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Na pós-modernidade, a utopia dos mercados livres e da globalização torna-se a referência. Mas o efêmero, o vazio, o simulacro, a complexidade e a crise flutuam como nuvens escuras. Sente-se um mundo fragmentado, seu sentido se perdendo nessas fraturas, com múltiplos significados, orientações e paradoxos.
 
A originalidade de Heidegger e de sua crítica ao mundo da técnica é que ele não se limita às críticas rituais do capitalismo e do liberalismo. Habitualmente censuram-nas, aleatoriamente, por aumentar as desigualdades, devastar as culturas e as identidades regionais, reduzir de modo irreversível a diversidade biológica e das espécies, enriquecer os ricos e empobrecer os pobres... Tudo isso, na verdade, é não apenas contestável, como ainda fica à margem do essencial. Não é verdade, por exemplo, que a pobreza aumente no mundo, embora as desigualdades se aprofundem; também não é verdade que os países ricos estejam pouco preocupados com o meio ambiente. Muito pelo contrário, eles se preocupam muito mais do que os países pobres para os quais as necessidades do desenvolvimento se sobrepõem às da ecologia. Da mesma forma são os primeiros cuja opinião pública se preocupa verdadeiramente com a preservação das identidades e das culturas particulares.
Em todo caso, poderíamos discutir longamente a respeito do tema.

O que é certo, porém, e que Heidegger leva a compreender, é que a globalização liberal está traindo uma das promessas fundamentais da democracia: aquela segundo a qual poderíamos, coletivamente, fazer nossa história ou participar dela, interferir em nosso destino para tentar dirigi-lo rumo ao melhor. Ora, o universo no qual entramos não apenas nos escapa, mas se revela desprovido de sentido, na dupla acepção do termo: simultaneamente privado de significado e de direção.
(...) O problema do capitalismo não é tanto, como pensam os ecologistas e os altermundialistas, o fato de empobrecer os pobres para enriquecer os ricos (o que é amplamente contestável), mas é que ele nos desapossa de qualquer influência sobre a história e a priva de qualquer finalidade visível. Desapossamento e absurdo são os dois termos que melhor o caracterizam — e, nesse ponto, segundo Heidegger, ele encarna perfeitamente a filosofia de Nietzsche, ou seja, um pensamento que assumiu como nenhum outro o programa da completa erradicação de todos os ideais e simultaneamente da lógica do sentido.
(Luc Ferry - Aprender a viver
 
O problema não é mais continuar quebrando pobres “pés de barro” de infelizes ideais que ninguém consegue mais perceber a tal ponto se tornaram frágeis e raros. O urgente não é mais se opor a “poderes”, a partir de agora raros, a tal ponto o curso da história tornou-se mecânico e anônimo, mas, ao contrário, fazer surgir novas ideias, ou mesmo novos ideais, a fim de se reencontrar um mínimo de poder no desenvolvimento do mundo. Pois o verdadeiro problema, na verdade, não é que ele seria secretamente guiado por alguns “poderosos”, mas, ao contrário, que ele escapa, de agora em diante, a todos nós, inclusive aos poderosos. Não é tanto o poder que incomoda, mas antes a ausência de poder — de modo que querer desconstruir ainda e sempre os ídolos, procurar pela enésima vez derrubar o “Poder”, com P maiúsculo, não é mais tanto agir em função da emancipação dos homens, mas se tornar involuntariamente cúmplice de uma globalização cega e insensata.
(Luc Ferry - Aprender a Viver)

Diante dessa evolução, que para mim não é um progresso, as grandes interrogações filosóficas apresentam-se aos novos especialistas tomados pela paixão do sério como futilidades de outros tempos. Nada de falar de sentido, de vida boa, de amor à sabedoria, muito menos de salvação! Tudo o que durante milênios constituiu o essencial da filosofia parece jogado às urtigas para dar lugar apenas à erudição, à “reflexão” e ao “espírito crítico”. Não que esses atributos não sejam qualidades, mas, enfim, como dizia Hegel, “a erudição tem início com as ideias e termina com a imundície...”: tudo, qualquer coisa, pode se tornar objeto de erudição, as tampas dos potes de iogurte assim como os conceitos, de modo que a especialização técnica pode engendrar competências incontestáveis associadas à mais desoladora ausência de sentido.
