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A Solidão dos Moribundos 1

por Thynus, em 13.05.16
 
Sobre a morte e o morrer
 
Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são, antes de mais nada, “sem-nome” ou mesmo “sem-rosto”. Todos que deixam a vida se tornam “anônimos”, perdem a individualidade, deixam de ser pessoas. Ulisses, durante a sua viagem (direi mais adiante em quais circunstâncias), ao ser obrigado a descer aos infernos, onde estão aqueles que não têm mais vida, é tomado por surda e terrível angústia. Contempla horrorizado todo aquele povo no Hades. O que mais o preocupa é a indistinta massa de sombras que nada mais identifica. Aterroriza-o o barulho que fazem: um barulho confuso, um burburinho, uma espécie de rumor surdo dentro do qual não se pode reconhecer voz alguma e menos ainda qualquer palavra que faça sentido. É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo tempo que se puder, o contrário absoluto desse tom acinzentado infernal.
Pois a identidade de uma pessoa passa por três pontos cruciais, sendo o primeiro a sua inclusão em uma comunidade harmoniosa — um cosmos. Uma vez mais, o homem só é de fato homem entre os homens e, em exílio, ele nada é — por isso, aliás, o banimento da cidade, para os gregos, corresponde a uma condenação à morte, o castigo supremo que se inflige aos criminosos. Mas há uma segunda condição: a memória, as lembranças, sem as quais uma pessoa não sabe quem ela é. É preciso saber de onde viemos para saber quem somos e para onde devemos ir. O esquecimento se revela, com relação a isso, a pior forma de despersonalização que se possa conhecer em vida. É uma pequena morte em plena existência, e o amnésico é o ser mais infeliz da terra. Por último, deve-se aceitar a condição humana,(1) isto é, apesar de tudo, a finitude. O mortal que não aceita a morte vive em hybris, em descomedimento e com uma forma de orgulho que beira a loucura. Ele se imagina o que não é, um deus, um Imortal, como um louco se imagina César ou Napoleão.

(Luc Ferry - "A sabedoria dos mitos gregos")
 
Midas pecou por hybris. Por isso a dura resposta de Sileno ao rei: "o  melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer". Analise as consequências dramáticas que a hybris acarreta à ordem cósmica (reflita sobre as citações do post "Hybris o cosmos ameaçado de retorno ao caos ou como a falta de sabedoria estraga a existência dos mortais"
(HYBRIS E COSMOS: O REI MIDAS E O “TOQUE DE OURO)
 
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Há várias maneiras de lidar com o fato de que todas as vidas, incluídas as das pessoas que amamos, têm um fim. O fim da vida humana, que chamamos de morte, pode ser mitologizado pela ideia de uma outra vida no Hades ou no Valhalla, no Inferno ou no Paraíso. Essa é a forma mais antiga e comum de os humanos enfrentarem a finitude da vida. Podemos tentar evitar a ideia da morte afastando-a de nós tanto quanto possível — encobrindo e reprimindo a ideia indesejada — ou assumindo uma crença inabalável em nossa própria imortalidade — “os outros morrem, eu não”. Há uma forte tendência nesse sentido nas sociedades avançadas de nossos dias. Finalmente, podemos encarar a morte como um fato de nossa existência; podemos ajustar nossas vidas, e particularmente nosso comportamento em relação às outras pessoas, à duração limitada de cada vida. Podemos considerar parte de nossa tarefa fazer com que o fim, a despedida dos seres humanos, quando chegar, seja tão fácil e agradável quanto possível para os outros e para nós mesmos; e podemos nos colocar o problema de como realizar essa tarefa. Atualmente, essa é uma pergunta que só é feita de maneira clara por alguns médicos — no debate mais amplo da sociedade, a questão raramente se coloca.
E isso não é só uma questão do fim efetivo da vida, do atestado de óbito e do caixão. Muitas pessoas morrem gradualmente; adoecem, envelhecem. As últimas horas são importantes, é claro. Mas muitas vezes a partida começa muito antes. A fragilidade dessas pessoas é muitas vezes suficiente para separar os que envelhecem dos vivos. Sua decadência as isola. Podem tornar-se menos sociáveis e seus sentimentos menos calorosos, sem que se extinga sua necessidade dos outros. Isso é o mais difícil — o isolamento tácito dos velhos e dos moribundos da comunidade dos vivos, o gradual esfriamento de suas relações com pessoas a que eram afeiçoados, a separação em relação aos seres humanos em geral, tudo que lhes dava sentido e segurança. Os anos de decadência são penosos não só para os que sofrem, mas também para os que são deixados sós. O fato de que, sem que haja especial intenção, o isolamento precoce dos moribundos ocorra com mais frequência nas sociedades mais avançadas é uma das fraquezas dessas sociedades. É um testemunho das dificuldades que muitas pessoas têm em identificar-se com os velhos e moribundos.
Sem dúvida, o espaço de identificação é mais amplo que em outras épocas. Não mais consideramos um entretenimento de domingo assistir a enforcamentos, esquartejamentos e suplícios na roda. Assistimos ao futebol, e não aos gladiadores na arena. Se comparados aos da Antiguidade, nossa identificação com outras pessoas e nosso compartilhamento de seus sofrimentos e morte aumentaram. Assistir a tigres e leões famintos devorando pessoas vivas pedaço a pedaço, ou a gladiadores, por astúcia e engano, mutuamente se ferindo e matando, dificilmente constituiria uma diversão para a qual nos prepararíamos com o mesmo prazer que os senadores ou o povo romano. Tudo indica que nenhum sentimento de identidade unia esses espectadores e aqueles que, na arena, lutavam por suas vidas. Como sabemos, os gladiadores saudavam o imperador ao entrar com as palavras “Morituri te salutant” (Os que vão morrer te saúdam). Alguns dos imperadores sem dúvida se acreditavam imortais. De todo modo, teria sido mais apropriado se os gladiadores dissessem “Morituri moriturum salutant” (Os que vão morrer saúdam aquele que vai morrer). Porém, numa sociedade em que tivesse sido possível dizer isso, provavelmente não haveria gladiadores ou imperadores. A possibilidade de se dizer isso aos dominadores — alguns dos quais mesmo hoje têm poder de vida e morte sobre um sem-número de seus semelhantes — requer uma desmitologização da morte mais ampla do que a que temos hoje, e uma consciência muito mais clara de que a espécie humana é uma comunidade de mortais e de que as pessoas necessitadas só podem esperar ajuda de outras pessoas. O problema social da morte é especialmente difícil de resolver porque os vivos acham difícil identificar-se com os moribundos.
