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“O cristianismo foi até hoje a espécie mais catastrófica de arrogância”

— Friedrich Nietzsche (1844-1900)

 

A única coisa que a maioria das pessoas sabe sobre o filósofo alemão Friedrich Nietzsche é que ele disse que “Deus está morto”. Ou então, conhece também a piada infame que acompanha essa declaração:

Deus está morto”.

— Nietzsche.

Nietzsche está morto”.

— Deus.

Isso certamente dá aos fiéis religiosos o conforto momentâneo de que, no fim, nossa mortalidade é quem diz a última palavra. Mas isso praticamente não vale como uma refutação deste que é o mais potente entre os filósofos ateus, e também não é uma demonstração da existência de Deus. Para começar, nós todos vamos morrer, fiéis e ateus, e nossas mortalidades não provam nem desaprovam o calibre dos nossos argumentos. Em segundo lugar, enquanto que muitos sabem que Nietzsche disse que “Deus está morto”, muito, muito pouca gente sabe o que ele quer dizer com isso. Não se trata de um grito triunfal, mas de desespero, um berro contra uma civilização cada vez mais trivial e sufocante, que, para Nieztsche, estava minando toda a grandeza da humanidade e produzindo em seu lugar algo meramente acima do nível selvagem: o último homem.

De fato, a primeira vez que isso aparece exposto de modo mais consistente na obra de Nietzsche é quando é gritado por um “homem louco” que brada: “Para onde Deus foi? [...] Eu vou lhes dizer. Nós o matamos – vocês e eu. Todos nós somos assassinos [...]. Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos todos errando como que no nada infinito? Não sentimos o hálito do espaço vazio? Não ficou tudo mais frio? Não tem nos embalado noite após noite? [...] Deus está morto. Deus permanece morto. E fomos nós que o matamos”.[ 65 ]

Nietzsche é esse homem louco. Ele, na realidade, morreu louco, depois de ter sido comprimido e dilacerado pelas terríveis implicações de suas palavras. Ao contrário da maioria dos outros ateus, Nietzsche foi brutalmente honesto com o significado verdadeiro do ateísmo, e essa honestidade custou-lhe a sanidade. Nem acima, nem abaixo; nem bem, nem mal; apenas o humano puro, nadando num cosmos desinteressado, quando não hostil.

Logo veremos o que tudo isso tem a dizer. Mas quero desde já garantir ao leitor que não pode haver refutação simples para o ateísmo de Nietzsche, precisamente porque se trata do mais profundo ateísmo. Os ateus best-sellers que hoje nos rodeiam (Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris, entre outros) são, no máximo, umas gazelas perto do leão que foi Nietzsche – e, se ele ainda estivesse vivo, já os teria mastigado e cuspido de volta, enjoado.

Isso não faz de Nietzsche um amigo da religião. Afinal de contas, ele se autoproclamou o próprio Anticristo. Mas ele era um inimigo feroz de toda e qualquer tibieza, das casas de reabilitação, fosse em nome da religião ou da irreligiosidade. Suas palavras mais rancorosas foram despejadas na direção dos cristãos liberais, que dispensavam toda a majestade e o terror do cristianismo e pregavam o humanitarismo mais pálido e a mera simpatia, e na dos ateus liberais (como John Stuart Mill), que não reconheciam o real terror e a majestade impiedosa do ateísmo e pregavam, eles também, o humanitarismo mais pálido e a mera simpatia. E a simpatia, uivava Nietzsche, é o que resta da bondade quando esvaziada de toda a sua grandeza.

Faço questão de enfatizar essas coisas porque hoje há muitos pseudodiscípulos autoproclamados de Nietzsche que amaciam suas pontadas agudas – alguns até abafam-nas completamente – porque elas despontam direta e inequivocamente também em Hitler e no nazismo alemão. Eles adoram seu ateísmo vigoroso – assim como os meninos gostam de fazer poses charmosas, como se fossem verdadeiros guerreiros –, mas correm para longe de suas reais conseqüências, proclamadas em alto e bom som pelo próprio Nietzsche. Eles querem todos os benefícios de não ter Deus vigiando-os por sobre suas cabeças, fazendo exigências morais, mas também querem um universo todo estruturado moralmente (ainda que ditado pela conveniência em vez do rigor). Eles ainda querem condenar os crimes de Hitler como os maiores crimes possíveis.

