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A Sombra Inconsciente

por Thynus, em 13.10.14
Quando deres um donativo, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Com toda a certeza vos afirmo que eles já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita...
(MT. 6,2-3)
 

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 A pergunta à qual nenhum de nós tem resposta é: o que guardamos no nosso subconsciente?
Por definição, jamais poderemos saber o que permanece inconsciente. Ou seja, não conhecemos algo que nos conhece a nós. E, muito pior, aquilo que não conhecemos sobre nós persiste e infiltra-se subtilmente nos nossos valores e escolhas.
Uma das formas de começarmos a reconhecer a nossa Sombra é a forma como muito prontamente racionalizamos ou justificamos as nossas atitudes, comportamentos e escolhas. É-nos tão fácil criticar outros indivíduos, ou grupos de indivíduos. É tão fácil ajudar os sem-abrigo, mais que não seja para que a nossa Sombra absorva mais daquele sentimento de superioridade. Notei já diversas vezes que as pessoas que se envolvem em projectos de apoio aos semabrigo abandonam os mesmos em muito pouco tempo. Sem se aperceberem, as suas sombras indicaram-lhes que não têm necessidade de se sentirem superiores. É claro que é importante ajudar quem precisa de ajuda, mas mais importante é verificarmos os nossos verdadeiros motivos. Muitas das pessoas envolvidas em projectos humanitários têm uma necessidade de sentir que prestam, que são boas ou que valem enquanto seres humanos. Este motivo irá alimentar a sombra e criar projecções monstruosas. Mas fazê-lo pelo simples facto de querer ter a experiência, de ser útil sem esperar algo em troca, aí vale a pena.
Se você está envolvido num qualquer projecto de ajuda aos mais carenciados verifique se comenta o seu envolvimento com outros. Se tem necessidade de fazer saber aos outros que está neste projecto é preferível que o abandone imediatamente pois está apenas a alimentar a sua Sombra. Mas se o trabalho que faz passa despercebido, se não sente necessidade de informar os seus amigos e conhecidos, então continue! Está a prestar um óptimo serviço.
A sombra inconsciente manifesta-se de muitas maneiras. Quando contamos uma anedota sobre os Alentejanos. Ou quando criticamos os produtos das lojas Chinesas. Ou quando manifestamos a nossa veemente oposição a um político. Ou temos pena da família que sofre a tortura de um patriarca alcoólico. Quando lemos meia dúzia de livros de auto-ajuda e acreditamos ter a resposta para os problemas dos nossos amigos (alguma vez se ouviu a dizer “Se ela fizesse as coisas como eu lhe tinha dito...”). Ou, entre as pessoas ‘espirituais’: “O meu mestre disse que o melhor era...”
A Sombra inconsciente leva-nos a procurar a nossa espiritualidade em muitos lugares, excepto naquele onde sempre esteve: dentro de nós.
Mantenha sempre presente que a complexidade do universo, assim como a complexidade das nossas vidas, nunca será completamente compreendida nem revelada. Mas nós podemos viver a fantasia de que sabemos muito bem quem somos e o que queremos. E criamos um conjunto de situações problemáticas no processo de tentar compreender tudo à nossa volta. E o nosso problema é apenas um: não aceitar Aquilo Que É.
A nossa Sombra contém tudo aquilo que nos causa preocupações, aquilo que é estranho ao ideal do ego, tudo o que é contrário aquilo que desejamos que os outros pensem de nós. Tudo aquilo que ameaça criar instabilidade no ambiente ‘seguro’ que nos esforçamos tanto por criar.
Da mesma maneira que o ego é formado a partir dos pedaços quebrados de muitas experiências, assim também é ameaçado pelo seu próprio lado mais escuro. Tudo o que contradiga o ego é uma ameaça. A Sombra é a maior ameaça ao nosso ego. E o perigo verdadeiro surge quando esta  Sombra começa a ter mais energia do que o próprio ego. Eventualmente irá tomar posse dele.
Por este motivo, este sentimento de ameaça desconhecida, é que o nosso ego não sabe nada sobre a sua sombra. A sombra é inconsciente. Será que os peixes sabem que nadam na água? Não creio. São um com o elemento que os rodeia. Será que o ego sabe que nada num mar de contradições que competem por atenção? Raramente.
