Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Adultério

por Thynus, em 10.10.16
Em latim, adultério quer dizer alteração, adulteração, colocar uma coisa em lugar de outra, crime de falsidade, uso de chaves falsas, contrato falso. Daí o nome adultério dado a quem profana o leito conjugal, como chave falsa introduzida em fechadura alheia.
 
 
Os prazeres do adultério
I.
É improvável que consigamos apreender esse famigerado assunto se primeiro não nos permitirmos reconhecer o quanto o adultério pode ser tentador e estimulante, especialmente depois de alguns anos de casamento e vários filhos. Antes de começarmos a afirmar que é “errado”, temos de reconhecer o quanto ele pode ser profundamente excitante – pelo menos por algum tempo.
Portanto vamos imaginar mais uma situação. Nosso homem, Jim, está no escritório, entrevistando candidatos para um trabalho temporário de design gráfico. Ele já passou algumas horas entrevistando uma sucessão de jovens de cavanhaque, quando chega a candidata final. Seu nome é Rachel, tem 25 anos (ele tem quase 40 e está bastante consciente da morte) e está usando jeans, tênis e uma blusa verde-escuro com decote em V sobre, aparentemente, não muita coisa mais, provocando a imaginação em torno da andrógina parte superior de seu corpo. Eles falam sobre custos de impressão, margens, gramatura de papel e fontes – mas, claro, os pensamentos de Jim estão longe. Teríamos de temer pelo estado mental de um homem que não reagisse a essa figura de juventude, saúde e energia.
Rachel não tem nem um pouco da arrogância das supermodelos, do ressentimento contra a aparência que a beleza às vezes cria em mulheres jovens, ambiciosas e inteligentes que se ofendem com o fato de a maior parte do mundo estar mais interessada no seu físico do que em suas ideias. Ela tem o entusiasmo inocente e ingênuo de uma pessoa que foi criada numa fazenda distante, por pais amorosos e idosos, que nunca assistiu à televisão ou frequentou o ensino médio.
Descrever o que Jim quer como “sexo” é realmente reduzir as raízes de sua empolgação. O antigo sinônimo para sexo geralmente se aplica nesse caso, pois, em essência, Rachel está provocando em Jim o desejo de conhecê-la. Conhecer suas coxas, seus tornozelos e seu pescoço, naturalmente, mas também o guarda-roupa, os livros que ela tem na estante, o cheiro de seu cabelo depois do banho, seu temperamento quando era uma garotinha e as confidências que ela troca com as amigas.
Nessa ocasião, como em poucas outras na vida de Jim, o destino dá uma reviravolta incomum. Vários meses após o fim do projeto de Rachel com sua empresa, ele é convidado a ir a Bristol para participar de uma cerimônia de premiação no Holiday Inn, fora do perímetro do M4, com um de seus clientes – e descobre no saguão verde-limão, no início da noite, que Rachel também está lá. Ela já o esqueceu completamente, mas, após umas poucas dicas, retoma a habitual efusividade, e rapidamente aceita sua sugestão para que se encontrem no bar após a cerimônia. Como um assassino de primeira viagem, que intuitivamente sabe como distribuir as pedras no saco que contém o corpo, Jim manda um e-mail para sua esposa desejando boa-noite a ela e seus dois filhos e especificando que talvez não ligue para ela mais tarde – como geralmente faz nessas circunstâncias – porque a noite ameaça se prolongar.
Eles tomam uma taça de vinho no bar vazio por volta da meia-noite. Seu flerte é preciso e direto ao ponto. Sua audácia de homem de meia-idade, casado, tentando seduzir mulheres não deve ser confundida com confiança: é apenas o medo da morte, uma aterrorizada consciência dos poucos momentos como esse que ele terá oportunidade de experimentar novamente. É isso que dá a Jim a energia para prosseguir de maneiras que ele jamais ousaria fazer quando a vida parecia ter uma extensão ilimitada em que ele ainda podia se dar ao luxo de se sentir tímido e inseguro.
Eles trocam o primeiro beijo no corredor que conduz aos elevadores. Ele a pressiona contra a parede ao lado de um cartaz que anuncia uma taxa promocional para hospedagem familiar, com café da manhã grátis para as crianças no domingo. A língua dela acolhe a dele ansiosamente e seu corpo empurra ritmicamente o dele. Este logo se torna um dos melhores momentos da vida de Jim.
 