Luc Ferry - Aprender a viver)
 
 

Globalização: Expansão Capitalista que dita os novos modos de vida na século XXI

 
1. Considerações preliminares
Heidegger é o filósofo que, em relação a Nietzsche e sua alardeada “superação da metafísica”, dá um passo aquém em relação a essa afirmação e procura fazer um cuidadoso processamento crítico da racionalidade vigente em sua época. Para ele, o que podemos perceber, cada vez mais, é o caráter enigmático do ser humano – e o abismo que nos cerca. Nosso progresso, nosso télos, se não sofrer nenhuma espécie de desvio, será em direção ao ser-máquina. Entretanto, como seres humanos, somos entes aos quais não é permitido o próprio conhecimento – e isso pouco tem a ver com a tecnologia maquinística. Não sabemos o que é o homem, e mesmo que quiséssemos, não poderíamos descubri-lo. Para Heidegger, devemos nos contentar em saber que somos um signo indecifrável – mas poderíamos dizer, em contrapartida, que isso seria algo que nos “dá o que pensar”.
Em seu manuscrito Der Anklang, Heidegger afirma que o fato de as descobertas técnicas terem sido usadas tanto para a construção quanto para a destruição, criou a aparência segundo a qual a técnica estaria acima desse maniqueísmo entre bem e mal. Difundiu-se a ideia de que a técnica seria neutra, e seria o homem quem a converteria em maldição ou benção. Mas, segundo coloca Heidegger, o que é o homem e o que é a técnica? Afinal de contas, não seríamos nada além da produção técnica do que somos e do que não somos em nós mesmos? Ademais, a aparente neutralidade da técnica poderia servir como um incentivo para que o ser humano busque conquistar tecnicamente a natureza e organizar tecnicamente a história – para, dessa forma, criar uma instituição mundial que, fabricada pelo homem, assuma a prosperidade e o bem-estar de si próprio.
Há algum tempo, a técnica, encarnada tanto no homem quanto na máquina, é o signo atual de nossa relação com o mundo e o modo como a sociedade contemporânea se articula. Nossa pretensão, ao longo da história, foi ver a técnica como fornecedora de bens e de serviços cada vez melhores e mais avançados, para aliviar o fardo de nossa existência, reduzir nosso sofrimento, aumentar nosso bem-estar e expandir os horizontes da vida humana. Heidegger acha que estamos próximos de nos apoderarmos da totalidade da Terra e sua atmosfera, e de obtermos assim, sob a forma de forças, o que está escondido no reino da natureza, submetendo o curso da história à planificação e à ordem de um governo terrestre.
A principal questão que preocupava Heidegger era a questão do ser e seu destino no Ocidente. Tudo se resumiria ao ser. Para ele, somente o homem, chamado pela voz do ser, vivencia a mais sublime das experiências – ele é o ente que é. Heidegger nos ajuda a esclarecer com o que estamos comprometidos na era da técnica maquinística e os desafios que devemos enfrentar e vencer, se quisermos estabelecer uma nova relação com esse fenômeno. Ao dissertar sobre técnica e reflexão, ele trabalha com a dupla “conhecimento operatório e saber reflexivo” – distingue conhecimento de reflexão e entende a técnica como sinônimo de conhecimento operacional. Para ele, tecnologia é o título que conferimos ao ente quando este é perpassado não pela técnica, mas sim por sua essência – e não qualquer uma, mas a que se encontra vigente em nosso tempo.
