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Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de fazer.
Albert Camus
 
somos aquilo que fazemos,
somos o que amamos,
somos o vento e a chuva,
somos do mundo e de Deus,
somos a nossa própria solidão,
somos amor e paixão,
somos aquilo que respeitamos,
somos a nossa própria escuridão,
somos medo,angustia,desilusão,
temos as portas fechadas sem tempo,
para ouvir,falar,compreender,perdoar,
sentir,viver e ter esperança.!
isabel Ribeiro Fonseca
 
Somos seres assustados. O mundo nunca
viu gente tão acuada como nós. Não envelhecemos,
apodrecemos. A maturidade está
fora de moda. O espelho é nosso algoz. Os
mais jovens, em pânico, fingindo que não,
sofrem diante de pais e mães ridículos em
seus modos e rostos falsamente juvenis.
Com a morte do amadurecimento, morre o
narrador, como diria o filósofo alemão
Walter Benjamin. Ninguém mais assume a
responsabilidade de falar do significado da
vida. Todos querem fingir que tudo pode
ser uma balada. “Eu me invento”, eis o
mandamento máximo do ressentido.
Denegação absoluta.
(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)
 
 
 
Desde os primórdios dos pensamentos escritos, os seres humanos percebem que tudo se desvanece, que temos medo do desvanecimento e que precisamos descobrir uma forma de viver apesar do medo e do desvanecimento. Os psicoterapeutas não podem se dar ao luxo de ignorar os vários grandes pensadores que concluíram que aprender a viver bem é aprender a morrer bem.
 
(---) Heidegger falava de dois modos de existência: o modo cotidiano e o modo ontológico. No modo cotidiano, somos consumidos e distraídos pelos meios materiais — ficamos assombrados em saber como as coisas são no mundo. No modo ontológico, nós nos concentramos em ser per se — isto é, ficamos assombrados em saber que as coisas são no mundo. Quando existimos no modo ontológico — o reino que está além das preocupações do dia-a-dia —, estamos num estado de prontidão particular para mudanças pessoais.
 
Mas como mudamos do modo cotidiano para o modo ontológico? Os filósofos freqüentemente falam das "experiências-limite" — experiências prementes que nos arrancam subitamente da nossa "cotidianidade" e fixam nossa atenção no próprio "ser". A experiência-limite mais poderosa é um confronto com a própria morte. Mas o que dizer das experiências-limite na prática clínica comum? Como o terapeuta obtém a alavanca para mudança disponível no modo ontológico nos pacientes que não estão diante de uma morte iminente?
 
Cada curso de terapia é repleto de experiências que, embora menos dramáticas, ainda podem efetivamente alterar a perspectiva. O luto, lidar com a morte do outro, é uma experiência-limite cujo poder é raramente aproveitado no processo terapêutico. É extremamente freqüente no trabalho de luto que nos concentremos extensa e exclusivamente na perda, nas questões inacabadas no relacionamento, na tarefa de nos desprender do morto e de voltar a entrar no fluxo da vida. Embora todas essas etapas sejam importantes, não devemos negligenciar o fato de que a morte do outro também serve para confrontar cada um de nós, de maneira violenta e pungente, com a nossa própria morte. Anos atrás, num estudo sobre luto, descobri que muitos cônjuges em luto foram mais longe que simplesmente passar pela reparação e voltar ao seu estágio de funcionamento antes do luto: entre um quarto e um terço dos indivíduos atingiram um novo nível de maturidade e sabedoria.
 
Além da morte e do luto, surgem muitas outras oportunidades para o discurso relacionado à morte durante o curso de cada terapia. Se tais questões nunca emergem, acredito que o paciente esteja simplesmente seguindo as instruções dissimuladas do terapeuta. Morte e mortalidade formam o horizonte de todas as discussões sobre o envelhecimento, mudanças do corpo, estágios da vida e muitos marcos significativos da vida, como as grandes datas comemorativas, a ida dos filhos para a faculdade, o fenômeno do ninho vazio, a aposentadoria, o nascimento de netos. Uma reunião de ex-colegas pode ser um catalisador particularmente potente. Cada paciente discute, num momento ou outro, as notícias de jornal sobre acidentes, atrocidades, e os obituários. E, além disso, também existe o inconfundível rastro da morte em cada pesadelo.
 
(...) Tenha sempre em mente que as preocupações com a morte freqüentemente se disfarçam em trajes sexuais. O sexo é o grande neutralizador da morte, a antítese vital absoluta da morte. Alguns pacientes que são expostos a uma grande ameaça da morte subitamente são tomados por preocupações com pensamentos sexuais. (Existem estudos TAT [Testes de Apreciação Temática] que documentam um maior conteúdo sexual em pacientes com câncer.) O termo francês para orgasmo, la petite mort ("pequena morte"), aponta para a perda orgásmica do self, que elimina a dor da separação — o "eu" solitário desaparecendo no "nós" fundidos.
 