Mas, para Nietzsche, os maiores crimes possíveis são justamente aquilo que é necessário que façamos para soerguer a humanidade de seu estado cada vez mais decadente, no sentido de algo maior e mais glorioso. É por isso que ele clama que nós – ou melhor, alguns de nós, as almas mais corajosas – devemos ir além do bem e do mal. Os discípulos de hoje de Nietzsche ignoram o principal dos pontos: ir além da fé em Deus é ir além do bem e do mal. Se você não foi além do bem e do mal, você não superou a fé em Deus.

Chegamos então ao título do livro mais famoso de Nietzsche, Além do bem e do mal. Trata-se mais de uma exortação do que de uma argumentação, então talvez seja melhor voltarmos alguns passos e retomarmos o sentido do caminho que nos desemboca agora em Nietzsche, após partirmos de Maquiavel e passarmos por Mill.

Como vimos em Maquiavel, quatro séculos antes de Nietzsche o ateísmo já era vivo e passava muito bem. Muitos dos conselhos d’O Príncipe exigiam que os aspirantes a líderes largassem mão de todas as preocupações a respeito da bondade ou maldade de suas ações e, ao invés disso, se concentrassem nas ações que eram efetivas em colocar um príncipe no poder e mantê-lo lá. O poder era mais importante do que qualquer distinção moral. Ainda que Maquiavel tenha evitado qualquer declaração explícita de ateísmo, o tipo de aconselhamento que ele oferecia só poderia ser dado (e seguido) por alguém que há muito já tivesse deixado suas crenças religiosas para trás. Já em Maquiavel, portanto, vemos o ateísmo ligado a uma noção incipiente daquilo que Nietzsche chamou de Vontade-de-Poder.

Também vimos em Hobbes o anúncio de uma visão da natureza totalmente sem Deus e sem moral, uma visão do universo que renegava qualquer bondade ou maldade intrínsecas ou naturais. Ao invés disso, o bem e o mal são meras questões de preferência particular, que significam apenas: “Eu gosto disso; isso me dá prazer” e “eu não gosto disso; isso me causa dor”. A pessoa que impuser suas preferências de gostos e desgostos sobre os outros é, portanto, quem decide o que é bom e o que é mau. Ou, falando o mesmo de modo inverso: por trás de todo padrão aparentemente objetivo de bondade ou maldade estão escondidas as preferências, subjetivas e arbitrárias, de alguém que está no poder. Daí a importância da religião: ela é quem permite que os desejos arbitrários de alguém sejam mascarados como se fossem os de um ser divino.

Também não devemos esquecer a contribuição de Darwin. Não é que ele tenha negado a moralidade, mas ele a redefiniu em termos do que contribui ou não para a sobrevivência do mais forte. Do ponto de vista darwiniano, a seleção natural que elimina os mais fracos e coroa os mais aptos é o que aprimora as espécies. Se a luta pela sobrevivência é afrouxada, a tensão aperfeiçoadora do arco evolutivo se dissipa. “Devemos nos lembrar”, disse Darwin, “de que o progresso não é uma lei invariável”.[ 66 ]

O homem, como todo outro animal, sem dúvida avançou até sua desenvolvida condição atual através de uma batalha pela existência conseqüente de sua multiplicação acelerada; e, se ele quiser desenvolver-se mais ainda, ele deve manter-se sujeito à austeridade da luta. Do contrário, ele logo afundaria na indolência, e os mais excepcionalmente dotados não se sairiam melhor na luta pela vida do que os menos dotados.[ 67 ]

Aquilo que pela luta elevou-se deve de novo rolar abaixo o monte da evolução. Que má notícia. Mas, vendo pelo lado positivo, assim como os homens foram capazes de erguer-se acima do restante dos animais através da luta existencial, eles talvez consigam erguer-se mais alto ainda, transcendendo assim a natureza humana para atingir – quem sabe? – algo tão mais elevado que o homem quanto o homem é mais elevado que o macaco.

