mesmo se pertencessem à realeza, poderiam sequer sonhar em ter acesso.

Seguir meu próprio conselho e procurar por uma orientação dietética baseada em meus ancestrais recentes significa consumir apaixonadamente uma tigela de nhoque de semolina recheado com nozes e tâmaras, sabendo que tudo isso será digerido com facilidade. Obviamente, sua própria investigação gustativa pode ser um tanto diferente. E se você não tiver tentado modificar recentemente aquilo que come, esse pode ser um ótimo momento para pegar um prato e se sentar à mesa de seus ancestrais. Em decorrência, porém, de nosso estilo de vida comparativamente mais sedentário, teremos que utilizar um prato bem menor para compensar.

Até mesmo se optarmos por persistir na investigação dietética, teremos que nos contentar com o fato de que mudar hábitos alimentares dá um bocado de trabalho. Para te auxiliar nessa jornada, é útil saber que alguns estudos levaram à descoberta de que quando combinamos educação teórica com sessões práticas do tipo “cozinhe e coma” (não apenas ensinando o homem a pescar, mas também mostrando que cozinhar o peixe pode ser uma experiência saborosa e saudável), aumentamos a chance de alcançar uma integração bem-sucedida.[2]

E, obviamente, existe outro fator motivador, o mesmo que inspirou o ex-presidente Bill Clinton a modificar sua dieta alguns anos atrás: o onipresente desejo de viver uma vida longa, plena e saudável.

Depois de uma vida inteira comendo tudo o que lhe apetecesse, Clinton se viu obrigado a passar por duas cirurgias. Como resultado, começou a levar seriamente em consideração seu histórico familiar de doenças cardíacas e, em 2010, decidiu fazer algumas sérias alterações em sua vida, incluindo uma dieta praticamente vegana.[3] Às vezes nós simplesmente nos vemos pressionados pelas circunstâncias a fazer uma mudança radical e, assim como Clinton, mudar completamente nosso estilo de vida nutricional. Mesmo que você esteja suficientemente motivado, o acesso e a disponibilidade financeira para a aquisição de alimentos nutritivos e saudáveis podem se tornar grandes obstáculos, mas vale a pena se esforçar para superá-los.

Certo, o que aprendemos até aqui? Encontre bons alimentos, coma o tipo de alimento – mas não a mesma quantidade – que ingeriam seus ancestrais recentes, seja fisicamente ativo e em seguida preste atenção ao seu corpo em busca de pistas que lhe indiquem estar seguindo o caminho certo.

Ah, se a vida fosse assim tão simples… Longe de ser uma solução utópica, alimentar-se estritamente como faziam seus ancestrais não irá funcionar para todas as pessoas. Afinal de contas, somos geneticamente únicos. Na verdade, conforme vimos nos casos de Jeff, o chef, e Cindy, que tinha deficiência de ornitina transcarbamilase, não levar em conta com seriedade aquilo que nós herdamos individualmente pode se revelar um equívoco com consequências até mesmo fatais. Cada um de nós deveria se alimentar da maneira que mais se aproximasse de sua herança genética particular.

Como estamos prestes a descobrir, isso está muito longe de ser um problema moderno – algo que nossos ancestrais navegantes não teriam nenhuma dificuldade para reconhecer.

* * *

Como parte do folclore nutricional, temos a história de como os marinheiros britânicos sofriam horrivelmente com sangramentos na gengiva e contusões, uma condição conhecida como escorbuto, decorrente da ausência de frutas e vegetais frescos a bordo dos navios. Muito antes de a humanidade ter inventado a refrigeração elétrica, o melhor que os marinheiros podiam esperar era uma combinação de carnes secas e curadas e um pouco de pão duro. Para homens presos ao mar por meses seguidos, isso resultava em algumas deficiências nutricionais um tanto graves – e, curiosamente, nem todos os marinheiros eram afetados da mesma forma.

Hoje em dia, sabemos que as frutas cítricas são ricas em vitamina C, o que para a maioria das pessoas é bom para prevenir os tipos de deficiências que alguns desses marinheiros enfrentavam. Naqueles tempos, porém, eles sabiam apenas que limões podiam ajudar a manter seus dentes na boca e proteger contra os demais sintomas do escorbuto.

Um fato interessante é que nesses navios os ratos não sofriam do mesmo problema. Tampouco os gatos que com frequência eram levados a bordo para combater os roedores. Então, por que os ratos e os gatos também não estavam perdendo os dentes?

Dos orictéropos às zebras, a maioria de nossos primos mamíferos tem cópias de genes capazes de fabricar vitamina C naturalmente no organismo. Entretanto, os humanos (assim como os porquinhos-da-índia, imagine você) possuem um erro genético em seu metabolismo, uma mutação que nos torna incapazes de fazer o mesmo. Isso faz com que sejamos completamente dependentes de nossas dietas para obtermos nosso suprimento diário de vitamina C.