2.
Ele volta para casa e tudo continua como antes. Ele e Daisy colocam as crianças na cama, saem para jantar, discutem a necessidade de comprar um fogão novo, brigam e não fazem muito sexo.
Jim, é claro, mente sobre tudo que aconteceu. Vivemos numa época moralista. Nossa era permite que muitas coisas aconteçam antes do casamento; mas não aceita muito depois dele. Os jornais trazem uma sucessão de histórias sobre indiscrições sexuais de jogadores de futebol e políticos, e o tom dos comentários dos leitores mostra o tipo de reação que o deslize de Jim provocaria no cidadão comum. Ele seria rotulado de traidor, desprezível, cachorro e rato.
Esses rótulos são assustadores para Jim, mas ao mesmo tempo ele se pergunta se deveria sucumbir a esses moralismos fáceis. Vamos acompanhá-lo em seu ceticismo. Ao menos consideremos a ideia de que o que Jim fez com Rachel não foi exatamente errado. Na verdade, vamos mais fundo, sugerindo que – contrariamente à opinião pública – o verdadeiro erro está em outra parte: estranho seria não ter nenhum desejo de cometer adultério. Isso poderia ser considerado não apenas estranho, mas errado no sentido mais profundo da palavra, pois é irracional e contra a natureza. A completa recusa das possibilidades adúlteras representa um tremendo fracasso da imaginação, uma corrompida imperturbabilidade diante do espaço de tempo tragicamente curto que nos foi concedido sobre a terra, uma negligente consideração pela gloriosa realidade da nossa natureza, uma negação do poder que devem ter sobre o nosso ser racional gatilhos eróticos como o sedutor enlaçar de dedos durante encontros e o dissimulado pressionar de joelhos ao fim de refeições no restaurante, pelos sapatos altos e camisas azuis, por lingeries de algodão cinza e cuecas de lycra, por coxas macias e panturrilhas musculosas – pontos sensoriais tão dignos de reverência quanto os ladrilhos de Alhambra e a Missa em Si menor, de Bach. Será possível confiar em alguém que sinceramente não tenha mostrado nenhum interesse em ser infiel?
 
3.
A sociedade acredita que as pessoas casadas que descobrem que seus parceiros têm um caso têm todo o direito de ficar furiosas, de expulsá-los de casa, de cortar suas roupas e massacrar sua reputação ante os amigos. O adultério é motivo para que uma pessoa se sinta indignada e ultrajada e que o traidor precise pedir desculpas de formas extremas por suas horríveis ações.
Mas podemos propor que, por mais magoado que alguém esteja, a fúria diante da notícia da infidelidade do parceiro não é, realmente, garantida. O fato de o cônjuge ter a temeridade de imaginar, que dirá pôr em prática, que talvez fosse interessante enfiar a mão dentro de calças ou saias desconhecidas não deve ser tão surpreendente assim após uma década ou mais de casamento. Deveria mesmo haver a necessidade de pedir desculpas por um desejo que não poderia ser mais compreensível ou comum?
Ao invés de pedir que o “traidor” se desculpe, o “traído” deveria começar a pedir desculpas – desculpas por serem quem são, desculpas por envelhecerem, desculpas por às vezes serem entediantes, por forçarem o “traidor” a mentir porque a barreira da confiabilidade foi colocada proibitivamente alta e (já que entramos no assunto) por serem humanos. Com muita facilidade parece que o parceiro adúltero fez tudo errado, e o sexualmente puro não fez nada. Mas este é um entendimento restrito do que “errado” significa. Certamente o adultério vira manchete, mas há maneiras menores, embora não menos poderosas, de trair uma pessoa, por exemplo, não conversando com ela o bastante, parecendo distraído, ficando de mau humor – ou apenas deixando de evoluir e encantar.
 