Essa estranha esperança dorme na rejeição mesma de Darwin da idéia de que o homem é definido por Deus, já que “o fato de ele ter sido alçado” pela evolução à condição em que se encontra hoje, “ao invés de ter sido aí colocado mecanicamente” por Deus, “é o que lhe pode conceder a esperança por um destino ainda mais alto, num futuro distante”.[ 68 ] Nietzsche se apossa dessa esperança darwiniana para a autocriação dessa iminente-criatura, o Übermenschen – o supervisor do super-homem.

Por fim, temos ainda a contribuição de John Stuart Mill. Para Nietzsche, o que Mill chamava de “a maior felicidade possível para o maior número possível de pessoas” era a glorificação dos prazeres mais baixos e animalescos do homem, em detrimento dos seus mais altos e propriamente humanos. Além do mais, numa perspectiva darwiniana, o utilitarismo leva à dominação da cadeia genética por parte dos “menos dotados”, e portanto traz consigo uma recaída evolutiva, na qual a natureza humana regride às suas origens animais. Para Nietzsche, tanto quanto para Darwin, é no pain, no gain.

Para Nietzsche, aliás, isso era válido não apenas quanto à sobrevivência do mais apto, mas, mais importante ainda, para o florescimento da grandeza na civilização: em sua arte, em sua arquitetura, em sua música e em sua filosofia. Toda grandeza humana requereria grandes sofrimentos, uma dura disciplina, a renúncia do conforto, a coragem frente à dor e até mesmo a crueldade, tanto para que fosse usufruída quanto para que fosse útil para a eliminação dos mais fracos. Nietzsche bradava de desgosto e desafiava “todas essas formas de pensar” – como o “hedonismo”, ou o “utilitarismo” – “que medem o valor das coisas de acordo com o prazer e a dor”:

Vocês querem, se possível – e não há nenhum “se possível” mais absurdo – abolir o sofrimento? E nós? Parece que o que nós queremos de verdade é tê-lo em maior e mais aguda medida que nunca. O bem-estar, conforme vocês o entendem – isso não é um objetivo, e a nós mais se parece com um fim, um estado que logo torna o homem ridículo e desprezível – isso faz com que sua destruição até seja desejável.

A disciplina do sofrimento, do grande sofrimento – vocês não entendem que essa disciplina sozinha gerou todas as melhorias do homem até hoje? Aquela tensão da alma quando se encontra infeliz, que cultiva sua força, seu estremecimento perante a decadência atemorizante, sua inventividade e sua coragem para suportar, perseverar, interpretar e explorar o sofrimento, e tudo o mais que lhe foi concedido de profundo, de secreto, de dissimulado, de espiritual, de hábil, de majestoso – não foi tudo isso lhe concedido através do sofrimento, através da disciplina do grande sofrimento? [ 69 ]

“Nós devemos repensar a crueldade e abrir nossos olhos”, censura Nietzsche.“Quase tudo aquilo a que damos o nome de ‘alta cultura’ está baseado na espiritualização da crueldade, no torná-la mais profunda: esse é o meu veredicto”. Para percorrer uma milha em menos de quatro minutos,[ Uma milha equivale, aproximadamente, a 1,6km; o americano Roger Bannister foi o primeiro a percorrer essa distância em menos de quatro minutos, em 1954 – NT ] Roger Bannister não só teve de usar suas mais altas habilidades, como também teve de passar pelo mais intenso e doloroso treinamento. Michelangelo passou por incontáveis horas de violenta abnegação enquanto adornava a Capela Sistina. As gloriosas pirâmides só foram possíveis pela crueldade implacável do trabalho escravo. Tal é o custo da grandeza humana. Ela é paga na moeda da dor, e portanto seria destruída caso o prazer e o conforto fossem maximizados e a dor fosse tratada como nada mais que um mal.

