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A TESE DO OTIMISMO TRÁGICO

por Thynus, em 16.12.16
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O dia mais belo? hoje; A coisa mais facil? errar; O maior obstáculo? o medo; O maior erro?; o abandono; A riz de todos os males? o egoísmo; A distração mais bela? o trabalho; A pior derrota? o desânimo; Os melhores professores? as crianças; A primeira necessidade? comunicar-se; O que mais lhe faz feliz? ser útil aos demais; O maior mistério? a morte; O pior defeito? o mau humor; A pessoa mais perigosa? a mentirosa; O sentimento mais ruim? o rancor; O presente mais belo? o perdão; O mais imprescindível? o lar; A rota mais rápida? o caminho certo; A sensação mais agradável? a paz interior; A proteção efetiva? o sorriso; O melhor remédio? o otimismo; A maior satisfação? o dever cumprido; A força mais potente do mundo? a fé; As pessoas mais necessárias? os pais; A mais bela de todas as coisas? o amor...  
(Madre Tereza de Calcutá)
Vamos começar perguntando-nos o que se deve entender por "otimismo trágico". Em resumo significa que a pessoa é e permanece otimista apesar da "tríade trágica", como é chamada em logoterapia a tríade daqueles aspectos da existência humana que podem ser circunscritos por:
1. dor;
2. culpa;
3. morte.
De fato, este capítulo levanta a questão: "Como é possível dizer sim à vida apesar de tudo isso?" Como, para colocar a questão de outra forma, pode a vida conservar o seu sentido potencial apesar dos seus aspectos trágicos? No final das contas, "dizer sim à vida apesar de tudo", para usar o título de um livro meu em alemão, pressupõe que a vida potencialmente tem um sentido em quaisquer circunstâncias, mesmo nas mais miseráveis. E isso, por sua vez, pressupõe a capacidade humana de transformar criativamente os aspectos negativos da vida em algo positivo ou construtivo. Em outras palavras, o que importa é tirar o melhor de cada situação dada. O "melhor", no entanto, é o que em latim se chama optimum - daí o motivo por que falo de um otimismo trágico, isto é, um otimismo diante da tragédia e tendo em vista o potencial humano que, nos seus melhores aspectos, sempre permite:
1. transformar o sofrimento numa conquista e numa realização humana;
2. retirar da culpa a oportunidade de mudar a si mesmo para melhor;
3. fazer da transitoriedade da vida um incentivo para realizar ações responsáveis.
Devemos manter bem claro, no entanto, que o otimismo não pode ser resultado de ordens ou determinações. Tampouco a pessoa pode forçar-se a si mesma a ser otimista indiscriminadamente, contra todas as probabilidades e contra toda esperança. E o que é verdadeiro com relação à esperança o é com relação aos outros dois componentes da tríade, na medida em que fé e amor também não podem ser impostos ou exigidos.
Do ponto de vista europeu, é bem característico da cultura norte-americana o fato de que a todo momento as pessoas são exortadas a "ser felizes". Mas a felicidade não pode ser buscada, precisa ser decorrência de algo. Deve-se ter uma razão para "ser feliz". Uma vez que a razão é encontrada, no entanto, a pessoa fica feliz automaticamente. Na nossa maneira de ver, o ser humano não é alguém em busca da felicidade, mas sim alguém em busca de uma razão para ser feliz, através - e isto é importante - da manifestação concreta do significado potencial inerente e latente numa situação dada.
Esta necessidade de uma razão é similar a outro fenômeno especificamente humano - o riso. Se você quer que alguém ria, você deve dar-lhe uma razão, tem que contar-lhe uma piada, por exemplo. Não é possível, de modo algum, obter dele uma risada real exortando-o, ou fazendo com que ele se force a rir. Fazê-lo seria o mesmo que pedir a pessoas em frente a uma máquina fotográfica que sorriam, para depois constatar nas fotos reveladas que suas fisionomias estão congeladas em sorrisos artificiais.