4.
A pessoa que fica brava por ter sido “traída” está fugindo de uma verdade básica e trágica: não podemos ser tudo para outra pessoa. Mas, em vez de aceitar este pensamento horrível com honrada graça e melancolia, ela pode ser encorajada a acusar o “traidor” de estar moralmente em erro por encontrar falhas nela. No entanto o problema do adultério está nas loucas ambições do casamento moderno, com sua insana ideia de que uma pessoa poderia esperar, plausivelmente, oferecer uma solução sexual e emocional eterna para a vida de alguém.
Dando um passo atrás, o que torna o casamento moderno diferente de seus precedentes históricos é seu princípio fundamental de unir amor, sexo e família durante toda uma vida com uma mesma pessoa. Nenhuma outra sociedade foi tão rigorosa, tão esperançosa – e portanto tão desapontada – com o casamento.
No passado, essas três necessidades distintas – amor, sexo e família – eram sabiamente diferenciadas e separadas umas das outras. Os trovadores da Provença do século XII eram especialistas no amor romântico. Eram versados na dor inspirada pela visão de uma figura graciosa, na insônia ante a perspectiva de um encontro, no poder de umas poucas palavras ou olhares para provocar um elevado estado de espírito. Mas esses cortesãos não expressaram nenhum desejo de associar essas valorizadas emoções a intenções paralelas práticas, como criar uma família ou mesmo dormir com aqueles a quem amavam ardentemente.
Os libertinos da Paris do princípio do século XVIII eram comparavelmente devotados ao sexo: eles reverenciavam o prazer de desabotoar as vestes de uma pessoa pela primeira vez, a excitação de explorarem-se uns aos outros lentamente à luz de velas, a emoção subversiva de seduzir alguém secretamente durante uma missa. Mas esses aventureiros eróticos também compreendiam que seus prazeres pouco tinham a ver com o estabelecimento de um ambiente para o amor e a criação de uma casa cheia de filhos.
Quanto ao impulso de criar uma família, este projeto é conhecido da maior parte da humanidade desde os nossos primórdios na África Oriental. No entanto, em todo esse tempo, ele muito raramente levou as pessoas a pensar que precisaria estar associado a um constante desejo sexual ou a frequentes sensações de desejo romântico ante a visão do outro pai à mesa do café da manhã.
A independência, se não a incompatibilidade, de nossos lados sexuais, românticos e familiares foi considerada um aspecto natural e universal da vida adulta até que, na metade do século XVIII, nos países mais prósperos da Europa, um novo e excepcional ideal começou a se formar num segmento particular da sociedade. Esse ideal propunha que as pessoas casadas deveriam, daí para a frente, não apenas se tolerarem umas às outras pelo bem dos filhos; elas também deveriam se amar e desejar. Deveriam manifestar em seus relacionamentos o mesmo tipo de energia romântica dos trovadores e o mesmo entusiasmo sexual dos libertinos. O novo ideal colocou assim diante do mundo a persuasiva noção de que nossas necessidades seriam resolvidas de uma só vez, com a ajuda de uma só pessoa.
Não foi por coincidência que o novo ideal de casamento foi opressivamente criado e sustentado por uma classe econômica específica: os burgueses, cujo equilíbrio entre liberdade e restrição ele estranhamente espelhou. Numa economia que se expandia rapidamente graças a desenvolvimentos tecnológicos e comerciais, essa classe recentemente encorajada já não precisava aceitar as restritas expectativas das ordens inferiores. Com algum dinheiro sobrando para lhes prover relaxamento, advogados e mercadores burgueses poderiam elevar suas expectativas e esperar mais de uma parceira do que apenas alguém com quem sobreviver ao próximo inverno. Ao mesmo tempo, seus recursos não eram ilimitados. Não tinham o ilimitado lazer dos trovadores, cuja riqueza herdada lhes permitia passar, sem dificuldade, três semanas escrevendo uma carta celebrando a testa de suas amadas. Havia negócios e armazéns a administrar. A burguesia também não podia se permitir a arrogância social dos libertinos aristocráticos, cujo poder e status haviam criado neles uma confiança indiferente para partir o coração das pessoas e abalar suas famílias – bem como os meios para enxugar quaisquer consequências desagradáveis que suas excentricidades pudessem criar.
A burguesia, portanto, não estava nem esmagada demais a ponto de não acreditar no amor romântico nem isenta de necessidades para ser capaz de perseguir, sem limite, os envolvimentos eróticos e emocionais. O desejo de realização por meio do investimento em uma única pessoa em um contrato legal e eterno representava uma solução frágil para o equilíbrio entre necessidade emocional e restrição prática.
O ideal burgês produziu uma série de comportamentos-tabu que anteriormente teriam sido tolerados, se é que não completamente ignorados ou, pelo menos, não vistos como causa da destruição de um casamento ou de uma família. Uma amizade mórbida entre a esposa, o adultério ou a impotência – todos agora ganharam uma importância nova e de grande significado. A ideia de começar um casamento sem amor ou indiferente era tão ridícula para um burguês quanto o conceito de não ter amantes fora do casamento seria para um libertino.
O progresso da ambição romântica burguesa pode ser identificado na ficção. Os romances de Jane Austen ainda parecem reconhecidamente modernos porque suas aspirações para seus personagens espelham, e ajudaram a moldar, aquelas que nós mesmos temos. Como Elizabeth Bennet em Orgulho e preconceito ou Fanny Price em Mansfield Park, também ansiamos por conciliar nosso desejo de ter uma família segura com sentimentos sinceros por nossos cônjuges. Mas a história do romance também aponta para aspectos mais sombrios do ideal romântico. Os sem dúvidas dois maiores romances da Europa do século XIX, Madame Bovary e Anna Karenina, nos confrontam com duas mulheres que, como era típico de sua época e de suas posições sociais, anseiam por um complexo conjunto de qualidades em seus parceiros: elas querem que eles sejam ao mesmo tempo maridos, trovadores e libertinos. Mas no caso tanto de Emma quanto no de Anna, a vida lhes dá apenas o primeiro dos três. Elas estão presas em casamentos economicamente seguros e sem amor que, em épocas anteriores, seriam motivo de inveja e comemoração, mas que agora parece intolerável. Ao mesmo tempo, elas habitam um mundo burguês que não pode aprovar suas tentativas de ter relacionamentos amorosos fora do casamento. O suicídio final de ambas ilustra a irreconciliável natureza do novo modelo de amor.
 