A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas. Entre as muitas criaturas que morrem na Terra, a morte constitui um problema só para os seres humanos. Embora compartilhem o nascimento, a doença, a juventude, a maturidade, a velhice e a morte com os animais, apenas eles, dentre todos os vivos, sabem que morrerão; apenas eles podem prever seu próprio fim, estando cientes de que pode ocorrer a qualquer momento e tomando precauções especiais — como indivíduos e como grupos — para proteger-se contra a ameaça da aniquilação.
Durante milênios essa foi uma função central de grupos humanos como tribos e Estados, permanecendo uma função importante até nossos dias. No entanto, entre as maiores ameaças aos humanos figuram os próprios humanos. Em nome do objetivo de se proteger da destruição, grupos de pessoas ameaçam outros grupos de destruição. Desde os primeiros dias, sociedades formadas por seres humanos exibem as duas faces de Janus: pacificação para dentro, ameaça para fora. Também em outras espécies a importância da sobrevivência das sociedades encontrou expressão na formação de grupos e na adaptação dos indivíduos à vida comum como uma característica de sua existência. Mas, nesse caso, a adaptação à vida do grupo se baseia em formas geneticamente predeterminadas de conduta ou, na melhor das hipóteses, limita-se a pequenas variações aprendidas que alteram o comportamento inato. No caso dos seres humanos, o equilíbrio entre a adaptação aprendida e a não aprendida à vida em grupo foi revertido. Disposições inatas a uma vida com os outros requerem sua ativação pelo aprendizado — a disposição de falar, por exemplo, pelo aprendizado de uma língua. Os seres humanos não só podem, como devem aprender a regular sua conduta uns em relação aos outros em termos de limitações ou regras específicas à comunidade. Sem aprendizado, não são capazes de funcionar como indivíduos e membros do grupo. Em nenhuma outra espécie essa sintonia com a vida coletiva teve tão profunda influência sobre a forma e desenvolvimento do indivíduo como na espécie humana. Não só meios de comunicação ou padrões de coerção podem diferir de sociedade para sociedade, mas também a experiência da morte. Ela é variável e específica segundo os grupos; não importa quão natural e imutável possa parecer aos membros de cada sociedade particular: foi aprendida.
Na verdade não é a morte, mas o conhecimento da morte que cria problemas para os seres humanos. Não devemos nos enganar: a mosca presa entre os dedos de uma pessoa luta tão convulsivamente quanto um ser humano entre as garras de um assassino, como se soubesse do perigo que corre. Mas os movimentos defensivos da mosca quando em perigo mortal são um dom não aprendido de sua espécie. Uma mãe macaca pode carregar sua cria morta durante certo tempo antes de largá-la em algum lugar e perdê-la. Nada sabe da morte, da de sua cria ou de sua própria. Os seres humanos sabem, e assim a morte se torna um problema para eles.
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A resposta à pergunta sobre a natureza da morte muda no curso do desenvolvimento social, correspondendo a estágios. Em cada estágio, também é específica segundo os grupos. Ideias da morte e os rituais correspondentes tornam-se um aspecto da socialização. Ideias e ritos comuns unem pessoas; no caso de serem divergentes, separam grupos. Seria interessante fazer um levantamento de todas as crenças que as pessoas mantiveram ao longo dos séculos para habituar-se ao problema da morte e sua ameaça incessante a suas vidas; e ao mesmo tempo mostrar tudo o que fizeram umas às outras em nome de uma crença que prometia que a morte não era um fim e que os rituais adequados poderiam assegurar-lhes a vida eterna. Claramente não há uma noção, por mais bizarra que seja, na qual as pessoas não estejam preparadas para acreditar com devoção profunda, desde que lhes dê um alívio da consciência de que um dia não existirão mais, desde que lhes dê esperança numa forma de vida eterna.
Sem dúvida, nas sociedades avançadas os grupos não insistem mais tão apaixonadamente em que apenas sua crença sobrenatural e seus rituais podem garantir a seus membros uma vida eterna depois da vida terrena. Na Idade Média, os indivíduos com crenças minoritárias eram muitas vezes perseguidos a ferro e fogo. Numa cruzada contra os albigenses no sul da França no século XIII, uma comunidade mais forte de crentes destruiu outra mais fraca. Os membros desta foram estigmatizados, expulsos de seus lares e queimados às centenas. “Com alegria em nossos corações presenciamos sua morte no fogo”, disse um dos vencedores. Nenhum sentimento de identidade entre humanos e humanos; crença e ritual os separavam. Com expulsão, prisão, tortura e fogueira, a Inquisição reforçava a campanha dos cruzados contra povos de crenças diferentes. As guerras religiosas do início da era moderna são bem conhecidas. Suas consequências são sentidas ainda hoje, por exemplo na Irlanda. A recente luta entre sacerdotes e governantes seculares no Irã também nos lembra a apaixonada ferocidade do sentimento comunitário e a inimizade que sistemas de crenças sobrenaturais foram capazes de desencadear em sociedades medievais, porque propunham a redenção da morte e a vida eterna.
Nas sociedades mais desenvolvidas, como disse, a busca de ajuda em sistemas de crenças sobrenaturais contra o perigo e a morte se tornou menos apaixonada; em certa medida, transferiu sua base para sistemas seculares de crenças. A necessidade de garantias contra nossa própria transitoriedade diminuiu perceptivelmente em séculos recentes, por contraste com a Idade Média, refletindo um estágio diferente da civilização. Nos Estados-nação mais desenvolvidos, a segurança das pessoas, sua proteção contra os golpes mais brutais do destino como a doença ou a morte repentina, é muito maior que anteriormente, e talvez maior que em qualquer outro estágio do desenvolvimento da humanidade. Comparada com estágios anteriores, a vida nessas sociedades se tornou mais previsível, ainda que exigindo de cada indivíduo um grau mais elevado de antecipação e controle das paixões. A expectativa de vida relativamente alta dos indivíduos nessas sociedades é um reflexo do aumento da segurança. Entre os cavaleiros do século XIII, um homem de quarenta anos era visto quase como um velho; nas sociedades industriais do século XX, ele é considerado quase jovem — com diferenças específicas de classe. A prevenção e o tratamento de doenças hoje estão mais bem-organizados que nunca, por mais inadequados que ainda sejam. A pacificação interna da sociedade, a proteção do indivíduo contra a violência não sancionada pelo Estado, como contra a fome, atingiu um nível inimaginável pelos povos de outros tempos.