Em logoterapia, este padrão de comportamento é chamado de "hiperintenção", e cumpre um importante papel na origem da neurose sexual, seja frigidez ou impotência. Quanto mais o paciente - em vez de esquecer de si mesmo doando-se - esforçar-se diretamente por alcançar o orgasmo, isto é, o prazer sexual, tanto mais esta busca de prazer sexual causará seu próprio fracasso. Na verdade, o chamado "princípio¸ do prazer" é um estraga-prazeres.
Uma vez que a busca de sentido por parte do indivíduo é bem sucedida, isto não só o deixa feliz, mas também lhe dá capacidade de enfrentar sofrimento. E o que acontecerá se a procura de sentido por parte da pessoa tiver sido em vão? O resultado pode ser uma situação fatal. Quero lembrar, por exemplo, o que aconteceu algumas vezes em situações extremas como campos de concentração ou acampamentos de prisioneiros de guerra. Nestes, como ouvi de soldados americanos, surgiu um padrão de comportamento que eles chamavam de "desistite". Nos campos de concentração, este comportamento encontrava paralelo naqueles que, determinada manhã, às cinco horas, recusavam-se a levantar e a ir trabalhar, preferindo ficar na cabana, sobre a palha molhada de urina e fezes. Nada - nem advertências, nem ameaças - podia induzi-los a mudar de comportamento. E então ocorria algo típico: puxavam um cigarro do fundo de um bolso qualquer onde o haviam guardado e começavam a fumar. Naquele momento nós sabíamos que, durante as próximas quarenta e oito horas, iríamos observá-los morrer. A percepção de sentido havia desaparecido e, consequentemente, a busca do prazer imediato havia tomado as rédeas.
Porventura isto não nos lembra de uma situação paralela com que nos confrontamos todos os dias? Penso naqueles jovens, em escala mundial, que se referem a si mesmos como "geração sem futuro". Sem dúvida, não é apenas ao cigarro que eles apelam: é às drogas.
Na verdade, o consumo de drogas é apenas um aspecto de um fenômeno de massas mais geral, a saber, sentimento de falta de sentido que resulta de uma frustração das nossas necessidades existenciais - o que, por sua vez, se transformou num fenômeno universal das nossas sociedades industriais. Hoje não são apenas os logoterapeutas que afirmam que o sentimento de falta de sentido cumpre um papel sempre crescente na etiologia da neurose. Como escreve Irvin D. Yalom, da Universidade de Stanford, em Existential Psychotherapy: "De quarenta pacientes consecutivos procurando terapia numa clínica psiquiátrica de atendimento externo (...) doze (30 por cento) tinham algum problema de vulto relacionado com sentido (segundo dados de auto-avaliação, testemunhos de terapeutas ou julgamentos independentes)." Milhares de quilômetros a leste de Palo Alto, a situação difere por apenas um por cento; as últimas estatísticas pertinentes indicam que, em Viena, 29 por cento da população afirma que falta sentido e significado em suas vidas.
Quanto à origem do sentimento de falta de sentido, pode-se dizer, ainda que de maneira muito simplificadora, que as pessoas têm o suficiente com o que viver, mas não têm nada por que viver; têm os meios, mas não têm o sentido. Sem dúvida, alguns não têm nem mesmo os meios. Penso especialmente na massa de pessoas que hoje estão desempregadas. Cinqüenta anos atrás, publiquei um estudo sobre um tipo específico de depressão que havia diagnosticado em casos de pacientes jovens sofrendo do que eu chamava de "neurose de desemprego". E consegui demonstrar que esta neurose tinha realmente a sua origem numa dupla identificação errônea: estar sem emprego era considerado o mesmo que ser inútil, e ser inútil era considerado o mesmo que levar uma vida sem sentido. Consequentemente, sempre que eu conseguia persuadir os pacientes a trabalhar voluntariamente em organizações de jovens, educação de adultos, bibliotecas públicas e atividades similares - em outras palavras, quando preenchiam o seu abundante tempo livre com alguma atividade não remunerada mas significativa e portadora de um sentido - a sua depressão desaparecia, embora a sua situação econômica não houvesse mudado e a sua fome continuasse a mesma. A verdade é que o ser humano não vive apenas de bem-estar.
