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A religião de Jesus, o judeu

por Thynus, em 19.03.15
Jesus era judeu, não cristão. Esse singular fato histórico abre a porta para a compreensão de Jesus como realmente era em seu próprio lugar e tempo; é uma porta que muitos nunca pensaram em ultrapassar. Jesus foi circuncidado, observava a Páscoa dos hebreus, lia a Bíblia hebraica e observava o sabbath como dia de descanso. Dois mil anos de separação e alienação relativamente hostis entre o judaísmo e o cristianismo tenderam a obscurecer o fato de que Jesus cresceu em um mundo religioso e cultural que foi quase totalmente perdido nos subseqüentes desenvolvimentos do cristianismo. Para compreender Jesus em seu próprio tempo e lugar, precisamos compreender sua profunda dedicação à fé ancestral de seus antepassados. Via-se apenas cumprindo as palavras de Moisés e dos profetas, e a esperança messiânica que orientou sua vida e levou à sua morte era o âmago do mais profundo de seu ser.
 
Em certo sentido, este livro é sobre a religião de Jesus, o judeu — aquilo em que acreditava, como vivia, sua visão da vontade de Deus no mundo e o que levou à sua execução pelos romanos. Mas neste capítulo quero esclarecer o que podemos saber sobre Jesus enquanto ele crescia, como judeu, na Galileia do século I.
Surge, então, a pergunta — até que ponto Jesus era judeu, e, dadas as variedades de judaísmo existentes em sua época, que tipo de judeu era ele? Uma tendência entre os estudiosos do século passado, hoje praticamente descartada, era a tentativa de despojá-lo, e a sua mensagem, de seus contextos judaicos. A ideia era a de que Jesus, embora nascido judeu, reconheceu as deficiências de sua fé ancestral obsoleta e dela se afastou em direção a um tipo de "universalismo". Jesus, segundo essa teoria, proclamou a Paternidade de Deus e a fraternidade da humanidade, com um conjunto de éticas universais que suplantava os legalismos do judaísmo. O judaísmo era visto como um precursor fossilizado da revelação final que Jesus trouxe ao mundo. Agora compreendemos que tais teorias não têm bases históricas e são, naverdade, manifestações sutis de anti-semitismo cristão. No entanto, gravaram-se profundamente em nossa consciência cultural ocidental.
Ser judeu, na Palestina do século I ocupada pelos romanos, tinha tanto a ver com identidade nacional e étnica como com crenças religiosas abstratas. Assim, para muitos judeus era impossível separar as realidades sociais e políticas da ocupação militar e opressão econômica da devoção e fé judaicas.Era fundamental a crença judaica de que o povo de Israel tinha sido escolhido por Deus para se tornar uma "nação modelo", que seria um exemplo de justiça e religiosidade para o mundo inteiro. Os profetas hebreus haviam predito que nos últimos dias todas as nações iriam a Jerusalém para se instruir sobre o único verdadeiro Deus Criador, irresistivelmente atraídas pelo exemplo moral de paz e justiça de Israel. Nem todos os judeus aceitavam essa visão tão idealista, mas os que a aceitavam eram em número suficiente para que João Batista, Jesus e seu irmão Tiago pudessem atiçar um movimento que ameaçou os mais altos níveis do estabelecimento político e religioso.
A família de Jesus, como todos os judeus da Galileia, deve ter feito peregrinações para Jerusalém três vezes por ano, como exigia a Torá, todos os anos, na primavera, por ocasião da Páscoa dos hebreus, no princípio do verão, para a celebração de Pentecostes, e no outono, para a celebração dos Tabernáculos. Na Páscoa dos hebreus, principalmente, Josefo afirma que dois milhões e meio de judeus, da Palestina e do mundo inteiro, reuniam-se em Jerusalém.' Era lá que Jesus regularmente se deparava com os símbolos mais pungentes do poder romano, fundidos com o que ele considerava o epítome da corrupção religiosa judaica. A Jerusalém de Herodes, com seus palácios, teatro, hipódromo, mansões luxuosas e Templo magnífico, poderia ser considerada por muitos uma maravilha do mundo, mas para Jesus e milhares de outros era um "covil de ladrões", a ser brevemente condenada por Deus. Não foi por acaso que Jesus, aos 33 anos, deliberadamente escolheu Jerusalém, na Páscoa dos hebreus, como o cenário de seu mais dramático confronto com o que ele chamava de "poderes das trevas". Precisamos imaginar que suas percepções estão profundamente enraizadas em suas experiências ao crescer. Séforis e Jerusalém — as duas principais representantes da opressão romana e da corrupção religiosa — foram absolutamente fundamentais para o modo como ele via sua vocação e seu destino.