É claro que, vista mais de perto, a situação revela quão tênue ainda é a segurança do indivíduo neste mundo. E a tendência à guerra traz uma ameaça constante às vidas dos indivíduos. Só a partir de uma perspectiva de longa duração, pela comparação com épocas passadas, percebemos quanto aumentou nossa segurança contra os perigos físicos imprevisíveis e as ameaças imponderáveis à nossa existência. Parece que a adesão a crenças no outro mundo que prometem proteção metafísica contra os golpes do destino, e acima de tudo contra a transitoriedade pessoal, é mais apaixonada naquelas classes e grupos cujas vidas são mais incertas e menos controláveis. Mas, em termos gerais, nas sociedades desenvolvidas os perigos que ameaçam as pessoas, particularmente o da morte, são mais previsíveis, ao mesmo tempo em que diminui a necessidade de poderes protetores suprahumanos. Não há dúvida de que, com o aumento da incerteza social e com a diminuição da capacidade de as pessoas anteciparem e — até certo ponto — controlarem seus próprios destinos por longos períodos, essas necessidades se tornariam outra vez mais fortes.
A atitude em relação à morte e a imagem da morte em nossas sociedades não podem ser completamente entendidas sem referência a essa segurança relativa e à previsibilidade da vida individual — e à expectativa de vida correspondentemente maior. A vida é mais longa, a morte é adiada. O espetáculo da morte não é mais corriqueiro. Ficou mais fácil esquecer a morte no curso normal da vida. Diz-se às vezes que a morte é “recalcada”. Um fabricante de caixões norteamericano observou recentemente: “A atitude atual em relação à morte deixa o planejamento do funeral, se tanto, para muito tarde na vida.”(B. Deborah Frazier, “Your coffin as furniture — for now”, International Herald Tribune, 2 out 1979)
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Se hoje se diz que a morte é “recalcada”, parece-me que o termo é utilizado num duplo sentido. Pode tratar-se de um “recalcamento” tanto no plano individual como no social. No primeiro caso, o termo é utilizado no mesmo sentido de Freud. Refere-se a todo um grupo de mecanismos psicológicos de defesa socialmente instilados pelos quais experiências de infância excessivamente dolorosas, sobretudo conflitos na primeira infância e a culpa e a angústia a eles associadas, bloqueiam o acesso à memória. De maneiras indiretas e disfarçadas, influenciam os sentimentos e o comportamento da pessoa; mas desapareceram da memória.
Experiências e fantasias da primeira infância também desempenham papel considerável na maneira como as pessoas enfrentam o conhecimento de sua morte próxima. Algumas podem olhar para sua morte com serenidade, outras com um medo intenso e constante, muitas vezes sem expressálo e até mesmo sem capacidade de expressá-lo. Talvez estejam conscientes dele apenas como do medo de voar ou de espaços abertos. Uma maneira familiar de tornar suportáveis as angústias infantis sem ter que enfrentá-las é imaginar-se imortal. Isso assume muitas formas. Conheço pessoas que não são capazes de envolver-se com moribundos porque suas fantasias compensatórias de imortalidade, que mantêm sob controle seus terríveis medos infantis, seriam perigosamente abaladas pela proximidade deles. Esse abalo poderia permitir que seu grande medo da morte — da punição — penetrasse sua consciência, o que seria insuportável.
Aqui encontramos, sob forma extrema, um dos problemas mais gerais de nossa época — nossa incapacidade de dar aos moribundos a ajuda e afeição de que mais que nunca precisam quando se despedem dos outros homens, exatamente porque a morte do outro é uma lembrança de nossa própria morte. A visão de uma pessoa moribunda abala as fantasias defensivas que as pessoas constroem como uma muralha contra a ideia de sua própria morte. O amor de si sussurra que elas são imortais: o contato muito próximo com moribundos ameaça o sonho acalentado. Por trás da necessidade opressiva de acreditar em nossa própria imortalidade, negando assim o conhecimento prévio de nossa própria morte, estão fortes sentimentos de culpa recalcados, talvez ligados a desejos de morte em relação ao pai, à mãe e aos irmãos, com o temor de desejos análogos da parte deles. Nesse caso, a única fuga possível da culpa angústia em torno do desejo de morte (especialmente quando dirigido a membros da família) e da ideia da vingança deles (o medo da punição por nossa culpa) é uma crença particularmente forte em nossa própria imortalidade, ainda que possamos estar parcialmente cientes da fragilidade dessa crença.
A associação do medo da morte a sentimentos de culpa pode ser encontrada em mitos antigos. No paraíso, Adão e Eva eram imortais. Deus os condenou a morrer porque Adão, o homem, violou o mandamento do pai divino. O sentimento de que a morte é uma punição imposta a mulheres e homens pela figura do pai ou da mãe, ou de que depois da morte serão punidos pelo grande pai por seus pecados, também desempenhou papel considerável no medo humano da morte por um longo tempo. Seria certamente possível tornar a morte mais fácil para algumas pessoas se fantasias de culpa desse tipo pudessem ser atenuadas ou suprimidas.
Esses problemas individuais do recalcamento da ideia da morte andam de mãos dadas com problemas sociais específicos. Nesse plano, o conceito de recalcamento tem um sentido diferente. No entanto, a peculiaridade do comportamento em relação à morte que prevalece hoje na sociedade só é percebida se comparada à de épocas anteriores ou de outras sociedades. Só então se poderá situar a mudança de comportamento em um quadro teórico mais amplo, tornando-a assim acessível à explicação. Formulando a questão diretamente, a mudança de comportamento social referida ao falarmos do “recalcamento” da morte nesse sentido é um aspecto do impulso civilizador mais amplo que examinei com mais detalhes em outro lugar.(N. Elias, O processo civilizador, Rio de Janeiro, Zahar, 2 vols., 1990 e 1993) Em seu curso, todos os aspectos elementares e animais da vida humana, que quase sem exceção significam perigo para a vida comunitária e para o próprio indivíduo, são regulados de maneira mais equilibrada, mais inescapável e mais diferenciada que antes pelas regras sociais e também pela consciência. De acordo com as novas relações de poder, associam-se a sentimentos de vergonha, repugnância ou embaraço e, em certos casos, especialmente durante o grande impulso europeu de civilização, são banidos para os bastidores ou pelo menos removidos da vida social pública. A mudança de longa duração no comportamento das pessoas em relação aos moribundos segue a mesma direção. A morte é um dos grandes perigos biossociais na vida humana. Como outros aspectos animais, a morte, tanto como processo quanto como imagem mnemônica, é empurrada mais e mais para os bastidores da vida social durante o impulso civilizador. Para os próprios moribundos, isso significa que eles também são empurrados para os bastidores, são isolados.