A tecnologia seria uma forma de revelação da existência, um princípio de construção do mundo em determinadas condições – ela é formadora de uma época, expressa um modo de ser do mundo pois é a correspondência entre um processo de posicionamento da realidade e uma forma de pensamento. Para Heidegger, a razão de termos deixado de lado o pensar reflexivo foi justamente o predomínio do pensamento calculador e planificador. Entretanto, ele não foi um filósofo da técnica, simplesmente. Seu projeto foi o de pensar acerca do problema, ou questão, da técnica. O principal ponto a ser descoberto é o que a técnica coloca para o futuro do ser humano, pensada para além da forma e do sentido como esse ser foi definido no Ocidente. Ao analisarmos bem, a técnica em si mesma não nos coloca nenhuma questão espiritual: ela opera ou não opera, funciona ou não funciona. A tecnologia carrega consigo uma convicção de eficácia, porque se combina com a pretensão de certeza da ciência.

2. Aspectos histórico-filosóficos da técnica
Heidegger tinha convicção filosófica de que a tecnologia é uma força superior às divisões de classe e aos sistemas políticos. Ele rebate os argumentos dos sociólogos da técnica segundo os quais afirmam que os maquinismos engajam as pessoas em escala ampliada, pela necessidade de sua manutenção. Os processos desses maquinismos precisam sempre ser avaliados no sentido histórico, muito mais do que em termos funcionais, para dessa forma escapar ao invólucro tecnológico que é imposto ao nosso pensamento. Para Heidegger, técnica significa conhecimento operatório – a grande questão que se coloca é saber a sua origem.
O pensamento heideggeriano rejeita a visão de que o domínio da realidade pela técnica seja a causa para nossa situação histórica atual. Para ele, o fenômeno técnico não pode ser simplesmente dissociado, de modo a separar o bom do mau, conservando o que é positivo e evitando o que é negativo – ambos os aspectos são indissociáveis. A estrutura e o sentido da técnica moderna são perdidos se tentarmos suprimir seu lado ruim e ficarmos apenas com seu lado bom. Heidegger trata a técnica como o sentido de uma nova época para o ser humano, mas que não está ao alcance de sua vontade, controle ou consciência.
Para Heidegger, a metafísica da presença seria representada pela Europa, ao passo que a metafísica da Gestell (armação) seria um reflexo da América – ou seja, a primeira seria a tirania ontológica, a segunda, o imperialismo tecnológico. Conceitos como Ocidente, modernidade, tecnologia e subjetividade são elementos de transição, que representam a passagem de um mundo a outro. A técnica é um modo de saber, uma forma de pensamento – e esse é um dos pontos centrais nos quais Heidegger se debruça. A pergunta pela técnica lida com o fato do mundo ser por meio dela, e nos interpela, destarte, de forma nova e radical. Segundo Heidegger, o que caracteriza nossa era é a dominação da técnica moderna, presente em todas as esferas da vida. Representam essa dominação a funcionalização, a perfeição, a automatização, a burocratização e a informação. A técnica está em estreita relação com o ser, e acaba por determinar, dessa forma, a humanidade. Theodor Adorno também foi um grande crítico da técnica, e teve o mérito de ter notado que a forma de pensar que nos conduz em direção à maquinização do mundo é mediada por outras significações, em si mesmas nãotecnológicas. Ele, comentando sobre o ponto em questão, em seu livro “Prismas – Crítica Cultural e Sociedade”, afirma:
Nessa prisão ao ar livre em que o mundo está se transformando, já nem importa mais
o que depende do quê, pois tudo se tornou uno. Todos os fenômenos enrijecem-se
em insígnias da dominação absoluta do que existe. Não há mais ideologia no sentido
próprio de falsa consciência, mas somente propaganda a favor do mundo, mediante a
sua duplicação e a mentira provocadora, que não pretende ser acreditada, mas que
pede o silêncio.(ADORNO, Theodor W. Prismas – Crítica Cultural e Sociedade. São Paulo: Ática, 1998. p. 14)
O que preocupa Heidegger é o fato de que, por causa da tecnologia, estamos nos esquecendo cada vez mais do ser. Os gregos nos despertaram para o ser, há mais de vinte e seis séculos – e agora, na época da superação da metafísica, vemos acontecer a ascensão do pensamento tecnológico e do imperialismo técnico planetário. Entretanto, isso não quer dizer que a máquina tenha tomado conta de tudo – isso ainda não ocorreu, embora possa vir a acontecer, e nunca completamente. A questão que se coloca é a da submissão do pensamento a um conjunto de princípios, todos eles formados de acordo com o aplicado às máquinas. A técnica consegue fundar a priori todas as capacidades que temos de intervenção nesse processo. Para Heidegger, a técnica não depende do homem, mas sim de nossa interpelação por algo do qual não podemos nos assenhorar. Ela depende de uma apropriação por um poder que, embora venha de nós, não o dominamos completamente.