 
 
Crescendo como judeu na aldeia de Nazaré
Jesus cresceu pobre, em uma cidadezinha rural da Galileia. A região era pontilhada de centenas dessas cidades e aldeias povoadas por clãs e extensos grupos familiares que cultivavam as terras adjacentes. A arqueologia mostrou que as casas eram modestas, feitas de pedras compactadas com barro e palha. Os pisos eram de terra batida, as janelas eram poucas, os telhados eram de juncos deitados sobre vigas de madeira cobertas de barro, para formar uma superfície utilizada o ano inteiro para dormir, comer e fazer tarefas domésticas. As casas freqüentemente tinham aposentos subterrâneos usados para armazenagem. A mobília era pouca, e as louças de barro, locais e práticas, quase sempre lisas, sem enfeites. Não havia mosaicos, cerâmicas importadas, objetos finos de vidro, moedas de ouro e prata, cosméticos, jóias e vasos de bronze — comuns nas áreas urbanas de Séforis e Jerusalém. As casas maiores poderiam ter um pátio, vários aposentos e famílias extensas morando juntas; essas casas, muitas vezes, se expandiam em uma rede desconexa de estruturas compartilhadas. Os animais viviam em cercados ligados às casas, ou em escavações ou cavernas, e pequenos jardins eram cultivados sempre que houvesse espaço. A alimentação básica fazia-se de azeitonas, pão e lentilhas. Ovos, leite, queijo, peixe salgado, carne, frutas e legumes eram acréscimos bem-vindos. Restos de esqueletos evidenciam deficiências alimentares, e mortes por doença antes dos quarenta anos de idade eram comuns.
Podemos ter uma noção de como eram as coisas naquela época visitando o projeto arqueológico da Aldeia de Nazaré, na cidade moderna de Nazaré. É como uma Williamsburg Colonial da vida de aldeia judaica no tempo de Jesus. Arqueólogos e historiadores estão reconstruindo de modo meticuloso uma réplica da Nazaré do século I, feita inteiramente com os métodos e materiais usados naquele tempo. Também tentam reproduzir, da maneira mais autêntica possível, os antigos métodos de cultivo, criação de animais e ofícios domésticos. Ao visitar Nazaré, não podemos deixar de nos impressionar com a perícia empregada na tentativa. Mas falta muito- o barulho, o mau cheiro, a aglomeração, a sujeira da vida camponesa diária, a sensação de viver sob ocupação militar e, naturalmente, o exército virtual de Herodes, constituído de inspetores, agentes e coletores de impostos, sempre vigilantes.
Todos os indícios arqueológicos da Galileia rural apontam para uma vida camponesa geral — mas era uma vida camponesa judaica. Foram encontradas vasilhasde pedra, necessárias para fins de pureza ritual, assim como piscinas emboçadas ou mikvahs, usadas para imersão ritual. Os ossos que aparecem são de cabras, carneiros, galinhas e algum gado, mas não de porcos. Os túmulos ficavam fora da área de moradia, em cavernas naturais aumentadas ou cortadas no leito de rocha. Como descrito na introdução, o corpo era colocado em uma escavação vertical, ou loculus, para se decompor, e depois de um ano os ossos eram recolhidos e colocados em um ossuário ou nicho separado. A preferência romana pela cremação era evitada, provavelmente devido à crença na ressurreição dos mortos.