Alguns pequenos grupos de navegadores parecem ter descoberto a magia das frutas cítricas há muitos séculos, mas foi apenas no fim do século XVIII que o almirantado britânico, encorajado por um médico escocês chamado Gilbert Blane, começou a fazer com que seus marinheiros bebessem suco de limão para combater o escorbuto. E nas viagens de retorno dos territórios caribenhos do império, onde eram abundantes, os navios voltavam carregados, e foi por isso que os marinheiros passaram a ser conhecidos como limeys.[4]

Com base nessa descoberta, era simplesmente natural que se procurasse determinar a quantidade mínima de limões, limas, laranjas e similares de que necessitamos diariamente para nos mantermos saudáveis (afinal de contas, os britânicos, famosos por seu apego à burocracia, precisavam saber exatamente quantas frutas cítricas empacotar para uma longa viagem pelo mar). Essa é a base da ciência nutricional moderna, a qual, até o presente momento, se fundamenta na ideia de que podemos estabelecer de forma matemática nosso caminho para uma dieta saudável. Daí a noção de uma “referência de ingestão diária” (também conhecida como “ingestão diária recomendada”), que é utilizada para determinar – em níveis que chegam ao grama, miligrama e até micrograma – os valores diários de alimentos de que todos supostamente precisamos para ter vidas saudáveis e ativas. Muitos desses valores são derivados do que é necessário para que uma pessoa comum precisa superar uma deficiência sintomática, e não do que é ideal para nós como indivíduos absolutamente únicos.

É por isso que nem todos nós precisamos da mesma quantidade de vitamina C. Conforme nos movemos na direção do que é individualmente ideal, não temos outra opção além de olharmos para nossos genes. Em um estudo que se concentrou nos genes que auxiliam na absorção da vitamina C no nosso corpo, pesquisadores descobriram que variações em um gene transportador denominado SLC23A1 afetavam o nível de vitamina C de maneira completamente independente de nossa dieta.[5] Assim, mesmo com uma ingestão alta de vitamina C, algumas pessoas, ao que parece, terão sempre níveis mais baixos desta, não importando quantas frutas cítricas comam. Descobrir qual é a versão desse gene transportador que herdamos pode ter um grande impacto em nossa compreensão da quantidade de vitamina C que o nosso corpo consegue absorver.

No entanto, um aconselhamento dietético direto não é tudo de que precisamos. Estamos descobrindo que algumas das diferenças em nossa herança genética – por exemplo, versões de um outro gene envolvido no metabolismo da vitamina C, o SLC23A2 – têm sido associadas a um risco quase três vezes maior de partos prematuros.[6] Tem sido sugerido que isso pode estar relacionado ao papel da vitamina C na produção de colágeno, que ajuda a proporcionar a força tênsil de que uma mãe necessita para manter seu bebê dentro do corpo,[7] o que enfatiza, mais uma vez, a importância de levarmos a sério nossa herança genética no que se refere à nutrição.

Desse modo, visto que os conselhos nutricionais genéricos podem ser equivocados quando se observa cada indivíduo, você pode estar se perguntando – e com razão – qual é a quantidade certa de frutas cítricas. E qual é a dieta correta para você? E que alimentos você deveria evitar? As respostas a essas perguntas serão diferentes para cada pessoa, não apenas devido aos genes que você herdou, mas também – o que é ainda mais importante – porque aquilo que você come pode alterar por completo a maneira como seus genes se comportam.

* * *

Na atualidade, dezenas de milhões de norte-americanos irão tentar modificar suas dietas, a cada ano.

E a maioria dessas pessoas irá fracassar.

Em parte, isso se dará porque, sem que saibam qual dieta é geneticamente correta para elas, algumas dessas pessoas estão basicamente dando tiros no escuro, e muitas estão tomando atitudes que são contraproducentes para seus objetivos.[8]

Entretanto, até mesmo para a maioria, para aqueles que os conselhos de seguir uma dieta saudável e praticar exercícios vigorosos são o melhor remédio, há um problema adicional: fazer dieta é uma tarefa árdua.

Durante a maior parte da história humana os alimentos não eram, de forma alguma, abundantes. Para mitigar essa escassez, somado às raras ocasiões em que havia alimentos em abundância, todos nós herdamos genes que nos inclinam a comer mais do que temos necessidade. E no passado, caso acontecesse de haver quaisquer excedentes calóricos em decorrência dessas raras refeições fartas, nossos corpos armazenariam ansiosamente esse excedente na forma de gordura corporal. Como se fosse uma conta poupança calórica, estocar o que não havíamos usado era algo que se mostrava extremamente útil quando a escassez retornava. E, durante a maior parte da história humana, nós conhecemos mais escassez do que fartura.

Hoje nos defrontamos com um problema complexo, uma discrepância evidente entre aquilo que herdamos e o ambiente no qual nos encontramos. Em primeiro lugar, dadas nossas vidas sedentárias, não temos nem de longe necessidade da mesma quantidade de calorias de que precisávamos no passado para sobreviver. Delegamos às máquinas a maior parte do nosso trabalho e a tarefa de nos transportar de um lugar a outro. Em segundo lugar, junte isso à abundância de calorias baratas disponíveis, e fica fácil entender por que as taxas de obesidade estão subindo hoje como nunca antes na história humana. Não é apenas a quantidade de comida que estamos consumindo. Conforme veremos adiante, nossas escolhas alimentares estão longe de serem melhoradas para nossa herança genética.