A busca da certeza e a vontade de domínio estabelecem a primazia do princípio da representação. O uso cada vez mais freqüente da palavra téchne e sua conversão em motivo de reflexão dão mostras que os processos de instrumentação começam a predominar sobre a experiência. A metafísica da presença (identificada por vezes com a Europa) torna-se planetária devido à articulação que esta teve com um outro princípio de instituição do ente, a saber, o princípio da Gestell. Em resumo, a tecnologia está sempre associada a algo não tecnológico, a saber, o pensamento. Nas palavras de Francisco Rüdiger:
A armação é, em essência, um processo de posicionamento do ser em que se
recolhem todos os entes de modo a fazer cair no esquecimento seus modos
anteriores de se tornar presente: noutros termos, é o sentido ou a essência da técnica
moderna (tecnologia). O perigo imediato que a habita é o de nos velar totalmente a
questão acerca do nosso ser, à medida que ela se impõe de modo cada vez mais
concreto em todos os setores da existência.(RÜDIGER, Francisco. Martin Heidegger e a questão da técnica: Prospectos acerca do homem do futuro. Porto Alegre: Editora Sulina, 2006)
3. A atualidade da técnica
Um dos pontos principais desse estado de coisas é o fato de que a tecnologia moderna se sobrepõe cada vez mais à ontologia tradicional. A tecnologia é um modo de pensar (o ser) planetário, que serve à Gestell de uma nova ordem humana – ordem esta que poderá levar à extinção completa da humanidade. Houve uma mudança de ordem metafísica após a Idade Média. O homem tornou-se ávido por sua própria figura e, assim, apoderamo-nos da existência mesma. Antes dessa alteração em nosso modo de ser no mundo, a posição do homem no cosmos era diferente, era uma postura de adequação. Não alterávamos o terreno, e sim o respeitávamos. Hoje, o mundo se tornou uma fonte de recursos, pura e simples, surgida de uma nova relação com a metafísica tradicional, que Heidegger chamou de ordenamento provocador (Bestellen). Ele chega inclusive a comparar a agricultura atual com o sistema de câmaras de gás dos campos de extermínio – em essência, seriam iguais. Falando em essência, a da Gestell seria justamente essa, a saber, ela ordena o que está presente como recurso – tudo se reduz a esse manancial (tudo é recurso manipulável, controlável e calculável), seja natureza, mundo, ou o próprio ser humano. Levinas levanta um ponto semelhante ao dizer que:
 [...] o contra-senso dos vastos empreendimentos frustrados – em que política e
técnica resultam na negação dos projetos que os norteiam – mostra a inconsistência
do homem, joguete de suas obras. Os mortos que ficaram sem sepultura nas guerras
e os campos de extermínio afiançam a ideia de uma morte sem amanhã e tornam
tragicômica a preocupação para consigo mesmo e ilusórias tanto a pretensão do
animal rationale a um lugar privilegiado no cosmos, como a capacidade de dominar
e de integrar a totalidade do ser numa consciência de si.(LEVINAS, Emmanuel. Humanismo do outro homem. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 82-83)
 Heidegger, contrariando o senso comum, afirma que a caracterização da técnica moderna não é nada de técnico – ela reside na sua Gestell, no esquecimento da condição humana, na progressiva maquinização dos entes e nesse evento misterioso, que impõe ao existente uma forma de vida ordenada, uniforme e automática. A Gestell ocupa um lugar que antes pertencia somente ao ser humano, a tal ponto que o ser só se reconheça agora quando se interpela por meio do maquinismo – a conversão de tudo que existe em recurso não poupa nem o homem. Vivemos uma época na qual sucumbimos a um estado ilusório, que nos dá a sensação (falsa) de um controle sobre o real – pensamos que o verdadeiro só coincide com o que se tem pleno conhecimento, e de que o conhecimento surge somente do que se pode dominar e produzir artificialmente. O que caracteriza nossa era é um acabamento do esquecimento do ser, na qual este último existe essencialmente sob a forma de Gestell.
