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"Os homens nunca fazem o mal tão plenamente 
e com tanto entusiasmo 
como quando o fazem por convicção religiosa".
Blaise Pascal
 
Qual a melhor religião?
 
Pouco mais de um século após Joseph Smith ter caído vítima da violência e da loucura que ele tinha ajudado a liberar, outra voz profética se ergueu nos Estados Unidos. Um jovem pastor negro chamado dr. Martin Luther King começou a pregar que seu povo — os descendentes da mesma escravidão que Joseph Smith e todas as outras igrejas cristãs tinham tão calorosamente aprovado — deveria ser livre. É impossível mesmo para um ateu como eu ler seus sermões ou assistir a gravações de seus discursos sem uma profunda emoção daquele tipo que algumas vezes provoca lágrimas verdadeiras. A "Carta da Cadeia de Birmingham" do dr. King, escrita em resposta a um grupo de clérigos cristãos brancos que o conclamaram a demonstrar contenção e "paciência" — em outras palavras, a saber seu lugar —, é um modelo de retórica. Gelidamente polida e com disposição generosa, ela ainda exala uma irredutível convicção de que a sórdida injustiça do racismo não deve mais ser suportada.
A magnífica biografia em três volumes do dr. King escrita por Taylor Branch é sucessivamente intitulada Parting the Waters, Pillar of Fire e At Cannans Edge. E a retórica com a qual King se dirigia a seus seguidores era concebida para evocar a própria história que todos eles conheciam melhor — aquela que começa quando Moisés diz pela primeira vez ao faraó: "Deixe meu povo partir." Discurso após discurso, ele inspirou os oprimidos e exortou e envergonhou seus opressores. Lentamente, a constrangida liderança religiosa do país passou para seu lado. O rabino Abraham Heschel perguntou: "Onde hoje na América ouvimos uma como a voz dos profetas de Israel? Martin Luther King é um sinal de que Deus não se esqueceu dos Estados Unidos da América."
O mais extraordinário de tudo, se seguirmos a narrativa mosaica, foi o sermão que King fez na última noite de sua vida. Seu trabalho de transformar a opinião pública e mudar o teimoso governo Kennedy tinha sido quase concluído, e ele estava em Memphis, Tennessee, para apoiar uma longa e amarga greve dos coletores de lixo da cidade, em cujos cartazes apareciam as simples palavras "Eu sou um homem". No púlpito do Mason Temple, ele revisou a demorada luta dos anos anteriores, então repentinamente disse: "Mas isso não importa para mim agora." Houve silêncio, até que ele recomeçasse. "Porque eu estive no topo da montanha. E eu não me preocupo. Como qualquer um, eu gostaria de ter uma vida longa. A longevidade tem seu lugar. Mas não estou preocupado com isso agora. Quero apenas a vontade de Deus. E ele me permitiu ir ao topo da montanha. E eu olhei ao redor. E eu vi a Terra Prometida. Eu talvez não chegue até lá com vocês, mas eu quero que vocês saibam, esta noite, que como povo nós chegaremos à Terra Prometida!" Ninguém que estava lá naquela noite se esqueceu disso, e ouso dizer que o mesmo vale para qualquer um que veja o filme que com tanta felicidade foi feito daquele momento transcendente. A segunda melhor forma de experimentar esse sentimento em segunda mão é ouvir como Nina Simone cantou, naquela mesma semana terrível, "The King of Love Is Dead". No conjunto, o drama tem a capacidade de unir elementos de Moisés no monte Nebo com a agonia no Jardim de Getsêmani. O efeito praticamente em nada diminui mesmo quando descobrimos que aquele era um de seus sermões preferidos, um que ele tinha feito muitas vezes antes e ao qual podia apelar se a ocasião exigisse.
Mas os exemplos que King deu dos livros de Moisés foram, felizmente para todos nós, metáforas e alegorias. Sua pregação mais imperativa era a da não-violência. Em sua versão da história não há punições selvagens e genocídios sangrentos. Nem há os mandamentos cruéis sobre apedrejar crianças e queimar bruxas. Seu povo perseguido e desprezado não recebeu a promessa de ter o território de outros, nem foi incitado a pilhar e assassinar outras tribos. Ante interminável provocação e brutalidade, King suplicou a seus seguidores que se tornassem aquilo que durante algum tempo eles realmente foram: os tutores morais dos Estados Unidos e do mundo além de suas fronteiras. Ele efetivamente perdoou seu assassino antecipadamente: o único detalhe que teria tornado suas últimas palavras impecáveis e perfeitas teria sido exatamente essa declaração. Mas a diferença entre ele e os "profetas de Israel" não poderia ter ficado mais clara. Se a população tivesse sido criada no joelho da mãe ouvindo a história da Anábase de Xenofonte e a longa, estafante e perigosa jornada dos gregos até sua triunfante visão do mar, essa alegoria poderia ter funcionado igualmente bem. Mas, da forma que era, o "Bom Livro" era o único ponto de referência que todos tinham em comum.