Ao lado da neurose de desemprego, desencadeada pela situação sócio-econômica do indivíduo, há outros tipos de depressão atribuíveis a condições psicodinâmicas ou bioquímicas; consequentemente são indicadas, conforme o caso, a psicoterapia e a farmacoterapia.
No que tange ao sentimento de falta de sentido, no entanto, não devemos esquecer que, em si, ele não é uma questão de patologia: mais do que ser sinal e sintoma de uma neurose, eu diria que é a prova da humanidade da pessoa. Mas, embora não seja causado por nada patológico, este sentimento bem pode causar uma reação patológica; em outras palavras, é potencialmente patogênico. Pensamos na síndrome neurótica de massa tão presente na jovem geração: há ampla evidência empírica de que as três facetas desta síndrome - depressão, agressão, dependência de drogas - são devidas ao que se chama em logoterapia "o vazio existencial", um sentimento de vacuidade e de falta de sentido.
Não é necessário dizer que nem todo caso de depressão pode ser atribuído a um sentimento de falta de sentido. Tampouco o suicídio - a que a depressão às vezes leva a pessoa - sempre é resultado de um vazio existencial. Contudo, mesmo que todo e qualquer caso de suicídio não tenha sido levado a cabo por causa de um sentimento de falta de sentido, é bem possível que o impulso de tirar a vida tivesse sido superado se a pessoa tivesse estado consciente de algum sentido e propósito pelos quais valesse a pena viver.
Se, portanto, uma forte percepção de sentido cumpre um papel decisivo na prevenção do suicídio - como intervir nos casos em que há risco de suicídio? Quando jovem, passei quatro anos como médico do maior hospital estatal da Áustria, onde estava encarregado do pavilhão dos pacientes em depressão profunda. A maior parte deles havia sido admitida depois de uma tentativa de suicídio. Certa vez calculei que cheguei a tratar cerca de doze mil pacientes durante aqueles quatro anos. Acumulei então um bom acervo de experiências, do qual ainda faço uso sempre que sou confrontado com alguém que tem tendência ao suicídio. Costumo explicar a tal pessoa que os pacientes repetidamente me contam como estão felizes pelo fato de não terem conseguido matar-se. Semanas, meses, anos mais tarde, dizem-me eles, descobriram que havia uma solução para seus problemas, uma resposta a sua pergunta, um sentido para suas vidas. "Mesmo que a chance de que as coisas melhorem seja apenas uma em mil" continua minha explicação, "quem pode garantir que no seu caso isso não acontecerá, mais cedo ou mais tarde? Mas em primeiro lugar você tem que viver para enxergar o dia em que isto pode acontecer, precisa sobreviver para ver nascer aquele dia, e, de agora em diante, a responsabilidade da sobrevivência não o deixará mais."
Com relação ao segundo aspecto da síndrome neurótica de massas, a agressão, desejo citar uma experiência levada a efeito certa vez por Carolyn Wood Sherif. Ela havia tido êxito em criar artificialmente agressões mútuas entre grupos de escoteiros, e observou que as agressões só cediam terreno quando os jovens se dedicavam a um objetivo comum - isto é, a tarefa conjunta de empurrar o veículo que trazia comida para seu acampamento. Eram imediatamente não só desafiados, mas também unidos por um sentido que tinham que realizar. (Para mais informações sobre este experimento, v. Viktar E. FRANKL, The Unconscious God, New York, Simon & Schuster, 1978, p. 140 (Edição brasileira: A Presença Ignorada de Deus, Rio de Janeiro, Imago; São Leopoldo, Sinodal; Porto Alegre, Sulina,1985), e Viktor E. FRANKL, The Unheard Cþy For Meaning, New York, Simon & Schus ter,1978, p. 36.)