A metafísica tradicional buscava conferir um sentido à morte, nunca negando esse destino que nos é inescapável. A Gestell, por outro lado, responde a esse destino de outra forma, tecnologicamente, buscando sua superação – em última instância, superar a morte é a meta do homem tecnológico. A máquina é a maneira moderna de concretização da técnica – esta última é uma forma de saber, que se objetiva nas mais diversas coisas e por meio de diferentes princípios de interpelação. Em nosso tempo, o homem se torna força originária, o ente supremo, do qual todos os demais são simples consequência. A humanidade, assim, caiu em uma armadilha ontológica, pois confiou à técnica maquinística a pretensa solução de seu destino – o homem poderá causar, destarte, seu próprio desaparecimento da face da Terra.
É fato, para Heidegger, que a exploração da Terra é compatível com o aparecimento de um elevado padrão de vida para as massas (cada vez maiores); a destruição do planeta não  impede que se crie antes um estado de felicidade geral e irrestrita para grande parte da  humanidade. A técnica não é um plano que projetamos, mas também não é algo que nos projeta – não somos nem senhores, nem escravos; complementamo-nos mutuamente, somos dependentes um do outro.
A ciência e a técnica não podem, mesmo que desejem o contrário, contentar-se apenas com o cálculo instrumental das variáveis envolvidas. Se quiserem se tornar verdadeiro conhecimento, devem fundir-se com a metafísica e aceitar essa fundamentação como necessidade indispensável, como parte de sua essência. Estas duas coisas – ciência e técnica – baseiam-se em proposições que não são, em si mesmas, puramente racionais ou científicas. Os cientistas orientam seu fazer com base em uma interpretação dos entes, algo que para eles é significativo metafisicamente, sem que isso deixe de ser um elemento tecnológico.
Heidegger dizia que a ciência não pensa, quem o faz é o cientista – e, dessa forma, age como um ser humano, alguém que tende a pensar metafisicamente. A metafísica é o próprio pensamento, pois determina, acima de tudo, nossas relações e posturas frente às coisas e ao mundo. Ricardo Timm de Souza, falando sobre a aparente neutralidade da ciência, afirma que:
Tal como o que se diz “apolítico” já tomou uma posição política extremamente
clara, o que se diz “cientista neutro” – figura encontrável em todos os campos da
cultura, da ciência, da literatura, da universidade (sem falar naturalmente nas
infinitas instâncias burocráticas) – tomou uma posição “científica” extremamente
clara: a de fantoche de interesses maiores que se utilizam desta retórica para a
consecução de seus objetivos nada neutros.(SOUZA, Ricardo Timm de. As bases éticas da responsabilidade intelectual. In: SOUZA, Ricardo Timm de (Org.). Ciência e ética: os grandes desafios. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006. p. 144)
4. Metafísica e a questão da técnica
Segundo Heidegger, a tecnologia não deve ser vista como perigosa, pois assim, seria considerada como possuidora de um sentido instrumental e estaria submetida ao nosso comando. A técnica não é uma atividade ou conduta, é um tipo de ser (um modo de ser), que surge pela primeira vez na Grécia antiga. Antes dessa época a técnica até poderia existir, mas não era pensada como tal – nem era vista como algo próprio do ser humano. A técnica nasce da metafísica, o fundamento de nossa civilização ocidental – ela só existe como técnica ocidental. Contudo, se sabemos que a técnica é a primeira atividade do homem, como saber o que está na origem dessa atividade – como ela surgiu? Para Heidegger, estamos em face de um mistério. Entretanto, a técnica – essa atividade relacionada como algo apropriável por um saber reflexivo – só existe como tal a partir da Grécia. A técnica se funda na história da metafísica, e a humanidade encontra sua condição de existência na ação que se chama técnica.