Se estivermos com tudo isso na memória, então poderemos entender melhor o que Nietzsche está dizendo em Além do bem e do mal. Mas nós não conseguiremos chegar ao ponto nevrálgico do livro se não enfatizarmos só mais uma coisa, algo que emerge das citações acima: um profundo e tipicamente aristocrático desprezo pela mediocridade. É um sentimento estranho à compreensão da nossa era, tão democrática, mas sem que façamos alguma idéia de sua natureza e origem, não seremos capazes de entender Nietzsche e nem de resguardarmo-nos contra o perigo constante que sua filosofia nos apresenta. Eis as próprias e desdenhosas palavras de Nietzsche, ao massacrar os utilitaristas, mais adiante:

Nenhum desses animais de pasto rechonchudos [...] quer saber, ou sequer imaginar, que o ‘bem-estar de todos’ não é nenhum ideal, nenhum objetivo, não é sequer um conceito remotamente inteligível, mas é apenas um emético[ Um emético é qualquer composto químico ingerido para causar o vômito – NT. ] – que o que é justo para um não pode, de modo algum, só por essa razão, ser justo para os outros; que a busca por uma moral para todos é prejudicial ao homem superior; em suma, que há uma ordem hierárquica entre um homem e outro, e portanto também há entre uma moralidade e outra. Eles são um tipo recatado e meticulosamente medíocre de homem, esses ingleses utilitaristas.[ 70 ]

Na visão de Nietzsche, os utilitaristas fizeram da mediocridade uma moral, uma mediocridade voltada ao tipo mais animalesco e rude de existência, e um tipo de moral “escravista” que liga apenas para o conforto e para os prazeres triviais, tolhida de toda exigência mais dura. Mas isso vai contra tudo que, no passado, fez o homem engrandecer, e portanto essa tendência deve ser revertida. Deve haver uma revolução contra o espírito utilitarista e democrático, o espírito que equaliza tudo e, portanto, extingue a noção mesma de grandeza: “Toda melhoria da espécie ‘homem’ até hoje veio do trabalho de uma sociedade aristocrática – e assim será de novo e de novo –, uma sociedade que acredita na longa escada da ordem hierárquica das diferenças de valor entre um homem e outro, e a qual precisa da escravidão, num sentido ou noutro”.[ 71 ] Nietzsche acreditava que isso era puro fato histórico:

Tomemos para nós [...] o modo como toda alta cultura veio a começar na face da Terra. Seres humanos cuja natureza ainda era a natural, bárbaros no sentido mais terrível do termo, homens da caça que ainda detinham intocáveis força de vontade e sede de poder, lançaram-se sobre as raças mais fracas, mais civilizadas e mais pacíficas [...]. No começo, [portanto,] a casta nobre era sempre a casta bárbara: sua predominância não se justificava tanto por sua força física, mas sim pela força de sua alma – eles eram homens mais inteiros (o que também significa, em todos os sentidos, “animais mais inteiros”).[ 72 ]

Devemos notar que essa idéia de um estado de guerra tribal é bem parecida com o de Darwin. Para a evolução ascendente do homem, o caminho da guerra é o caminho do progresso, conforme Darwin deixa claro em A descendência do homem. Na verdade, a guerra é, para Darwin, a fonte do desenvolvimento evolutivo de nobres virtudes, como a coragem:

Quando duas tribos de homens primitivos, vivendo num mesmo território, voltavam-se ao conflito, a tribo que tivesse [...] o maior número de membros corajosos, complacentes e fiéis, sempre prontos para avisar o próximo do perigo e para defender o grupo, essa tribo sem dúvida se sairia melhor e conquistaria a outra. É preciso que se tenha em mente a suma importância da fidelidade e da coragem no cenário selvagem de guerras sem fim [...]. Uma tribo que possuísse as qualidades acima num nível bastante alto se propagaria e seria vitoriosa sobre as outras tribos; mas no decurso do tempo, julgando-se com base em todo o passado histórico, ela seria, por sua vez, subjugada por outra tribo que fosse ainda mais altamente dotada. Assim é que as qualidades morais e sociais tenderiam a avançar lentamente e se difundir pelo mundo.[ 73 ]