Quanto ao terceiro ponto, dependência de drogas e álcool, lembro das descobertas apresentadas por Anne Marie von Forstmeyer, que destacou algo evidenciado por testes e estatísticas: noventa por cento dos alcoólicos que ela estudou haviam sofrido de uma falta abismal de sentido na vida. Dos dependentes de drogas estudados por Stanley Krippner, cem por cento acreditavam que "as coisas pareciam sem sentido" (Para mais informações, veja ID., The Unconscious God, pp. 97-100 ID., The Unheard Cry for Meaning, pp. 26-8.)
Voltemo-nos agora à questão do sentido em si. Para começar, gostaria de esclarecer que o logoterapeuta se preocupa em primeiro lugar com o sentido potencial inerente e latente em cada situação que uma pessoa enfrenta ao longo da vida. Por conseguinte, não farei aqui elaborações sobre o sentido da vida da pessoa em seu conjunto, embora não negue a existência de tal sentido a longo prazo. Para usar uma analogia, pense num filme que consista em milhares e milhares de fotogramas individuais. Cada um deles vem carregado de sentido e traz um significado, mas o sentido do filme todo não pode ser visto antes que sua última seqüência seja mostrada. Não obstante, não podemos entender todo o filme sem ter compreendido antes cada um dos seus componentes, cada uma das imagens individuais. Não será o mesmo com a vida? Será que o significado último da vida não se revela também (quando se revela) só no seu final, a um passo da morte? E será que também este sentido final não depende de o sentido potencial de cada situação particular ter sido realizado da melhor maneira possível, de acordo com o conhecimento e as crenças do indivíduo?
O fato é que o sentido, assim como a percepção deste sentido, vistos do ponto de vista logoterápico, estão localizados em chão firme, e não flutuando no ar ou encerrados numa torre de marfim. De modo geral, eu localizaria a percepção do sentido do sentido pessoal de uma situação concreta - num ponto intermediário entre uma experiência do tipo "ah!" na linha do conceito de Karl Bizhler, e uma percepção de Gestalt, digamos, na linha da teoria de Max Wertheimer. A percepção do sentido difere do conceito clássico de percepção de Gestalt na medida em que esta última implica a súbita consciência de uma "figura" num "solo", enquanto a percepção do sentido, como eu a vejo se reduz mais especificamente a tomar consciência de uma possibilidade contra o pano de fundo da realidade ou, para expressa-lo de modo mais simples, perceber o que pode ser feito em determinada situação. E como pode um ser humano encontrar sentido? Como Charlotte Bühler escreveu: "Tudo que podemos fazer é estudar a vida das pessoas que parecem haver encontrado suas respostas às questões em torno das quais gira em última análise a vida humana e compará-la com a vida daquelas que não as encontraram."
Além deste enfoque biográfico, no entanto, podemos também desenvolver um enfoque biológico. A logoterapia vê a consciência como um fator estimulador que, se necessário, indica a direção em que temos que nos mover em determinada situação da vida. Para levar a cabo tal tarefa, a consciência deve aplicar uma fita métrica à situação enfrentada. A situação deve ser medida e avaliada à luz de um conjunto de critérios e uma hierarquia de valores. Estes valores, no entanto, não podem ser escolhidos e adotados por nós num nível consciente - constituem algo que nós somos. Eles se cristalizaram no curso da evolução da nossa espécie; estão fundamentados no nosso passado biológico e é lá que têm suas raízes. Konrad Lorenz pode ter pensado algo parecido quando desenvolveu o conceito de um "a priori biológico", e quando nós dois discutimos recentemente minha própria visão da origem biológica do processo de avaliação, ele concordou com entusiasmo. De qualquer modo, se existe uma auto-compreensão axiológica pré-reflexiva, podemos supor que ela está ancorada em última instância na nossa herança biológica.