A sinagoga era o centro cívico e religioso de uma aldeia judaica. Já foram encontradas pelo menos duas sinagogas do século I — uma em Gamla, no lado leste do Mar da Galileia, a outra na fortaleza de Massada, no deserto. Temos, portanto, alguma noção de como eram. As reuniões eram no sabbath, quando o trabalho normal da cidade inteira parava abruptamente desde o pôr-do-sol de sexta-feira até o crepúsculo de sábado. Preciosas cópias manuscritas da Torá, ou Lei Judaica, e dos livros dos profetas eram lidas em voz alta e discutidas. A língua falada era o aramaico, mas a julgar pelos Manuscritos do Mar Morto, os livros sagrados eram escritos em hebraico antigo. Lucas conta que Jesus, aos trinta anos, voltou à sua cidade de Nazaré, entrou na sinagoga,"como era seu costume", e levantou-se para ler em voz alta um pergaminho de Isaías (Lucas 4:16). Depois sentou-se e começou a dirigir-se aos que estavam reunidos, oferecendo sua interpretação sobre o texto que acabara de ler. Presume-se que havia orações, cânticos e cerimônias ligadas a ocasiões especiais, mas a atividade central parece ter sido a leitura e discussão das Escrituras.
Entre os Manuscritos do Mar Morto havia uma cópia completa do livro de Isaías, que os estudiosos dataram de 100 a.C.; dessa forma, sabemos precisamente como era um pergaminho bíblico no tempo de Jesus. Permanecera escondido durante dois mil anos, lacrado em um vaso de barro, em uma caverna perto do assentamento de Qumrã. O pergaminho de Isaías tem 54 colunas de texto hebraico. Tem mais de sete metros de comprimento e consiste de 17 painéis de pele de cabra de cerca de 27,5 centímetros, costurados uns aos outros. Era enrolado da direita para a esquerda, e seria preciso colocá-lo sobre uma mesa ou um atril para mantê-lo firme, ao desenrolá-lo ou lê-lo. O Grande Pergaminho de Isaías, como é chamado, talvez seja, sem dúvida, a descoberta mais assombrosa na história da arqueologia bíblica. Quando foi encontrado, todos, os estudiososincluídos, custaram a acreditar que pudesse ser tão antigo. Antes dos Manuscritos do Mar Morto, as cópias mais antigas de livros da Bíblia Hebraica datavam do século IX d.C.
Não temos como saber o quanto Jesus falou e o quanto escutou nessas reuniões adultas enquanto crescia, mas desde muito jovem ele deve ter começado a assimilar a variedade de ideias e opiniões conflitantes que eram expressas. A julgar pela tradição oral judaica, que acabou sendo escrita no Mishná,(O Mishná é a compilação mais antiga de discussão judaica das leis da Torá agrupadas pelo Rabino Judá, o Príncipe, em aproximadamente 200 d.C., em Séforis. Até serem escritas, as tradições e ditos circulavam oralmente. Embora escrito no século III d.C., parte do material remonta aos tempos de Jesus) bem como por textos dos Manuscritos do Mar Morto e indícios nos evangelhos, a abrangência dos tópicos era infinita.' Quais as atividades proibidas e permitidas no sabbath? As pessoas deviam pagar impostos? Como seria determinado o calendário judaico — pelos ciclos da lua, do sol ou de ambos? A quem seriam pagos os dízimos? Seriam todos, alguns, ou nenhum dos mortos ressuscitados no fim dos tempos? Que causa permitiria a alguém se divorciar da esposa? Como era transmitida a impureza ritual, e o que era exigido para a purificação? Como e quando apareceriam as várias figuras messiânicas? Era permitido casar-se com uma sobrinha? Quais as transações permitidas com não judeus? Era permitido cobrar juros sobre empréstimos? O reino de Deus se manifestaria literalmente na Terra, ou apenas após a morte, em um mundo celestial? As "tribos perdidas" ou dispersas de Israel retornariam à Terra nos dias dos messias? E depois havia as histórias, as histórias infindáveis de Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés, rei Davi, e de todos os profetas, contadas e recontadas a partir da Escritura e de lendas, para entreter, advertir e educar.
