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ABELARDO E HELOÍSA

por Thynus, em 18.02.15
Abelardo é a primeira figura do intelectual moderno. Chamaram-lhe de
cavaleiro da dialética.
Abelardo e Heloísa. Ela tem 17 anos, é bela e culta. O amor que os
une realça o significado da mulher no mundo, reforçando a teoria do amor
natural tal como ele aparece no Romance da Rosa, um século depois. A
aparição de Heloísa ao lado de Abelardo é a glorificação da carne, do amor
carnal que mais tarde os humanistas iriam considerar o principal requisito da
plenitude do ser humano. Estamos longe do lirismo abstrato dos trovadores e
da aura do Tristão e Isolda, em que pese o erotismo intenso da lenda. Ao
falar dos homens da Idade Média, um historiador moderno não se conteve, e
exclamou: “Mas esses homens somos nós mesmos!” Nossa modernidade vem
de lá, queiramos ou não
.
(FRANKLIN DE OLIVEIRA in HENRY R. LOYN - DICIONÁRIO DA IDADE MÉDIA)

Na História Calamitatum
[História das Minhas Desgraças], Abelardo responsabiliza a inveja de seus
rivais e o seu próprio orgulho por seus fracassos. Mas conquistou o interesse
e a devoção de mais de uma geração de estudantes por ter tornado a lógica
de Aristóteles clara e por ter explorado com brilhantismo as funções e
limitações da linguagem.

Como filósofo, Abelardo foi corretamente descrito como um não-realista.
No início de sua carreira, afastou-se da concepção predominante que via os
universais (por exemplo, gênero, espécie) como coisas existentes (res).
Distinguiu-se mais por suas penetrantes glosas a textos de Aristóteles do que
pela criação de uma síntese filosófica. Em teologia, Abelardo examinou
criticamente as tradições recebidas do pensamento cristão; sua obra Sic et
Non é uma tentativa de resolver as aparentes contradições existentes no
âmbito do ensino cristão através da aplicação da dialética. Seus métodos não
eram incomuns para a época, mas suas conclusões foram julgadas
imprudentes por muitos. Seus ensinamentos teológicos refletiram seu nãorealismo
dialético; apresentou a Trindade em termos de atributos divinos
(poder, sabedoria e amor) e não de pessoas divinas. Considerou o trabalho
de redenção do Cristo menos como um fato objetivo (a libertação do homem
do pecado ou do demônio) do que como um exemplo de ensino e sacrifício
que provoca uma resposta subjetiva ao amor divino. Na ética, Abelardo
afastou-se da preocupação com ações para dedicar-se ao estudo da intenção
e do consentimento. Sua tendência para a interiorização também ficou
evidente nas substanciais contribuições literárias, legislativas e litúrgicas que
fez para o estabelecimento do convento do Paracleto, tendo Heloísa como
abadessa: as monjas eram exortadas a estudar e orar, e a não se sentirem
tolhidas, mais do que o necessário, por observâncias externas. Abelardo
admirava as figuras contemplativas que tinham sido modelos de sabedoria e
virtude, fossem eles pagãos, como Sócrates ou Platão, Cícero ou Sêneca,
profetas, como Elias ou João Batista, ou monges cristãos primitivos, como
Antônio e Jerônimo. Todos eles amaram a sabedoria e todos, portanto, como
Cristo, mereceram o nome de filósofos.

(HENRY R. LOYN - DICIONÁRIO DA IDADE MÉDIA)
 
Abelardo seduziu Heloísa, ou talvez tenha sido ela a seduzi-lo.
Tiveram um filho e, mais tarde, casaram-se em segredo. O cônego Fulbert
ficou furioso, acima de tudo devido ao segredo. Tanto Abelardo como
Heloísa receavam que o conhecimento da sua união significasse o fim da
vida acadêmica de Abelardo. Fulbert contratou bandidos, que armaram
uma emboscada e castraram Abelardo. Este passou o resto da vida amargurado
devido às esperanças perdidas, pois um castrato nunca viria a ter
uma carreira eclesiástica.

(CHARLES VAN DOREN - BREVE HISTÓRIA DO CONHECIMENTO)

Certa noite, depois de subornar um dos meus criados, enquanto eu
dormia, castigou-me com a mais cruel e infamante das vinganças:
mandou cortar aquela parte do meu corpo que havia cometido o crime.
Na manhã seguinte a aldeia inteira se juntara diante da minha casa.
Narrar agora o horror, o pasmo, os lamentos e os gritos dos amigos
seria muito difícil e talvez impossível.

