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A “RAZÃO” NA FILOSOFIA

por Thynus, em 13.09.17
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O ser humano sempre sentiu necessidade de entender o mundo e suas manifestações. Se, até determinado momento, o mito era a explicação suficiente, o a evolução natural passou a não mais responder aos anseios de entendimento do homem. Como se deu essa passagem? Na Grécia Antiga, a explicação religiosa de mundo (por nós chamada de mito) declina quando os primeiros sábios põem em discussão a ordem humana e a traduzem em fórmulas acessíveis à inteligência dos homens. Mas por que e como isso acontece?

Mito é o conjunto de explicações reunidas em narrativas que buscam dar um sentido à realidade. Hoje parece fácil, mas há cerca de 30 séculos, entender o que está por trás dos fenômenos meteorológicos, por exemplo, não era nada óbvio. O mito é sempre uma explicação simbólica em todos os povos. O mito grego tem uma especificidade: possui alegorias inteligentes e razoáveis. 

Marly Netto Peres

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A passagem do mito à razão
 
1.
 

Vocês me perguntam o que é idiossincrasia nos filósofos?... Por exemplo, sua falta de sentido histórico, seu ódio à noção mesma do vir-a-ser, seu egipcismo.31 Eles acreditam fazer uma honra a uma coisa quando a des-historicizam, sub specie aeterni [sob a perspectiva da eternidade] — quando fazem dela uma múmia. Tudo o que os filósofos manejaram, por milênios, foram conceitos-múmias; nada realmente vivo saiu de suas mãos. Eles matam, eles empalham quando adoram, esses idólatras de conceitos — tornam-se um perigo mortal para todos, quando adoram. A morte, a mudança, a idade, assim como a procriação e o crescimento, são para eles objeções — até mesmo refutações. O que é não se torna; o que se torna não é... Agora todos eles crêem, com desespero até, no ser. Mas, como dele não se apoderam, buscam os motivos pelos quais lhes é negado. “Deve haver uma aparência, um engano, que nos impede de perceber o ser: onde está o enganador?” — “Já o temos”, gritam felizes, “é a sensualidade! Esses sentidos, já tão imorais em outros aspectos, enganam-nos acerca do verdadeiro mundo. Moral: desembaraçar-se do engano dos sentidos, do vir-a-ser, da história, da mentira — história não é senão crença nos sentidos, crença na mentira. Moral: dizer não a tudo o que crê nos sentidos, a todo o resto da humanidade: tudo isso é ‘povo’. Ser filósofo, ser múmia, representar o ‘monotonoteísmo’ com mímica de coveiro! — E, sobretudo, fora com o corpo, essa deplorável idée fixe dos sentidos! acometido de todos os erros da lógica, refutado, até mesmo impossível, embora insolente o bastante para portar-se como se fosse real!...”

 

 

2.

 

Ponho de lado, com grande reverência, o nome de Heráclito. Se o resto dos filósofos rejeitava o testemunho dos sentidos porque estes mostravam multiplicidade e mudança, ele o rejeitou porque mostravam as coisas como se elas tivessem duração e unidade. Também Heráclito foi injusto com os sentidos. Eles não mentem nem do modo como os eleatas pensavam, nem como ele pensava — eles não mentem.32 O que fazemos do seu testemunho é que introduz a mentira; por exemplo, a mentira da unidade, a mentira da materialidade, da substância, da duração... A “razão” é a causa de falsificarmos o testemunho dos sentidos. Na medida em que mostram o vir-a-ser, o decorrer, a transformação, os sentidos não mentem... Mas Heráclito sempre terá razão em que o ser é uma ficção vazia. O mundo “aparente” é o único: o “mundo verdadeiro” é apenas acrescentado mendazmente...

 

 

3.