A reforma cristã surgiu originalmente da capacidade que seus defensores tinham de comparar o Velho Testamento com o Novo. Os antigos livros judaicos aglutinados tinham um deus mal-humorado, implacável, sanguinário e provinciano que provavelmente era mais assustador quando estava de bom humor ( o atributo clássico do ditador). Enquanto isso, os livros aglutinados dos últimos dois mil anos continham apoio para os esperançosos e referências a humildade, perdão, cordeiros, ovelhas e assim por diante. Essa distinção é mais aparente que real, já que é apenas nas observações relatadas de Jesus que encontramos menção a inferno e punição eterna. O deus de Moisés abruptamente convocava outras tribos, incluindo a sua predileta, a sofrer massacre, peste e mesmo eliminação, mas quando o túmulo se fechava sobre suas vítimas ele fundamentalmente tinha terminado com elas, a não ser que se lembrasse de amaldiçoar sua descendência. Apenas com o advento do Príncipe da Paz começamos a ouvir falar de posteriores punições e da tortura aos mortos. Inicialmente pressagiado pela arenga bombástica de João Batista, o filho de Deus é revelado como quem, se suas palavras mais suaves não são aceitas de imediato, condena os desatentos ao fogo eterno. Isso desde então ofereceu proteção para sádicos clericais e aparece de forma deliciosa nas invectivas do islamismo. Em nenhum momento o dr. King — que certa vez foi fotografado em uma livraria esperando calmamente por um médico enquanto a faca de um maníaco permanecia firmemente cravada em seu peito — sequer insinuou que aqueles que o feriram e maltrataram deveriam ser ameaçados com qualquer vingança ou punição, neste mundo ou no próximo, salvo as consequências de seu próprio egoísmo e estupidez. E ele até mesmo definiu o problema de uma forma mais cortês do que, em minha humilde opinião, seus alvos mereciam. Portanto, em nenhum sentido real, em oposição a nominal, ele era um cristão.
Isso de modo algum diminui sua estatura de grande pregador, não mais do que o fato de que era um mamífero como o resto de nós, que provavelmente plagiou sua dissertação de doutorado e tinha um conhecido interesse em bebedeiras e mulheres bem mais jovens que sua esposa. Ele passou o restante de sua última noite em dissipação orgiástica, pelo que eu não o culpo. (Essas coisas, que, claro, perturbam os fiéis são bastante encorajadoras no sentido de que mostram que um alto caráter moral não é pré-condição para grandes realizações morais.) Mas se seu exemplo for utilizado, como frequentemente é, para demonstrar que a religião tem um efeito de elevação e libertação, então vamos analisar a alegação ampla.
Tomando como nosso exemplo a memorável história da América negra, vamos descobrir, primeiramente, que os escravizados não eram cativos de algum faraó, mas de vários Estados e sociedades cristãs que durante muitos anos operaram um "comércio" triangular entre a costa oeste da África, o litoral leste da América do Norte e as capitais da Europa. Essa indústria imensa e terrível era abençoada por todas as igrejas e durante muito tempo não levantou qualquer protesto religioso. (Seu equivalente, o comércio de escravos no Mediterrâneo e no Norte da África era endossado explicitamente e levado a cabo em nome do islamismo.) No século XVIII, alguns dissidentes menonitas e quacres nos Estados Unidos começaram a pedir a abolição, assim como livrespensadores como Thomas Paine. Thomas Jefferson, refletindo sobre o modo como a escravidão corrompia e brutalizava os mestres assim como explorava e torturava os escravos, escreveu: "De fato, tremo por meu país quando reflito que Deus é justo." Essa foi uma afirmação tão incoerente quanto memorável: dada a maravilha de um deus que também era justo, não haveria a longo prazo, muito pelo que tremer. Seja como for, o Todo-Poderoso conseguiu tolerar a situação enquanto várias gerações nasciam e morriam sob o açoite até que a escravidão se tornasse menos lucrativa e até mesmo o Império Britânico começasse a se livrar dela.
Foi o estímulo para o renascimento do abolicionismo. Ele algumas vezes assumiu uma forma cristã, especialmente no caso de William Lloyd Garrison, grande orador e fundador do Liberator. Garrison era um homem esplêndido sob quaisquer parâmetros, mas provavelmente é sorte que todos os seus conselhos religiosos iniciais não tenham sido seguidos. Ele baseou sua alegação inicial no perigoso versículo de Isaías que conclama os fiéis para que "se apresentem e sejam separado" (essa também é a base teológica do presbiterianismo fundamentalista e intolerante de Ian Paisley na Irlanda do Norte). Na visão de Garrison, a União e a Constituição dos Estados Unidos eram "um pacto com a morte" e deviam ser ambas destruídas: de fato foi ele quem pediu a secessão antes dos confederados. (Ele posteriormente descobriu a obra de Thomas Paine, se tornou menos pregador e mais um efetivo abolicionista, bem como um dos primeiros defensores do sufrágio feminino.) Foi o escravo foragido Frederick Douglass, autor da pungente e mordaz Autobiografia, que evitou a linguagem apocalíptica e em vez disso exigiu que os Estados Unidos cumprissem as promessas universalistas contidas em sua Declaração e em sua Constituição. O leonino John Brown, que também começou como um calvinista temeroso e impiedoso, fez o mesmo. Ele posteriormente tinha as obras de Paine em seu acampamento e admitiu livres-pensadores em seu exército pequeno mas inovador e chegou mesmo a produzir e imprimir uma nova "Declaração", calcada naquela de 1776, em benefício dos escravizados. Essa foi na prática uma exigência muito mais revolucionária, assim como mais realista, e preparou o caminho — como Lincoln admitiu — para a Proclamação de Emancipação. Douglass era um tanto dúbio em relação à religião, observando em sua Autobiografia que os cristãos mais devotos produziam os senhores de escravos mais selvagens. A óbvia verdade disso foi tos destacada quando realmente houve a secessão e a Confederação adotou o lema latino "Deo Vindice", ou "Deus do nosso lado". Como Lincoln destacou em seu altamente dúbio segundo discurso de posse, os dois lados em disputa faziam a mesma alegação, pelo menos nos púlpitos, assim como ambos eram viciados em grandiosas e confiantes citações das Santas Escrituras.