(Abelardo, Storia delle mie disgrazie, Garzanti, Milão, 1974)

Sob ogivas litúrgicas
arrepiou-me o chiar de carnes entre tenazes de brasa,
a surda revolta do castrado inconformismo de Abelardo
a eloquência erética das chamas de Savonarola.

(Menotti del Picchia - MELHORES POEMAS)

Como todo mundo sabe, Abelardo era castrado, e
isso não impediu que ele e Heloísa fossem amantes fiéis e que o amor
deles fosse imortal.

(Milan Kundera - RISÍVEIS AMORES)

Também contribuiu para a Renascença do século 12 uma série de descobertas tecnológicas.
A partir desse século surgiram, na Europa, os moinhos de vento, os óculos,
o sistema numérico hindu-arábico, a fabricação de papel.
Outra novidade fez tanto sucesso que o casal Abelardo e Heloísa
se inspirou nela ao dar o nome do filho: Astrolábio.
(Leandro Narloch - Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo)
 
O primeiro a morrer foi Abelardo em1142.
Ela o seguiu vinte e dois anos mais tarde e, antes de exalar o último
suspiro, pediu a Pedro, o Venerável, para ser enterrada junto
com o seu grande amor. Disse que aquele havia sido o último desejo
de Abelardo. O Venerável contentou-a, mas nos séculos seguintes os
despojos foram transferidos para sepulturas separadas até que, no fim
do século XVIII, colocaram-nos novamente juntos nos subterrâneos da
capela de Saint-Léger: mas botaram uma chapa de chumbo entre os
dois amantes para que os esqueletos não se aproveitassem da situação.
(Luciano De Crescenzo - HISTÓRIA DA FILOSOFIA MEDIEVAL)

 
Pedro Abelardo tinha apenas 30 anos aquando da morte de Anselmo. Nascido numa família de cavaleiros da Bretanha francesa, em 1079, formou-se em Tours e partiu para Paris por volta de 1100 para se juntar à escola anexa à catedral de Notre-Dame, dirigida por Guilherme de Champeaux . Incompatibilizando-se com o seu professor, partiu para Melun para fundar a sua própria escola, e mais tarde fundaria uma outra escola rival no Mont-Ste-Geneviève, em Paris. A partir de 1113 Abelardo substituiu Guilherme na direcção da escola de Notre-Dame. Nesse período hospedou-se em casa de Fulbert, cónego da Catedral, e tornou-se tutor da sobrinha deste, Heloísa. Tornaram-se amantes provavelmente em 1116 e, perante a gravidez de Heloísa, Abelardo desposou-a secretamente. Heloísa, que encarara o casamento com relutância, retirou-se pouco depois para um convento. Fulbert, ultrajado pelo modo como Abelardo tratara a sua sobrinha, enviou dois homens ao seu quarto para o castrarem. Abelardo tornou-se monge da abadia de S. Dinis, perto de Paris, e Heloísa entrou como freira para um convento em Argenteuil. O nosso conhecimento da vida de Abelardo até este ponto sustenta-se em grande medida numa longa carta autobiográfica que escreveu a Heloísa alguns anos depois, História das Minhas Calamidades. Trata-se do mais brilhante exercício autobiográfico desde as Confissões de S.to Agostinho.
Em S. Dinis, Abelardo continuou a leccionar (em parte para sustentar Heloísa). Começou a escrever sobre teologia, mas a sua primeira obra, a Teologia do Mais Alto Bem, foi condenada por um sínodo em Soissins, em 1121, que a considerou heterodoxa a propósito da Trindade. Após um breve período na prisão, Abelardo foi enviado de regresso a S. Dinis, mas tornou-se impopular e viu-se obrigado a abandonar Paris. Entre 1125 e 1132 foi abade de S. Gildas, uma abadia corrupta e violenta de uma zona remota da Bretanha francesa. Foi um período muito infeliz da sua vida; as suas tentativas reformadoras tornaram-no alvo de ameaças de morte. Entretanto, Heloísa tornara-se prioresa de Argenteuil, mas ela e as suas freiras foram expulsas do convento em 1129. Abelardo conseguiu descobrir e sustentar um novo convento para as acolher, o Paracleto, na região da Champagne. Em 1136 regressou a Paris para leccionar novamente em Mont-Ste-Geneviève. Os seus ensinamentos atraíram a atenção crítica de S. Bernardo, abade de Claraval e segundo fundador da Ordem de Cister, o pregador da Segunda Cruzada. S. Bernardo denunciou ao Papa a doutrina de Abelardo, conseguindo a sua condenação num Concílio em Sens, em 1140.
Abelardo apelou em vão a Roma contra a sua condenação; foi impedido de continuar a leccionar e viu-se obrigado a retirar-se para a abadia de Cluny. Foi aí que terminou os seus dias, pacificamente, dois anos mais tarde; a sua edificante morte foi descrita pelo abade de Cluny, Pedro o Venerável, numa carta a Heloísa.
A figura de Abelardo é invulgar na história da filosofia por se tratar de um dos amantes mais famosos do mundo, ainda que tenha sido tragicamente forçado ao celibato, uma condição mais característica dos grandes filósofos, tanto medievais como modernos. Mais do que como filósofo, foi como amante — um malogrado Lancelote ou Romeu — que Abelardo ficou célebre nas letras clássicas. Na Epístola de Heloísa a Abelardo, de Pope, Heloísa, do seu claustro gelado, recorda a Abelardo esse dia terrível em que ficou nu e ensanguentado aos seus pés; ela suplica-lhe que não abandone o amor que os une:
Vem! Com teu semblante, tuas palavras, alivia o meu pesar; Tais coisas pelo menos podes ainda conceder. Deixa-me ainda repousar sobre esse peito enamorado, Beber ainda o delicioso veneno dos teus olhos Respirar nos teus lábios e juntar-me ao teu coração; Dá-me o que puderes — e deixa-me sonhar o resto. Ah não! Ensina-me a estimar outras alegrias Encanta com outras belezas os meus olhos apaixonados, Enche-me a visão de luz E faz a minha alma abandonar Abelardo em favor de Deus.
 