Graças à ciência conhecida como nutrigenômica, estamos começando a ter uma noção mais clara do que é preciso deixar de fora do menu contemporâneo. Por exemplo, você não precisará mais esperar ficar inchado, escrever um diário com anotações de tudo que comeu e ter diarreia para descobrir se tem ou não intolerância à lactose. O exame genético capaz de lhe dar essa informação já se encontra disponível comercialmente. E se você for do tipo que sempre se antecipa quanto às novas tecnologias, já deve ter pesquisado o que mais existe além de um único exame genético – por exemplo, para intolerância à lactose – e decidido ir adiante e mapeado seu exoma ou até mesmo toda a sequência do seu genoma.

Esses dados podem ser utilizados para a orientação nutricional de base genética do século XXI. Você pode usar esse tipo de informação para decidir se seu próximo cappuccino deveria ser descafeinado. Tal decisão pode ser tomada com base na descoberta de qual versão do gene CYP1A2 você herdou. Versões diferentes desse gene podem determinar a sua capacidade de quebra da cafeína. Você pode ser um metabolizador veloz ou lento de uma das mais antigas drogas estimulantes do mundo.

Possuir uma versão diferente do gene CYP1A2 e consumir café comum, contendo cafeína, pode ter efeitos muito mais abrangentes do que o de meramente manter você acordado à noite. Mais uma vez, dependendo da versão do CYP1A2 que tiver herdado, você poderá ter propensão a um aumento súbito, não saudável, na pressão sanguínea. Acredita-se que isso aconteça caso você tenha herdado uma cópia do gene CYP1A2 que quebra a cafeína lentamente. Por outro lado, se você tiver herdado duas cópias desse mesmo gene que produz uma quebra rápida da cafeína, não é provável que sua pressão sanguínea seja afetada da mesma maneira.[9]

Vamos começar unindo os pedaços do que aprendemos até aqui sobre os nossos genomas e a nutrição, pois as coisas vão começar a ficar bem mais interessantes. Conforme aprendemos até agora, nossas vidas não se desenvolvem em um vácuo genético ou ambiental, apenas com interações envolvendo um gene de cada vez. Discutimos a respeito de como nossos genomas são continuamente responsivos à maneira como nos comportamos e àquilo que comemos. Assim como acontece com a Toyota e a Apple, que empregam estratégias just-in-time de produção, nossos genes estão sendo constantemente ativados e desativados. E isso se dá por meio da expressão gênica – em que os genes são induzidos a fabricar uma quantidade maior ou menor de um dado produto.

Um exemplo de como a vida pode afetar nossos genes de maneiras interessantes pode ser vista em fumantes que bebem café. Você já parou para pensar por que as pessoas que fumam tabaco parecem não ter qualquer dificuldade para consumir grandes quantidades de café?

A resposta está relacionada à expressão gênica.

Na verdade, nossos corpos utilizam o mesmo gene CYP1A2 para quebrar todos os tipos de venenos. Devido a seus componentes nocivos, não é de surpreender que o tabaco deflagre uma forte chamada genética à ação, e nesse sentido o ato de fumar induz ou ativa o gene CYP1A2. Quanto mais esse gene for ativado, maior será a facilidade com que seu corpo será capaz de quebrar a cafeína. Não me entenda mal; eu não estou sugerindo que você adquira o hábito de fumar para poder beber mais café e, ainda assim, conseguir pegar no sono de noite. Estou dizendo apenas que fumar altera a maneira como seu corpo quebra a cafeína, o que pode transformar um indivíduo geneticamente propenso a ser um metabolizador lento em um mais veloz.

Seja como for, caso o café não combine com a sua constituição genética, você sempre tem a opção de preparar um chá-verde. E, antes que você se sente para desfrutar de um sencha ou um matcha, vale o breve lembrete de que nada do que fazemos é desprovido de consequências genéticas.

No caso do chá-verde, tem sido sugerido que ele talvez desempenhe um papel na prevenção de algumas formas de câncer. Mais recentemente, pesquisadores expuseram células de câncer de mama a um dos potentes componentes químicos encontrados no chá-verde, chamado de epigalocatequina-3-galato, e perceberam dois resultados importantes. As células de câncer de mama começaram a se autodestruir por meio de um processo denominado apoptose, e as células que não se mataram passaram a apresentar um crescimento muito mais lento. Isso é exatamente o que se espera encontrar quando se está em busca de novas formas de tratamento para tumores malignos.

