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A sexualidade grega

por Thynus, em 25.12.15
Não é só com relação ao ócio que devemos lembrar que os antigos tinham outros conceitos que não os nossos. Sexualidade é uma noção inventada modernamente e refere-se à maneira como se expressam as relações entre os sexos e os seus desejos. (Amor e sexualidade estão relacionados um ao outro e, no mundo ocidental em que vivemos, não se pode separar estes temas de dois aspectos que não existiam na Antigüidade grega: a herança judaico-cristã e o discurso científico surgido no século xix d.C. No primeiro caso, as relações sexuais ligam-se tradicionalmente às noções de culpa e pecado, de abstinência e controle dos desejos, considerados, de uma maneira ou de outra, ligados às forças do demônio. [pág. 052]A noção de pecado original é muito importante, pois se associa a queda do homem do Paraíso, à descoberta da nudez e, portanto, da sexualidade. Segundo o Gênesis (3, 6-7):
Viu, pois, a mulher que o fruto da árvore era bom para comer e formoso aos olhos e de aspecto agradável; e tirou do fruto dela e comeu; e deu a Adão, que também comeu. E os olhos de ambos se abriram: e, tendo conhecido que estavam nus, coseram folhas de figueira, e fizeram para si cinturas.
No Cristianismo tradicional, justifica-se a relação sexual apenas e tão-somente para a reprodução e, por isso, o casamento foi, durante muitos séculos, algo somente tolerado pela Igreja. O Protestantismo, que viria a abençoar a procriação, seguia uma tradição também presente na Bíblia, segundo a qual o homem devia "crescer e multiplicar-se". Contudo, mesmo aqui, justifica-se a relação sexual apenas na busca da procriação. Isto não significa que não tenha, sempre, havido muitas práticas diversas destas aqui expostas, mas o que importa é que havia um padrão moral que, ao não ser seguido, implicava uma sanção externa, por parte das autoridades eclesiásticas, mas também internas. A internalização da culpa associada ao sexo fez com que, ainda que o comportamento fosse muito diverso, o sentimento de culpa fosse muito forte. A partir do século xIx d.C., houve um crescente interesse do homem pelo estudo das ciências, e a sexualidade humana passou a ser considerada algo não do reino divino, mas do animal. A inserção do ser humano no reino animal foi capital para se encarar a sexualidade como instintiva e, em muitos aspectos, semelhante àquela dos outros animais. Retirada, aparentemente apenas, a culpa, a sexualidade passou a ser considerada algo cientificamente estudável. Alguns estudiosos levaram esta perspectiva aos extremos de quantificar tudo o que se refere ao sexo: quantas relações sexuais por semana, quanto tempo leva cada uma, qual o número de parceiros, qual o sexo dos parceiros. Criaram-se, então, conceitos novos, como o de "homossexualidade", tal como o usamos no dia-a-dia, ou seja, aplicado a pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo. Com o tempo, e como decorrência, surgiram conceitos como "heterossexualidade" e "bissexualidade". O que nos [pág. 053] interessa é que, hoje em dia, somos herdeiros de duas concepções bastante diversas de sexualidade: aquela tradicional, ligada às sanções morais da religião, e a abordagem derivada da ciência. Para que entendamos como era a sexualidade grega, temos que nos despir destas duas concepções que não existiam no mundo grego. As relações sexuais entre os humanos não existem fora da cultura e, por isso mesmo, nunca poderíamos pensar em relações sexuais "segundo os instintos animais", pois esses instintos, que existem, só se expressam em contextos específicos. Isto fica claro por uma analogia com outro instinto, a fome. O substrato instintivo da fome só pode se manifestar em desejos impostos por uma cultura determinada. Feijoada, hambúrguer e chucrutz são maneiras muito diversas de matar a fome, e a cultura determinará qual nos satisfaz. No caso das relações sexuais, o mesmo se passa, ainda que não o notemos tão facilmente. Hoje em dia não estamos acostumados com casamentos arranjados, mas sabemos que existem em muitos países. Tampouco é legal a poligamia no Ocidente, mas é algo aceito em outros lugares, como em alguns países muçulmanos. Quem já não ouviu falar em "harém"?)
Após este longo preâmbulo, podemos chegar aos gregos. Já mencionei que, nas elites, os casamentos eram arranjados e não ocorriam, portanto, por amor, tal como nós o concebemos, entre duas pessoas que, por comunhão de idéias e de atrações, namoram e se casam. A própria idéia de beleza feminina era completamente diferente da nossa. Em primeiro lugar, os maridos gregos procuravam nas mulheres a perfeição física, ou seja, a ausência de defeitos e, em seguida, uma robustez que permitisse antever bons partos. Pele clara demonstrava a beleza, significando que a mulher não era obrigada a se expor ao sol para o trabalho e ficava reclusa no gineceu, como se chamavam os aposentos femininos. A timidez era também considerada uma qualidade para uma boa esposa. Na escolha dos futuros maridos para as filhas, a força era valorizada, mas ainda mais o era a coragem e sua inserção social, sua posição. Isto tudo se dava entre a gente "de bem", pois, para a imensa maioria de cidadãos mais simples, o casamento, mais do que uma união de famílias e de propriedades, era uma maneira de conseguir sobreviver trabalhando em conjunto. [pág. 054]
 