As semelhanças entre as considerações de Darwin e Nietzsche são óbvias: toda e qualquer elevação para além do nível animal é causada pelo conflito, pela guerra e pela eliminação brutal dos mais fracos pelos mais fortes. Nietzsche via nisso a natureza mesma da aristocracia – os melhores deveriam governar, e portanto usar os piores. “A característica essencial de uma boa e saudável aristocracia” é a de que deve “aceitar com consciência limpa o sacrifício de incontáveis seres humanos que, pelo bem dela, devem reduzir-se e sujeitar-se à condição de homens incompletos, escravos, instrumentos”. A “fé fundamental” do aristocrata, portanto, é a de que a “sociedade” existe para ele, para o seu bem, então todos os homens inferiores da sociedade que o servem existem “apenas como base ou andaime sobre o qual um tipo escolhido de homem pode educar-se para sua missão superior e para um estado mais elevado de ser”.[ 74 ] Não se pode deixar de lembrar da justificativa nazista para a escravização dos eslavos: eram “homens inferiores”.

As diferenças entre as considerações de Darwin e Nietzsche também devem ser notadas. Em primeiro lugar, Darwin está tentando dar uma explicação evolucionista para as qualidades “morais” que levam a algo muito parecido com o utilitarismo inglês, no qual a compaixão pelo sofrimento alheio é o ponto mais alto do desenvolvimento moral, enquanto que Nietzsche considera tal compaixão algo destrutivo, capaz de arruinar a marcha ascendente da evolução. Ou seja, Nietzsche vê, com acerto, que o enaltecimento da compaixão por parte de Darwin contradiz sua própria visão sobre o que é que propriamente leva ao progresso evolutivo: “a vida é essencialmente apropriação, danificação, dominação daquilo que é alheio e mais frágil, supressão, dureza, imposição dos próprios meios, incorporação e, ao menos em sua forma mais moderada, exploração”.[ 75 ] Já que essas são as qualidades mesmas que permitem que certas coisas floresçam, pergunta Nietzsche, por que então elas são consideradas más? Ou, se quisermos chamá-las de más, por que não devemos reconhecer então que tal mal é o fundamento de todo o bem? A questão não é se algo é bom ou mau (ou até falso ou verdadeiro), mas “até que ponto algo é capaz de promover a vida, preservar a vida, preservar a espécie, talvez até cultivar a espécie”.[ 76 ]

E agora chegamos à segunda diferença em relação a Darwin: este queria explicar como a luta pela sobrevivência havia feito surgir traços e atributos mais elevados e complexos nos animais, especialmente nos seres humanos. Nietzsche foi mais longe: da mera luta pela sobrevivência ao florescimento e à completa expressão do poder de um ser, da forma mais magnífica possível. Não a mera sobrevivência do mais apto, mas a Vontade-de-Poder – este era o fato biológico mais importante: “Os fisiologistas deveriam pensar duas vezes antes de afirmarem o instinto de autopreservação como o instinto cardeal e mais importante de um ser orgânico. Um ser vivo busca, acima de tudo, descarregar todo o seu potencial – a vida é em si Vontade-de-Poder, a autopreservação é apenas um dos resultados indiretos e mais freqüentes”.[ 77 ]

Podemos resumir essa discrepância toda no seguinte: quanto à sobrevivência do mais apto, Darwin concentrou-se na sobrevivência, Nietzsche no mais apto. Plânctons só sobrevivem; leões exalam um poder magnífico. O ponto nevrálgico da evolução não é o mero desejo de viver, mas a Vontade-de-Poder dos mais aptos, seu impulso interno para dominar, propagar-se e consumir todos os seres inferiores. A aristocracia, portanto, é “a encarnação da Vontade-de-Poder”, que não se satisfaz em simplesmente viver, mas “se esforçará ao máximo para crescer, se espalhar, tomar posse, tornar-se predominante – não por conta de qualquer moralidade ou imoralidade, mas porque é viva e porque a vida é simplesmente Vontade-de-Poder”.[ 78 ]