Quando foram apurados em detalhes os motivos pelos quais as células de câncer foram pressionadas a mudar seu comportamento, ficou claro que o epigalocatequina-3-galato pode promover alterações epigenéticas positivas – aquelas modificações tipo “liga” e “desliga” que atuam para ajudar a regular a expressão gênica. Essas são etapas cruciais no esforço de tentar controlar as células quando estas decidem parar de obedecer ao manifesto coletivista do nosso corpo. Quando as células param de trabalhar juntas, de maneira cooperativa, e entram em um frenesi maligno, a pessoa acaba desenvolvendo um câncer.

Quanto mais estudamos as interações entre nossos genes e aquilo que comemos, bebemos e até mesmo aquilo que fumamos, mais visível fica como essas interações são importantes para a manutenção da saúde.

E, estudando gêmeos monozigóticos que herdaram os mesmos genomas e estão seguindo dietas similares, estamos agora desvelando a peça crucial que faltava para completar nosso quebra-cabeça nutricional.

Sendo assim, agora é hora de você ser apresentado ao microbioma.

* * *

O intestino humano é um exemplo espantosamente complexo de diversidade microbiana.

Dois dos principais atores nesse vasto miniecossistema são os filos Bacteroidetes e Firmicutes.[10] Considerando-se todas as espécies pertencentes a esses dois grupos, temos várias centenas de micróbios – e a fauna microscópica de cada um deles é um pouquinho distinta das demais. Para os micróbios que vivem dentro do seu corpo, os nove metros de encanamento que vão da sua boca até o ânus são um verdadeiro planeta. Esse trajeto se contorce e vira e, se fosse imitado em forma de montanha-russa, seria capaz de humilhar até mesmo o mais experiente praticante de esportes radicais. Além disso, as diferenças de condições, à medida que se passa de uma parte a outra, é como sair do fundo do mar para o interior de um vulcão, e depois para a mais suntuosa das florestas tropicais.

Desse modo, provavelmente não é de surpreender que o sistema gastrointestinal seja uma das estruturas mais complexas que nosso corpo constrói durante o desenvolvimento fetal. Para se ter uma ideia do malabarismo ao estilo Cirque du Soleil exigido, em determinado ponto do desenvolvimento fetal nossos intestinos na verdade crescem para fora, adentrando a área ocupada pelo cordão umbilical. Para voltarem com segurança para dentro da cavidade abdominal, eles precisam se torcer e virar, se contorcendo e enrolando como uma serpente que retorna a um cesto de vime. É por essa razão que não é preciso muito para que as coisas deem errado. Se os intestinos ficarem presos a algo no caminho de volta ao corpo, pode se formar uma onfalocele – um tipo de hérnia intestinal e umbilical. Caso os intestinos consigam chegar em segurança dentro do abdome, mas a parede corporal falhar e não se fechar por completo, pode ocorrer uma gastrosquise. Esse é o nome que se dá à condição que resulta quando partes dos intestinos permanecem do lado de fora do corpo durante o desenvolvimento, escapando por uma fresta ou fissura. Visto que os intestinos e o líquido amniótico não deveriam entrar em contato, os intestinos expostos costumam ser danificados, precisando ser cirurgicamente removidos e recolocados.[11] E essas são apenas algumas das muitas coisas que podem dar errado no desenvolvimento de um sistema que, mais tarde, irá abrigar uma verdadeira selva de fluxo fisiológico e microbiano.

Desse modo, embora possa não ser algo lá muito agradável, saber um pouco mais do que está acontecendo dentro de nossos intestinos pode ser uma das medidas mais eficazes para controlarmos nossa saúde.

Para compreender isso melhor, façamos uma viagem à China, onde os cientistas da Universidade de Jiao Tong, em Xangai, acabam de revolucionar a ciência nutricional.

Eis o que aconteceu: estudando os intestinos de uma pessoa com obesidade mórbida (que, com 174 quilos, era mais ou menos do tamanho de um lutador de sumô médio), os cientistas notaram haver uma abundância de bactérias pertencentes ao gênero conhecido como Enterobacter. Ora, muita gente possui um pouco de Enterobacter no corpo, mas, nesse paciente em particular, tal micro-organismo compunha 35% das formas bacterianas existentes em seu sistema. Isso é muita coisa. Assim, para entender melhor o que estava acontecendo, os pesquisadores colheram uma amostra da bactéria do paciente e a introduziram em camundongos que haviam sido criados em um ambiente completamente livre de germes.

E, então… Nada aconteceu.

Esse poderia ter sido o fim do experimento. Mas os cientistas de Xangai decidiram ver o que aconteceria se eles fizessem com que os camundongos infectados com a Enterobacter seguissem uma dieta rica em gordura, similar à que o paciente vinha ingerindo. Basicamente, eles fizeram o mesmo que levar os bichinhos ao McDonald’s e dar a eles um cheeseburger duplo, um refrigerante grande e batatas fritas – um monte de gordura e um monte de açúcar. E os camundongos engordaram, o que não foi surpresa para ninguém.