O próprio Lincoln hesitava em reivindicar autoridade dessa forma. De fato, em dado momento ele disse que tais invocações do divino estavam erradas, porque não era uma questão de estar do lado de Deus. Pressionado a fazer uma imediata Proclamação de Emancipação em um encontro de cristãos em Chicago, ele continuou a considerar que os dois lados da disputa eram endossados pela fé e disse que "estes, porém, não são dias de milagres, e eu suponho que haja a certeza de que eu não espero uma revelação direta". Isso foi completamente evasivo, mas quando ele finalmente tomou coragem de fazer a Proclamação, disse aos ainda hesitantes que tinha prometido a si mesmo fazê-lo — com a condição de que Deus desse a vitória às forças da União em Antietam. Naquele dia foi registrado o maior número de mortes em solo americano em todos tempos. Assim, é possível que Lincoln tenha tentado de alguma forma santificar e justificar aquela impressionante carnificina. Seria algo nobre até pensarmos que, segundo a mesma lógica, a mesma carnificina decidida de outra forma teria adiado a libertação dos escravos! Como ele também disse: "Os soldados rebeldes estão orando com muito mais veemência, temo, que nossas próprias tropas, e esperando que Deus favoreça o lado deles; um de nossos soldados, que foi tomado prisioneiro, disse que nunca tinha visto nada tão desanimador quanto a evidente sinceridade daqueles no meio de cujas preces estava." Um pouco mais de sorte em batalha para os uniformes cinza em Antietam e o presidente poderia ter temido que Deus tivesse abandonado inteiramente a causa abolicionista.
Não conhecemos as crenças religiosas pessoais de Lincoln. Ele gostava de referências ao Deus Todo-Poderoso, mas nunca fez parte de nenhuma igreja, e suas primeiras candidaturas enfrentaram grande oposição dos clérigos. Seu amigo Herndon sabia que ele tinha lido Paine, Volney e outros livres-pensadores atentamente e era de opinião que ele particularmente era um absoluto não-crente. Isso parece improvável. Contudo, também seria impreciso dizer que ele era cristão. Muitos indícios sustentam a ideia de que ele era um cético atormentado com uma tendência ao teísmo. Qualquer que seja o caso, o melhor que pode ser dito da Igreja na grave questão da abolição é que após muitas centenas de anos, e tendo igualmente imposto e adiado a questão até que o interesse pessoal levasse a uma guerra horrível, ela finalmente conseguiu desfazer uma pequena parte do dano e da infelicidade que tinha infligido.
O mesmo pode ser dito da época de King. As igrejas do Sul voltaram ao seu caminho habitual depois da Reconstrução e abençoaram as novas instituições da segregação e da discriminação. Apenas após a Segunda Guerra Mundial, e com a disseminação da descolonização e dos direitos humanos, ressurgiu o apelo à emancipação. Em reação, mais uma vez foi afirmado veementemente (em solo americano, na segunda metade do século XX) que Deus não queria que os diferentes descendentes de Noé fossem misturados. Essa estupidez bárbara teve consequências práticas. O falecido senador Eugene McCarthy me disse que certa vez conclamou o o Senador Pat Robertson — pai do atual profeta televisivo — a apoiar uma discreta legislação de direitos civis. "Eu certamente gostaria de ajudar as pessoas de cor, mas a Bíblia diz que eu não posso", foi a resposta. Toda a autodefinição de "Sul" era ser branca e cristã. Foi exatamente o que deu força ao dr. King, porque ele podia superar os camponeses brancos em pregação. Mas o fardo pesado nunca teria sido colocado em seus ombros se, para começar, a religiosidade não estivesse tão entranha. Como mostra Taylor Branch, boa parte do círculo íntimo e do séquito de King era composta de comunistas e socialistas seculares que havia décadas estavam preparando o terreno para os direitos civis e ajudando a treinar bravos voluntários como a sra. Rosa Parks para uma cuidadosa estratégia de desobediência civil em massa, e essas associações "ateias" seriam usadas o tempo todo contra King, especialmente do púlpito. De fato, uma das consequências dessa campanha foi produzir o "recuo" do cristianismo branco de direita, que ainda é uma força poderosa abaixo da linha Mason-Dixon.(Linha que divide o Norte e o Sul dos EUA. Durante a Guerra Civil Americana, separava os estados onde a escravidão vigorava e os outros onde já havia sido abolida)
Quando o homônimo do dr. King pregou suas teses na porta da catedral de Wittenberg em 1517 e, posteriormente, anunciou em Worms "Aqui me coloco, nada mais posso fazer", ele estabeleceu um padrão para a coragem intelectual e moral. Mas Martinho Lutero, que iniciou sua vida religiosa por ter ficado aterrorizado com um raio que quase o acertou, acabou se tornando ele mesmo um intolerante e um perseguidor, vituperando criminosamente contra os judeus, gritando sobre demônios e conclamando os principados alemães a marcar os pobres rebeldes. Quando o dr. King assumiu posição na escadaria do Memorial de Lincoln e mudou a história, ele também assumiu uma posição que de fato tinha sido imposta a ele, mas o fez como um profundo humanista, e ninguém nunca poderá se valer do seu nome para justificar opressão ou crueldade. Ele resiste por essa razão, e seu legado tem muito pouco a ver com sua teologia professada. Não foi necessária nenhuma força sobrenatural para defender a tese contra o racismo.