A técnica está relacionada diretamente com a história do ser, mas Heidegger só começa a problematizá-la ao perceber sua conexão com o destino dessa história na era moderna – nesse sentido, a técnica antiga é diferente da técnica moderna. Hoje, ela é também ideologia, pois seus objetivos participam da própria construção do sistema tecnológico. Na Grécia antiga, por outro lado, a técnica significava outra coisa – ela não era concebida como um tipo de atividade entendida como finalização de produção, mas sim como o preparo e a prontidão de cada aspecto do desocultamento do mundo. Passo importante para o atual estágio em que nos encontramos foi a mudança, que se deu na transição do período helênico para o romano, de alétheia como revelação (que para os gregos era a essência da téchne) para a veritas romana, com sentido de verdade e certeza – criando a sensação de apoderamento da realidade por parte do homem.
A conversão do mundo em imagem só tornou-se possível graças à tecnologia. Mas essa mudança só aconteceu a partir da alteração de paradigma originada no século XVII. A técnica sempre foi uma maneira de articular a maneira de pensar. Com os gregos, ela era, a  princípio, uma extensão da phýsis – a phýsis era a essência da técnica. Destarte, a técnica era muito mais uma maneira de ser do que de pensar. Após a mudança paradigmática do século XVII (mudança essa que foi metafísica, na própria maneira do ser se relacionar com o mundo), o matemático – tudo que é visto a partir de um ponto de vista da calculabilidade – assume o lugar do ser, e assim, a técnica assume o sentido de cálculo. O esforço que o pensamento fez para dominar o ser abriu caminho para o controle do ente –  ocasionando, dessa forma, a era da tecnologia. Através dessa reviravolta, o homem deixa seu lugar de pastor do ser e torna-se senhor da natureza e sujeito do mundo.
A representação do ser, antes ontológica, passa a ser matemática, conforme o mundo se transforma em imagem apreendida de modo maquinístico a partir de nossa subjetividade. A pergunta pelo ser cede lugar à pergunta pelo método – não é mais o “ser”, mas sim o “como”. A essência é ultrapassada pelo procedimento. Graças ao matemático e seu princípio de interpelação da realidade, na modernidade, as coisas se transformam em meros objetos manipuláveis e calculáveis. O elemento poético (de criação), tão presente nos gregos, passa a ser restringido e substituído pela razão, que é o novo fio condutor da realidade. Após Descartes, passa-se a pensar que o homem pode chegar a uma verdade primeira unicamente através de suas próprias forças, para si e em seus próprios termos. A procura de um fundamento absoluto incondicionado tem por alvo o próprio homem, e a phýsis perde a condição de solo a partir do qual se interpela o ser humano. Ela, definida como natureza, transformada em mero objeto de uma representação, passa a ser dominada matematicamente.
É o cogito (ergo sum) que propicia a transformação do mundo em imagem.

