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Se os que se dizem amigos e representantes de Cristo na terra soubessem do mundo em toda a sua crueza, não dariam a mão à jovem que, desesperada, abortou? Se fizessem ideia de que o ser humano é um ser histórico e que há amores que morrem e que ninguém pode ser obrigado a viver num inferno, fechariam as portas ao homem ou à mulher que,depois de um divórcio, quiseram retomar na dignidade a vida com outro alguém? Se fosse preciso negar a mesa dos sacramentos de Jesus, então que fosse aos exploradores dos pobres e aos fabricantes de guerras, mas não aos que sufocam na solidão. Se soubessem das pulsões que palpitam num corpo jovem, haveria a compreensão que cura, e o seu discurso não se enrolaria em preservativos, mas dialogaria sobre a dignidade de corpos conscientes e livres e incentivaria a educação aberta para a sexualidade. Se soubessem do deserto que atravessa a existência de tantos, haviam de colocar no centro das preocupações da Igreja as reais aspirações da humanidade pelo sentido da vida e pela procura do Deus vivo e não as fórmulas dogmáticas ou o direito canónico, o anúncio do Deus que liberta e não do Deus que ridiculariza e oprime, a reconsideração do celibato, que, enquanto lei, é contra o Evangelho, bem como da confissão, que, em vez de ser o espaço do perdão misericordioso de Deus, tem sido, tantas vezes, na sua prática concreta, o lugar da violência inquisitorial do mais íntimo das pessoas, com o risco de violação dos direitos humanos... Se soubessem de beleza, as liturgias haviam de explodir em alegria e festa.

Então, até Nietzsche havia de vir, pois foi ele que escreveu que "só acreditaria num deus que soubesse dançar". E António Nobre havia de ver resposta para a sua dor: "O que há-de ser de mim?"

(Padre Anselmo Borges - Janelas do InVisível)

 
Questões de certo e errado, bom e ruim, virtude e vício são o tipo de coisa que nos fazem perder o sono: aborto, eutanásia, direitos humanos, como tratar os animais, pesquisas com células-tronco… A lista de assuntos perigosos e espinhosos é infindável. Mais do que qualquer outra área, a ética parece um campo minado – terreno traiçoeiro no qual você espera tropeçar a qualquer momento; contudo, um tropeção pode custar um preço muito alto.
Um Deus que ama todos os homens ou um Deus que ama apenas os escolhidos ou crentes?
 
Paradoxalmente, no entanto, para muitas pessoas a moralização é, à primeira vista, um passeio no parque. Na mente de milhões de pessoas, a moralidade está ligada de modo intrínseco à religião: isso ou aquilo é errado pela simples razão de que Deus (ou um deus) determinou isso; bom é bom e ruim é ruim porque Deus disse que é assim.
Em cada uma das três “religiões do Livro” – judaísmo, cristianismo e islamismo –, o sistema de moralidade é baseado no “comando divino”: Deus ordena, os humanos obedecem; Deus impõe a seus adoradores um conjunto de determinações morais; o comportamento virtuoso exige obediência, ao passo que a desobediência é pecado. Certamente tal código de regras éticas, subscrito pela própria mão de Deus, deveria banir as preocupações que afligem as considerações subjetivistas de  oralidade – a desagradável suspeita de que vamos criando as regras conforme seguimos em frente, não é mesmo?

O dilema de Eutífron Sem Deus, é claro, a teoria do comando divino naufraga de imediato, mas mesmo considerando-se que Deus existe, vários outros problemas sérios ameaçam a teoria. Talvez o mais grave seja o chamado dilema de Eutífron, abordado pela primeira vez por Platão cerca de 2400 anos atrás, no diálogo Eutífron.

« Nenhuma moralidade pode ser fundada na autoridade, mesmo
que a autoridade seja divina. »

(A. J. Ayer, 1968)
 
Sócrates (porta-voz de Platão em seus diálogos) começa a conversar com um jovem de nome Eutífron sobre a natureza da piedade. Eles concordam que a piedade é “amada pelos deuses”, mas então Sócrates faz a pergunta crucial: os piedosos são piedosos porque são amados pelos deuses, ou são amados pelos deuses porque são piedosos? É pelos “chifres” desse dilema (geralmente expresso em termos monoteístas) que a teoria do comando divino é capturada.
 
