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A VELHA CATEDRAL DE AMESTERDÃ

por Thynus, em 01.12.16
De um lado ficam as casas e, através das janelas do rés-do-chão, tão grandes como montras, apercebem-se os minúsculos quartinhos das putas. Estas estão em roupa interior, sentadas à janela em pequenos sofás cheios de almofadas. Só parecem grandes gatos entediados.

O outro lado da rua é ocupado por uma gigantesca catedral gótica do século XIV.

Como um rio a separar dois reinos, entre o mundo das putas e o mundo de Deus, paira o cheiro ácido da urina.

Na parte de dentro da igreja, do antigo estilo gótico não restam senão as paredes, muito altas e despidas, as colunas, a abóbada e as janelas. Não há um único quadro, nem há imagens em sítio nenhum.

O interior da catedral está tão vazio como um ginásio. Tudo o que lá há são filas de cadeiras dispostas de maneira a formarem ao centro um grande quadrado, em torno de um estrado em miniatura sobre o qual se ergue a mesinha do pregador. Atrás das cadeiras, há camarotes de madeira destinados às famílias dos moradores mais ricos.

As cadeiras e os camarotes estão dispostos sem qualquer respeito pela configuração das paredes ou pela disposição das colunas, como se assim manifestassem à arquitectura gótica a sua indiferença e o seu desdém. Há vários séculos já que a fé calvinista transformou a igreja num simples hangar, cuja única função é proteger os fiéis da neve e da chuva.

Franz estava fascinado: aquela sala gigantesca fora atravessada pela Grande Marcha da história.

Sabina lembrou-se que, depois do golpe de Estado comunista, todos os castelos e palácios da Boémia tinham sido nacionalizados e transformados em centros de aprendizagem, casas de repouso ou até em estábulos. Visitara uma vez um desses estábulos; nas paredes de estuque, havia ganchos com anéis de ferro aos quais estavam presas as vacas, que olhavam com um ar sonhador através das janelas para o jardim do palácio onde as galinhas corriam de um lado para o outro.

Franz disse: "Sinto-me fascinado com este vazio. Acumulam-se os altares, os quadros, as esculturas, as cadeiras, os sofás, os tapetes, os livros e depois vem o momento de júbilo libertador em que tudo é varrido como as migalhas de cima de uma toalha. És capaz de imaginar a vassoura de Hércules com que esta catedral foi varrida?”

Sabina apontou para um camarote de madeira. “Os pobres ficavam de pé, e os ricos tinham camarotes. Mas o banqueiro e o pobre tinham uma coisa em comum. Era o ódio à beleza.”

“O que é a beleza?”, perguntou Franz, e veio-lhe imediatamente à cabeça a inauguração de uma exposição onde, daí a dias, tinha de acompanhar a mulher: a vacuidade dos discursos e das palavras, a vacuidade da cultura, a vacuidade da arte.

Na época em que, quando era estudante, trabalhava nos Estaleiros da Juventude e tinha na alma o veneno das alegres fanfarras que brotavam ininterruptamente dos altifalantes, Sabina saíra um domingo de motorizada. Percorreu vários quilómetros de floresta e parou numa aldeiazinha desconhecida, perdida no meio das colinas. Encostou a motorizada à igreja e entrou. Era precisamente a hora da missa. Nessa altura, a religião era perseguida pelo regime comunista e a maior parte das pessoas evitava as igrejas. Sentados nos bancos só havia velhos. Esses não tinham medo do Governo; só tinham medo da morte.

Com uma voz melodiosa, o padre pronunciava uma frase e as pessoas repetiam-na em coro logo a seguir. Era uma litania. As palavras, sempre as mesmas, voltavam continuamente, como um peregrino que não consegue arrancar os olhos da paisagem, como um homem que não consegue dizer adeus à vida. Sentou-se num dos bancos de trás; às vezes fechava os olhos só para ouvir aquela música das palavras, depois voltava a abri-los: imediatamente lhe aparecia a abóbada azul com grandes astros dourados pintados em cima. Cedia ao encantamento.

O que encontrara inesperadamente naquela igreja não fora Deus, mas a beleza. Ao mesmo tempo, tinha perfeita consciência que aquela igreja e aquelas litanias não eram belas em si mesmas, mas que a sua beleza lhes vinha do contraste com os Estaleiros da Juventude onde os seus dias se passavam no meio da barulheira infernal das canções. A missa era bela por lhe ter aparecido súbita e clandestinamente como um mundo traído.

Aprendeu nesse dia que a beleza é um mundo traído. Só podemos encontrá-la quando aqueles que a perseguem a deixam por engano num sítio qualquer. A beleza esconde-se atrás dos cenários de um desfile do 1´.o de Maio. Para dar com ela, primeiro é preciso furar a tela do cenário.

“Nunca tinha ficado fascinado com uma igreja”, disse Franz. Não era nem o protestantismo nem a ascese que o entusiasmavam. Era outra coisa, qualquer coisa de muito pessoal e da qual não se atrevia a falar à frente de Sabina. Parecia-lhe estar a ouvir uma voz que o desafiava a pegar na vassoura de Hércules para varrer da sua vida as inaugurações de Marie-Claude, os cantores de Marie-Anne, os congressos, os colóquios, os discursos inúteis e as palavras vãs. O enorme espaço vazio da catedral de Amesterdão acabava de lhe oferecer a imagem da sua própria liberdade.


(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser) 

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publicado às 03:23



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