 

— E que finos instrumentos de observação temos em nossos sentidos! Esse nariz, por exemplo, do qual nenhum filósofo falou ainda com respeito e gratidão, é, por ora, o mais delicado instrumento à nossa disposição: ele pode constatar diferenças mínimas de movimento, que nem mesmo o espectroscópio constata. Nós possuímos ciência, hoje, exatamente na medida em que resolvemos aceitar o testemunho dos sentidos — em que aprendemos a ainda aguçá-los, armá-los, pensá-los até o fim. O restante é aborto e ciência-ainda-não: isto é, metafísica, teologia, psicologia, teoria do conhecimento. Ou ciência formal, teoria dos signos: como a lógica e essa lógica aplicada que é a matemática. Nelas a realidade não aparece, nem mesmo como problema; e tampouco a questão de que valor tem uma tal convenção de signos como a lógica. —

 

 

4.

 

A outra idiossincrasia dos filósofos não é menos perigosa: ela consiste em confundir o último e o primeiro. O que vem no final — infelizmente, pois não deveria jamais vir! —, os “conceitos mais elevados”, isto é, os conceitos mais gerais, mais vazios, eles põem no começo, como começo. Novamente, isto é apenas expressão de seu modo de venerar: o mais elevado não pode ter se desenvolvido a partir do mais baixo, não pode ter se desenvolvido absolutamente... Moral: tudo o que é de primeira ordem tem de ser causa sui [causa de si mesmo]. A procedência de algo mais é tida como objeção, como questionamento do valor. Todos os valores mais altos são de primeira ordem, todos os conceitos mais elevados, o ser, o incondicionado, o bem, o verdadeiro, o perfeito — nenhum deles pode ter se tornado, tem de ser causa sui. Mas também não pode ser dissimilar um do outro, não pode estar em contradição consigo... Assim os filósofos chegam ao seu estupendo conceito de “Deus”... O último, mais tênue, mais vazio é posto como primeiro, como causa em si, como ens realissimum [ente realíssimo]... E pensar que a humanidade teve de levar a sério as fantasias doentes desses tecedores de teias!33 — E pagou caro por isso!...
 

 

5.

 

— Vamos contrapor a isso, finalmente, de que outra maneira nós (— digo “nós” por cortesia...) abordamos o problema do erro e da aparência. Antes se tomava a mudança, a transformação, o vir-a-ser como prova da aparência, como sinal de que aí deve haver algo que nos induz ao erro. Hoje, ao contrário, e justamente na medida em que o preconceito da razão nos obriga a estipular unidade, identidade, duração, substância, causa, materialidade, ser, vemo-nos enredados de certo modo no erro, forçados ao erro; tão seguros estamos nós, com base em rigoroso exame, que aqui está o erro. Não é diferente do que sucede com os movimentos do grande astro: no caso deles, o erro tem nosso olho como permanente advogado, e aqui, tem nossa linguagem. A linguagem pertence, por sua origem, à época da mais rudimentar forma de psicologia: penetramos um âmbito de cru fetichismo, ao trazermos à consciência os pressupostos básicos da metafísica da linguagem, isto é, da razão. É isso que em toda parte vê agentes e atos: acredita na vontade como causa; acredita no “Eu”,34 no Eu como ser, no Eu como substância, e projeta a crença no Eu-substância em todas as coisas — apenas então cria o conceito de “coisa”... Em toda parte o ser é acrescentado pelo pensamento como causa, introduzido furtivamente; apenas da concepção “Eu” se segue, como derivado, o conceito de “ser”... No início está o enorme e fatídico erro de que a vontade é algo que atua — de que vontade é uma faculdade... Hoje sabemos que é apenas uma palavra... Muito tempo depois, num mundo mil vezes mais esclarecido, chegou à consciência dos filósofos, com surpresa, a segurança, a subjetiva certeza no manejo das categorias da razão: eles concluíram que estas não podiam proceder do mundo empírico — todo o mundo empírico as contradiz. De onde procedem, então? — E na Índia, como na Grécia,35 foi cometido o mesmo erro: “Devemos já ter habitado um mundo mais elevado (— em vez de um bem mais baixo: o que teria sido a verdade!), devemos ter sido divinos, pois temos a razão!”... Na realidade, nada, até o presente, teve uma força de persuasão mais ingênua do que o erro do ser, tal como foi formulado pelos eleatas, por exemplo: afinal, ele tem a seu favor cada palavra, cada frase que falamos! — Também os opositores dos eleatas estavam sujeitos à sedução de seu conceito do ser: Demócrito,36 entre outros, ao inventar seu átomo... A “razão” na linguagem: oh, que velha e enganadora senhora! Receio que não nos livraremos de Deus, pois ainda cremos na gramática...