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Philippe Ariès, em seu instigante e bem-documentado História da morte no Ocidente, tentou apresentar a seus leitores um retrato vívido das mudanças no comportamento e atitudes dos povos ocidentais diante da morte. Mas Ariès entende a história puramente como descrição. Acumula imagens e mais imagens e assim, em amplas pinceladas, mostra a mudança total. Isso é bom e estimulante, mas não explica nada. A seleção de fatos de Ariès se baseia numa opinião preconcebida. Ele tenta transmitir sua suposição de que antigamente as pessoas morriam serenas e calmas. É só no presente, postula, que as coisas são diferentes. Num espírito romântico, Ariès olha com desconfiança para o presente inglório em nome de um passado melhor. Embora seu livro seja rico em evidências históricas, sua seleção e interpretação dessas evidências deve ser examinada com muito cuidado. É difícil concordar com ele quando apresenta os Romans de la Table Ronde, a conduta de Isolda e do Arcebispo Turpin, como evidência da calma com que os povos medievais esperavam pela morte. Ele não diz que esses épicos medievais eram idealizações da vida cortesã, imagens seletivas que muitas vezes lançam mais luz no que o poeta e seu público julgavam que deveria ser do que no que realmente era. O mesmo se aplica a outras fontes literárias utilizadas por Ariès. Sua conclusão é característica e mostra sua parcialidade:
Assim [isto é, calmamente] morreram as pessoas durante séculos ou milênios … Essa atitude antiga, para a qual a morte era ao mesmo tempo familiar, próxima e amenizada, indiferente, contrasta com a nossa, em que a morte provoca tal medo que não mais temos coragem de chamá-la por seu nome. É por isso que chamo essa morte familiar de morte domesticada. Não quero dizer que tenha sido selvagem anteriormente…. Quero dizer, ao contrário, que se tornou selvagem hoje.
(Philippe Ariès, Studien zur Geschichte des Todes im Abendland, Munique/Viena, 1976, p.25. [Ed. fr.: Histoire de la mort en Occident, Paris, Seuil, col. Points.])

Se comparada à vida nos Estados-nação altamente industrializados, a vida nos Estados feudais medievais era — e é, onde tais Estados ainda existem no presente — apaixonada, violenta e, portanto, incerta, breve e selvagem. Morrer pode significar tormento e dor. Antigamente as pessoas tinham menos possibilidades de aliviar o tormento. Nem mesmo hoje a arte da medicina avançou o suficiente para assegurar a todos uma morte sem dor. Mas avançou o suficiente para permitir um fim mais pacífico para muitas pessoas que outrora teriam morrido em terrível agonia.
O certo é que a morte era tema mais aberto e frequente nas conversas na Idade Média do que hoje. A literatura popular dá testemunho disso. Mortos, ou a Morte em pessoa, aparecem em muitos poemas. Em um deles, três vivos passam por um túmulo aberto e os mortos lhes dizem: “O que vocês são, nós fomos. O que somos, vocês serão.” Em outro, a Vida e a Morte discutem. A Vida se queixa de que a Morte está maltratando seus filhos; a Morte ostenta seu sucesso. Em comparação com o presente, a morte naquela época era, para jovens e velhos, menos oculta, mais presente, mais familiar. Isso não quer dizer que fosse mais pacífica. Além disso, o nível social do medo da morte não foi constante nos muitos séculos da Idade Média, tendo se intensificado notavelmente durante o século XIV. As cidades cresceram. A peste se tornou mais renitente e varria a Europa em grandes ondas. As pessoas temiam a morte ao seu redor. Pregadores e frades mendicantes reforçavam tal medo. Em quadros e escritos surgiu o motivo das danças da morte, as danças macabras. Morte pacífica no passado? Que perspectiva histórica mais unilateral! Seria interessante comparar o nível social do medo em nossos dias, no contexto da poluição ambiental e das armas atômicas, com o de estágios anteriores da civilização, em que havia menor pacificação interna e menor controle de epidemias e outras doenças.
O que às vezes reconfortava os moribundos no passado era a presença de outras pessoas. Mas isso dependia das atitudes. Disseram-nos(William Roper, The Life of Sir Thomas More, Londres, 1969. Ver também minhas observações críticas sobre a confiabilidade de Roper: “Thomas Morus Staatskritik”, in Utopieforschung, vol.2, Stuttgart, Wilhelm Vosskamp, 1982, p.101-50, esp. 137-44.) que Thomas More, chanceler de Henrique VIII, abraçou seu pai moribundo no leito de morte e o beijou nos lábios — um pai que ele reverenciou e respeitou por toda a vida. Havia casos, no entanto, em que os herdeiros em volta do leito de morte zombavam e escarneciam do velho moribundo. Tudo dependia das pessoas. Considerada um estágio de desenvolvimento social, a Idade Média foi um período excessivamente instável. A violência era comum; o conflito, apaixonado; a guerra, muitas vezes a regra; e a paz, exceção. Epidemias varriam as terras da Eurásia, milhares morriam atormentados e abandonados sem ajuda ou conforto. Más colheitas frequentemente faziam escassear o pão para os pobres. Multidões de mendigos e aleijados eram uma característica normal da paisagem medieval. As pessoas eram capazes tanto de grande gentileza quanto de crueldade bárbara, júbilo pelo tormento dos outros e total indiferença em relação a seus sofrimentos. Os contrastes eram mais marcados que os de hoje — entre a satisfação desenfreada dos apetites e a auto-humilhação, o ascetismo e a penitência também desenfreados sob o peso de um sentido aterrorizante do pecado, e também entre o fausto dos senhores e a miséria dos pobres. O medo da punição depois da morte e a angústia em relação à salvação da alma se apossavam igualmente de ricos e de pobres, sem aviso prévio. Como garantia, os príncipes sustentavam igrejas e mosteiros; os pobres rezavam e se arrependiam.
