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“Os ‘significados’ não estão na cabeça!”
 
Imagine o seguinte cenário:
Existe um planeta imaginário, conhecido como Terra Gêmea, que é absolutamente idêntico ao planeta Terra nos mínimos detalhes — até mesmo os habitantes dos dois planetas são iguais. Há, porém, uma diferença entre a Terra e a Terra Gêmea: em todo lugar em que há água na Terra, existe uma substância conhecida na Terra Gêmea como XYZ. Para o propósito desta história, estamos na Terra por volta de 1750, antes da descoberta do H2O (a fórmula química que representa a água). Naquele planeta imaginário, em vez da água das chuvas, dos lagos e dos oceanos, existe a substância XYZ. Além disso, XYZ tem propriedades observáveis semelhantes às da água, mas com uma microestrutura diferente. Os habitantes da Terra Gêmea (que se referem ao próprio planeta como Terra) são idênticos aos da Terra, também falam “português” e chamam a substância XYZ de “água”.
Agora, quando Oscar, um habitante da Terra e seu gêmeo, que mora na Terra Gêmea (também chamado Oscar), dizem a palavra água, eles estão dizendo a mesma coisa?
De acordo com o filósofo (e criador do experimento mental da Terra Gêmea) Hilary Putnam, Oscar e seu gêmeo Oscar não estão significando a mesma coisa porque, enquanto Oscar se refere a H2O, seu gêmeo se refere a XYZ. A partir disso, ele conclui que os processos mentais do cérebro podem não ser suficientes para determinar a que um termo se refere. Segundo ele, uma pessoa tem de entender a história causal que conduz ao significado de uma palavra para aprendê-la.
O experimento mental de Putnam, da Terra Gêmea, é um dos exemplos mais populares da sua teoria no campo da filosofia da linguagem, conhecida como “externalismo semântico”.
 
EXTERNALISMO SEMÂNTICO
Hilary Putnam busca compreender como a sintaxe, o arranjo das palavras na frase, ganha significado (semântico). De acordo com o externalismo semântico proposto por ele, o significado de uma palavra é determinado (seja parcial ou inteiramente) por fatores que são externos ao indivíduo falante. Enquanto outras teorias acreditam que o processo de significação é interno (dentro da cabeça), o externalismo semântico de Putnam propõe que isso ocorre fora da mente. Em outras palavras, como ele mesmo diz em sua frase já famosa: “Os ‘significados’ não estão na cabeça!”.
Segundo Putnam, o significado de qualquer termo em uma linguagem é dado por uma sequência de elementos:
1.  O objeto a que o termo se refere (no caso da Terra Gêmea, isso é a substância com a fórmula química H2O).
2.  Os termos típicos (conhecidos como “estereótipos”) que costumam ser frequentemente associados à palavra (como inodora, incolor e hidratante sempre associados à água).
3.  Os indicadores semânticos que categorizam o objeto (como líquido).
4.  Os indicadores sintáticos (por exemplo, um nome de massa — um tipo de substantivo que tem termos que são referidos que não podem ser considerados entidades separadas).
Com base em suas ideias de externalismo semântico, Putnam buscou explicar sua teoria causal da referência. Ele afirma que as palavras conquistam seus referentes como resultado de uma cadeia de causação que termina no referente. Por exemplo, uma pessoa mantém a capacidade de se referir às pirâmides do Egito, mesmo que nunca as tenha visto, porque o conceito do que são as pirâmides do Egito ainda existe. Como pode ser? É porque o termo foi adquirido (aprendido) como resultado da interação com os outros (que, para adquirir esse conhecimento, interagiram com outros, que para adquirir esse conhecimento interagiram com outros etc.). Esse padrão prossegue até que, por fim, alcança uma pessoa que tenha tido uma experiência em primeira mão com o tema em questão. Por causa dessa cadeia de causação, uma pessoa é capaz de falar sobre algo sem nunca ter vivenciado diretamente aquilo.
 
CONTEÚDO MENTAL RESTRITO
O experimento mental da Terra Gêmea proposto por Putnam é parte de um tópico maior de discussão conhecido como “conteúdo amplo”, que se opõe à perspectiva do “conteúdo mental restrito”. A ideia por trás do conteúdo mental restrito é de que o conteúdo mental é interno (ou intrínseco) e, dessa forma, diferente do externalismo semântico de Putnam, é totalmente independente do ambiente em que a pessoa está; então, é uma propriedade intrínseca daquela coisa particular (por exemplo, uma propriedade intrínseca de uma moeda é que ela é redonda, embora uma moeda no bolso de uma pessoa seja uma propriedade extrínseca). O conteúdo restrito que alguém acredita haver em um objeto tem de ser compartilhado por toda duplicata daquele objeto particular.
Aqueles que consideram válido o conteúdo mental restrito afirmam que o conteúdo mental e o comportamento são o resultado de uma consequência causal de nossas crenças e nossos desejos. Outros propõem que as pessoas têm acesso introspectivo a seus pensamentos, ou seja, nós devemos ter a habilidade de determinar se o mesmo conteúdo está contido em dois de nossos pensamentos. De acordo com essa proposta, os dois Oscar, ignorantes da fórmula química de H2O e de XYZ, não têm como saber se seus pensamentos são relacionados a H2O ou a XYZ, porque não estão conscientes nem de que existe outra substância semelhante à água. Para dar sentido a isso, os filósofos criaram a noção de “transição suave”. O que aconteceria se Oscar da Terra mudasse para a Terra Gêmea? De início, ele continuará a ter pensamentos relacionados à água quando vir aquela substância, mas, quanto mais interagir com XYZ e quanto mais ficar longe da água, vai começar a pensar em XYZ e não em H2O. Ao longo do tempo, seus pensamentos relacionados à água terão um conteúdo amplo diferente (e Oscar não teria consciência dessa mudança porque seus pensamentos pareceriam ter o mesmo conteúdo que sempre tiveram). Para ter acesso introspectivo e verificar que esses conteúdos são diferentes, nós precisamos do conteúdo mental restrito e não do amplo.
O conteúdo mental restrito é controverso entre os filósofos; muitos rejeitam esse conceito em favor do conteúdo mental amplo. O experimento da Terra Gêmea, de Putnam, é o exemplo mais famoso de por que o conteúdo mental amplo faz mais sentido. Os dois Oscar têm exatamente as mesmas propriedades intrínsecas; no entanto, eles se referem a substâncias diferentes. Assim, as propriedades intrínsecas não são o bastante para determinar a que se referem. E isso nos traz de volta à famosa frase de Putnam: “Os ‘significados’ não estão na cabeça!”

(Paul Kleinman - Tudo o que você precisa saber sobre Filosofia)   

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publicado às 23:33



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