Quem, de entre nós, tem a coragem de admitir que por vezes (ou muitas vezes), faz o que faz por motivos menos íntegros? Quem é capaz de admitir que por vezes dá aos amigos os conselhos que o próprio precisa urgentemente de colocar em prática? Quem é capaz de admitir que por vezes tem inveja de um amigo? A nossa sombra tem uma agenda diferente da do nosso ego. E tudo fará para conseguir os seus objectivos.
Quem, de entre nós, não se sente por vezes necessitado, vaidoso, narcisista, hostil, dependente ou manipulativo?
Pergunto-me se as esposas dos grandes homens da História seriam felizes partilhando as suas camas com amantes poderosas como eram as causas dos seus maridos.
Será que as pessoas que dedicam toda a sua vida ao serviço dos outros, vivendo sem qualquer conforto ou prazer, não o farão movidas apenas por uma enorme insatisfação, depressão e raiva? Será que o seu sacrifício é uma coisa assim tão boa? Será que é mesmo uma escolha? Será que a pessoa que ganha o prémio Nobel da paz não terá a necessidade de ser necessário? Será que estamos a ser cínicos ao tornarmo-nos conscientes dos valores opostos aqueles que expressamos conscientemente, ou será uma forma muito profunda de honestidade?
Será que uma pessoa foi ‘santa’ porque sacrificou a sua viagem nesta realidade em serviço aos outros? Será que a sua vida poderia ser tão tenebrosa que a única opção era não a viver? Será que um dos aspectos dos santos é que de facto não são capazes de viver a sua própria aventura nesta vida? E quem, entre nós, poderá fazer este tipo de juízo?
Será possível que uma vida de boas obras pode existir lado a lado com uma vida interior carregada de sentimentos torturados? Não será possível que uma vida interior rejeitada, apesar de no exterior aparentar muita iluminação, possa mascarar uma sombra poderosa?
Para responder à questão anterior basta olharmos para qualquer noticiário. O padre acusado de pedofilia, o líder político acusado de corrupção, o bom samaritano que bate nos filhos. Não podemos cair na tentação de subestimar o poder da sombra do ser humano.
Será que o fundamentalista que tenta desesperadamente converter todos à sua ideologia está convencido que isto é para o melhor bem de todos, ou será que o que o leva a agir assim são sentimentos de culpa, frustração, ansiedade e dúvidas existenciais?
Um autor que muito admiro, Nicholas Mosley, afirma que “pessoas como os católicos ou islamitas, são-no muito mais para poder pertencer a um grupo que ofereça um apoio emocional num mundo conturbado, do que por motivos de escolha feita depois de uma busca da verdade e significado na vida”. E lá se vai por terra a teoria das revelações divinas e da integridade individual! Repare ainda que este tipo de questão levanta de imediato, em muitas pessoas, um sentimento de ofensa. Naturalmente lutamos para defender os nossos valores morais (mesmo que nunca tenham sido nossos). Ao defendermos as nossas escolhas, justificandonos por cada decisão, estamos a dar poder à sombra. Lembre-se apenas que a verdade nunca precisou de ser defendida.
E mesmo assim, e porque a sombra se mantém inconsciente, longe da nossa vista, em oceanos demasiado profundos para nos atrevermos a mergulhar, não compreendemos como é que ela brinca com as nossas vidas. E onde é que está a nossa rectidão? Será que a humanidade é inerentemente boa? Seremos pessoas boas apenas porque a nossa cultura nos criou assim? Será que é possível existir a bondade sem o seu oposto? Será que uma bondade constante, ao longo de muitos anos, não pode tornar-se numa força demoníaca? Basta-nos olhar para a história da humanidade para ver que muitos dos actos bondosos tiveram o seu peso e preço.
Quantas pessoas não chegam à segunda parte das suas vidas sem uma certa quantidade de arrependimentos, rancores, ressentimentos, culpas e desculpas? E contudo, na altura, pensámos que estávamos a agir para o melhor bem de todos, com a melhor das intenções. Fazer um levantamento da nossa história pessoal é o primeiro passo para reconhecer aquilo que permanece no inconsciente: a presença e actividade da nossa sombra.
Quem, de entre nós, poderá afirmar: “Eu estou consciente da vida do meu inconsciente?”
O que permanece no inconsciente é como um segundo governo, ou governo-sombra, capaz de a qualquer momento destruir toda uma vida, assim como a vida daqueles que mais ama.

(Emídio Carvalho - A Sombra Humana, O Resgate Do Ser Humano Completo)

 
 
 

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publicado às 23:48


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