A julgar pelas nossas fontes, não havia um tratamento sistemático desses e de cem outros assuntos relacionados com as crenças centrais do judaísmo. O que caracterizava a vida judaica, até mesmo a vida judaica camponesa, era essa discussão e esse debate contínuos e intermináveis sobre o sentido e as implicações de histórias, mandamentos, e ensinamentos da Torá e dos profetas. Podemos supor um nível de alfabetização e interesse intelectual que talvez normalmente não existisse entre as classes inferiores e os pobres. Os judeus eram um povo "do Livro", e, como os romanos viriam a aprender, isso os tornava diferentes de todos os outros povos dominados por eles.
O judaísmo pode ser resumido sob quatro rubricas: Deus, Torá, Terra e Povo Escolhido. Como judeu, Jesus teria afirmado sua crença no único Deus Criador Yahweh sobre todos os deuses ou entes espirituais; na divina revelação da Torá, como um plano para a vida social, moral e religiosa; na santidade da Terra de Israel como um perpétuo direito inato da nação; e na noção de que o povo de Israel, descendente de Abraão, Isaac e Jacó, tinha sido escolhido por Deus para esclarecer todas as nações. A missão histórica desse povo seria atrair a humanidade para o Deus único e sua revelação na Torá. Como judeu, Jesus foi circuncidado no Templo judaico, em Jerusalém, aos oito dias de idade, observava o sabbath como o dia de descanso semanal, evitava comer certos animais proibidos ou consumir sangue, cumpria as comemorações de peregrinação exigidas e praticava a pureza ritual, conforme ordenado pela Torá. Como homem judeu, Jesus usava borlas franjadas (tzitzit) em sua vestimenta externa, o que indica sua observância rigorosa dos mitzvoth ou mandamentos da Torá ou Lei Judaica.(Isso foi ordenado em Números 15:37-40. Compare com Mateus 23:5) Nesse sentido, ele não era "liberal" quanto às observâncias judaicas, segundo qualquer significado moderno do termo. O que não aceitava, como veremos, eram certas tradições e interpretações orais que alguns mestres rabínicos haviam acrescentado aos mandamentos bíblicos.
 Segundo percepção corrente, o judaísmo é ao mesmo tempo exclusivo e universal. Essas "marcas" de ser judeu podem ser vistas como "separadores" sociais, e eram muito conhecidas na sociedade romana. Encontramos escritores romanos que atacam os judeus e os desprezam, mas também outros que os admiram e até adotam alguns de seus costumes' Há fortes indícios de que uma quantidade significativa de não judeus foi atraída para o judaísmo e até freqüentava sinagogas por todo o mundo romano. Para tanto, não era necessário converter-se formalmente e tornar-se judeu, embora isso também pudesse ser feito. Não judeus que abandonavam os "ídolos" pelo "Deus verdadeiro e vivo" e observavam as proibições de roubar, matar e praticar imoralidade sexual eram considerados "gentios íntegros" ou "tementes a Deus". Vários grupos judaicos divergiam radicalmente em atitudes relativas a não judeus, indo desde a exclusão e separação até o acolhimento cordial.
Acho seguro presumir que a minúscula aldeia de Nazaré tivesse poucos, ou nenhum, residentes não judeus, embora na vizinha Séforis o contato com não judeus fosse diário. Jesus parece ter sido afável com os estrangeiros, e podemos presumir que isso resultou de suas experiências ao crescer. Ele não era nem provinciano, nem separatista em suas atitudes. Parecia detestar o estabelecimento romano e seus colaboradores judeus, embora ao mesmo tempo aceitando indivíduos que considerava espiritualmente dignos. Se seu pai biológico fosse romano, ou tivesse se tornado romano, isso talvez explicasse melhor sua receptividade.