 

 

6.

 

Serei alvo de gratidão, se resumir uma visão tão nova e tão essencial em quatro teses: assim facilito a compreensão, e também desafio a contestação.

Primeira tese. As razões que fizeram “este” mundo ser designado como aparente justificam, isto sim, a sua realidade — uma outra espécie de realidade é absolutamente indemonstrável.

Segunda tese. As características dadas ao “verdadeiro ser” das coisas são as características do não-ser, do nada — construiu-se o “mundo verdadeiro” a partir da contradição ao mundo real: um mundo aparente, de fato, na medida em que é apenas uma ilusão ótico-moral.

Terceira tese. Não há sentido em fabular acerca de um “outro” mundo, a menos que um instinto de calúnia, apequenamento e suspeição da vida seja poderoso em nós: nesse caso, vingamo-nos da vida com a fantasmagoria de uma vida “outra”, “melhor”.

Quarta tese. Dividir o mundo em um “verdadeiro” e um “aparente”, seja à maneira do cristianismo, seja à maneira de Kant (um cristão insidioso, afinal de contas), é apenas uma sugestão da décadence — um sintoma da vida que declina... O fato de o artista estimar a aparência mais que a realidade não é objeção a essa tese. Pois “a aparência” significa, nesse caso, novamente a realidade, mas numa seleção, correção, reforço... O artista trágico não é um pessimista — ele diz justamente Sim a tudo questionável e mesmo terrível, ele é dionisíaco...



(Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)
 
Notas:

31. “egipcismo”: segundo nota de Sánchez Pascual, “tendencia a la permanencia estática, a la intemporalidad, a la petrificación”.
32. “eleatas”: filósofos gregos da escola de Eléia, como Xenófanes, Parmênides e Zenão (sécs. vi-v a. C.), que defendiam a unidade e imutabilidade do ser, diferentemente de Heráclito (c. 550-480 a. C.), que enfatizava o vir-a-ser e a multiplicidade. Na frase seguinte, “materialidade” é a tradução que aqui foi dada a Dinglichkeit, substantivo cunhado a partir de Ding, “coisa”; os outros tradutores usaram: “coisidade”, idem, coiseidad, cosali, réali, thinghood, materiality, idem.
33. “as fantasias doentes desses tecedores de teias”: die Gehirnleiden kranker Spinneweber. A palavra Gehirn (ou Hirn) significa “cérebro”; o verbo spinnen tem os sentidos de “girar”, “tecer”, “fantasiar”, “estar maluco”; uma Spinne é uma aranha; chama-se Hirngespinst algo que foi tramado doentiamente no cérebro. A maioria das versões consultadas é literal: “os sofrimentos cerebrais de doentes tecedores de teias de aranha”; “as dores cerebrais desses doentes, desses tecelões de teias de aranha”; las dolencias cerebrales de unos enfermos tejedores de telarañas; le cerebrali sofferenze di questi malati tessitori di ragnatele; les maux de cerveaux de ces malades tisseurs de toiles daraignées; the brain afflictions of sick web-spinners; the brainsick fancies of morbid cobweb-spinners; the brain-feverish fantasies spun out by the sick. Sobre a imagem da aranha, ver a universelle araignée, em Genealogia da moral, iii, 9, e A gaia ciência, seção 358.
34. Transcrevemos/traduzimos a nota de Duncan Large: “Deve ser notado, nesse contexto, que Sigmund Freud (1856-1939) também usa o termo das Ich (the I [o Eu]) para o que geralmente é traduzido em inglês como ‘o ego’. Tanto a crítica do ‘Eu’ como construto, que aqui faz Nietzsche, como a noção de ‘projeção’, mais adiante (vi, 3; ix, 15), seriam desenvolvidas posteriormente por Freud”.
35. Alusão à doutrina budista da reencarnação e à doutrina platônica da migração da alma para o reino das idéias, após a morte.
36. Demócrito (460-370 a. C.): filósofo grego, principal autor da doutrina atomista na Antigüidade.

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publicado às 20:48



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