Chegamos agora a uma terceira diferença com relação a Darwin. Tanto Darwin quanto Nietzsche consideram que o surgimento de diferentes tipos de moral é um efeito posterior à luta pela sobrevivência, mas somente Nietzsche separa as coisas em dois tipos essenciais: a moral dos mais aptos e a moral dos inaptos, a do aristocrata e a do democrata, “a moral de senhor e a moral de escravo”.[ 79 ]

A moral de senhor é a moral natural, construída sobre a ascendência natural dos mais fortes sobre os mais fracos, dos aptos sobre os inaptos, dos melhores sobre os piores. Para o mestre natural, o aristocrata natural, não há oposição entre bem e mal; ele divide as coisas entre “nobre” e “desprezível”, o que é típico do senhor e o que é típico do escravo.[ 80 ] Tudo que é grande e potente é bom; tudo que é trivial e fraco é ruim. Ao contrário disso, a moral de escravo é um conjunto de tentativas de proteção dos mais fracos perante os mais fortes, de garantir a sobrevivência dos coitados e de tornar sua existência o mais confortável possível:

Suponhamos que os violentados, os oprimidos, os sofredores, os cativos, os frágeis e inseguros de si mesmos – suponhamos que eles queiram ater-se a uma moral: o que vai haver em comum entre aquilo que eles valorizam moralmente? [...] O olhar do escravo não é favorável às virtudes dos poderosos: ele é cético, suspeita, suspeita sutilmente de tudo aquilo de “bom” que é louvado lá [pelos aristocratas] – ele busca convencer-se de que até a felicidade deles não é genuína. Essas qualidades todas aparecem [na moral do escravo] invertidas, sob uma luz que as destaca conforme servem para aliviar a existência daqueles que sofrem: nela, a piedade, a ajuda caridosa, o coração complacente, a paciência, a diligência, a humildade e o coleguismo são honrados – pois essas são as qualidades mais úteis, e quase que os únicos meios, para se garantir a existência [do escravo]. A moral de escravo é essencialmente a moral da utilidade.[ 81 ]

Aqui nós não podemos deixar de notar que as “virtudes” da moral de escravo guardam semelhanças imensas com as virtudes honradas pelo cristianismo. Isso é o que nos leva, finalmente, ao coração do ateísmo de Nietzsche. Ele considerava o cristianismo (ao menos em certos aspectos) uma espécie de moral de escravo e, portanto, uma das causas da decadência do Ocidente. Ao enfocar o amor de Deus pelos fracos, pelos inferiores, pelos escravos e pelos pobres, a caridade cristã trabalhou “para preservar tudo que era doente e sofrível – o que quer dizer, na verdade, que trabalhou para piorar a raça européia”.[ 82 ]

O cristianismo foi até hoje a espécie mais catastrófica de arrogância. Homens que não eram sérios nem elevados o bastante para, enquanto artistas, formaremo homem; homens que não eram fortes nem perspicazes o suficiente, carentes da necessária abnegação para estabelecer a lei fundamental de que devem perecer os degenerados e fracassados; homens que não eram nobres o bastante para enxergar o insondável abismo que há na escala entre um homem e outro – tais homens foram os que até hoje ditaram o rumo da Europa, com sua “igualdade perante Deus”, até criarem essa espécie medíocre, diminuta, um tipo que beira o ridículo, um animal de rebanho, um doente, algo que quer desesperadamente agradar, o europeu de hoje.[ 83 ]

Colocando de outra maneira: primeiro o judaísmo[ 84 ] e depois o cristianismo começaram a minar a sociedade aristocrata ao afirmar que todos são iguais perante Deus e ao elevar as preocupações com os pobres, os desfavorecidos, os escravos, os doentes, e assim prepararam o caminho para a paixão moderna pela igualdade, pela democracia e pela aceitação do ideal utilitarista que coloca o fim da sociedade na eliminação do sofrimento e na maximização do prazer. Mas, como já vimos, o utilitarismo era essencialmente ateísta e recrutava-se nele um tipo diluído de caridade cristã, sem o rigor moral e as exigências irrevogáveis de um Juiz divino, que dirigia todo o esforço moral à maximização do prazer físico para o maior número de pessoas, assim criando o “animal de rebanho [...], o europeu de hoje”.