Se, realmente, Nazaré era uma aldeia que recebeu seu nome por concentrar clãs ou famílias que podiam reivindicar descendência da linhagem real do rei Davi, temos de imaginar o que isso implicaria quanto ao fato de Jesus ter crescido lá. Quando voltou para casa como adulto, tendo alcançado alguma reputação devido a suas atividades como pregador e curador, seus conterrâneos, de modo geral, parecem ter zombado da ideia de que Jesus tinha algum papel profético especial. Seu famoso gracejo de que "os profetas só não são honrados em sua cidade natal, entre seus parentes e em sua própria casa" pode bem indicar um certo isolamento social que sofreu, mesmo ao crescer. Sua honrosa descendência de Davi, por parte de mãe, provavelmente era menosprezada pelos habitantes locais, que conheciam a história de seu nascimento ilegítimo, para não falar de sua falta de status econômico, por ser um tekton. Mesmo em sua "própria casa" parece que Jesus foi alvo de uma reação cética quando veio a acreditar que era o eleito de Deus e destinado ao trono de Israel.
Pertencer à linhagem de Davi era uma coisa, mas iniciar um programa específico de implementação era outra bem diferente. Era tão tolo quanto perigoso. Além dessas observações gerais quanto à vida de aldeia em uma cidade pequena, como Nazaré, haveria mais alguma coisa a dizer ao tentarmos resolver a questão de que tipo de judeu Jesus era? Seria ele um membro "de carteirinha" de algum dos grupos judaicos de seu tempo?

Classificando Jesus
Josefo, nossa testemunha judaica contemporânea do século I, conta que havia três seitas ou "filosofias" principais do judaísmo: fariseus, saduceus e essênios.(Sua principal descrição está em Jewish War 2.119-66; ele faz uma recapitulação em sua obra posterior Antiquities 18.11-25)
Em um determinado ponto, explica que havia uma "quarta filosofia" fundada por Judas, o Galileu, seguida pelos assim chamados zelotes, mas diz que suas ideias religiosas eram muito semelhantes às dos fariseus. Ele diz que pertence aos fariseus, embora quando mais moço talvez tivesse passado um tempo com os essênios.
Josefo escrevia para um público romano sofisticado e pretende apresentar seus compatriotas sob o melhor aspecto possível. Quando estourou a grande Revolta Judaica contra os romanos, em 66 d.C., Josefo, que só tinha cerca de trinta anos, serviu como líder militar das forças judaicas na Galileia. Logo percebeu a impossibilidade da luta e rendeu-se aos romanos. O general romano Vespasiano e seu filho, Tito, que conduziam a campanha na Palestina, favoreceram-no. Vespasiano sagrou-se imperador em 69 d.C. Josefo acabou morando em Roma, tornou-se cidadão romano, recebeu uma pensão imperial e escreveu suas memórias no antigo palácio de Vespasiano. A essa altura, Jerusalém estava em ruínas, e as forças judaicas tinham sido totalmente dizimadas. Josefo queria reabilitar a reputação de seu povo. Apresentou os judeus como uma nação antiga, com tradições e leis honrosas. Culpou pela revolta o fanatismo mal orientado e os ciúmes fratricidas entre uma minoria do povo. Quando descreveu as quatro seitas religiosas do judaísmo, propositadamente chamou-as de "filosofias". As "seitas" judaicas de Josefo muito se assemelham às "escolas" filosóficas do mundo grego, quer platônica, estóica, pitagórica ou epicurista. A impressão que Josefo queria dar era de que o povo judeu, longe de ser um elemento atrasado e rebelde da sociedade romana, era uma raça antiga, com tradições veneráveis e respeitáveis escolas de pensamento religioso.
Chegou mesmo a descrever as crenças das três escolas principais de tal maneira que seus leitores cultos igualariam os saduceus aos epicuristas, os fariseus aos estóicos, e os essênios aos platônicos ou, talvez, aos pitagóricos. Considerando seus fins apologéticos, temos de usar o que diz com muita parcimônia.
Ele caracterizou os fariseus e saduceus em poucas linhas, principalmente contrastando suas ideias sobre "destino" e "vida após a morte". Disse que os fariseus enfatizavam que Deus controlava tudo e que eles acreditavam na vida após a morte e na sentença eterna das almas dos mortos. Os saduceus, por outro lado, negavam uma "vida após a morte" e enfatizavam a vida neste mundo. Não acreditavam que Deus controla tudo, mas que os seres humanos escolhem livremente entre o bem e o mal e são adequadamente recompensados. Josefo afirmava que os fariseus eram muito mais populares entre o povo e se integravam nas comunidades locais, enquanto os saduceus eram elitistas e aristocráticos.