5. A essência da técnica
A técnica passa a se revelar, então, como elemento mediador da essência da metafísica moderna. A Gestell reduz tudo o que existe a um mero estoque de recurso, a um manancial ara extração – sempre calculável e mensurável. Alguns anos antes de Descartes, Galileu Galilei foi o pioneiro da ideia que passou a enxergar a natureza como podendo ser expressa em termos matemáticos. Na esteira dessa mudança, a própria essência do homem se transforma a partir do momento em que ele se converte em sujeito. E essa transformação do homem é concomitante com a conversão do mundo em imagem – fato que caracteriza a modernidade.
O crescente sentimento de vazio da era moderna só acontece porque se esvazia com ela o interesse em perguntar pela nossa verdade, a verdade do ser humano. Talvez a verdade do homem seja apenas perguntar pela verdade. A essência da técnica, conforme Heidegger nos disse em diversas ocasiões, não é algo de técnico. Essa essência é o poder que nos faz, misteriosamente, calcular e procurar ter controle sobre o movimento da existência – e isso, é uma característica inerente ao ser humano.
A técnica é algo que se revela indiferente à negação ou afirmação, contudo, tampouco é um elemento neutro – é o que Nietzsche propunha ao afirmar que o verdadeiro pensamento reflexivo deve colocar-se acima do bem e do mal. Ela, a técnica, é uma figura da verdade do modo de ser humano ao longo da história. A tecnologia não deve ser encarada como algo intrinsecamente ruim, ela apenas reflete o conhecimento científico encarnado em meios maquinísticos. A questão é que o humano nunca poderá se submeter completamente à Gestell, enquanto ainda for humano.
A técnica moderna pode ser vista, da mesma forma que a antiga, como uma forma de revelação da verdade do ser, seguindo a tradição metafísica formadora do Ocidente. A máquina não é, para Heidegger, de forma alguma autônoma – ela depende de um sistema que, em última instância, tem seu pilar de sustentação no homem. A técnica artesanal (grega) e a técnica maquinística (moderna) distinguem-se pelo fato da primeira ser uma forma de aparição poética da phýsis, ao passo que a segunda é uma forma de exploração funcional do mundo. Ambas são nitidamente distintas entre si, entretanto, estão intimamente relacionadas.
As máquinas (ou artefatos) só se tornam operáveis com a intervenção do ser humano – existe a formação de uma rede. Nessa rede, homem e máquina se transformam e não podem mais ser vistos como entidades separadas entre si.
A Gestell é a revelação do modo pelo qual o ser se revela, e assim, torna-se objeto de simples vontade. Todo o sentido do mundo passa a se originar de um sistema tecnológico. Ela não apenas promove a técnica, mas lhe dá outro sentido, pois introduz na atividade humana os conceitos de processo, regularidade, asseguramento, padronização e disponibilidade. A Gestell é, ao fim e ao cabo, uma forma de existência e de revelação de um vir a ser do humano. O principal problema que advém dela é o fato de estarmos fechando a porta para qualquer tipo de interpelação do mundo que seja distinta da veiculada pelo modo técnico e calculista, modo este determinado pela Gestell.
Talvez, possamos ponderar que a essência da técnica moderna não esteja mais localizada no ser humano, mas que seu projeto seja o de “desumanizar” o mundo – abrindo espaço, assim, para a próxima etapa, a conversão do homem em organismo maquinístico ou cibernético. Com tudo isso, a verdade passa a ser entendida como mera execução de planos, com função puramente técnica e sem nenhum vínculo ontológico – e mesmo a liberdade do homem, nesse contexto, seria algo calculável e planificável. No futuro, se nada de diferente acontecer nesse processo, seremos uma humanidade cibernética (com todo o peso da contradição que isso possa acarretar).