A LÓGICA DE ABELARDO
A importância de Abelardo como filósofo deve-se acima de tudo ao seu contributo para a lógica e para a filosofia da linguagem. Quando iniciou a sua carreira de professor, a lógica era estudada no Ocidente principalmente com base nas Categorias e na obra Da Interpretação de Aristóteles, na introdução de Porfírio e em algumas obras de Cícero e Boécio. As principais obras de lógica de Aristóteles não eram conhecidas, e o mesmo acontecia com os seus tratados de física e metafísica. Por conseguinte, as investigações lógicas de Abelardo eram menos bem informadas do que as de, digamos, Avicena; mas Abelardo era dotado de uma espantosa perspicácia e originalidade. Escreveu três tratados independentes de lógica ao longo do período entre 1118 e 1140.
Um dos principais interesses dos lógicos do século XII era o problema dos universais: o estatuto de uma palavra como «homem» em frases como «Sócrates é um homem» e «Adão é um homem». Sendo um escritor combativo, Abelardo afirma que a sua posição sobre a matéria parte da insatisfação das respostas apresentadas por sucessivos mestres à pergunta: de acordo com tais frases, que têm em comum Sócrates e Adão? Roscelin, o seu primeiro mestre, afirmou que tudo o que tinham em comum era o nome — o mero som emitido quando se profere «homem». Roscelin era, como afirmariam os filósofos posteriores, um nominalista, sendo nomen a palavra latina para «nome».
Guilherme de Champeaux , o segundo mestre de Abelardo, afirmava que havia uma coisa muito importante comum a ambos, nomeadamente a espécie humana. Era, segundo a terminologia posterior, um realista, sendo res a palavra latina para «coisa».
Abelardo rejeitou as explicações de ambos os professores e propôs uma solução intermédia. Por um lado, era absurdo afirmar que Adão e Sócrates possuíam apenas o nome em comum; o nome aplicado a cada um deles em virtude da semelhança objectiva que os une. Por outro lado, uma semelhança não é uma coisa substancial como um cavalo ou uma couve; só as coisas individuais existem e seria ridículo sustentar que toda a espécie humana está presente em cada indivíduo. Devemos rejeitar tanto o nominalismo como o realismo.
Quando sustentamos que a semelhança entre coisas não é uma coisa, devemos evitar dar a impressão de estarmos a tratá-las como se nada tivessem em comum; já que aquilo que estamos realmente a dizer é que um e outro se assemelham pelo facto de serem humanos, ou seja, pelo facto de serem ambos seres humanos. Não queremos dizer mais nada senão que são seres humanos e que em nada diferem a esse respeito.
O facto de serem humanos, que não é uma coisa, é a causa comum para a aplicação do nome aos indivíduos.
A dicotomia apresentada por nominalistas e realistas é, como Abelardo mostrou, inadequada. Além das palavras e das coisas, devemos levar em linha de conta o nosso próprio entendimento, os nossos conceitos: são estes que nos permitem falar sobre as coisas e transformar sons vocais em palavras com significado. Não existe um homem universal distinto do nome universal «homem»; mas o nosso entendimento transforma o som «homem» num nome universal. Do mesmo modo, sugere Abelardo, um escultor transforma um bloco de pedra numa estátua; podemos assim dizer, se quisermos, que os universais são criados pela mente tal como uma estátua é criada pelo seu escultor. São os nossos conceitos que dão significado às palavras — mas o significado não é, para Abelardo, uma noção simples. Ele faz uma distinção entre aquilo que a palavra significa e aquilo que a palavra representa. Consideremos a palavra «rapaz». Sempre que ocorre numa frase, significa a mesma coisa: «ser humano jovem do sexo masculino». Na frase «um rapaz corre sobre a relva», onde surge como sujeito, a palavra representa também um rapaz; ao passo que na frase «este velho foi um rapaz», onde surge como predicado, a palavra não representa coisa alguma. Ou seja, «rapaz» só representa algo num determinado contexto se, nesse contexto, fizer sentido perguntar «qual rapaz?»
O tratamento dos predicados oferecido por Abelardo apresenta muitas reflexões lógicas originais. Aristóteles, e muitos filósofos depois dele, preocuparam-se com o sentido de «é» em «Sócrates é sábio» ou «Sócrates é branco». Abelardo julga tratar-se de um problema desnecessário: devemos entender «ser sábio» e «ser branco» como uma única unidade verbal, em que o verbo ser faz simplesmente parte do predicado. E quando «é» equivale a «existe»? Abelardo afirma que na frase «Existe um pai» não devemos tomar «um pai» como representando coisa alguma; em vez disso, a frase é equivalente a «Algo é um pai». Esta proposta de Abelardo continha grandes potencialidades para o desenvolvimento da lógica, mas não foi devidamente aproveitada e desenvolvida na Idade Média — na verdade, o dispositivo teve de esperar pelo século XIX para ser reinventado.