Mas o fascinante da história foi o seguinte: conforme se espera de um procedimento científico, os cientistas mantiveram paralelamente um grupo de controle composto por camundongos que consumiram exatamente a mesma dieta rica em gordura, mas sem terem sido infectados pela bactéria. E esses camundongos do grupo de controle se mantiveram magricelas como varapaus.[12]

Então, seria a dieta do homem obeso o problema? Certamente. Mas isso, apenas, pode não ter sido o motivo pelo qual ele estava tão gordo.

Com o tempo, pode ser que algum dia sejamos capazes de entender como a genética, a dieta, e mais a presença de uma combinação específica de micróbios respondem pelo nosso peso.

Atualmente, sem dúvida, não podemos “pôr as mãos” na obesidade. Mas podemos espalhar bactérias. E se esse tipo de bactéria for um dos possíveis fatores que colaboram para uma reação não saudável às gorduras, então o efeito pode ser o mesmo.

Entretanto, não é apenas a questão do ganho de peso que devemos ter em mente quando o assunto é o efeito que nossos microbiomas pessoais – a fauna de micróbios que moram dentro e fora de nossos corpos e seus respectivos DNAs – provocam em nossa saúde. É preciso pensar também em nossos corações.

Você provavelmente já ouviu dizer que carne vermelha e ovos são ruins para o sistema cardiovascular. O que talvez você não saiba é que o problema não se resume à gordura saturada e ao colesterol, os quais há muito tempo acreditamos que aumentam o risco de doenças cardíacas. Em vez disso, o risco pode ser aumentado por um composto chamado carnitina, presente nesses alimentos. A carnitina em si não parece ser prejudicial. Mas quando encontra as bactérias que integram o microbioma que vive no intestino da maioria das pessoas, a carnitina é transformada em um novo composto químico, denominado N-óxido de trimetilamina, ou TMAO. Quando introduzida na corrente sanguínea, essa substância parece ser danosa para o coração.[13] Até o presente momento, os efeitos para a saúde que podem ser causados por micro-organismos que compõem o nosso microbioma têm recebido muito menos atenção que o genoma humano. Isso deverá mudar conforme for se tornando mais claro que o microbioma de uma pessoa é tão importante quanto aquilo que ela come e quanto os genes que herdou. Até mesmo gêmeos monozigóticos com genomas idênticos nem sempre possuem microbiomas idênticos, especialmente quando diferem em peso.

É por esse motivo que, conforme vamos aprendendo mais sobre a importância de administrarmos nossa herança genética, faz sentido nos interessarmos mais também pelo bem-estar de nosso microbioma. Uma das maneiras mais fáceis de fazer isso é considerar alternativas ao uso indiscriminado de produtos antibacterianos, como sabonetes, xampus e até mesmo pastas de dente. Além disso, seria prudente discutir com o seu médico a respeito da real necessidade da prescrição de um antibiótico, antes de ir correndo comprá-lo. Conforme já aprendemos repetidas vezes, uma mudança de regime político imposta pelo uso de força, assim como uma mudança na composição microbiana causada por medicação, pode ter consequências imprevistas e duradouras.

* * *

Dada a complexidade de tudo isso, seria bastante compreensível se desistíssemos de tentar entender para onde seguir a partir daqui. Mas preciso dizer que há bons motivos para ficarmos animados quanto ao que estamos aprendendo sobre nós mesmos e nossas dietas, e sobre aonde essa informação genética irá nos conduzir. Fazer isso significa voltar ao setor de emergência, onde Cindy e sua mãe já se encontravam à minha espera quando lá cheguei, antes das quatro e meia da madrugada.

A equipe já havia dado início aos procedimentos, e fiquei satisfeito ao ver que Cindy já tinha uma via intravenosa correndo em seu braço, levando a ela a glicose e os líquidos de que ela precisava desesperadamente. Dar glicose a Cindy era crucial, visto que sua deficiência de OTC faz com que seus níveis de amônia se elevem quando ela está usando proteínas como fonte de energia. Níveis elevados de amônia são danosos ao corpo, especialmente ao seu cérebro sensível e em desenvolvimento. Esse é o principal fator responsável por alguns sintomas que costumam acompanhar essa condição, como a letargia e os vômitos que fizeram com que sua mãe ficasse tão preocupada.

Um dos motivos pelos quais o tratamento atual para OTC é tão mais agressivo do que era no passado é que hoje estamos muito mais conscientes dos danos cerebrais que podem decorrer de níveis elevados de amônia no corpo. Uma das opções de tratamento, especialmente em casos graves, é a “terapia gênica com bisturi”, na qual pacientes com OTC recebem um transplante de fígado, que lhes proporciona uma cópia local do gene danificado que herdaram.

Por sorte, o caso de Cindy não era tão grave para que se fizesse necessário um transplante de fígado. Entretanto, com a rápida mudança de opções de tratamento que vem ocorrendo, a deficiência de OTC já não constitui o diagnóstico grave que significava em outros tempos.