Assim, qualquer um que utilize o legado de King para justificar o papel da religião na vida pública precisa aceitar todos os corolários do que eles parecem estar querendo dizer. Uma olhada rápida no registro completo mostrará, primeiramente que, pessoa a pessoa, os livres-pensadores, agnósticos e ateus americanos são melhores. A possibilidade de que a opinião secular ou pensante de alguém o levasse a denunciar a completa injustiça era extremamente alta. A possibilidade de que a crença religiosa de alguém levasse a assumir uma posição contra a escravidão e o racismo era estatisticamente bastante pequena. Mas a possibilidade de que a crença religiosa de alguém o levasse a defender a escravidão e o racismo era estatisticamente bastante alta, e esse último fato nos ajuda a compreender por que a vitória da justiça simples demorou tanto tempo.
Pelo que sei, não há hoje no mundo nenhum país cuja escravidão ainda praticada não tenha como justificativa o Corão. Isso nos manda de volta para a resposta dada nos primeiros dias da República, a Thomas Jefferson e John Adams, Aqueles dois senhores de escravos tinham chamado o embaixador de Trípoli em Londres para perguntar a ele com que direito ele e seus colegas potentados bárbaros capturavam e vendiam tripulações e passageiros americanos de barcos usando o Estreito de Gibraltar. (Hoje estima-se que entre 1530 e 1780 mais de 1,25 milhão de europeus foram levados à força dessa forma.) Como Jefferson transmitiu ao Congresso:
O embaixador nos respondeu que era baseado nas Leis do Profeta, que estava escrito em seu Corão que todas as nações que não obedecessem à sua autoridade eram pecadoras, que era seu direito e obrigação fazer a guerra contra eles sempre que pudessem ser encontrados e fazer escravos todos que pudessem tomar como prisioneiros.
O embaixador Abdrahaman continuou, mencionando o preço do resgate exigido, o preço da proteção contra sequestro e finalmente sua própria comissão pessoal pelos procedimentos. (Mais uma vez a religião trai suas conveniências humanas.) De fato, ele estava absolutamente certo no que disse sobre o Corão. A oitava sura, revelada em Medina, trata longamente dos justificados espólios de guerra e se alonga sobre os posteriores "tormentos do fogo" post-mortem que esperam por aqueles que são derrotados pelos crentes. Exatamente esta sura foi utilizada apenas dois séculos depois por Saddam Hussein para justificar o assassinato em massa e a espoliação do povo do Curdistão. Outro grande episódio histórico — a emancipação da Índia do controle colonial — é frequentemente apresentado como se envolvesse uma ligação entre crença religiosa e resultados éticos. Como na batalha heróica do dr. King, a história real tende a mostrar que o oposto é o caso. Após o atônito despertar do Império Britânico por meio da Primeira Guerra Mundial, e mais particularmente depois do famoso massacre de manifestantes indianos na cidade de Amritsar, em abril de 1919, ficou claro, mesmo para os então controladores do subcontinente, que o governo a partir de Londres chegaria ao fim mais cedo que mais tarde. Já não era uma questão de "se", mas de "quando". Não fosse esse o caso, uma campanha de desobediência pacifica não teria a menor chance. Assim, Mohandas K. Ghandi (algumas vezes conhecido como "o Mahatma" em respeito a sua posição de ancião hindu) estava de certa forma empurrando uma porta aberta. Não há desonra nisso, mas são exatamente suas convicções religiosas que tornaram seu legado mais dúbio que santo. Resumindo: ele queria que a Índia voltasse a ser uma sociedade espiritual primitiva organizada em aldeias, ele tornou a divisão de poder com os muçulmanos muito mais difícil, e estava bem preparado para fazer um uso hipócrita da violência quando achava que poderia ser útil a ele. Toda a questão da independência da Índia estava interligada à questão da unidade: poderia a antiga colônia renascer como o mesmo pais, com as mesmas fronteiras e integridade territorial, e ainda ser chamada de Índia? A isso uma certa facção resistente de muçulmanos respondeu "não". Sob a administração britânica eles tinham desfrutado de alguma proteção como uma minoria muito grande para não dizer privilegiada, e não estavam dispostos a trocar esse estado de coisas para ser uma grande minoria em um Estado de domínio hindu. Assim, o simples fato de que a principal força pela independência — o Partido do Congresso — tinha um obvio domínio hindu tornava a conciliação muito difícil. Pode-se argumentar, e eu de fato irei argumentar, que a intransigência muçulmana teria desempenhado um papel destrutivo em qualquer caso. Mas a tarefa de convencer muçulmanos comuns a deixar o Congresso e se juntar à separatista "Liga Muçulmana" foi muito facilitada pelo discurso hinduísta de Ghandi e pelas longas horas ostentatórias que ele gastava em práticas religiosas e operando sua roca de fiar.
Essa roca — que ainda aparece como símbolo na bandeira indiana — era um emblema da rejeição de Ghandi à modernidade. Ele passou a se vestir com farrapos que ele mesmo fazia, a usar sandálias, a carregar um cajado e a expressar hostilidade para com as máquinas e a tecnologia. Fazia rapsódias sobre a aldeia indiana, em que os ritmos milenares dos animais e das colheitas iriam determinar o modo de vida humano. Milhões de pessoas teriam irracionalmente morrido de fome se seu conselho tivesse sido seguido, e teriam continuado a idolatrar vacas (espertamente classificadas de "sagradas" pelos sacerdotes para que o povo pobre ignorante não matasse e comesse seu único patrimônio em épocas de seca e fome). Ghandi merece crédito por sua crítica ao desumano sistema de castas hindu, pelo qual ordens inferiores de humanos eram condenadas a um ostracismo e um desprezo que em certos sentidos eram mais absolutos e cruéis que a escravidão. Mas exatamente no momento em que a Índia mais precisava de um moderno líder nacionalista secular, recebeu um faquir e guru. O momento crucial dessa lamentável concepção aconteceu em 1941, quando o exército imperial japonês tinha conquistado Malásia e Burma e estava nas fronteiras da própria Índia. Acreditando (erradamente) que isso anunciava o fim do estado de colônia, Ghandi escolheu esse momento para boicotar o processo político e lançar seu famoso apelo aos britânicos de "Deixem a Índia". Ele acrescentou que eles deveriam deixá-la "A Deus ou à anarquia", o que nas circunstâncias teria significado a mesma coisa. Aqueles que ingenuamente atribuem a Ghandi um pacifismo consciente ou consistente deveriam se perguntar se isso não correspondia a deixar que os imperialistas japoneses travassem sua batalha por ele.