6. Considerações finais
Não podemos suprimir os aspectos que nos tornam dependentes da técnica – sempre estaremos sujeitos a ela. Portanto, o melhor caminho seria a contemplação reflexiva e a aceitação existencial da Gestell – pois assim poder-se-ia criar um caminho de acesso ao que é próprio do homem. Ao atingirmos essa etapa, talvez consigamos entrar em uma espécie de “livre relação” com a técnica e suas derivações. É infrutífero tentarmos voltar a um tempo passado, onde a técnica (aparentemente) não predominava, da mesma forma que é inócuo engendrarmos um processo de controle da técnica por parte da moral – empresa que transcenderia nossa capacidade. Para esclarecermos este ponto, vale a pena recorremos a Adorno. Em seu livro “Notas de Literatura I”, ele afirma que:
É verdade que a arte sempre esteve imbricada na tendência dominante do
Iluminismo, incorporando em sua técnica, desde a Antiguidade, as descobertas
científicas. Mas a quantidade reverte em qualidade. Se a técnica torna-se um
absoluto na obra de arte; se a construção torna-se total, erradicando a expressão, que
é seu motivo e seu oposto; se a arte pretende tornar-se imediatamente ciência,
adequando-se aos parâmetros científicos, então ela sanciona a manipulação préartística
da matéria, tão carente de sentido quanto o Seyn [Ser] dos seminários
filosóficos. Assim, a arte acaba se irmanando com a reificação, contra a qual o
protesto, mesmo que mudo e reificado, sempre foi e ainda hoje é função do que não
tem função: a própria arte.(ADORNO, Theodor W. Notas de Literatua I. São Paulo: Editora 34, 2003. p. 21-22)
 Heidegger não teme a tecnologia, mas sim seu predomínio imperialista, sua conversão em único modo de ser e que pode destruir tudo o que nos é mais próprio, a saber, o pensar. A tecnologia estimula o enfraquecimento de nosso pensamento, de nossa reflexão – coisa que afeta nossa própria essência. E embora o poder da Gestell esteja cada vez mais abrangente e ubíquo, o ato de pensar continua intocado, como uma espécie de refúgio inatingível do ser humano.
A essência da técnica moderna está relacionada com a conversão do mundo em imagem (manipulável) em meio à Gestell, por meio da utilização desse mundo como reserva calculável e explorável de recursos. É fato consumado que não há escapatória para esse processo planetário de tecnificação e, até o momento, também não há alternativa. Para Heidegger, o fato de que o homem possa estar encarando o seu fim não é algo, em si, nem bom nem ruim – é meramente o resultado necessário de um processo histórico que há muito tempo vem acontecendo e amadurecendo. Para ele não há problema nenhum na tecnologia, o problema está em nosso modo de sermos humanos – especialmente no Ocidente. A questão não reside na técnica, mas no próprio homem e em seu modo de ser no mundo – nosso destino está intimamente relacionado à técnica.
A Gestell nos interpela de tal maneira que nosso modo de pensar está cada vez mais determinado e imbricado com a técnica – isso nos é inescapável. Nós nos criamos com todas as circunstâncias materiais e significações que nos cercam, e não podemos nos converter totalmente em máquinas se quisermos ser considerados ainda como humanos. Não somos mais como já fomos, entretanto, não podemos ser essa quimera que muitos alardeiam – é impossível que sejamos homens-máquina. A concepção meramente técnica do mundo é algo irreal, já que se convertido em pura máquina não seria mais humano – seríamos, então, algo não-humano. Técnica e homem estão interligados, e o progresso daquela se dá em função, portanto, do ser humano.
O desejo de nossa espécie de impor seu domínio sobre o mundo faz parte da velha ilusão moderna segundo a qual tudo pode ser conhecido por meio da ciência positiva e controlado pela tecnologia. Heidegger disse que, enquanto formos humanos, não atingiremos o ápice absoluto desse processo – a total transformação de todos os entes em máquinas não poderá se completar. Enquanto seres  umanos, temos uma relação com a realidade, um modo de ser no mundo – e se perdermos nossa essência, tudo o mais perderá o sentido.

(Fábio Valenti Possamai - A técnica e a questão da técnica em Heidegger)

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