Enquanto eu aguardava os resultados do exame de sangue (a amostra de sangue havia seguido às pressas para o laboratório, no gelo), pensava a respeito de todas as mudanças significativas que têm acontecido no modo como se pratica a medicina nos últimos anos. No caso de Cindy, no passado não teríamos como saber que ela era portadora de uma condição genética senão quando já fosse provável a sua morte. Isso enfatiza como é importante que os médicos saibam quais exames pedir para avaliar a condição de um paciente.

Quando os resultados laboratoriais de Cindy finalmente ficaram prontos, demonstraram que a taxa de amônia em seu corpo não estava tão alta quanto havíamos imaginado, e que seus órgãos não apresentavam maiores sinais de disfunção.

Eram boas notícias. Depois de terminar minhas anotações e de enviar um e-mail à equipe diurna notificando o que havíamos feito e descoberto de madrugada, saí dali me sentindo um pouco cansado. Bem, talvez no fim das contas três horas e meia de sono não tivessem sido suficientes.

Enquanto dirigia a caminho de casa, com os olhos inchados, para tomar uma chuveirada e trocar de roupas, eu refletia sobre a magnitude dos mistérios bioquímicos e genéticos que com frequência ofuscam nossos esforços para compreender condições como a de Cindy. Testemunhar o que essas bravas crianças e suas famílias enfrentam todos os dias estimula novas maneiras de pensar, que ocasionalmente me levam a novas pesquisas clínicas. É bastante provável que eu deixasse de descobrir várias vias de exploração se não tivesse a honra de passar parte do meu tempo acompanhando essas famílias incríveis em suas jornadas médicas.

Além disso, conforme veremos em seguida, foi o desenvolvimento de novos métodos de sondagem, capazes de fazer o diagnóstico de crianças como Cindy cedo o bastante para salvar suas vidas, que nos levou a descobrir que ela precisava de um regime dietético diferenciado e de cuidados médicos especializados. Para saber em que ponto nos encontramos e para onde estamos sendo conduzidos no campo da nutrição genética personalizada, pode ser útil saber por onde começamos. Se você ou alguém que ama nasceu antes da década de 1960, é provável que já tenha sido um beneficiário disso.

* * *

Tudo começou no fim da década de 1920, com outra mãe preocupada.

Era uma mulher norueguesa, chamada Borgny Egeland, e que desejava desesperadamente ajudar seus dois filhos pequenos – uma menina chamada Liv e um menino chamado Dag –, portadores de uma deficiência intelectual severa, embora Egeland estivesse convencida de que eles não sofriam dessa doença quando eram bebês. Sua busca por ajuda a levou a passar por vários médicos, e até mesmo a curadores espirituais, tudo em vão.[14]

Felizmente, porém, um médico e químico chamado Asbjørn Følling decidiu levar Egeland a sério. Em contraste com tantos outros profissionais que a haviam rejeitado, Følling ouviu-a atentamente quando soube da situação de seus filhos – e, ao que parece, mostrou-se especialmente interessado ao ouvir que a urina dessas crianças tinha um odor muito estranho e bolorento.

Quando, por solicitação de Følling, uma amostra da urina de Liv chegou ao laboratório, de início parecia nada haver de notável; todos os testes rotineiros tiveram resultados normais. Mas havia um teste final – algumas gotas de cloreto férrico para confirmar a presença de cetonas, que são compostos orgânicos produzidos pelo corpo quando este está queimando gordura, em vez de glicose, como combustível. Se as cetonas estivessem presentes, o cloreto férrico deveria causar uma alteração na cor da urina de Liv, de amarelo para púrpura. Em vez disso, a urina ficou verde.

Intrigado, Følling requisitou uma nova amostra, mas dessa vez da urina de Dag, o irmão de Liv. Mais uma vez, o teste para cloreto férrico fez com que a urina ficasse verde. Durante dois meses, Egeland levou ao cientista diversas amostras da urina de seus filhos, e durante dois meses o médico trabalhou buscando isolar a causa da reação anormal, até que conseguiu chegar a um composto químico denominado ácido fenilpirúvico.

Para saber se estava certo, Følling trabalhou com instituições que cuidavam de crianças com deficiências no desenvolvimento, de modo a coletar amostras adicionais. Dessa maneira, localizou mais oito amostras de urina (incluindo duas de pares de irmãos) de crianças que responderam da mesma forma ao cloreto férrico.

Entretanto, embora Følling tivesse identificado o culpado químico pelo que se revelariam ser milhares de casos de deficiência intelectual, ainda se passariam várias décadas até que outros médicos se dessem conta de que a condição em questão decorria de um erro genético inato do metabolismo (não muito diferente da OTC de Cindy). Esse erro genético tornava os indivíduos jovens que o apresentavam incapazes de quebrar a fenilalanina, um composto químico comum a milhares de alimentos ricos em proteínas.

Na verdade, conforme Egeland havia suspeitado desde o princípio, seus filhos haviam nascido sem quaisquer indícios dessa deficiência intelectual. Uma condição metabólica hereditária, que acabaria recebendo o nome de fenilcetonúria, ou PKU, havia causado o acúmulo de fenilalanina na corrente sanguínea daquelas crianças em níveis que, por fim, se tornaram irreversivelmente tóxicos para seus cérebros.