Temos então que, historicamente, o cristianismo em sua forma original foi transformado num cristianismo liberal, para finalmente tornar-se num utilitarismo liberal e ateu. Nessa transformação, todo o ascetismo original, as exigências incondicionais, a vontade apaixonada de sofrer por e com Cristo, as árduas virtudes, o deslumbramento perante o divino, a abnegação e a batalha heróica pela santidade foram degradados pelo cristianismo liberal, e depois pelo utilitarismo liberal e ateu, até o ponto de serem hoje um tipo de caridade açucarada, em nada exigente e feita para o conforto no mundo. Essa destruição do cristianismo, portanto, foi o que nos trouxe o utilitarismo e seus “verdes pastos de felicidade para o rebanho humano, com muita segurança, conforto, sem perigo algum e uma vida mais feliz para todos”, na qual “os dois hinos que vivem a entoar com freqüência, suas duas doutrinas, são a ‘igualdade de direitos’ e a ‘compaixão pelos sofredores’ – e o sofrimento, por sua vez, é algo que para eles deve ser abolido”.[ 85 ] É nesse sentido que Nietzsche, o ateu por antonomásia e autoproclamado “Anticristo”, podia lamentar a morte de Deus: foi isso que havia trazido a derradeira “animalização do homem na espécie-anã das reivindicações e dos direitos iguais”.[ 86 ]

A cura para tudo isso, anuncia Nietzsche, é o retorno à aristocracia natural. A moral-de-escravo trata como um mal tudo aquilo que é nobre, exigente e duro. A natureza da aristocracia, assim como a própria natureza do darwinismo, é cruel e impiedosa na sua exigência por grandeza e no seu desprezo pelo desejo tipicamente inferior por conforto e prazer físico. Para salvar a Europa de sua degradação definitiva, nós devemos ir além da distinção entre bem e mal e substituí-la pela distinção aristocrática entre nobre e desprezível, forte e fraco.

Não se tratava de um mero projeto filosófico de Nietzsche, como gostam de dizer alguns acadêmicos nietzschianos. Ele vivia para resolver o “problema europeu” através do “cultivo de uma nova casta que governará a Europa”.[ 87 ] A fim de reanimar o elemento aristocrático dormente na Europa e revivê-la, um grande perigo devia ser apresentado a ela, um perigo que acordasse os homens de seu torpor utilitarista e os fizessem recobrar seu desejo de lutar e conquistar:

[Eu] preferiria um aumento na atitude ameaçadora da Rússia [por exemplo], para que a Europa fosse obrigada a resolver, sob a ameaça, isto é, a obter uma vontade única, por meio de uma nova casta de senhores que governe a Europa, uma vontade duradoura, terrível, que fixe uma meta de milênios, para pôr fim à velha comédia de sua divisão em estadinhos e, do mesmo modo, ao seu dinâmico democrático querer mais. Passou o tempo da política miúda; o próximo século nos promete a luta pelo domínio do mundo, a necessidade de fazer a grande política.[ 88 ]

Não se pode deixar de ouvir as botas em marcha do Terceiro Reich, uma inferência óbvia que os acadêmicos progressistas, propagandistas de Nietzsche, negam veementemente. Mas não é o suficiente apresentar, nos escritos de Nietzsche (como eles mesmos fazem), algumas frases antigermânicas ou pró-judaicas[ 89 ] e com isso tentar livrá-lo de tais acusações. É possível que Nietzsche, se tivesse vivido mais três décadas, não aprovasse a forma como Hitler foi além do bem e do mal para resolver o problema da Europa. Mesmo assim, Nietzsche foi quem proferiu o chamado que Hitler, do seu jeito, atendeu.