5.
O ideal burguês não é totalmente uma ilusão. Existem, claro, casamentos que juntam as três vertentes de ouro da realização – romântica, erótica e familiar – e que jamais serão abalados pelo adultério. Não podemos dizer, como os cínicos às vezes se veem tentados a fazer, que casamento feliz é um mito. É infinitamente mais angustiante que isso: é uma possibilidade, só que muito, muito rara. Não há uma razão metafísica pela qual um casamento não possa honrar todas as nossas esperanças, só que as probabilidades estão esmagadoramente contra nós. Uma verdade trágica que deveríamos enfrentar calmamente, antes que a vida nos ensine do seu jeito brutal e a seu tempo.
 
 
A estupidez do adultério
I.
Mas vamos mudar de lado novamente: se considerar o casamento a resposta perfeita a todas as nossas esperanças de amor, sexo e família é ingênuo e equivocado, considerar o adultério uma resposta às frustrações do casamento o é tanto quanto.
O que está essencialmente “errado” na ideia de adultério, assim como com certa ideia de casamento, é seu idealismo. Embora possa parecer à primeira vista uma atividade cínica e desanimadora com a qual se envolver, o adultério na verdade sugere uma convicção que talvez possamos reorganizar magicamente as deficiências do casamento com uma aventura paralela. No entanto, dar crédito a essa noção é não entender as condições que a vida impõe sobre nós. É impossível dormir com alguém fora do casamento sem estragar as coisas que se valorizam dentro dele – assim como é impossível manter a fidelidade no casamento e não perder alguns dos maiores e mais importantes prazeres sensoriais ao longo do caminho.
 
2.
Não existe uma resposta para as tensões do casamento, se com “resposta” queremos implicar um acordo no qual não haja perda, e no qual todo elemento positivo importante para nós puder coexistir com todos os outros sem se prejudicarem.
As três coisas que queremos nesta esfera – amor, sexo e família – prejudicam-se e afetam-se umas às outras de maneiras diabólicas. Amar uma pessoa põe em risco nossa capacidade de fazer sexo com ele ou ela. Ter um encontro secreto com uma pessoa a quem não amamos, mas que consideramos atraente, põe em risco o relacionamento com a pessoa que amamos, mas que já não nos excita. Ter filhos põe em risco tanto o amor quanto o sexo e, no entanto, negligenciar as crianças para nos concentrarmos em nosso relacionamento e nossas emoções sexuais significa colocar em risco a saúde e a estabilidade mental da próxima geração.
A frustração gera, periodicamente, o impulso de buscar uma solução utópica para essa confusão. Talvez um casamento aberto funcione, pensamos. Ou uma política de segredos. Ou uma renegociação anual de nosso contrato. Ou mais tempo de creche. Tudo isso está fadado a fracassar, porque a perda está inscrita nas regras da situação. Se dormirmos com outras pessoas, ameaçaremos nosso amor e a saúde psicológica de nossos filhos. Se não fizemos isso, ficaremos insípidos e perderemos as excitações de novos relacionamentos. Se mantivermos um caso em segredo, ele nos corroerá por dentro e tolherá nossa capacidade de receber o amor do outro. Se contarmos a verdade, nosso parceiro entrará em pânico e jamais conseguirá superar nossas aventuras sexuais (mesmo que elas nada signifiquem para nós). Se concentrarmos tudo em nossos filhos, eles acabarão por seguir suas próprias vidas, deixando-nos infelizes e solitários. Mas se ignorarmos nossos filhos por causa de buscas românticas enquanto casal, os marcaremos, e eles se ressentirão para sempre. Como um lençol curto, ao buscarmos aperfeiçoar ou melhorar um lado de nossa vida conjugal, apenas descobriremos e atrapalharemos todos os outros.
 