Depois de haverem conseguido juntar as peças desse quebra-cabeça, os cientistas desenvolveram uma dieta especial, que podia ser administrada aos indivíduos nos quais fosse identificada a presença da fenilcetonúria, prevenindo, assim, a deficiência intelectual. O único senão era que as crianças precisavam ser identificadas, e sua dieta, modificada antes que os sintomas se manifestassem de modo irreversível.

Como saber quem é portador de fenilcetonúria, e cedo o bastante para que o indivíduo em questão não corra riscos? Esse problema acabou sendo resolvido por um homem chamado Robert Guthrie, um médico e cientista que começou sua carreira pesquisando câncer. Guthrie acabou por percorrer uma estrada profissional muito distinta daquela por onde havia começado, e abandonou a pesquisa em oncologia para estudar as causas e a prevenção de deficiências intelectuais. Essa mudança foi motivada por razões muito pessoais.

Sua sobrinha nascera com fenilcetonúria.

Utilizando a experiência adquirida na pesquisa do câncer para estudar a prevenção da fenilcetonúria, Guthrie criou um sistema por meio do qual pequenas amostras de sangue coletadas dos pés de recém-nascidos e armazenadas em pequenos cartões poderiam ser testadas quanto à presença da fenilcetonúria. Esses cartões, que viriam a ser conhecidos posteriormente como cartões de Guthrie, passaram a ser incorporados na rotina hospitalar em todos os Estados Unidos a partir da década de 1960, e em vários outros países nos anos seguintes. Ao longo das décadas, o uso desses cartões se expandiu para a detecção de várias outras doenças, no que conhecemos como Teste do Pezinho.

Mais de quarenta anos se passaram desde o momento em que Borgny Egeland decidiu, contrariando todas as probabilidades, descobrir os motivos da deficiência intelectual de seus filhos até o momento em que os testes de Guthrie se disseminaram por boa parte do mundo. Obviamente, essa conquista veio tarde demais para que os filhos de Egeland pudessem ser beneficiados.

Como alguém teria condições de descrever a profundidade dessa tragédia? Tampouco somos capazes de capturar em toda sua dimensão a glória dessa busca longa, muito longa, por um futuro melhor, iniciada por Egeland e finalizada por Guthrie. Para transmitir a você a grandeza disso, recorro à autora Pearl Buck, agraciada com os prêmios Nobel e Pulitzer, e mãe de uma filha adotiva que parece ter sofrido de fenilcetonúria:

“Aquilo que já foi não precisa continuar sendo para sempre. É tarde demais para algumas de nossas crianças, mas se a situação delas puder fazer com que as pessoas se deem conta do quão desnecessária é essa tragédia, então as vidas dessas crianças, incapacitadas como elas estão, não terão sido em vão.”[15]

E, sem dúvida, a tragédia dos filhos de Egeland não foi em vão.

Hoje em dia, os cartões de Guthrie e a triagem neonatal que se desenvolveu em decorrência tiveram seu uso estendido para dúzias de outras condições metabólicas – mais um exemplo de como uma condição aparentemente rara apresenta amplas implicações para todos nós. Entretanto, nem mesmo a sondagem de recém-nascidos constitui uma panaceia. Para algumas pessoas, somente exames genéticos sofisticados podem revelar as grandes diferenças que pequenas decisões nutricionais podem ter para nossa saúde.

* * *

Foi em uma manhã chuvosa em Manhattan, na primavera de 2010, que conheci Richard.

Ele estava praticamente quicando pela sala de exames quando entrei. E isso, conforme eu viria a descobrir, era mesmo o que se poderia esperar dessa criança.

Obviamente, a impetuosidade é muito comum em meninos de 10 anos de idade, mas Richard em particular teria sido capaz de correr círculos em volta do Max, de Onde vivem os monstros, e, desse modo, vinha arrumando um bocado de confusão na escola.

No entanto, esse não foi o motivo para sua primeira visita ao hospital. Ele estava lá porque sentia dores nas pernas.

Em todos os demais aspectos, e com base em todas as impressões visíveis, se diria que Richard era a própria imagem da saúde. Sua triagem neonatal? Perfeitamente normal. Seu checkup recente? Bem na média. Na verdade, ele parecia estar em tão boa forma que levou um tempo até que alguém percebesse que havia algo de errado com ele. E talvez nunca teríamos descoberto se alguns bons médicos não tivessem levado a sério suas queixas constantes, e descartado o fácil, mas nada científico diagnóstico de “dores do crescimento”.

Não conseguindo encontrar qualquer outra explicação para a dor na perna que o menino sentia, os médicos solicitaram um exame de seus genes – e foi esse teste que revelou que Richard sofria da deficiência de OTC, a mesma condição que analisamos antes, quando eu lhe apresentei a Cindy.