A descrição básica de Josefo combina com o que sabemos a partir do Novo Testamento e de fontes judaicas posteriores. Os saduceus vinham sobretudo das classes sacerdotais. O sumo sacerdote, endossado politicamente pelos romanos, era escolhido de suas fileiras. Por conseqüência, detinham o controle principal do Templo de Jerusalém, que era o ponto de foco do judaísmo do mundo inteiro, e dominavam o Sinédrio, um tipo de "conselho" ou "senado" judaico ao qual os romanos permitiam alguma autoridade limitada. A interpretação saduceísta da Lei Judaica tendia a ser mais severa e mais rígida do que a dos fariseus, e sua concentração "neste mundo" em vez de "no mundo por vir" tornava-os céticos quanto a assuntos relativos ao mundo celestial, quer se tratasse de anjos, demônios, ressurreição dos mortos ou eventos associados ao fim dos tempos. Os fariseus, por outro lado, especulavam livremente sobre tais questões. Sua interpretação da Lei Judaica era mais liberal e aberta a mudanças. Embora houvesse uma ala mais rigidamente conservadora dos fariseus, liderada pelo rabino Shammai, do século I, seu rival, rabino Hillel, parecia ter mais influência. Costuma-se pensar em Jesus como inimigo ferrenho de todos os fariseus, quando, na verdade, muitas de suas opiniões sobre a Lei Judaica refletem as posições mais transigentes do rabino HilleL Tanto Hillel quanto Jesus enfatizavam o "amor ao próximo" como fundamental e citavam a "Regra de Ouro" como um breve resumo da Torá e dos profetas. Mas, no final, foi uma coalizão de sacerdotes saduceus e seus partidários entre os fariseus que entregou Jesus ao governador romano Pôncio Pilatos.
Em contraste com seu breve esboço de fariseus e saduceus, Josefo dedicou muitas páginas a uma descrição detalhada e esmerada dos essênios, dos quais era evidentemente simpatizante. Contudo, parece que omitiu de propósito qualquer menção às expectativas apocalípticas radicais deles, que certamente não seriam apreciadas pelos romanos depois da Revolta Judaica. Como já vimos, os essênios que escreveram os Manuscritos do Mar Morto esperavam o fim do mundo e aguardavam a chegada de dois messias — uma figura sacerdotal e um rei descendente de Davi. Eram intensamente anti-romanos e detestavam o estabelecimento religioso jiKlaico de Jerusalém, fosse fariseu ou saduceu, como comprometido e corrupto por completo. Os essênios intitulavam-se o povo da "Nova Aliança", acreditando que fossem representantes de uma Israel novamente purificada no fim dos tempos. Praticavam a vida em comunidade, ritos de iniciação que envolviam imersão ou batismo, e refeições sagradas. Curiosamente, os essênios nunca são mencionados no Novo Testamento, enquanto os fariseus e saduceus aparecem sempre em oposição a Jesus. Jesus compartilhava de algumas importantes crenças e práticas dos essênios, mas, a julgar pelos Manuscritos do Mar Morto, teria sido condenado e desprezado pelo núcleo de liderança dos essênios, devido à sua atitude aberta em relação aos gentios e às mulheres, e sua atitude em relação à observância do sabbath e à pureza ritual, bem menos rigorosa que a deles. Mas o que não devemos presumir é que todos os essênios, ou mesmo aqueles mais vagamente filiados à sua maneira de pensar, teriam compartilhado daquela rígida interpretação da Lei Judaica.