A ÉTICA DE ABELARDO
Abelardo não foi menos inovador na ética do que na lógica. Foi o primeiro autor medieval a dar o título Ética a um tratado e, ao contrário dos seus sucessores medievais, não conhecia a Ética de Aristóteles para lhe servir como ponto de partida. Neste campo, contudo, as suas inovações foram menos felizes. Abelardo objectou contra a doutrina comum de que matar pessoas e cometer adultério era um mal. Aquilo que é um mal, afirma ele, não é a acção em si, mas o estado de espírito com que se comete a acção. Contudo, é incorrecto dizer que aquilo que importa é a vontade da pessoa, se por «vontade» entendermos um desejo por algo em função de si mesmo. Pode existir pecado sem vontade (como quando um fugitivo mata em autodefesa) e pode haver má vontade sem pecado (como desejos de luxúria que não se conseguem evitar). É verdade que todos os pecados são voluntários, no sentido em que não são inevitáveis, sendo o resultado de um desejo qualquer (o desejo que um fugitivo tem de escapar, por exemplo). Mas aquilo que verdadeiramente importa, afirma Abelardo, é a intenção ou consentimento do pecador, o que significa primariamente a consciência que o pecador tem daquilo que está a fazer. Afirma Abelardo que se é possível cometer inocentemente um acto proibido — casar com a nossa irmã na ignorância de que é nossa irmã, por exemplo —, o mal não pode estar no acto, mas sim na intenção. «Não é aquilo que fazemos, mas o estado de espírito com que o fazemos, que Deus avalia; o mérito e o louvor do agente repousa não na sua acção, mas na sua intenção.» Assim, afirma Abelardo, uma má intenção pode estragar uma boa acção. Dois homens podem enforcar um criminoso, um em cumprimento da justiça e o outro por ódio inveterado; o acto é justo, mas um pratica o bem, e o outro o mal. Uma boa intenção pode justificar uma acção proibida. Aqueles que foram curados por Jesus fizeram bem em desobedecer à sua ordem de manter em segredo a cura, pois o seu motivo para a publicitar era bom. O próprio Deus, quando ordenou a Abraão que matasse Isaac, praticou um má acção com boa intenção.
Uma boa intenção que não é posta em prática pode ser tão louvável como uma boa acção: é o que acontece se, por exemplo, resolvermos construir um hospício, mas o dinheiro nos for roubado. Analogamente, as más intenções são tão reprováveis como as más acções. Porquê então castigar acções em vez de intenções? O castigo humano, responde Abelardo, pode justificar-se mesmo quando não há culpa; uma mulher que sufocou o seu bebé no sono deve ser castigada para que as outras mulheres passem a ser mais cuidadosas. A razão pela qual punimos acções em vez de intenções é a de que o fraco juízo humano considera mais grave a maldade manifesta. Mas o julgamento de Deus não seguirá os mesmos moldes.
A doutrina de Abelardo não chegou exactamente ao ponto de afirmar «Não importa aquilo que fazes desde que sejas sincero», mas esteve muito perto de admitir que os fins justificam os meios. Porém, aquilo que mais chocou os seus contemporâneos foi a sua afirmação de que aqueles que, de boa-fé, perseguiram os cristãos — e mesmo aqueles que mataram o próprio Cristo, sem saber o que faziam — estavam livres de pecado. Esta foi uma das teses sujeitas a condenação pelo Concílio de Sens.