Entre as muitas consequências ruins da decisão de Ghandi e do Congresso de se retirarem das negociações esteve a oportunidade que isso deu aos membros da Liga Muçulmana de "permanecer" nos ministérios que controlavam, assim reforçando suas posições de barganha quando surgiu o momento da independência, pouco depois. Sua insistência em que a independência tomasse a forma de uma mutilação e amputação, com Punjab Ocidental e Bengala Oriental sendo destacados do corpo nacional, se tornou incontrolável. As funestas consequências persistem até hoje, com posteriores banhos de sangue intermulçulmanos em Bangladesh em 1971, a ascensão de um agressivo partido nacionalista hindu e um confronto na Caxemira que ainda é o pretexto mais provável para uma guerra termonuclear.
Sempre houve uma alternativa, na forma da posição secular adotada por Nehru e Rajagopalachari, que negociaram um compromisso britânico de imediata independência pós-guerra em troca de uma aliança comum entre Índia e Grã-Bretanha contra o fascismo. No caso, foi Nehru e não Ghandi, quem levou seu país à independência, mesmo ao lamentável preço da divisão. Durante décadas, uma sólida irmandade entre secularistas e esquerdistas britânicos e indianos tinha iniciado e vencido a discussão sobre a libertação da Índia. Nunca houve necessidade de que um personagem religioso obscurantista impusesse seu ego ao processo e ao mesmo tempo o retardasse e distorcesse. Toda a questão estava resolvida sem essa suposição. Há o desejo contínuo de que Martin Luther King tivesse continuado vivo e contribuído com sua presença e sua sabedoria para a política americana. No caso do "Mahatma", que foi assassinado por membros de uma seita hindu fanática por não ser suficientemente devoto, há o desejo de que ele tivesse vivido apenas para ver o dano que ele teria produzido (e há o alívio de que ele não tivesse vivido para implementar seu delirante programa de rocas de fiar).
O argumento de que a crença religiosa melhora as pessoas ou ajuda a civilizar a sociedade costuma ser apresentado quando as pessoas já esgotaram suas justificativas. É como se elas dissessem: muito bem, nós paramos de insistir no Êxodo (digamos), na Imaculada Conceição ou mesmo na Ressurreição ou no "voo noturno" de Meca a Jerusalém. Mas onde estariam as pessoas sem a fé? Elas não se entregariam a todo tipo de licenciosidade e egoísmo? Não é verdade, como G. K. Chesterton disse certa vez, que se as pessoas param de acreditar em Deus elas não passam a acreditar em nada, mas em qualquer coisa?
A primeira coisa a dizer é que o comportamento virtuoso de um crente não é de modo algum prova — de fato não é sequer argumento — da verdade de sua crença. Eu poderia, apenas para continuar a discussão, agir de forma mais caridosa se eu acreditasse em que o Senhor Buda nasceu de uma incisão no flanco de sua mãe. Mas isso não faria meu impulso caridoso depender de algo muito tênue? Da mesma forma, eu não digo que se eu flagrar um sacerdote budista roubando todas as oferendas deixadas pelo povo simples em seu templo, o budismo estará, portanto, desacreditado. E de qualquer forma, esquecemos de quão fortuito é tudo isso. Dos milhares de possíveis religiões do deserto, assim como dos milhões de espécies em potencial, um ramo por acaso deitou raízes e cresceu. Passando por mutações de uma forma judaica a uma cristã, ela acabou sendo adotada, por razões políticas, pelo imperador Constantino e foi transformada em crença oficial com — no final — uma forma codificada e obrigatória de seus muitos livros caóticos e contraditórios. Quanto ao islamismo, ele se tornou a ideologia de uma conquista altamente bem-sucedida, adotada por dinastias governantes de sucesso, e então codificada, estabelecida e promulgada como lei da terra. Uma ou duas vitórias militares do outro lado — como no caso de Lincoln em Antietam — e nós no Ocidente não seríamos reféns de disputas provincianas que aconteceram na Judeia e na Arábia antes que houvesse registros. Poderíamos ser devotos de uma crença inteiramente diferente — talvez hindu, asteca ou confucionista —, e nesse caso ainda nos seria dito que, sendo ou não verdade, ela ainda assim ajudaria a ensinar às crianças a diferença entre certo e errado. Em outras palavras, acreditar em um deus é de certa forma exprimir exatamente a disposição de acreditar em qualquer coisa. Porém, de modo algum rejeitar a crença é professar a crença em nada.
Eu certa vez assisti a um debate entre o falecido professor A. J. Ayer, distinto autor de Linguagem, verdade e lógica, e festejado humanista, e um certo bispo Butler. O mediador era o filósofo Bryan Magee. O debate desenrolou muito educadamente até o bispo, ouvindo Ayer afirmar que não via nenhum indício da existência de qualquer deus, interromper e dizer: "Então eu não consigo entender como você não leva uma vida de desabrida imoralidade."