Como ensina a logoterapia, há três caminhos principais através dos quais se pode chegar ao sentido na vida. O primeiro consiste em criar um trabalho ou fazer uma ação. O segundo está em experimentar algo ou encontrar alguém; em outras palavras, o sentido pode ser encontrado não só no trabalho, mas também no amor. Edith Weisskopf Joelson observou neste contexto que "a noção logoterápica de que a experiência pode ter tanto valor quanto a realização prática é terapêutica porque compensa a nossa ênfase unilateral no mundo externo das realizações, às custas do mundo interno da experiência".
O mais importante, no entanto, é o terceiro caminho para o sentido na vida: mesmo uma vítima sem recursos, numa situação sem esperança, enfrentando um destino que não pode mudar, pode erguer-se acima de si mesma, crescer para além de si mesma e, assim, mudar-se a si mesma. Pode transformar a tragédia pessoal em triunfo. Foi novamente Edith Weisskopf Joelson quem, como mencionado na pg.129, certa vez expressou a esperança de que a logoterapia "possa ajudar a reagir contra certas tendências pouco sadias na atual cultura dos Estados Unidos, onde o sofredor incurável recebe muito pouca oportunidade de ter orgulho do seu sofrimento e de o considerar enobrecedor, ao invés de degradante", de modo que "ele não só é infeliz, mas também tem vergonha de ser infeliz."
Durante um quarto de século dirigi o departamento neurológico de um hospital de clínica geral e pude testemunhar a capacidade dos meus pacientes de transformar seus sofrimentos em vitórias humanas. Além de tais experiências práticas, também estão disponíveis evidências empíricas da possibilidade de a pessoa encontrar sentido no sofrimento. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Yale "ficaram impressionados pelo número de ex-prisioneiros da guerra do Vietnam que afirmavam explicitamente que, embora a sua prisão tivesse sido uma experiência extraordinariamente difícil - com torturas, doenças, fome e confinamento em celas solitárias - eles, não obstante, (...) se haviam beneficiado com a experiência de crescimento".
Mas os argumentos mais poderosos em favor de um "otimismo trágico" são aqueles que em latim se chamam argumenta ad hominem. Jerry Long, para citar um exemplo, é testemunho vivo do "poder desafiador do espírito humano", como se diz em logoterapia. Para citar a Texana Gazette: "Jerry Long está paralisado do pescoço para baixo desde um acidente que o deixou quadriplégico três anos atrás. Tinha dezessete anos quando o acidente ocorreu. Hoje, Long consegue usar um pauzinho com a boca para escrever à máquina. Está acompanhando dois cursos no Communnity College através de um telefone especial. O inter-comunicador permite a Long ouvir e participar das discussões de aula. Também ocupa seu tempo lendo, assistindo televisão e escrevendo." E numa carta que recebi dele, Long escreveu: "Vejo minha vida cheia de sentido e de objetivos. A atitude que adotei naquele dia fatal se transformou no credo da minha vida: eu quebrei meu pescoço, não quebrei meu ser. Atualmente estou matriculado no meu primeiro curso de Psicologia a nível universitário. Acho que minha deficiência só vai aumentar a minha capacidade de ajudar a outros. Sei que, sem o sofrimento, o crescimento que atingi teria sido impossível.