Abelardo explorou a teologia não menos ousadamente que a ética. Um exemplo é suficiente: o seu tratamento singular da omnipotência de Deus. Levantou as questões de saber se Deus pode fazer mais coisas, ou coisas melhores, do que aquelas que fez, e se Deus pode abster-se de agir do modo como age. Seja como for que respondamos a estas questões, afirma Abelardo, encontraremos dificuldades.
Por um lado, se Deus pode fazer mais e melhores coisas do que aquelas que fez, não seria de esperar que as tivesse feito? Ao fim e ao cabo, nada lhe custaria fazê-lo! O que quer que faça ou não faça é um bem e é justo; assim, seria injusto que tivesse agido de modo diferente. Por conseguinte, Deus só pode ter agido da maneira como agiu.
Por outro lado, se considerarmos um qualquer pecador a caminho da perdição, torna-se evidente que ele poderia ser melhor do que é; de outro modo, não poderia ser culpado pelos seus pecados. Mas ele só seria melhor do que é se Deus o tivesse feito melhor; por isso há pelo menos algumas coisas que Deus podia ter feito melhor do que na realidade fez. Abelardo opta pela primeira alternativa do dilema. Suponhamos que neste momento não está a chover. Uma vez que tal acontece de acordo com a vontade de um Deus sábio, este momento não é apropriado para que chova. Assim, se dissermos que Deus pode fazer chover neste momento, estamos a atribuir-lhe o poder para fazer qualquer coisa de disparatado. Deus pode fazer tudo aquilo que quer fazer; mas não pode fazer aquilo que não quer fazer.
Os críticos objectaram a esta tese, considerando-a um insulto ao poder de Deus: até mesmo nós, pobres criaturas, podemos agir diferentemente do modo como agimos de facto. Abelardo respondeu que o poder de agir diferentemente não deve ser motivo de orgulho, deve antes ser considerado um sinal de debilidade, como a capacidade para andar, comer e pecar. Seria muito melhor para todos nós se fizéssemos apenas aquilo que deveríamos fazer.
Que dizer então do argumento «o pecador só será salvo se Deus o salvar; logo, se o pecador puder ser salvo, Deus pode salvá-lo»? Abelardo rejeita o princípio lógico que subjaz ao argumento, nomeadamente, se p implica q, então possivelmente p implica possivelmente q. E apresenta um contra-exemplo. Se um som for ouvido, alguém o ouve; mas um som pode ser audível sem que ninguém o ouça. (No caso, por exemplo, de não estar ninguém por perto.)
A discussão de Abelardo sobre a omnipotência de Deus é um esplêndido exercício de dialéctica, mas não podemos dizer que se trata realmente de uma explicação credível do conceito — e é evidente que não convenceu os seus contemporâneos, especialmente S. Bernardo. Uma das proposições de Abelardo condenadas pelo Concílio de Sens foi a seguinte: Deus pode agir e abster-se de agir única e exclusivamente da maneira e na altura em que de facto age e se abstém de agir.

 (Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)
 

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