Uma paciente portadora de câncer abdominal certa vez se consultou comigo porque tinha se apaixonado loucamente por seu cirurgião, a ponto de suas fantasias sexuais com ele terem substituído seus medos em relação à morte. Quando, por exemplo, foi marcado para ela um exame importante de ressonância magnética, no qual ele estaria presente, a decisão sobre que roupa vestir a consumiu tanto que ela perdeu de vista o fato de que sua vida estava por um fio. Outro paciente, uma "eterna criança", um menino-prodígio da matemática com enorme potencial, tinha permanecido infantil e fortemente ligado à mãe já na fase adulta. Extraordinariamente talentoso para conceber grandes idéias, em brainstorms de improviso, em captar rapidamente a essência de novos e complexos campos de pesquisa, nunca conseguiu tomar a resolução de concluir um projeto, para construir uma carreira, uma família ou uma casa. As preocupações com a morte não eram conscientes, mas entravam em nossas discussões por um sonho:
 
Minha mãe e eu estamos num quarto grande. Parece um quarto da nossa velha casa, mas tem uma praia no lugar de uma das paredes. Caminhamos na praia, e minha mãe insiste para que eu entre na água. Reluto, mas pego uma pequena cadeira para ela se sentar e sigo em frente. A água é bem escura, e logo, à medida que avanço mais para fundo, até a altura dos meus ombros, as ondas se transformam em granito. Desperto ansiando desesperadamente por ar e encharcado de suor. A imagem das ondas de granito cobrindo-o, uma imagem poderosa de terror, morte e enterro, ajudou-nos a entender sua relutância em abandonar a infância e a mãe, e entrar por inteiro na vida adulta.
 
Nós, seres humanos, parecemos ser criaturas em busca de significados que tiveram o infortúnio de serem lançadas num mundo destituído de significado intrínseco. Uma das nossas maiores tarefas é inventar um significado consistente o bastante para sustentar a vida e executar a difícil manobra de negar nossa autoria pessoal desse significado. Assim sendo, concluímos, pelo contrário, que essa coisa está "aí fora" esperando por nós. Nossa procura incessante por sistemas substanciais de significados freqüentemente nos lança em crises de significado.
 
Mais indivíduos buscam terapia por causa de preocupações com o significado da vida do que os terapeutas muitas vezes percebem. Jung relatou que um terço de seus pacientes o consultavam por esse motivo. As queixas podem assumir diferentes formas. Por exemplo: "Minha vida não tem nenhuma coerência", "Não tenho paixão por nada", "Por que estou vivendo? Para quê?" "Com certeza a vida deve ter algum significado mais profundo." "Sinto-me tão vazio — assistir tevê toda noite me faz sentir sem sentido, tão inútil" "Mesmo agora, aos 50 anos de idade, ainda não sei o que quero fazer quando crescer."
 
(...) Alguns workshops experienciais empregam truques para estimular o discurso sobre o significado da vida. Talvez o mais comum seja perguntar aos participantes o que eles poderiam desejar como epitáfio em suas lápides. A maioria dessas indagações sobre o significado da vida leva a uma discussão de metas como altruísmo, hedonismo, dedicação a uma causa, generatividade, criatividade, auto-realização. Muitos sentem que projetos com um sentido assumem um significado mais profundo e mais poderoso se forem autotranscendentes — isto é, dirigidos para algo ou alguém fora deles mesmos, tais como o amor por uma causa, uma pessoa, uma essência divina.
 
O recente sucesso precoce de jovens milionários do setor de alta tecnologia freqüentemente gera uma crise existencial que pode ser instrutiva sobre os sistemas de significado de vida não autotranscendentes. Muitos desses indivíduos iniciam suas carreiras com uma visão bem clara — realizar-se, ganhar muito dinheiro, viver a boa vida, receber o respeito dos colegas, aposentar-se cedo. E um número sem precedentes de jovens na casa dos trinta fizeram exatamente isso. Mas, então, surgiu a pergunta: "E agora? E quanto ao restante da minha vida — os próximos quarenta anos?" A maioria dos jovens milionários do setor de alta tecnologia que tenho visto continua a fazer muito do mesmo: iniciam novas empresas, tenta repetir seus sucessos. Por quê? Eles dizem a si mesmos que precisam provar que não foi um golpe de sorte, que conseguem vencer sozinhos, sem um determinado sócio ou mentor. Eles aumentam o nível de exigência. Para sentir que eles e sua família estão seguros, que não precisam de mais um ou dois milhões no banco — precisam de cinco, dez, até cinqüenta milhões para se sentirem seguros. Percebem a falta de sentido e a irracionalidade de ganhar mais dinheiro quando já têm mais do que conseguiriam gastar, mas isso não os detém. Percebem que estão tirando o tempo de suas famílias, das coisas mais próximas ao coração, mas simplesmente não conseguem desistir de jogar o jogo. "O dinheiro está lá fora à espera" eles me dizem. "Tudo que preciso fazer é apanhá-lo." Eles precisam fazer negócios. Um empreendedor imobiliário me disse que sentia que desapareceria se parasse. Muitos têm medo do tédio — mesmo o menor indício de tédio faz com que voltem correndo para o jogo. Schopenhauer disse que o próprio desejo nunca é satisfeito — assim que um desejo é satisfeito, aparece um outro. Embora possa existir alguma pausa bem breve, algum período fugaz de saciedade, ele é imediatamente transformado em tédio. "Cada vida humana", ele disse, "é lançada para trás e para frente, entre dor e tédio."
 
Diferentemente da minha abordagem das outras preocupações existenciais supremas (morte, isolamento, liberdade), penso que o significado da vida é mais bem abordado obliquamente. O que devemos fazer é mergulhar num dos muitos significados possíveis, particularmente um com uma base autotranscendente. É o compromisso que conta, e nós, terapeutas, fazemos mais bem quando identificamos e ajudamos a remover os obstáculos ao compromisso. Como ensinou Buda, a questão do significado da vida não é edificante. Devemos mergulhar no rio da vida e deixar que a questão seja carregada pela corrente.
 
 
(Irvin D. Yalom - Os desafios da terapia)
 
O sentido da vida
 

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publicado às 16:33



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