Será que isso significa que o sofrimento é indispensável à descoberta de sentido? De modo algum. Insisto apenas em que o sentido está disponível apesar do - não, através do - sofrimento, desde que, como ressaltado na segunda parte deste livro, o sofrimento seja inevitável. Se for evitável, o que faz sentido é remover a sua causa, porque sofrimento desnecessário é masoquista e não heróico. Por outro lado, mesmo se a pessoa não puder mudar a situação que causa seu sofrimento, pode escolher a sua atitude. (Nunca esquecerei uma entrevista a que assisti certa vez na TV austríaca, dada por um cardiologista polonês que durante a Segunda Guerra Mundial ajudou a organizar a revolta do gueto de Varsóvia. "Que feito heróico!", exclamou o repórter. "Escute", disse calmamente o doutor, "pegar uma arma e atirar não é grande coisa; mas se a SS levar você a uma câmara de gás ou a uma cova coletiva para a execução e você não puder fazer nada a respeito, exceto dar seus últimos passos com dignidade, veja bem, isto é o que eu chamo de heroísmo." O heroísmo está na atitude, por assim dizer.) Long não havia querido quebrar seu pescoço. Mas ele decidiu não deixar-se quebrar a si mesmo por causa do que lhe acontecera.
Como vemos, a prioridade permanece com a mudança criativa da situação que nos faz sofrer. Mas realmente superior é o saber como sofrer, quando se faz necessário. E há evidências empíricas de que - literalmente - o "homem comum" é exatamente da mesma opinião. Pesquisas de opinião pública da Áustria revelaram recentemente que aqueles que atraíam a maior estima e consideração entre a maioria dos entrevistados não eram os grandes artistas, cientistas, estadistas ou esportistas, mas aqueles que eram capazes de atravessar experiências difíceis com suas cabeças erguidas.
Ao enfocar o segundo aspecto da tríade trágica, a saber, a culpa, gostaria de partir de um conceito teológico que para mim sempre foi fascinante. Refiro-me ao chamado mysterium iniquitatis, que significa, segundo a minha visão, que em última análise um crime permanece inexplicável na medida em que não pode ser completamente investigado em suas origens biológicas, psicológicas e/ou sociológicas. Explicar totalmente o crime de alguém seria o mesmo que eliminar sua culpa e vê-lo não como uma pessoa humana livre e responsável, mas como uma máquina a ser consertada. Até os próprios criminosos detestam este tratamento e preferem ser considerados responsáveis pelo que fizeram. Um preso cumprindo sua sentença numa penitenciária de Illinois mandou-me uma carta na qual lamentava que "o criminoso nunca tem uma chance de explicar-se. Ele recebe uma variedade de desculpas entre as quais pode escolher. A sociedade é acusada e em muitos casos a acusação é feita contra a vítima." Além disso, quando falei aos presos em San Quentin, disse a eles: "Vocês são seres humanos como eu, e como tais tiveram a liberdade de cometer um crime, de tornar-se culpados. Agora, no entanto, vocês têm a responsabilidade de superar a culpa erguendo-se acima dela, crescendo para além de vocês mesmos e mudando pessoalmente para melhor." Eles se sentiram compreendidos. E Frank E. W, ex-preso, mandou-me um bilhete dizendo que havia começado um grupo de logoterapia para ex-criminosos. "Somos 27, e os mais novos estão permanecendo fora da prisão através da força solidária do grupo inicial. Só um voltou - e agora já está livre."
Quanto ao conceito de culpa coletiva, penso pessoalmente que é totalmente injustificado responsabilizar uma pessoa pelo comportamento de outra ou de um grupo de pessoas. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, não canso de argumentar publicamente contra o conceito de culpa coletiva. As vezes, no entanto, é necessária uma boa quantidade de truques didáticos para afastar as pessoas das suas superstições. Uma mulher norte-americana uma vez me lançou uma crítica: "Como é que você consegue escrever livros em alemão, se é a língua de Adolf Hitler?" Em resposta, perguntei a ela se usava facas em sua cozinha. Quando respondeu que sim, me mostrei desanimado e chocado, e exclamei: "Como é que você consegue usar facas se tantos assassinos já as usaram para apunhalar e matar suas vítimas?" Então ela desistiu de criticar-me por escrever livros em alemão.