Nesse ponto, "Freddie", como era conhecido pelos amigos, abandonou sua normal civilidade serena e exclamou: "Devo dizer que considero isso uma insinuação absolutamente monstruosa." Freddie certamente tinha violado a maioria dos mandamentos referentes ao código sexual como esboçados no Sinai. De certa forma, ele era justificadamente famoso por isso. Mas ele era um excelente professor, um pai amoroso e um homem que dedicava a maior parte de seu tempo livre a lutar pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão. Dizer que sua vida era imoral era falsear a verdade.
Dos muitos escritores que exemplificaram o mesmo ponto de forma diferente, eu escolho Evelyn Waugh, que tinha a mesma crença do bispo Butler e que em sua ficção fez de tudo para defender as intervenções da graça divina. Em seu romance Memórias de Brideshead ele faz uma observação muito precisa. Os dois protagonistas, Sebastian Flyte e Charles Ryder, o primeiro dos quais herdeiro de uma nobreza católica, recebem a visita de padre Phipps, que acredita que todos os jovens devem ser apaixonados por críquete. Quando se desilude, ele olha para Charles "com a expressão que eu sempre vi nos religiosos, de espanto inocente de que aqueles que se expõem aos perigos do mundo aproveitem tão pouco de seus variados confortos".
Assim, eu volto à questão do bispo Butler. Ele na verdade não estava dizendo a Ayer, em seu próprio jeito ingênuo, que, se libertado das restrições da doutrina, ele próprio escolheria levar "uma vida de desabrida imoralidade"? Naturalmente espera-se que não. Mas há evidências empíricas para reforçar a sugestão. Quando padres se comportam mal, eles se comportam realmente mal, e cometem crimes que empalideceriam o pecador médio. Pode-se preferir atribuir isso mais à repressão sexual que às doutrinas pregadas, mas uma das doutrina pregadas é a repressão sexual... Assim, a ligação é inevitável, e uma litania de piadas folclóricas foi recitada por todos os membros leigos da Igreja desde o início da religião.
A vida do próprio Waugh foi muito mais manchada por crimes contra a castidade e a sobriedade do que a vida de Ayer (apenas parece ter dado menos alegria ao primeiro que ao segundo), e em consequência ele frequentemente era perguntado sobre como conciliar seu comportamento particular com sua crença pública. Sua resposta se tornou famosa: ele pedia a seus amigos que imaginassem como ele seria pior se não fosse católico. Para quem acredita em pecado original poderia servir como uma virada de mesa, mas qualquer investigação da vida real de Waugh mostra que seus elementos mais iníquos são fruto precisamente de sua fé. Esqueçam os tristes excessos de embriaguez e infidelidade conjugal. Ele certa vez enviou um telegrama de casamento a uma amiga divorciada e casada em segundas núpcias dizendo a ela que sua noite de núpcias aumentaria a solidão do Calvário e seria mais uma cusparada no rosto de Cristo. Ele apoiou movimentos fascistas na Espanha e na Croácia e a cruel invasão da Abissínia por Mussolini porque tinham o apoio do Vaticano, e escreveu em 1944 que apenas o Terceiro Reich era a barreira entre a Europa e a barbárie. Essas deformações em um de meus autores prediletos não existiam apesar da sua fé, mas exatamente por causa dela. Sem dúvida havia atos particulares de caridade e contrição, mas eles podiam ser igualmente praticados por uma pessoa sem qualquer fé. Sem ir além dos Estados Unidos, o grande coronel Robert Ingersoll, que foi o maior defensor da descrença no país até sua morte em 1899, enlouquecia seus adversários por ser uma pessoa de imensa generosidade, marido e pai constante e amoroso, oficial cavalheiresco e dotado do que Thomas Edison, com desculpável exagero, chamou de "todos os atributos de um homem perfeito".
Em minha própria vida recente em Washington tenho sido bombardeado com telefonemas obscenos e ameaçadores de muçulmanos, prometendo punir minha família porque eu não apoio uma campanha de mentiras, ódio e violência contra a democrática Dinamarca. Mas, quando minha esposa acidentalmente deixou um grande volume de dinheiro no banco de trás de um táxi, o motorista sudanês teve muito trabalho e despesas para descobrir de quem ele era e dirigir até minha casa para devolvê-lo intocado. Quando eu cometi o erro vulgar de oferecer a ele dez por cento do dinheiro, ele deixou serena mas firmemente claro que não esperava recompensa por cumprir sua obrigação islâmica. Em qual dessas duas versões da fé se deve confiar?
A pergunta é de certa forma absolutamente irrespondível. Eu preferiria manter a prateleira de escritos de Evelyn Waugh exatamente como está, e aceitar que não é possível ter os romances sem os tormentos e as maldades de seu autor. E se todos os muçulmanos se comportassem da mesma forma que o homem que abriu mão de mais de uma semana de trabalho para fazer a coisa certa, eu poderia ser indiferente às estranhas exortações do Corão. Se eu vasculhar minha vida em busca de momentos de comportamento bom ou correto, não serei sufocado por um excesso de escolhas. Certa vez, tremendo de medo, tirei meu colete à prova de balas em Sarajevo e o emprestei a uma mulher ainda mais assustada que eu estava ajudando a conduzir a um local seguro (eu não sou o único a ter sido ateu nas trincheiras). Na época achei que era o mínimo que eu podia fazer por ela, assim como o máximo. As pessoas que bombardeavam e atiravam eram cristãos sérvios, mas ela também.