3.
Ao entrar em um casamento, qual deveria ser a mentalidade realista de uma pessoa? Que votos poderíamos fazer ao parceiro que permitiria uma chance sincera de fidelidade? Certamente, algo bem mais cauteloso e pessimista do que as usuais platitudes, por exemplo: “Eu prometo me desapontar com você, e somente com você. Prometo fazer de você o único recipiente do meu arrependimento, em vez de experimentar os arrependimentos que acompanhariam os múltiplos casos e uma vida de Don Juan. Investiguei as diferentes opções de infelicidade, e foi com você que decidi me comprometer.” Estas seriam as generosas e delicadas promessas não românticas que os casais deveriam fazer uns aos outros no altar.
Consequentemente, um caso extraconjugal seria uma traição não da esperança irrealista, mas de nossos votos de nos decepcionarmos de uma determinada maneira. O parceiro traído não se queixaria, furiosamente, de que esperava que o outro fosse feliz com ele ou ela por si. Ele poderia, mais pungente e legitimamente, chorar: “Eu esperava que você fosse fiel ao tipo específico de desapontamento que eu represento.”
 
4.
Quando a ideia de um casamento baseado em amor emergiu no século XVIII, ela substituiu uma razão mais prosaica e mais antiga para o noivado: que uma pessoa deveria se casar porque tinha chegado à idade certa para isso, porque tinha identificado alguém cuja visão ela poderia suportar, porque não queria ofender seus pais e vizinhos, porque tinha alguns bens a proteger e porque desejava criar uma família.
De acordo com a nova filosofia do casamento, no entanto, somente uma razão para o casamento era considerada legítima: amor profundo. Entendia-se que essa condição implicava uma variedade de sentimentos e sensações obscuras, mas totêmicas – que a pessoa não suportaria ficar longe da vista da amada, que seria fisicamente atraída por sua aparência, que estaria afinada com cada movimento de sua mente, que desejaria ler poesia com ela ao luar, e que estaria pronta para fundir sua alma com a dela.
Em outras palavras, o casamento deixou de ser uma instituição para se tornar a consagração de um sentimento; passou de rito de passagem sancionado externamente para se tornar uma resposta internamente motivada a um estado emocional.
O que justificava a mudança, aos olhos de seus modernos defensores, era um novo e intenso medo da “inautenticidade”, um fenômeno psicológico no qual os sentimentos internos de uma pessoa diferiam dos que eram esperados dele ou dela pelo mundo exterior. O que a antiga escola chamaria respeitosamente de “encenação” foi agora recategorizado como “mentira” – enquanto “fingir que as coisas eram civilizadas” foi agora mais melodramaticamente recaracterizado como “trair a si mesmo”. Esta ênfase em alcançar a congruência entre o eu interno e o externo criou qualificações novas e rígidas do que um casamento decente deveria implicar. Sentir apenas uma afeição intermitente pelo companheiro, fazer um sexo medíocre seis vezes ao ano, manter um casamento pelo bem-estar dos filhos – tais compromissos eram considerados abdicações do fato de se ser completamente humano.
 
