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A sabedoria em três palavras

por Thynus, em 23.02.16

1. Passada a alegria, talvez até a euforia, da passagem do ano velho para o novo ano, o que é facto é que estamos no ano novo de 2016. E, aqui chegados, nesta abertura do novo, do que nunca houve, pois é mesmo novo, inédito, pela primeira vez, talvez não seja mau reflectir um pouco

2. Fazer o quê no novo ano? Fazermo-nos, que é a única tarefa que temos na existência.

Ao contrário dos outros animais, os humanos vêm ao mundo por fazer. Nascemos prematuros. Daí, dizermos a nós próprios: ou a natureza foi madrasta para nós, pois nascemos sem garras para nos defendermos, sem pêlos para nos protegermos, por fazer, ou esta é a condição de possibilidade de sermos o que somos, fazendo-nos: seres humanos, tendo de receber e de fazer por cultura o que a natura nos não deu. Nascemos com uma abertura ilimitada de possibilidades, permitindo inovar, criar e inventar, e crescer, de tal modo que, se Platão, por exemplo, cá voltasse, encontraria os outros animais como os deixou, mas teria dificuldade em adaptar-se à nova sociedade que entretanto os humanos criaram. Cá está: tendo nascido por fazer, a nossa missão é, fazendo o que fazemos nas mais variadas funções e actividades, fazermo-nos a nós próprios, uns com os outros, evidentemente. E, no fim, o resultado será ou uma obra de arte ou uma porcaria (perdoe-se a dureza da palavra), a vergonha de nós.

3. Uma vez que somos livres - possuímo-nos a nós próprios, somos donos de nós e das nossas acções -, é bom, decisivo, que nos façamos bem, como obra de arte.

Realizamo-nos, fazemo-nos, assumindo, produzindo valores. A palavra valor vem do latim: valere (ter força, valer). Significativamente, "Vale!" era a saudação romana: "Passa bem!" Como nós saudamos alguém, sempre em conexão com saúde: como estás?, passas bem?

Ora, a saúde implica um conceito holístico: os órgãos corporais funcionando harmonicamente, dar-se bem consigo, estar de bem com os outros, com a natureza, com a transcendência. Assim, também a realização de sermos verdadeiramente nós implica a vivência, a assunção e a produção, em harmonia, de valores nos diferentes domínios. Por isso, há valores materiais: a comida, a bebida, roupa, casas...; valores vitais, que têm que ver concretamente com a saúde e o bem-estar; valores espirituais, que se referem à dimensão espiritual do ser humano e que são os valores intelectuais - o valor do saber, da procura da verdade, da filosofia, das ciências -, os valores morais, referidos ao bem e ao mal, à virtude -, os valores estéticos, os da beleza nas várias vertentes: beleza natural, beleza artística da pintura, da literatura, da dança, da música -, os valores políticos, que se referem à polis, à sua edificação e condução -, os valores religiosos, em conexão com a Transcendência.

Os valores todos estão, evidentemente, em ligação com o valor supremo da pessoa, da sua dignidade e dignificação.

4. Concretamente numa sociedade como a nossa, quando predomina o barulho infernal - assembleias, televisões, comentários de comentários, todos a falar e ninguém a ouvir -, a vertigem da corrida, do stress e do atropelo, na confusão de imagens e do consumo niilista, na pura exterioridade e no esquecimento de si, é urgente fazer o elogio do silêncio, para ouvir a voz da consciência e a grande música, que é o Divino no mundo, e fazer apelo à cultura da pausa, para dar conta do milagre que é viver e não se afundar na dispersão de si e na insensatez sem fim. Deve-se viver e não ser pura e simplesmente vivido.

5. Dar-se conta do essencial. No seu mais recente livro, Vivir. Espiritualidad en Oequeñas Dosis, Juan Masiá retoma uma velha estória, que poderia ser histórica. O jovem rei, com desejo de aprender, convocou os sábios do reino, encarregando-os de lhe trazerem um resumo da sabedoria humana. Passados 30 anos, compareceram com 12 camelos, carregando quinhentos volumes. O rei, já cinquentenário, lamentou já não ter tempo para lê-los: "Fazei uma edição abreviada." Dez anos depois, bastaram três camelos, mas o rei, já sexagenário, sentia-se sem forças para tanta leitura e pediu uma versão mais curta. Outros dez anos de trabalho e um camelo apenas para transportar os volumes. O rei, porém, tinha a vista debilitada. Assim, mais cinco anos de trabalho, para reduzir a obra a um único volume. O rei, já no leito à espera da morte, entristeceu-se profundamente: "Chegarei ao fim dos meus dias sem ter tido o gozo de aprender a história da caminhada humana?" Então, o mais velho dos sábios aproximou-se e sussurrou ao ouvido do rei: "Majestade, pode-se reduzir tudo a três palavras: nascemos, sofremos e morremos." O rei assentiu com um gesto e expirou.

Jesus também disse: "De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?" Bom e feliz ano novo de 2016!

 


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publicado às 13:24



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