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Somos a única espécie que possui um mecanismo de comunicação tão sofisticado como a fala. Mas isso não quer dizer que outros animais não sejam capazes de se comunicar de maneira eficiente. A expressão através de sons, gestos, caretas, odores, cores, hormônios, feromônios e posturas corporais é conhecida e documentada. Nossos ancestrais dependiam desses recursos de comunicação. Com o aparecimento da linguagem verbal, essas formas de comunicação perderam importância, mas não deixaram de existir. Expressões faciais e gestos ainda são usados para reforçar nossa comunicação oral, embora, da mesma maneira que o aparecimento do sol todas as manhãs nos impede de observarmos as estrelas, a linguagem falada ofusque todos os demais recursos. Mas será que ainda existem resquícios de outros modos de comunicação? Assim como as estrelas continuam no céu durante o dia, provavelmente nossos métodos primitivos de comunicação também ainda estão presentes em nossa vida. E um experimento recente comprova esse fato.

Pediu-se a um grupo de cinquenta mulheres que gravassem sua voz recitando os números de um a dez. Cada mulher gravou a frase: “One, two, three, four, five, six, seven, eight, nine, ten”. Depois elas voltavam ao laboratório todas as semanas para repetir a gravação, e isso foi feito durante quatro semanas. Após a última gravação, foi determinado o ponto exato do ciclo menstrual em que estavam as mulheres. Desse modo cada uma das quatro gravações pôde ser associada a uma fase do ciclo menstrual.

Em seguida, foram recrutados cinquenta homens. Cada um ouviu as duzentas gravações que as mulheres tinham feito e depois foi instruído a dar uma nota de zero a cem de acordo com a “sensualidade” da voz. Os homens não sabiam como as gravações haviam sido obtidas nem que existiam quatro versões para cada voz. Obtidos os resultados, os cientistas traçaram um gráfico que relacionava a “sensualidade” de cada gravação com o momento do ciclo menstrual em que ela foi feita. O resultado é impressionante. Os homens deram notas significativamente mais altas para as vozes gravadas durante o período fértil das mulheres. O experimento foi repetido com mulheres que tomavam pílulas anticoncepcionais, e nesse caso o efeito não foi detectado. Apesar de surpreendente, o resultado sugere que as mulheres comunicam sua fertilidade através da voz.

Essa observação fica mais fácil de entender se considerarmos o que ocorre na laringe das mulheres. De maneira análoga ao que acontece com os tecidos do útero e da vagina, o tecido das cordas vocais e da laringe sofre os efeitos das variações das taxas de hormônio feminino durante o ciclo menstrual, um fenômeno parecido com o que ocorre com os meninos na puberdade. Em diversos macacos os sons emitidos pelas fêmeas mudam de tom de acordo com sua fertilidade.

Fica demonstrado, portanto, que esse é um dos mecanismos de comunicação ofuscados pelo surgimento da fala. A capacidade de certas pessoas (como videntes e cartomantes) de detectar mensagens não verbais, como expressões faciais, gestos, cheiros e sudorese, pode explicar por que elas parecem “ler” nosso passado. Na verdade é provável que estejam “lendo” exatamente o que transmitimos utilizando nossos métodos primitivos de comunicação. E se elas são capazes de “ler” nosso passado, é claro que vamos acreditar que elas são capazes de “ler” nosso futuro.


(Fernando Reinach - A Longa Marcha dos Grilos Canibais)

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publicado às 09:13


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