Tanto quanto posso ver, Ariès diz pouco sobre o medo do inferno espalhado pela Igreja. Mas há quadros medievais que mostram o que, de acordo com as ideias da época, esperava pelas pessoas depois da morte. Um exemplo ainda pode ser encontrado num cemitério famoso do final da Idade Média, em Pisa. Uma figura retrata vividamente os terrores que aguardavam as pessoas depois da morte. Mostra os anjos conduzindo as almas salvas para a vida sem fim no paraíso, e os horríveis demônios que atormentam os condenados ao inferno. Com tais imagens aterrorizantes diante dos olhos, uma morte pacífica não pode ter sido fácil.
Em resumo, a vida na sociedade medieval era mais curta; os perigos, menos controláveis; a morte, muitas vezes mais dolorosa; o sentido da culpa e o medo da punição depois da morte, a doutrina oficial. Porém, em todos os casos, a participação dos outros na morte de um indivíduo era muito mais comum. Hoje sabemos como aliviar as dores da morte em alguns casos; angústias de culpa são mais plenamente recalcadas e talvez dominadas. Grupos religiosos são menos capazes de assegurar sua dominação pelo medo do inferno. Mas o envolvimento dos outros na morte de um indivíduo diminuiu. Como em relação a outros aspectos do processo civilizador, não é fácil equilibrar custos e benefícios. Mas o quadro preto e branco pintado com o sentimento do “bom passado, mau presente” não serve a qualquer propósito. A questão principal é como e por que era assim, e por que se tornou diferente. Uma vez certos das respostas a essas perguntas, estaremos em condições de formar um juízo de valor.
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No curso de um processo civilizador, mudam os problemas enfrentados pelas pessoas. Mas não mudam de uma maneira desestruturada, caótica. Examinando de perto, detectamos uma ordem específica mesmo na sucessão de problemas sociais humanos que acompanham o processo. Esses problemas também têm formas que são específicas de seu estágio particular.
Assim, por exemplo, as pessoas se tornaram conscientes das doenças causadas por vírus como um problema independente apenas depois de terem obtido sucesso na explicação e, até certa medida, no controle das grandes infecções por bactérias. O ganho não foi em vão, pois representou progresso, mas não foi absoluto, pois não encerrou a luta contra os agentes patogênicos. O mesmo vale para o aumento da população. O progresso na luta contra a doença, particularmente o controle das grandes epidemias, é parcialmente responsável por esse processo cego, não planejado e perigoso. Que pensaríamos de alguém que, diante do perigo da explosão demográfica, ansiasse por um retorno ao “bom passado” com suas restrições malthusianas ao aumento da população — peste, guerra, abstinência, fome e morte precoce?
No curso do nítido surto civilizador que teve início há quatrocentos ou quinhentos anos, as atitudes das pessoas em relação à morte e a própria maneira de morrer sofreram mudanças, junto com muitas outras coisas. Os contornos e a direção dessa mudança são claros. Podem ser demonstrados por uns poucos exemplos, mesmo num contexto em que não é possível fazer justiça à complexa estrutura dessa mudança.
Em épocas mais antigas, morrer era uma questão muito mais pública do que hoje. E não poderia ser diferente. Primeiro porque era muito menos comum que as pessoas estivessem sozinhas. Freiras e monges podem ter estado sós em suas celas, mas as pessoas comuns viviam constantemente juntas. As moradias deixavam pouca escolha. Nascimento e morte — como outros aspectos animais da vida humana — eram eventos mais públicos, e portanto mais sociáveis, que hoje; eram menos privatizados. Nada é mais característico da atitude atual em relação à morte que a relutância dos adultos diante da familiarização das crianças com os fatos da morte. Isso é particularmente digno de nota como sintoma de seu recalcamento nos planos individual e social. Uma vaga sensação de que as crianças podem ser prejudicadas leva a se ocultar delas os simples fatos da vida que terão que vir a conhecer e compreender. Mas o perigo para as crianças não está em que saibam da finitude de cada vida humana, inclusive a de seu pai, de sua mãe e de sua própria; de qualquer maneira as fantasias infantis giram em torno desse problema, e o medo e a angústia que o cercam são muitas vezes reforçados pelo poder intenso de sua imaginação. A consciência de que normalmente terão uma longa vida pela frente pode ser, em contraste com suas perturbadoras fantasias, realmente benéfica. A dificuldade está em como se fala às crianças sobre a morte, e não no que lhes é dito. Os adultos que evitam falar a seus filhos sobre a morte sentem, talvez não sem razão, que podem transmitir a eles suas próprias angústias. Sei de casos em que um dos pais morreu num acidente de automóvel. As reações dos filhos dependem da idade e da estrutura da personalidade, mas o efeito profundamente traumático que tal experiência pode ter neles me faz acreditar que seria salutar para as crianças que tivessem familiaridade com o simples fato da morte, a finitude de suas próprias vidas e a de todos os demais. Sem dúvida, a aversão dos adultos de hoje a transmitir às crianças os fatos biológicos da morte é uma peculiaridade do padrão dominante da civilização nesse estágio. Antigamente, as crianças também estavam presentes quando as pessoas morriam. Onde quase tudo acontece diante dos olhos dos outros, a morte também tem lugar diante das crianças.
6
Nos estágios anteriores de desenvolvimento social, as pessoas eram menos cerceadas na esfera da vida social, inclusive na fala, pensamento e escrita. A censura pessoal, e a dos companheiros, assumia forma diferente. Um poema de período relativamente tardio — século XVII — pode ajudar a ilustrar a diferença. É do poeta silésio Christian Hofmann von Hofmannswaldau e leva o título de “Transitoriedade da beleza”.
Por fim a morte pálida com sua mão gelada
Com o tempo acariciará teus seios;
O belo coral de teus lábios empalidecerá
A neve de teus mornos ombros será fria areia
O doce piscar de teus olhos / o vigor de tua mão
Por quem caem / cedo desaparecerão
Teu cabelo / que agora tem o tom do ouro
Os anos farão cair, uma comum madeixa
Teu bem-formado pé / a graça de teus movimentos
Serão em parte pó / em parte nada e vazio.