Entendendo os comandos de Deus
Deixando de lado o dilema de Eutífron, outra dificuldade séria enfrentada por quem baseia a moralidade no comando divino é que os vários textos religiosos que são o principal meio pelo qual Deus transmitiu sua vontade aos homens contêm muitas mensagens contraditórias e/ou pouco palatáveis. Vamos usar um famoso exemplo tirado da Bíblia, o livro Levítico (20:13), que diz: “Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram uma abominação; terão que ser executados, pois merecem a morte”. Se a Bíblia é a palavra de Deus e a palavra de Deus determina o que é moral, a execução de homens homossexuais sexualmente ativos é sancionada pela moral. Mas a maioria das pessoas, hoje, veria tal atitude como moralmente abominável e, além disso, incoerente com outras injunções contidas na Bíblia (em primeiro lugar, o mandamento que diz “não matarás”). É óbvio que é um desafio para o teórico do comando divino usar as opiniões conhecidas de Deus para construir um sistema moral aceitável e internamente coerente.
 
Perdido em ação?
O maior perigo enfrentado pela teoria do comando divino é o de perder o seu comandante divino: podemos não estar persuadidos por completo dos vários argumentos apresentados para provar a existência de Deus e podemos não ter o benefício da fé. Sem se deixar intimidar, alguns defensores da teoria transformaram engenhosamente tal perigo em vantagem, usando uma prova da existência de Deus:
1. Existe algo considerado moralidade – temos um código de leis/comandos éticos.
2. Deus é o único candidato ao papel de criador de leis/comandante. Logo –
3. Deus deve existir.
É pouco provável, porém, que essa linha de raciocínio convença algum adversário. A primeira premissa, que implica que a moralidade é na essência algo que existe independentemente dos humanos, por si só já desperta questionamentos.
E, mesmo admitindo que a moralidade existe independentemente de nós, a segunda premissa pode ser
atacada pelo dilema de Eutífron.
 
 Sendo assim, o que é bom é bom por causa dos comandos de Deus, ou Deus comanda algo porque é bom? Nenhuma das alternativas é palatável ao teórico do comando divino. Analisando a primeira parte antes de mais nada: matar (digamos) é errado porque Deus diz que é, mas as coisas poderiam ser de outro modo. Deus poderia ter dito que matar é certo, ou mesmo obrigatório, e isso seria certo – porque Deus o afirmou.
Nesse sentido, a observância religiosa é pouco mais que uma obediência cega a uma autoridade arbitrária. Por acaso, a outra opção é melhor? Na verdade, não. Se Deus ordena o que é bom porque é bom, então a bondade é independente de Deus. No máximo, Deus desempenha o papel de mensageiro moral, transmitindo prescrições éticas sem ser a origem delas. Poderíamos então ir direto à fonte e alegremente matar o mensageiro. Pelo menos no papel de legislador moral, Deus é redundante. Então, quando se trata de moralidade, ou Deus é arbitrário ou Deus é irrelevante. Não é uma escolha fácil para os que buscam fazer de Deus o avalista ou sancionador de sua ética.
 
« Os deuses amam o piedoso que é piedoso, ou ele é piedoso
porque o amam? »

(Platão, c.375 a.C.)
 
Um contra-ataque comum ao dilema de Eutífron é insistir que “Deus é bom”, portanto, não ordenaria nada de ruim. Mas essa linha de ataque arrisca-se à circularidade ou à incoerência. Se “bom” significa “comandado por Deus”, “Deus é bom” não faria sentido – soaria como “Deus é tal que obedece a seus próprios comandos”.
Mais promissor, talvez, é fazer com que a frase signifique “Deus é (idêntico a) bom (bondade)”, portanto, seus comandos serão inevitavelmente bons. Mas, se Deus e bondade são um só, “Deus é bom” torna-se inexpressivo: nenhuma luz foi lançada e andamos em círculos – um exemplo, talvez, da predileção de Deus por andar em caminhos misteriosos.
 
a ideia resumida:
Porque Deus
mandou
 
 
 (Dupré, Ben - 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer)
A punição de Cronos por Zeus

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publicado às 02:44



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