Na elite, o sistema familiar era patriarcal e fortemente limitador da liberdade das mulheres. Um de seus traços mais marcantes era a separação muito clara entre o mundo feminino e o masculino, aquele voltado para a casa e para a reprodução e este para a vida em sociedade.
Desde tempos antigos, antes do uso da escrita alfabética, na sociedade homérica, já existia entre os gregos o conceito de "amor nobre", aquele entre homens. Isso mesmo, "nobre", porque baseado nas afinidades de idéias, na relação de aprendizado, a chamada pederastia. Este nome indica que se trata de uma relação "pedagógica", ou seja, de educação, de uma relação entre professor e aluno. (Em grego, menino é paidos, palavra da qual derivam pederastia e pedagogia.) Havia, pois, relações sexuais e amorosas entre adultos e meninos imberbes sem que, no entanto, houvesse a culpa (que, com vimos, se origina do Cristianismo), ou de "homossexualidade", no sentido de relação exclusiva entre homens. Esses homens, em primeiro lugar, eram considerados homens, não eram classificados como uma outra categoria, como hoje seriam os gays. Em segundo lugar, este tipo de comportamento era generalizado entre a elite grega e não era exceção, era a regra. Por isso [pág. 055] mesmo, os romanos se referiam ao amor entre homens como "amor à grega". Em terceiro lugar, esses homens não deixavam de se relacionar com mulheres; antes do casamento, mantinham relações com as hetairas, "companheiras" de banquetes, que, obviamente, não seriam as esposas legítimas. Nesses banquetes, comia-se, bebia-se e, principalmente, conversava-se, filosofava-se, mas havia também relações sexuais que envolviam tanto homens entre si como com as hetairas, enfim, verdadeiras orgias. Um poema de Alceo é claro a este respeito: "Que alguém me traga o belo Menón, se querem que eu desfrute o banquete". Os casados não deixavam de se preocupar com a reprodução da família. Porém, podia-se, ainda, manter relações sexuais com os escravos, homens ou mulheres. Havia, pois, na Grécia Antiga, diversos tipos de relações sexuais e amorosas concomitantes e socialmente bem aceitas. Já disse que os gregos não sentiam culpa, nem encaravam o sexo como algo cientificamente analisável: para eles o sexo era algo ligado à natureza das coisas e, portanto, às forças divinas. Não é à toa que acreditassem em diversos deuses ligados à sexualidade e ao amor: Afrodite, a Vênus dos romanos, era, sem dúvida, considerada a deusa mais importante. Por isso mesmo, a palavra para designar as relações amorosas era, em geral, aphrodisia, "o que está sob domínio de Afrodite". Nem todos se comportavam sexualmente do mesmo modo. A imensa maioria de camponeses não participava da cultura sexual da elite, embora, mesmo entre eles, não houvesse qualquer reprovação moral às eventuais relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo já que, como se disse, o desejo sexual era tido como algo divino. Havia, entretanto, críticas sociais a dois tipos de comportamentos gerados, em ambos os casos, pelo descontrole. Deixar-se levar pelos desejos sexuais, caso isto implicasse atitudes consideradas pouco apropriadas, como uma paixão incontrolável, era condenado. Neste caso, a reprovação poderia recair também sobre o amor desenfreado por alguém de outro sexo, mas isto era menos provável, tendo em vista as distâncias intelectuais entre homens e mulheres. Um segundo comportamento moralmente condenável era o descontrole que levava, no homem, aos modos efeminados, considerados falta de moderação. [pág. 056]

(Pedro Paulo Funari - Grécia e Roma)

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