Nietzsche completou a rejeição moderna de Deus que começou com Maquiavel. Ele deixou claro, para aqueles que engoliram suas palavras, quais eram as reais implicações de se viver sem Deus – um mundo sem bem nem mal, governado pela Vontade-de-Poder. Já em 1884, uma elocução megalomaníaca soturna encontrava seu espaço em suas cartas e livros. Nessas cartas, ele falava em dar “um golpe destrutivo no cristianismo”, iniciando a “maior e decisiva guerra da história”, na qual “haverá convulsões na Terra como jamais houve”, e anunciava que “o velho deus foi abolido, e eu mesmo é que, de agora em diante, governarei o mundo”, e assinava “Nietzsche Cesar”, “O Anticristo Friedrich Nietzsche”, ou, mais diretamente, “O Anticristo”.[ 90 ] Em 1885, em meio a esse pandemônio, Nietzsche começou a escrever Além do bem e do mal, publicando-o no ano seguinte. O Anticristo foi escrito em 1888, mas não foi publicado até 1894.

A dedicação completa de Nietzsche a beber, até à última gota, os abismos sombrios do seu ateísmo terminou, em janeiro de 1889, com o seu próprio mergulho nas profundezas da insanidade, apenas quatro meses depois de ter escrito O Anticristo. A última década de sua vida ele viveu nos confins mais escuros da loucura, deteriorando-se, em todos os sentidos, mantendo todos na casa acordados quando, num súbito, desatava a repetir, num tom amedrontador como o de um tambor de guerra: “Eu estou morto porque sou burro [...] eu sou burro porque estou morto”.[ 91 ]

Em agosto de 1900, Nietzsche foi posto na cova ao lado da de seu pai, um pastor, que morreu quando ele tinha apenas quatro anos. Mas sua fama e influência estavam só começando, como o novo século, o qual seria levado, em breve, com grande ajuda delas, a muito além do bem e do mal. Mesmo antes de sua morte, o pensamento de Nietzsche já estava pegando. Um tipo de culto a Nietzsche já crescia e se desenvolvia lentamente e, depois de sua morte, sem dúvida se alastrou com mais força. Examinaremos a influência nietzschiana nos seus colegas alemães no capítulo em que tratarmos de Hitler, mas o leitor deve ser advertido de que há muito mais males do que aqueles perpetrados pelos nazistas, como se tonará evidente com a nossa próxima figura, o ateu Lênin. Nietzsche, o apóstolo do ateísmo, proclamou o século mais sombrio que o mundo já conheceu.

 

 (BENJAMIN WIKER - Dez Livros que estragaram o Mundo e outros cinco que não ajudaram em nada) 

 

O homem que imagina ser completamente bom é um idiota. Se a consciência nos torna humanos, a imperfeição também é um traço distintivo de nossa espécie. Passamos mais tempo reparando erros do que construindo coisas de valor. Assumir essa característica da nossa condição nos ajuda a ser humildes e, o mais importante, nos faz tomar consciência de quanto ainda precisamos nos aprimorar. Todo o fracasso ou erro nos ensina como fazer melhor.

NOTAS:

65. Friedrich Nietzsche, The Gay Science. Tradução de Walter Kaufmann, New York: Vintage, 1974, seção 125.

66. Charles Darwin, The Descent of Men, Parte I, cap. 5, p. 177.

67. Ibid., Parte II, cap. 21, p. 403.

68. Ibid., Parte II, cap. 21, p. 405.

69. Friedrich Nietzsche, Beyond Good and Evil. Tradução de Walter Kaufmann, New York: Vintage, 1966, seção 225. [Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal: prelúdio de uma filosofia do futuro. Tradução de Mário Ferreira dos Santos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, seção 225].

70. Ibid., seção 228.

71. Ibid., seção 257.

72. Ibid..

73. Darwin, op. cit., Parte I, cap. 5, p.162-163.

74. Nietzsche, op. cit., seção 258.

75. Ibid., seção 259.

76. Ibid., seção 4.

77. Ibid., seção 13.

78. Ibid., seção 259.

79. Ibid., seção 260.

80. Ibid..

81. Ibid..

82. Ibid., seção 62.

83. Ibid..

84. Ibid., seção 195.

85. Ibid., seção 44.

86. Ibid., seção 203.

87. Ibid., seção 251.

88. Ibid., seção 208.

89. Ibid., seções 250-251.

90. Cf. Curtis Cate, Friedrich Nietzsche. New York: Overlook Press, 2002, p. 546-547.

91. Ibid., 559.

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