O terceiro aspecto da tríade trágica diz respeito à morte. Porém ele diz respeito à vida também, porque sempre cada um dos instantes de que a vida é feita está morrendo, e aquele instante nunca mais volta. Mas, porventura não é esta transitoriedade algo que nos estimula e desafia a fazer o melhor uso possível de cada momento de nossas vidas? Certamente que sim, e daí surge meu imperativo: "Viva como se você estivesse vivendo pela segunda vez e como se tivesse agido todo erradamente, na primeira vez como está por agir agora."
Na verdade, as oportunidades de agir de modo apropriado, as potencialidades para realizar um sentido, são afetadas pela irreversibilidade das nossas vidas. Mas também só as potencialidades são afetadas por este fato. Porque tão logo usamos uma oportunidade e realizamos um sentido potencial, isto está feito de uma vez por todas. Já o libertamos para o passado, onde foi entregue e depositado em segurança. No passado, nada fica irremediavelmente perdido, mas, ao contrário, tudo é irreversivelmente estocado e entesourado. Sem dúvida, as pessoas tendem a ver somente os campos desnudos da transitoriedade, mas ignoram e esquecem os celeiros repletos do passado, em que mantêm guardada a colheita das suas vidas: as ações feitas, os amores amados e, não menos importantes, os sofrimentos enfrentados com coragem e dignidade.
A partir disso se pode ver que não há razão para ter pena de pessoas velhas. Em vez disso, as pessoas jovens deveriam invejá-las. É verdade que os velhos já não têm oportunidades nem possibilidades no futuro. Mas eles tem mais do que isso. Em vez de possibilidades no futuro, eles têm realidades no passado – as potencialidades que efetivaram os sentidos que realizaram, os valores que viveram - e nada nem ninguém pode remover jamais seu patrimônio do passado.
Em vista da possibilidade de encontrar sentido no sofrimento, o significado da vida passa a ser algo incondicional - ao menos potencialmente. Este sentido incondicional, no entanto, encontra paralelo no valor incondicional que cada pessoa, sem exceção, possui. E é isto que garante o fato indelével da dignidade humana. Assim como a vida permanece potencialmente significativa sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis, também o valor de cada pessoa, sem exceção, a acompanha, e o faz porque está baseado nos valores que a pessoa já realizou no passado. Não está subordinado à utilidade que a pessoa possa ter ou não no presente.
Mais concretamente; esta utilidade é normalmente definida em termos de funcionamento para o benefício da sociedade. Mas a sociedade de hoje se caracteriza pela orientação do sucesso pessoal e, consequentemente, adora as pessoas exitosas e felizes. Em particular, adora os jovens. Praticamente ignora o valor de todos os que são diferentes e, ao fazê-lo, apaga a decisiva diferença entre ter valor no sentido de dignidade e ter valor no sentido de utilidade. Se não se está consciente desta diferença, mas se considera que o valor de um indivíduo nasce apenas da sua utilidade atual - neste caso, acreditem-me, é apenas por incoerência pessoal que não se advogasse a eutanásia na linha do programa de Hitler. Isto é, matar por "piedade" a todos aqueles que perderam sua utilidade social, seja devido à idade avançada, doença incurável, deterioração mental ou outra deficiência qualquer.
Confundir a dignidade do ser humano com mera utilidade surge de uma confusão conceptual que, por sua vez, pode ser atribuída em suas origens ao neolismo contemporâneo transmitido em muitas universidades e psicanálises. Mesmo no treinamento de psicoterapeutas tal doutrinação pode ser levada a cabo. O nulismo não afirma que não existe nada, mas afirma que tudo é desprovido de sentido. E George A. Sargent estava certo quando promulgou o conceito de "falta de sentido aprendida". Ele mesmo lembrava de um terapeuta que disse: "George, você deve compreender que o mundo é uma piada. Não há justiça, tudo é acaso. Só quando você compreender isso vai perceber como é errado levar-se a si mesmo a sério. Não há um grande propósito no universo. O universo é, simplesmente. Não há sentido particular na decisão que você tomar hoje com relação a como agir.