Então ninguém mais cultuará teu esplendor agora divino
Isso e mais que isso por fim terá passado
Só teu coração todo o tempo durará
Porque de diamante o fez a Natureza.
Leitores de nossos dias podem achar a metáfora da morte pálida acariciando os seios da bemamada com sua mão fria um tanto grosseira, talvez de mau gosto. Podem, ao contrário, ver no poema uma profunda preocupação com o problema da morte. Mas talvez só possamos nos ocupar desse poema em virtude de um singular surto de informalização, que começou depois de 1918, foi fortemente revertido em 1933 e ganhou impulso novamente de 1945 em diante. Como muitos poemas barrocos, ofende grande número de tabus vitorianos e guilherminos. Referir-se com tal detalhe, com tão pouco romantismo e mesmo num tom um tanto jocoso à morte da amada pode, até mesmo hoje, quando prevalece um certo relaxamento dos tabus vitorianos, parecer incomum. Até que atentemos para as mudanças civilizatórias que encontram expressão no presente, e, portanto, na estrutura de nossa própria personalidade, ficaremos no escuro enquanto intérpretes, enquanto historiadores hermenêuticos do passado. Interpretações arbitrárias serão a norma e conclusões erradas, a regra. O fato de que gerações anteriores falassem mais abertamente da morte, da sepultura e dos vermes será tomado como indicação de seu interesse mórbido pela morte; suas francas referências às relações físicas entre homens e mulheres, como signos de lascívia ou frouxidão moral. Só quando formos capazes de maior distanciamento de nós mesmos, de nosso estágio de civilização, e nos tornarmos conscientes do caráter específico de nosso próprio limiar de vergonha e repugnância, poderemos fazer justiça às ações e obras de pessoas em outros estágios.
Um poema como esse provavelmente aflorou de maneira muito mais direta do intercurso social de homens e mulheres do que os poemas mais privados e individualizados de nossa época. Nele, seriedade e graça se combinam de um modo sem paralelos hoje. Talvez fosse um poema escrito para uma ocasião particular; pode ter se difundido nos círculos de Hofmannswaldau e causado muito divertimento a seus amigos de ambos os sexos. Falta aqui o tom solene ou sentimental mais tarde muitas vezes associado à lembrança da morte e da sepultura. Que tal advertência seja combinada com uma brincadeira mostra a diferença de atitude de maneira especialmente clara. As pessoas no círculo do poeta devem ter se divertido com uma brincadeira que facilmente escapa a um leitor moderno. Hofmannswaldau diz à sua relutante amada que sua beleza desaparecerá na sepultura, seus lábios de coral, seus ombros de neve, seus olhos insinuantes, todo seu corpo decairá — exceto seu coração: ele é duro como diamante, pois ela não dá ouvidos a seus apelos. No registro dos sentimentos contemporâneos dificilmente encontraremos qualquer coisa que corresponda a essa mistura de funéreo e irreverente, essa descrição detalhada da decomposição humana como manobra de sedução.
Podemos talvez tomar o poema como invenção individual do escritor. Do ponto de vista da história da literatura, poderia facilmente ser assim interpretado. Mas, no contexto, como evidência da atitude em relação à morte existente num estágio diferente de civilização, o poema ganha significação precisamente pelo fato de que seu tema é tudo menos uma invenção individual. É um tema comum da poesia barroca europeia no sentido mais amplo, que nos diz alguma coisa sobre o modo dos jogos do amor nas sociedades patrícias e cortesãs do século XVII.
Nessas sociedades, havia numerosos poemas sobre o mesmo tema. Apenas o tratamento poético era individual e variável. O mais belo e famoso poema sobre ele é “To his Coy Mistress” [“À sua amada recatada”], de Marvell. Contém a mesma brusca lembrança do que aguarda o belo corpo na sepultura, advertindo a mulher de coração duro a não fazê-lo esperar tanto. Esse poema também foi desprezado durante séculos. Hoje, alguns de seus versos são citações de antologias:
A sepultura é um bom lugar privado, Mas nela, creio, ninguém é amado.
Variações sobre o mesmo tema são encontradas em Ronsard, Opitz e outros poetas da época. Representam um limiar diferente do nosso de vergonha e embaraço e, portanto, uma estrutura diferente de personalidade, que é social e não individual. Referências à morte, à sepultura e a todos os detalhes do que acontece aos seres humanos nessa situação não eram sujeitas a uma censura social estrita. A visão de corpos humanos em decomposição era lugar-comum. Todos, inclusive as crianças, sabiam como eram esses corpos; e, porque todos sabiam, podiam falar disso com relativa liberdade, na sociedade e na poesia.
Hoje as coisas são diferentes. Nunca antes na história da humanidade foram os moribundos afastados de maneira tão asséptica para os bastidores da vida social; nunca antes os cadáveres humanos foram enviados de maneira tão inodora e com tal perfeição técnica do leito de morte à sepultura.
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Intimamente ligado em nossos dias, à maior exclusão possível da morte e dos moribundos da vida social, e à ocultação dos moribundos dos outros, particularmente das crianças, há um desconforto peculiar sentido pelos vivos na presença dos moribundos. Muitas vezes não sabem o que dizer. A gama de palavras disponíveis para uso nessas ocasiões é relativamente exígua. O embaraço bloqueia as palavras. Para os moribundos essa pode ser uma experiência amarga. Ainda vivos, já haviam sido abandonados. Mas mesmo aqui o problema que a proximidade da morte e a morte colocam para os que ficam não existe isoladamente. A reticência e a falta de espontaneidade na expressão de sentimentos de simpatia nas situações críticas de outras pessoas não se limitam à presença de alguém que está morrendo ou de luto. Em nosso estágio de civilização manifesta-se em muitas ocasiões que demandam a expressão de forte participação emocional sem perda do autocontrole. Algo semelhante ocorre em situações de amor e de ternura.
Em todos esses casos é especialmente a geração mais jovem que, mais que em séculos anteriores, fica entregue a seus próprios recursos, a sua própria capacidade de invenção individual, na procura das palavras certas para seus sentimentos. A convenção social fornece às pessoas umas poucas expressões estereotipadas ou formas padronizadas de comportamento que podem tornar mais fácil enfrentar as demandas emocionais de tal situação. Frases convencionais e rituais ainda estão em uso, porém mais pessoas do que antigamente se sentem constrangidas em usá-las, porque parecem superficiais e gastas. As fórmulas rituais da velha sociedade, que tornavam mais fácil enfrentar situações críticas como essa, soam caducas e pouco sinceras para muitos jovens; novos rituais que reflitam o padrão corrente dos sentimentos e comportamentos, que poderiam tornar a tarefa mais fácil, ainda não existem.