Você deve lembrar que os sintomas de OTC de Cindy haviam resultado em muitas idas ao hospital. A OTC de Richard, por outro lado, se expressava de forma bastante distinta, mal parecendo lhe causar problemas, a não ser aquelas dores nas pernas um tanto inexplicáveis, e que podiam estar relacionadas aos níveis de amônia acima do normal em seu corpo.

Entretanto, os demais sintomas de Richard, se é que eles existiam, eram tão brandos, que ele e seu pai tiveram muita dificuldade para acreditar que havia algo de errado. No dia em que o conheci, na verdade, havia um salame envolto em papel-alumínio saltando de seu bolso traseiro, muito embora Richard e seus pais já tivessem ouvido repetidas advertências de que pessoas com deficiência de OTC são aconselhadas a manter uma dieta hipoproteica, visto que não são capazes de lidar muito bem com grandes quantidades de proteína.

Aquele salame denunciava por que seus sintomas não desapareciam.

O que a família de Richard não tinha percebido era que os relatos de sua falta de concentração na escola e em casa não eram exatamente expressão de uma característica comportamental, mas sim fisiológica. Níveis de amônia acima do normal no corpo da maioria das pessoas podem levar a tremores, convulsões e coma, mas em Richard, ao que parecia, estavam acionando sua combatividade e uma dificuldade em se concentrar.

Mas serei honesto. Eu também não tinha percebido isso de início. Após nosso primeiro encontro, Richard tinha ido para casa com instruções para seguir mais à risca sua dieta, pois acreditávamos que isso fosse ajudar com a dor nas pernas.

Só foi possível ter a confirmação de que os problemas de Richard iam além do temperamento agitado quando ele retornou, três meses mais tarde, dessa vez tendo seguido a dieta com muito mais rigor. Suas pernas já não doíam – e isso era bom –, mas a grande surpresa mesmo era que ele estava se saindo excepcionalmente bem na escola. Estava mais calmo. Já não era mais o rei dos Monstros Selvagens.

Refleti muito nos meses que se seguiram a respeito das implicações dessa impressionante virada de Richard. Existem, sem sombra de dúvida, outros Richards por aí. Na verdade, é provável que existam muitos, muitos mesmo. E eles também estão comendo, sem saber, alimentos que não são os mais adequados a seus eus genéticos. Talvez a condição deles não seja grave o suficiente para provocar uma grande alteração metabólica, mas o suficiente para garantir uma visitinha à sala do diretor da escola.

Como vejo a maior parte das crianças com problemas desse tipo em centros médicos altamente especializados, imagino quantos pacientes com condições metabólicas não passam despercebidos nos centros de cuidados primários – e quantos nem sequer vão parar em um hospital.

Não sabemos de fato quantas pessoas que já receberam diagnósticos de algum tipo de disfunção cognitiva, ou mesmo transtornos do espectro autista, têm na verdade uma doença metabólica subjacente que simplesmente nunca foi diagnosticada ou tratada. Antes que fôssemos capazes de compreender a fenilcetonúria, por exemplo, não conseguíamos entender que a deficiência intelectual daquelas crianças se devia a uma condição metabólica que não havia sido tratada.

Quanto mais nossa ciência avança, mais casos como o de Richard seremos capazes de entender – e mais vidas conseguiremos melhorar por meio de intervenções médicas e alterações simples relacionadas às necessidades genéticas e metabólicas de cada indivíduo.

* * *

Então o que Cindy, Richard e Jeff nos ensinam sobre nutrição? A resposta é que, em relação ao nosso genoma, somos todos indivíduos, e completamente únicos no que diz respeito aos nossos epigenomas e até aos microbiomas. Melhorar o que comemos não é o mesmo que prevenir deficiências nutricionais. Podemos e devemos investigar nossos genes e metabolismo em busca de pistas que apontem quais alimentos se ajustam melhor a nossas necessidades. As descobertas teriam implicações significativas quanto ao que deveríamos e ao que não deveríamos comer.

Encontramo-nos atualmente prontos para um novo passo, para irmos além das dietas especializadas para pessoas com condições genéticas raras. Em decorrência das informações a que agora temos acesso por meio do sequenciamento genético, estamos às vésperas de finalmente sermos convidados a nos sentarmos à mesa para uma refeição preparada tendo em mente nosso próprio perfil genético.

Conforme veremos em seguida, não são apenas nossas dietas que estão se tornando muito mais personalizadas e adequadas à nossa herança genética; é tempo de olharmos também para nosso armário de remédios.

 

*. Um bioproduto comum do processo metabólico que ocorre quando o corpo digere proteínas.

*. Mesmo que você saiba qual a comida que seus ancestrais mais próximos consumiam, é preciso levar em conta que pode ser muito calórica (me vem à mente, por exemplo, usar banha na torta de maçã) para os níveis de atividade física de hoje em dia, comparativamente menores.

*. Se os seus ancestrais forem da Europa ou da África Ocidental, é muito provável que criassem tais animais.

 

 (Sharon Moalem, MD, PhD com Matthew D. Laplante - HERANÇA, Como nossos genes transformam nossas vidas e como nossas vidas transformam nossos genes)

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publicado às 22:18



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