5.
Quando jovens adultos, a maioria de nós tem um respeito intuitivo pela visão de um casamento baseado no amor. Dificilmente conseguiremos evitar isso, dada nossa cultura voltada para ele, e, no entanto, com os anos, uma pessoa normalmente começa a questionar se esta não é uma fantasia sonhada por um grupo de autores e poetas ingênuos e imaturos, algumas centenas de anos atrás – e se não se deveria dar lugar àquela antiga visão de instituição que serviu muito bem à humanidade durante a maior parte de sua história.
Esta reavaliação baseia-se na percepção de quanto nossos sentimentos podem ser caóticos e enganadores. Podemos, por exemplo, ver um rosto atraente quando atravessamos a rua e querer mudar a vida de ponta-cabeça. Quando uma pessoa tentadora com quem conversamos eroticamente num chat na internet sugere um encontro num hotel de aeroporto, podemos nos sentir tentados a mandar nossa vida pelos ares em troca de algumas horas de prazer. Há momentos em que nos sentimos tão irritados com nosso parceiro que gostaríamos de vê-lo atropelado por um carro. Mas dez minutos depois, lembramos que preferiríamos morrer a ficar sozinho. Durante o tédio dos fins de semana, podemos ficar desesperados para que nossos filhos cresçam, percam a vontade de pular do trampolim e nos deixem em paz para sempre para que possamos ler uma revista e curtir uma sala de estar arrumada – e então, um dia depois, no escritório, queremos gritar de angústia porque uma reunião parece que vai demorar mais do que o previsto e não poderemos botá-los na cama.
Os defensores da visão do casamento baseado no sentimento veneram as emoções por sua sinceridade e autenticidade, mas só conseguem fazer isso porque deixaram de olhar atentamente para o que efetivamente passa pelo caleidoscópio emocional da maioria dos seres humanos de qualquer época: todas as forças contraditórias, insanas, sentimentais e hormonais que nos puxam para centenas de direções enlouquecidas e inconclusivas. Honrar cada uma dessas emoções seria anular qualquer chance de uma vida coerente. Não poderíamos nos sentir realizados se não fôssemos inautênticos em parte do tempo, ou talvez em grande parte dele – inautênticos em relação a um desejo passageiro de esganar os filhos, de envenenar a esposa ou de terminar o casamento por causa de uma discussão sobre a troca de uma lâmpada.
O romantismo chamou a atenção para os perigos da inautenticidade, porém os perigos não serão menores se tentarmos sempre alinhar nossa vida externa com nossas emoções. Damos aos nossos sentimentos um peso grande demais quando queremos que eles sejam nossos guias nos importantes projetos de nossa vida. Somos proposições químicas caóticas, em urgente necessidade de princípios básicos aos quais possamos nos referir durante nossos breves períodos racionais. Deveríamos nos sentir agradecidos e seguros pelo conhecimento de nossas circunstâncias externas estarem frequentemente desalinhadas com o que sentimos; é sinal de que provavelmente estamos no rumo certo.
 
6.
Podemos acolher o casamento como uma instituição que resiste, a cada dia, sem parecer ter muito respeito pelo que seus participantes estão sentindo. Essa benigna negligência pode refletir melhor os desejos de longo prazo de seus participantes do que um sistema que a cada hora toma seu pulso emocional e ajusta sua condição em conformidade com ele.
O casamento também é melhor para as crianças. Ele as poupa da ansiedade diante das consequências das discussões de seus pais: podem tomar como certo que seus pais gostam suficientemente um do outro mesmo brigando e lutando todos os dias, como as crianças fazem no parquinho.
Em um casamento considerado bom, os dois cônjuges não deveriam se culpar por suas infidelidades; deveriam se sentir orgulhosos, essencialmente, por terem conseguido permanecer comprometidos com sua união. Os relacionamentos frequentemente começam com uma ênfase moral no lugar errado, como se a ânsia de se afastar fosse repugnante e impensável. Mas, na realidade, o que é maravilhoso e digno de honra é a habilidade de ficar, e, no entanto, isso geralmente é tomado como certo, como o estado normal das coisas. Assistir à vida passar de dentro da gaiola do casamento sem pôr em prática os impulsos sexuais é um milagre da civilização e da bondade, algo pelo qual ambos deveriam agradecer todos os dias.
Os casais fiéis deveriam reconhecer o tamanho do sacrifício que estão fazendo pelo amor e pelos filhos – e deveriam poder sentir orgulho de seu valor. Não há nada de normal ou particularmente agradável na renúncia sexual. A fidelidade merece ser considerada uma façanha e ser constantemente elogiada – de preferência com algumas medalhas e aclamação pública, em vez de ser considerada uma regra corriqueira, que deixaria o outro enraivecido se alguma vez fosse quebrada por um caso. Um casamento leal deveria sempre manter dentro de si a consciência da imensa paciência e generosidade que as duas partes estão mostrando uma à outra ao conseguirem não dormir por aí (e, aliás, ao evitarem de matar uma à outra). Elas não deveriam se enfurecer ao descobrirem um adultério, mas se sentirem admiradas e abençoadas pelos períodos de fidelidade e calma que, contra todas as probabilidades, conseguiram manter em outras ocasiões.
.
(Alain de Botton - Como pensar mais sobre sexo)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:13



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D