Seria falso sugerir que os problemas específicos do estágio da civilização na relação dos saudáveis com os moribundos, dos vivos com os mortos, são um dado isolado. O que surge aqui é um problema parcial, um aspecto de um problema geral da civilização em seu estágio presente. Nesse caso, também, a peculiaridade da situação presente pode ser melhor delineada por referência a um exemplo do mesmo problema no passado. No final de outubro de 1758, a margravina de Bayreuth, irmã do rei Frederico II da Prússia, estava à morte. O rei não pôde viajar para vê-la, mas mandou às pressas seu próprio médico Cothenius, caso ainda pudesse ajudá-la. Mandou também poemas e a seguinte carta, datada de 20 de outubro:
Ternamente amada Irmã, Recebe com carinho os versos que te mando. Estou tão cheio de ti, teu risco e minha gratidão, que tua imagem constantemente governa minh’alma e todos os meus pensamentos, acordado ou sonhando, escrevendo prosa ou poesia. Que o Céu atenda os votos por tua recuperação que diariamente lhe dirijo! Cothenius está a caminho; venerá-lo-ei se puder preservar a pessoa que é em todo o mundo a mais próxima de meu coração, que estimo e honro e por quem continuo, até o momento de devolver meu corpo aos elementos, mais ternamente amada irmã, teu leal e devotado irmão e amigo,
Frederico
O rei não escreveu essa carta em francês, mas em alemão, o que raramente fazia. Podemos imaginar que a carta serviu de consolo à moribunda e facilitou sua partida do mundo dos vivos — se ainda foi capaz de lê-la.
A língua alemã não é particularmente rica em expressões nuançadas para ligações não sexuais entre pessoas — não sexuais, qualquer que seja sua origem. Faltam palavras correspondentes à “afeição” e “afeiçoado”. Zuneigung e zugetan, que sugerem a ideia de “inclinação”, não carregam a simpatia comedida do nosso termo, e são pouco usadas. A “mais ternamente amada irmã” de Frederico é, sem dúvida, expressão exata de seus sentimentos. Seria usada hoje? Sua ligação com sua irmã era provavelmente o mais forte laço que o prendia a qualquer mulher ou pessoa em sua vida. Podemos supor que o sentimento verbalizado em sua carta é sincero. A afeição entre irmão e irmã era recíproca. Ele claramente compreendia que uma afirmação de sua grande afeição levaria conforto à moribunda. Mas a expressão desses sentimentos fica mais fácil para ele por sua confiança implícita em certas convenções linguísticas de sua sociedade, que conduzem sua pena. O leitor moderno, com ouvido afinado para detectar os clichês do passado, pode perceber “tua imagem” que “constantemente governa minh’alma” como convencional e “o Céu atenda os votos” como teatralmente barroco, particularmente na boca de um monarca que não era famoso pela piedade. De fato, Frederico utiliza termos convencionais para exprimir seus sentimentos. Mas é capaz de usá-los de tal maneira que sua sinceridade é visível, e podemos supor que a irmã percebeu essa sinceridade. A estrutura das comunicações era tal que aqueles a quem eram endereçadas podiam distinguir entre usos sinceros e insinceros de expressões corteses, ao passo que nossos ouvidos não podem mais distinguir essas nuances de civilidade.
Isso ilumina os contrastes com a situação presente. O breve surto de informalização(Cf. Cas Wouters, “Informalization and the civilizing process”, in Human Figurations. Essays for Norbert Elias, org. Peter R. Gleichmann, Johan Goudsblom e Hermann Korte, Amsterdã, 1977, p.437-53.) ainda em progresso nos torna especialmente desconfiados em relação aos rituais convencionais e às frases “floreadas” de gerações passadas. Muitas fórmulas socialmente prescritas trazem em torno de si a aura de antigos sistemas de dominação; não podem mais ser usadas mecanicamente como o om mani padme nos círculos de oração dos monges budistas. Mas ao mesmo tempo a mudança que acompanha o estágio presente da civilização produz em muitas pessoas uma indisposição e muitas vezes uma incapacidade de exprimir emoções fortes, tanto na vida pública como na vida privada. Elas só podem ser ventiladas, assim parece, em conflitos políticos e sociais. No século XVII, os homens podiam chorar em público; isso tornou-se hoje difícil e pouco frequente. Só as mulheres ainda são capazes, socialmente livres para fazê-lo — por quanto tempo ainda?
Na presença de pessoas que estão para morrer — e dos que as pranteiam — vemos, portanto, com particular clareza um dilema característico do presente estágio do processo civilizador. Uma mudança em direção à informalidade fez com que uma série de padrões tradicionais de comportamento nas grandes situações de crise da vida humana, incluindo o uso de frases rituais, se tornasse suspeita e embaraçosa para muitas pessoas. A tarefa de encontrar a palavra e o gesto certos, portanto, sobra para o indivíduo. A preocupação de evitar rituais e frases socialmente prescritos aumenta as demandas sobre a capacidade de invenção e expressão individual. Essa tarefa, porém, está muitas vezes fora do alcance das pessoas no estágio corrente da civilização. A maneira como as pessoas vivem em conjunto, que é fundamental neste estágio, exige e produz um grau relativamente alto de reserva na expressão de afetos fortes e espontâneos. Muitas vezes, só sob pressão excepcional elas são capazes de superar a barreira que bloqueia as ações resultantes de fortes emoções, e também sua verbalização. Assim, a fala espontânea com os moribundos, da qual estes têm especial necessidade, torna-se difícil. Apenas as rotinas institucionalizadas dos hospitais dão alguma estruturação social para a situação de morrer. Essas, no entanto, são em sua maioria destituídas de sentimentos e acabam contribuindo para o isolamento dos moribundos.