O judaísmo na Palestina romana do século I era incrivelmente diversificado. O problema das categorias de Josefo é que dão a impressão de que a maioria dos judeus era formalmente filiada a um desses grupos principais. É fácil pensarmos neles como semelhantes às modernas denominações religiosas, como batista, católico ou judeu reformado. Sabemos que não é esse o caso. Estimativas da população judaica da Palestina variam muito entre os especialistas, mas ficam entre um e três milhões. Josefo diz que havia apenas 6.000 fariseus e mais de 4.000 essênios. Filo, outro escritor judeu do século I, também calcula 4.000 essênios. Representam categorias gerais de filosofia ou pensamento religioso que apenas um punhado da elite ou dos eruditos poderia adotar como rótulos formais. E cada grupo, como seria de esperar, tinha uma história complexa e uma gama de opiniões que iam de liberais até conservadoras. Embora muitos tenham tentado situar Jesus em uma ou outra dessas "escolas" de judaísmo, tal categorização é questionável. Jesus teria crescidoconhecendo cada uma delas. Não é provável que houvesse muitos saduceus em Nazaré, mas provavelmente havia fariseus e essênios. Josefo diz que os essênios se estabeleceram em todas as cidades, e que os fariseus eram os mais influentes sobre as populações locais. Os evangelhos parecem indicar que os fariseus que moravam na Galileia eram amplamente dispersos, e Jesus os encontra com freqüência.
O movimento finalmente formado por Jesus tinha atrativos para aqueles que se identificavam com qualquer uma dessas filosofias de judaísmo. O irmão mais moço de Jesus era conhecido como Simão, o Zelote. Tornou-se parte do Conselho dos Doze Apóstolos. E, no final, os romanos crucificaram Jesus por sedição — sua alegação de que era o legítimo Rei dos Judeus. Como tal, ele se junta a um elenco de tipos zelotes, desde Judas, o Galileu, até Bar Kochba, um "messias" afinal esmagado pelos romanos em 135 d.C. Jesus teve sua parte de simpatizantes mesmo entre os fariseus. Na verdade, dois membros daquele conselho tiveram influência bastante sobre Pôncio Pilatos, o governador romano da Judeia, para que o corpo de Jesus fosse entregue a seus cuidados para ser enterrado. Finalmente, sob os 33 anos do reinado dinástico de Tiago, irmão de Jesus, grandes quantidades de fariseus se identificaram com o movimento iniciado por João Batista e Jesus.(Consulte Atos 15:5; 21:20) Por surpreendente que pareça a ouvidos modernos, havia, de fato, fariseus nazarenos ou "cristãos" — e muitos. Também ouvimos de Lucas que "numerosos" sacerdotes saduceus em Jerusalém aderiram ao movimento, embora Jesus pareça ter muito pouco em comum com os saduceus (Atos 6:7). E Tiago, irmão de Jesus, começa a exercer certas funções sacerdotais messiânicas com permissão e apoio deles. Embora os essênios tivessem interpretação muito mais rígida da Torá que Jesus, certamente haveria alguns que se identificavam com a excitação apocalíptica que João Batista e Jesus começaram a provocar no país todo.
Em termos gerais, Jesus se identifica mais com o que se descreveria como o movimento messiânico da Palestina do século I. Esse movimento era intensamente apocalíptico, e embora compartilhasse certas ideias com os essênios, tinha um apelo mais amplo para a plebe judaica de todas as seitas, unida na esperança da libertação por Deus. Quando compreendermos a história, os valores centrais e o mundo mitológico desse movimento, seremos capazes de situar Jesus adequadamente dentro dessa diversidade incrível do judaísmo palestino do século I. Havia judeus que se sentiam à vontade em seu mundo social e político, aceitando o status quo, mesmo se ditado por Roma, vivendo da melhor forma possível. Mas haviaoutros, fossem fariseus, saduceus ou essênios, ou mesmo sem filiação alguma, que esperavam uma mudança radical baseada nas previsões messiânicas dos profetas hebreus. O importante não são os rótulos, mas uma certa visão da realidade — uma crença de que Deus interviria para cumprir essas previsões messiânicas. Jesus não originou esse movimento; na verdade, ele começou a se formar duzentos anos antes do nascimento de Jesus. Mas foi Jesus, seu parente João Batista, e seu irmão Tiago que deram a ele a forma definitiva que mudou o curso da história. Em algum momento, antes de completar trinta anos, Jesus começou a formular seu plano. Sem dúvida, houve etapas no caminho. Mas no outono do ano 26 d.C., ele está pronto para tornar públicas suas ideias, e a dinastia de Jesus começa a surgir.

(James Tabor - A dinastia de Jesus)

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