No norte de Uganda, no final de 2005, eu estava em um centro de reabilitação de crianças sequestradas e escravizadas nas terras do povo acholi, que vive no lado norte do Nilo. Os apáticos e vazios garotinhos (e algumas meninas) estavam ao redor de mim. Suas histórias eram perturbadoramente semelhantes. Eles tinham sido retirados de suas escolas ou casas quando tinham idades entre 8 e 13 anos por uma milícia de expressão pétrea, ela mesma montada a partir de crianças sequestradas. Levadas para o sertão, elas foram "iniciadas" na força segundo um (ou ambos) de dois métodos. Tiveram de tomar parte em um assassinato, de modo a se sentirem "sujas" e implicadas, ou de se submeter a um chicoteamento longo e selvagem, frequentemente de até trezentos golpes. ("Crianças vítimas de crueldade sabem muito bem como infligir crueldade", disse um dos anciãos do povo acholi). A infelicidade infligida por esse exército de infelizes transformados em zumbis era quase incalculável. Ele tinha arrasado aldeias, criado uma enorme população de refugiados, cometido crimes hediondos como mutilação e evisceração e (em um toque especial de crueldade) continuado a sequestrar crianças, de modo que os acholi evitassem uma reação forte, caso contrário eles matariam ou feririam um dos "seus".
O nome da milícia era "Exército de Resistência do Senhor" (LRA, na sigla em inglês), e era comandada por um homem chamado Joseph Kony, um apaixonado ex-coroinha que queria submeter a região à obediência aos Dez Mandamentos. Ele fazia batismos com óleo e água, organizava selvagens cerimônias de punição e purificação e protegia seus seguidores da morte. Era uma pregação fanática do cristianismo. E o centro de reabilitação no qual eu estava também era administrado por uma organização cristã fundamentalista. Tendo estado no sertão e visto o trabalho do LRA, comecei a conversar com o homem que tentava consertar os danos. Perguntei como ele sabia qual era o crente mais verdadeiro. Qualquer instalação secular ou governamental poderia fazer o que ele estava fazendo — ajustando próteses de membros e oferecendo abrigo e "aconselhamento" —, mas para ser Joseph Kony era preciso ter uma fé verdadeira.
Para minha surpresa, ele não descartou minha pergunta. Disse ser verdade que autoridade de Kony era em parte fruto de seu histórico em uma família cristã sacerdotal. Também era verdade que as pessoas estavam inclinadas a acreditar que ele podia fazer milagres, apelando ao mundo espiritual e prometendo a seus acólitos que eles eram à prova de morte. Mesmo alguns daqueles que tinham fugido eram capazes de jurar que haviam visto o homem realizar maravilhas. Só o que um missionário podia fazer era tentar mostrar às pessoas uma face diferente do cristianismo.
Eu fiquei impressionado com a franqueza do homem. Havia algumas outras defesas que ele poderia ter usado. Joseph Kony obviamente está muito distante do cristianismo "hegemônico". Para começar, seus financiadores e armeiros são os cínicos muçulmanos do regime sudanês, que se valem dele para criar problemas para o governo de Uganda, que por sua vez apoiou grupos rebeldes no Sudão. No que aparentemente é uma recompensa por esse apoio, em dado momento Kony começou a atacar a criação e o consumo de porcos, o que, a não ser que ele tenha se tornado um judeu fundamentalista na velhice, sugere uma retribuição aos patrões. Esses assassinos sudaneses, por sua vez, conduzem há anos uma guerra de extermínio não apenas contra os cristãos e os animistas do sul do Sudão, mas também contra os muçulmanos não-árabes da província de Darfur. Oficialmente o islamismo pode não fazer distinção entre raças e nações, mas os assassinos em Darfur são muçulmanos árabes e suas vítimas são muçulmanos africanos. O Exército de Libertação do Senhor não passa de um Khmer vermelho cristão coadjuvante nesse horror mais amplo.
Um exemplo ainda mais claro é o caso de Ruanda, que em 1992 deu ao mundo um novo sinônimo para genocídio e sadismo. Essa antiga possessão belga é o país mais cristão da África, exibindo a maior proporção de igrejas per capita, 65 por cento dos ruandeses professando o catolicismo romano e outros 15 por cento pertencentes a várias seitas protestantes. As palavras per capita ganharam um tom macabro em 1992, quando a um sinal as milícias racistas do Poder Hutu, incitadas pelo Estado e pela Igreja, se lançaram sobre seus vizinhos tútsis e os chacinaram em massa. Não foi um espasmo atávico de derramamento de sangue, e sim uma versão africana friamente ensaiada da Solução Final, que estava sendo preparada havia algum tempo. O primeiro sinal disso surgiu em 1987, quando um visionário católico com o nome enganadoramente folclórico de Little Pebbles começou a anunciar que ouvia vozes e tinha visões, derivadas da Virgem Maria. As ditas vozes e visões eram perturbadoramente sanguinárias, prevendo massacre e apocalipse, mas também — como em compensação — o retorno de Jesus Cristo no domingo de Páscoa de 1994. Aparições de Maria no alto de uma montanha chamada Kibeho foram investigadas pela Igreja Católica e consideradas confiáveis. A esposa do presidente de Ruanda, madame Agathe Habyarimana, ficou especialmente fascinada com essas visões e mantinha um relacionamento próximo com o bispo de Kigali, a capital do país. Esse homem, o monsenhor Vincent Nsengiyumva, era também membro do comitê central do partido único do presidente Habyarimana, o Movimento Nacional Revolucionário pelo Desenvolvimento, ou MRND. O partido, juntamente com outros órgãos do Estado, se preocupava em prender quaisquer mulheres que fossem desaprovadas como sendo "prostitutas" e em encorajar ativistas católicos a atacar quaisquer lojas que vendessem contraceptivos. Com o tempo, se espalhou a notícia de que a profecia seria cumprida e que as "baratas" — a minoria tútsi — logo teriam o que mereciam.