Não devemos generalizar uma crítica destas. Em princípio, o treinamento é indispensável, mas, neste caso, os terapeutas deveriam ver como sua tarefa de imunizar os treinados contra o nulismo, em vez de inoculá-los com o cinismo que constitui um mecanismo de defesa contra seu próprio nulismo.
Os logoterapeutas podem até mesmo aceitar algumas das condições de treinamento e licenciamento estipuladas pelas outras escolas de psicoterapia. Em outras palavras, podemos uivar junto com os lobos, se for necessário. Ao fazê-lo, porém, deveríamos ser - e quero colocar o máximo de ênfase nisso – uma ovelha em pele de lobo. Não há necessidade de trair o conceito básico de ser humano e os princípios da filosofia de vida inerentes à logoterapia. Esta lealdade não é difícil de manter, tendo em vista o fato de que, como Elisabeth S. Lucas ressaltou certa vez, "ao longo da história da psicoterapia jamais existiu uma escola tão pouco dogmática como a logoterapia" (A logoterapia não é imposta aos interessados em psicoterapia. Não é comparável a um bazar oriental, mas a um supermercado. No primeiro, o freguês é convencido a comprar algo. Neste último, são-lhe mostradas e oferecidas várias coisas, das quais ele pode pegar as que considerar valiosas e úteis.) E no I Congresso Mundial de Logoterapia (San Diego, Califórnia, 6 a 8 de novembro de 1980), argumentei não somente pela reumanização da psicoterapia, mas também pelo que chamei de "desguruficação da logoterapia". Meu interesse não está em criar papagaios que reproduzem "a voz do mestre", mas em passar a tocha acesa para "espíritos independentes e inventivos, inovadores e criativos".
Sigmund Freud afirmou em certa ocasião: "Imaginemos que alguém coloca determinado grupo de pessoas, bastante diversificado, numa mesma e uniforme situação de fome. Com o aumento da necessidade imperativa da fome, todas as diferenças individuais ficarão apagadas, e em seu lugar aparecerá a expressão uniforme da mesma necessidade não satisfeita." Graças a Deus, Sigmund Freud não precisou conhecer os campos de concentração do lado de dentro. Seus objetos de estudo deitavam sobre divãs de pelúcia desenhados no estilo da cultura vitoriana, e não na imundície de Auschwitz. Lá, as "diferenças individuais" não se "apagaram", mas, ao contrário, as pessoas ficaram mais diferentes; os indivíduos retiraram suas máscaras, tanto os porcos como os santos. E hoje não se precisa mais hesitar no uso da palavra "santos". Basta pensar no padre Maximilian Kolbe, que foi deixado passando fome e finalmente assassinado através de uma injeção de ácido carbólico em Auschwitz, e que, em 1983, foi canonizado.
Você pode estar inclinado a acusar-me de invocar exemplos que são exceções à regra. "Sed omnia praeclara tam difficilia quam rara sunt" (mas tudo que é grande é tão difícil de compreender quanto de encontrar), conforme diz a última frase da Ética de Espinoza. Naturalmente, você pode perguntar se realmente precisamos referir-nos a "santos". Não seria o suficiente referir-nos a pessoas decentes? É verdade que elas formam uma minoria. Mais que isso, sempre serão uma minoria. E, no entanto, vejo justamente neste ponto o maior desafio a que nos juntemos à minoria. Porque o mundo está numa situação ruim. Porém tudo vai piorar ainda mais se cada um de nós não fizer o melhor que pode. Portanto, fiquemos alerta - alerta em duplo sentido: Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz. E desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo.
 
(Viktor E. Frankl - EM BUSCA DE SENTIDO, Um Psicólogo no Campo de Concentração)

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