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A TEORIA DA LIBIDO

por Thynus, em 09.03.15
Libido é um termo popularmente associado
apenas à sexualidade, no entanto é mais
abrangente e constitui toda experiência de
prazer e a base de todas as nossas
construções. Usamos a libido para nos
relacionar com pessoas, com o trabalho e
com tudo o que está ao nosso redor.
Sendo a libido a força que nos liga mais
fortemente à vida, podemos compreender
sua importância. Quando investimos essa
energia em alguém, ele se torna
emocionalmente significativo para nós. 
(Manoelita Dias dos Santos - A LÓGICA DA EMOÇÃO)
 
 .
 
 
O termo “libido” designa uma energia postulada por Freud como substrato da pulsão sexual. Apesar de o termo ter sido empregado mais no seu registro quantitativo, Freud lhe atribui um caráter qualitativo bem marcado. A libido é essencialmente de natureza sexual, sendo irredutível a outras formas de energia mental não especificadas. Este é, inclusive, o principal ponto de discordância entre Freud e Jung, na medida em que este último via na libido uma energia psíquica indiferenciada em sua origem e que poderia ser sexualizada ou dessexualizada e que coincidia com a noção de energia mental em geral. Para Freud, essa redução era supérflua e, além de não trazer nenhum benefício teórico, obscurecia o conceito por ele produzido. A libido em Freud é essencialmente de natureza sexual, apesar de poder ser “dessexualizada” no que se refere ao objetivo, e é por ele concebida como a manifestação dinâmica na vida psíquica de pulsão sexual (Freud, ESB, vol.XVIII, p.308).
Na primeira formulação da teoria das pulsões (1910/1915), Freud elabora uma concepção dualista que opõe a pulsão sexual às pulsões do ego. Enquanto a energia da pulsão sexual é a libido e seu objetivo é a satisfação, as pulsões do ego colocariam sua energia (“interesse”) a serviço do ego, visando à autoconservação do indivíduo e opondo-se, dessa forma, às pulsões sexuais. É a partir da introdução do conceito de narcisismo que a oposição entre pulsão sexual e pulsões do ego começa a se desfazer. O que a noção de narcisismo tornou claro foi o fato de que as pulsões sexuais podiam retirar a libido investida nos objetos e fazê-la voltar sobre o próprio ego. Esse fato, que se tornou evidente a partir das investigações feitas sobre as psicoses, foi denominado “narcisismo” e a libido investida sobre o próprio ego foi chamada de “libido narcísica”.
 
“A libido é invariável e necessariamente de natureza masculina, ocorra ela em homens ou em mulheres e independentemente de ser seu objeto um homem ou uma mulher” (Freud, ESB, vol.VII, p.226). Esse trecho não pretende ser o brado machista da psicanálise, mas, antes de tudo, a confissão de uma dificuldade básica, que é a que Freud encontra ao tentar definir o que caracteriza o “masculino” e o “feminino”. De fato, o trecho acima transcrito é precedido de um outro que afirma o seguinte: “Na verdade, se pudéssemos dar uma conotação mais definida aos conceitos de ‘masculino’ e ‘feminino’, seria até mesmo possível sustentar que a libido é invariável e necessariamente (...).” Freud declara que os conceitos de “masculino” e “feminino”, que parecem às pessoas comuns como sendo de natureza absolutamente inequívoca, são na verdade extremamente difíceis de determinar quando se trata de fazer ciência. Assim, do ponto de vista biológico, poderíamos dizer que “masculino” e “feminino” são termos aplicados a indivíduos que se caracterizam por serem portadores de espermatozoides ou óvulos, respectivamente, e por funções ligadas a eles. No entanto, tal como foi empregado mais acima, os termos “masculino” e “feminino” são usados no sentido de atividade e passividade. E, nesse caso, “uma pulsão é sempre ativa, mesmo quando tenha em mira um objetivo passivo”. Portanto, afirmar que “a libido é invariável e necessariamente de natureza masculina” equivale a afirmar que a libido é invariável e necessariamente de natureza ativa. Além do mais, Freud não poderia esquivar-se à sua hipótese de o ser humano ser essencialmente bissexual, o que lança por terra uma possível acusação de machista (pelo menos no que se refere ao texto acima).
No resumo-conclusão dos Três ensaios, Freud retoma a questão dos fatores constitucionais e hereditários e sua influência sobre o desenvolvimento da sexualidade. Apesar de afirmar que os fatores constitucionais e os acidentais são complementares e não exclusivos, deixa transparecer claramente que o peso maior recai sobre os primeiros, a ponto de fazer afirmações do tipo: “Em mais da metade dos casos graves de histeria, neurose obsessiva etc. de que tratei psicoterapicamente, pude provar com certeza que o pai do paciente sofria de sífilis antes do casamento” (op.cit., p.243). Por que não dizer também que, em mais da metade dos casos graves de que tratou psicoterapicamente, ele pôde provar com certeza que o pai e a mãe do paciente eram religiosos? Ou então que eram burgueses? Esse tipo de subordinação do psíquico ao biológico é o mesmo que Freud empreende quando, ao falar da sexualidade madura, condiciona-a à função reprodutora.
A ênfase concedida ao biológico é atenuada quando Freud se refere às modificações ulteriores que podem conferir direções diversas aos fatores constitucionais. Isso não significa que essas modificações não sejam originárias de fatores também constitucionais, mas que o constitucional pode sofrer vicissitudes distintas daquelas que decorriam de uma simples manifestação de suas características iniciais. Ou seja, se o constitucional é o determinante em última instância, ele não é, porém, o determinante único ou o dominante numa certa fase do desenvolvimento. Assim, o mesmo conjunto de fatores constitucionais de características anormais pode levar a três resultados finais diferentes (op. cit., p. 244-46):
1. O primeiro é a persistência, na maturidade, de um tipo de relação entre os fatores constitucionais que se pode considerar como anormal. Nesse caso, o resultado será uma sexualidade perversa.
2. O segundo é aquele que ocorre no curso do desenvolvimento se alguns dos componentes cuja força seja excessiva forem submetidos ao processo de recalcamento. Nesse caso, as excitações continuam a ser geradas mas são psiquicamente impedidas de atingir seu objetivo, sendo desviadas para outras formas de expressão (sintomas, por exemplo). É nesse sentido que Freud diz que a neurose é o negativo da perversão: haverá uma vida sexual aproximadamente normal, mas acompanhada de manifestações neuróticas.
3. A terceira alternativa é a que é possibilitada pelo processo de sublimação. É o que ocorre quando excitações excessivamente fortes, que surgem de determinadas fontes sexuais, encontram uma saída em outros campos que não o sexual. Essa é, segundo Freud, uma das fontes da criação artística em particular e da cultura em geral.
Consciente da dificuldade de se calcular de maneira eficaz o peso relativo dos fatores constitucionais e dos acidentais, Freud lança mão do que ele chama de “série complementar” (ou série etiológica), segundo a qual a 269/605 intensidade decrescente de um fator é contrabalançada pela intensidade decrescente do outro, sem nunca chegarem a se excluir mutuamente, mas sempre constituindo uma relação de complementaridade.

 (Luiz Alfredo Garcia-Roza - FREUD e o inconsciente)
O problema da sexualidade, na teoria freudiana, está colocado inclusive nos casos de psicose

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publicado às 18:22



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