Quando finalmente chegou o ano apocalíptico de 1994 e começaram os ataques premeditados e coordenados, muitos tútsis e hutus dissidentes assustados foram imprudentes o bastante para buscar refúgio nas igrejas. Isso facilitou consideravelmente a vida dos interahamwe, ou esquadrões da morte governamentais e militares, que sabiam onde encontrá-los e que podiam confiar em que padres e freiras indicariam os locais. (Por isso muitas das covas coletivas que foram fotografadas estão em solo consagrado, e também por isso vários clérigos e freiras estão no banco dos réus nos atuais julgamentos por genocídio em Ruanda) o notório padre Wenceslas Munyeshyaka, por exemplo, figura importante da Catedral da Santa Família de Kigali, foi retirado do país às escondidas com a ajuda de um padre francês, mas foi acusado de genocídio, de fornecer listas de civis aos interahamwe e de estuprar jovens refugiadas. Ele de modo algum é um único clérigo a enfrentar acusações semelhantes. Para que não pensemos que ele foi apenas um padre "patife", temos a palavra de outro membro da hierarquia ruandesa, o bispo de Gikongoro, conhecido como monsenhor Augustin Misago. Para citar um relato cuidadoso daqueles acontecimentos terríveis:
O bispo Misago foi muitas vezes descrito como um simpatizante do Poder Hutu; ele foi publicamente acusado de impedir a entrada de tútsis em locais de refúgio, de criticar colegas do clero que ajudaram "baratas" e de pedir a um emissário do Vaticano em visita a Ruanda em junho de 1994 para dizer ao papa que este devia "encontrar um lugar para os padres tútsis, pois o povo de Ruanda não os quer mais". Acima de tudo, no dia 4 de maio daquele ano, pouco antes da última aparição de Maria no Kibeho, o bispo apareceu pessoalmente lá com uma equipe de policiais e disse a um grupo de noventa crianças tútsis em idade escolar que estavam sendo preparadas para o massacre que não se preocupassem, porque a polícia iria protegê-las. Três dias depois a polícia ajudou a massacrar 82 das crianças.
 Crianças em idade escolar "preparadas para o massacre"... Talvez você se lembre da denúncia pelo papa desse crime indelével e da cumplicidade de sua igreja nele. Ou talvez não, já que nunca foi feito nenhum comentário assim. Paul Rusesabagina, o herói de Hotel Ruanda, recorda-se do padre Wenceslas Munyeshyaka se referindo até mesmo à sua mãe tútsi como uma "barata", mas isso não impediu que ele, antes de sua prisão na França, recebesse da Igreja francesa autorização para retomar seus "deveres pastorais". Quanto ao bispo Misago, houve aqueles no ministério da Justiça de Ruanda depois da guerra que acharam que ele também deveria ser acusado. Mas, como disse um dos funcionários do ministério, "o Vaticano é excessivamente convicto para que ataquemos bispos. Nunca ouviu falar em infalibilidade?"
Isso no mínimo permite argumentar que a religião faz as pessoas se comportarem de uma forma mais gentil e civilizada. Quanto pior o criminoso, mais devoto ele se revela. Pode-se acrescentar que algumas das pessoas mais dedicada ao trabalho humanitário também são crentes (embora melhores que eu conheci sejam secularistas que não estavam fazendo proselitismo de fé alguma). Mas as chances de que uma pessoa cometendo os crimes fosse "baseada em fé" eram de quase cem por cento, enquanto as de que uma pessoa de fé estivesse do lado da humanidade e da decência era de quase um cara e coroa. Aplique isso à história, e as chances passam a ser maiores do que uma previsão astrológica se realizar. Por isso as religiões nunca poderia surgir, quanto mais florescer, a não ser pela influência de homens tão fanáticos quanto Moisés, Maomé ou Joseph Kony ao passo que caridade e trabalho humanitário, embora possam ter apelo a crentes de bom coração, são herança do modernismo e do Iluminismo. Antes disso, a religião se espalhou não pelo exemplo, mas como força auxiliar dos métodos mais antiquados de guerra Santa e imperialismo.
Eu fui um comedido admirador do falecido Papa João Paulo II, que segundo quaisquer padrões humanos foi uma pessoa valorosa e séria, capaz de demonstrar coragem moral e física. Ele colaborou com a resistência aos nazistas em seu país natal quando jovem,e posteriormente fez muito para ajudar na sua emancipação do domínio soviético. Seu papado foi de certa forma chocantemente conservador e autoritário, mas ele se mostrou aberto à ciência e à pesquisa (exceto quando a discussão era sobre o vírus da aids), e mesmo em seu dogma contra o aborto fez algumas concessões a uma "ética de vida" que, por exemplo, começou a pregar que a pena capital era quase sempre errada. Quando de sua morte, o Papa João Paulo foi louvado, entre outras coisas, pelo número de desculpas que pediu. Entre elas não estava, como deveria, uma expiação por cerca de um milhão de pessoas passadas no fio da espada em Ruanda. Contudo, estavam desculpas aos judeus pelos séculos de antissemitismo cristão, uma desculpa ao mundo muçulmano pelas Cruzadas, uma desculpa os cristãos ortodoxos orientais pelas muitas perseguições infligidas a eles por Roma, e também uma contrição mais genérica pela Inquisição. Isso parecia significar que a Igreja tinha sido no passado principalmente errada e frequente mente criminosa, mas que tinha sido purgada de seus pecados pela confissão e estava pronta para ser infalível novamente.

(Christopher Hitchens - Deus não é Grande, como a religião envenena tudo)

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