Rituais religiosos de morte podem provocar nos crentes sentimentos de que as pessoas estão pessoalmente preocupadas com eles, o que é sem dúvida a função real desses rituais. Fora deles, morrer é no presente uma situação amorfa, uma área vazia no mapa social. Os rituais seculares foram esvaziados de sentimento e significado; as formas seculares tradicionais de expressão são pouco convincentes. Os tabus proíbem a excessiva demonstração de sentimentos fortes, embora eles possam acontecer. E a tradicional aura de mistério que cerca a morte, com o que permanece dos gestos mágicos — abrir as janelas, parar os relógios —, torna a morte menos tratável como problema humano e social que as pessoas devem resolver entre si e para si. No presente, aqueles que são próximos dos moribundos muitas vezes não têm capacidade de apoiá-los e confortá-los com a prova de sua afeição e ternura. Acham difícil apertar a mão de um moribundo ou acariciá-lo, proporcionarlhe uma sensação de proteção e pertencimento, ainda. O crescente tabu da civilização em relação à expressão de sentimentos espontâneos e fortes trava suas línguas e mãos. E os viventes podem, de maneira semiconsciente, sentir que a morte é contagiosa e ameaçadora; afastam-se involuntariamente dos moribundos. Mas, para os íntimos que se vão, um gesto de afeição é talvez a maior ajuda, ao lado do alívio da dor física, que os que ficam podem proporcionar.
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O afastamento dos vivos em relação aos moribundos e o silêncio que gradualmente os envolve continuam depois que chega o fim. Isso pode ser visto, por exemplo, no tratamento dos cadáveres e no cuidado com as sepulturas. As duas atividades saíram das mãos da família, parentes e amigos e passaram para especialistas remunerados. A memória da pessoa morta pode continuar acesa; os corpos mortos e as sepulturas perderam significação. A Pietà de Michelangelo, a mãe em prantos com o corpo de seu filho, continua compreensível como obra de arte, mas dificilmente imaginável como situação real.
Uma brochura publicada por jardineiros de cemitério mostra quão distante o cuidado das sepulturas está das famílias.(Friedhof. Grüner Raum in der Stadt, publicado pela Zentrale Marketinggesellschaft der deutschen Agrarwirtschaft GmbH, em colaboração com a Zentralverband Gartenbau e V. Bundesfachgruppe Friedhofsgärtner.) Naturalmente, adverte contra concorrentes e rivais que podem reduzir a quantidade de flores adornando as sepulturas. Podemos supor que a agência de marketing adaptou a brochura tanto quanto possível à mentalidade dos possíveis consumidores. O silêncio sobre a significação das sepulturas como lugares onde pessoas mortas estão enterradas é, em função disso, quase total. Compreensivelmente, referências explícitas a qualquer conexão entre a profissão de jardineiro de cemitério e o enterro dos cadáveres estão inteiramente ausentes. Essa ocultação cuidadosa, que reflete a mentalidade dos clientes potenciais, surge de maneira especialmente clara se lembrarmos o tom dos poemas do século XVII citados acima. A franqueza com que eles falam do que acontece ao corpo na sepultura oferece claro contraste à supressão higiênica de associações desagradáveis do material impresso e, sem dúvida, da conversação social de nosso tempo. Que Marvell pudesse esperar ganhar os favores da mulher amada advertindo-a de que os vermes ameaçariam sua “tão preservada virgindade” e de que sua “singular honra se tornaria pó” na sepultura dá uma indicação do quanto avançou o limiar de repugnância desde então, no curso de um processo civilizador não planejado. Lá, mesmo os poetas falam com desembaraço dos vermes da sepultura; aqui, mesmo os jardineiros do cemitério evitam qualquer coisa que possa lembrar a conexão entre sepultura e morte. A mera palavra “morte” é evitada sempre que possível; aparece só uma vez na brochura — quando são mencionadas as datas comemorativas dos mortos; e a má impressão causada pela palavra é imediatamente equilibrada pela menção aos dias de casamento — quando também se requerem flores. As perigosas associações de cemitério são neutralizadas apresentando-o simplesmente como um “espaço verde na cidade”:

Os jardineiros de cemitério alemães … gostariam de dar ao cemitério maior relevo na consciência pública como uma área cultural e tradicional, como um lugar de recolhimento e como parte da área verde urbana. Pois uma consciência pública elevada é a melhor garantia de que o tradicional retrato do cemitério verde e em flor não será um dia ameaçado por estranhos costumes de enterro, por restrições baseadas em argumentos econômicos, por desmandos de projetos descontrolados ou pelo planejamento tecnocrático dos espaços fundado exclusivamente na racionalização.

Seria proveitoso discutir em detalhe as táticas da luta contra os vários rivais comerciais, mas não aqui. De todo modo, os clientes potenciais são protegidos, tanto quanto humanamente possível, da lembrança da morte e de tudo relativo a ela. Para a possível clientela, a morte se tornou de mau gosto. Mas a atitude evasiva e encobridora, por sua vez, tem um efeito algo desagradável.
Seria muito bom se o lugar de recordação dos mortos fosse realmente planejado como um parque para os vivos. Essa é a imagem que os jardineiros do cemitério gostariam de transmitir — “uma ilha silenciosa, verde e em flor em meio ao ruído frenético da vida cotidiana”. Se fossem realmente parques para os vivos, onde os adultos pudessem comer seus sanduíches e as crianças, brincar! Talvez isso tenha sido possível outrora, mas é impossível hoje em função da tendência à solenidade, à ideia de que a graça e o riso são inadequados na vizinhança dos mortos — sintomas da tentativa semiconsciente dos vivos de distanciar-se dos mortos e de empurrar esse aspecto embaraçoso da animalidade humana para tão longe quanto possível atrás das cenas da vida normal. Crianças que tentem brincar alegremente entre os túmulos serão advertidas pelos guardiães da grama bem-aparada e dos canteiros por sua falta de reverência e respeito aos mortos. Mas quando as pessoas morrem, nada sabem da reverência com que são ou não tratadas. E a solenidade com que funerais e túmulos são cercados, a ideia de que deve haver silêncio em torno deles, de que se deve falar em voz abafada nos cemitérios para evitar perturbar a paz dos mortos — tudo isso são realmente formas de distanciar os vivos dos mortos, meios de manter à distância uma sensação de ameaça. São os vivos que exigem reverência pelos mortos, e têm suas razões. Essas incluem seu medo da morte e dos mortos; mas muitas vezes também servem como meio de aumentar o poder dos vivos.

 
(Continua em Solidão dos Moribundos 2)

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publicado às 16:52



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