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A questão do significado da vida

por Thynus, em 07.11.14
O estado nascente é uma morte-renascimento, deixando-nos,
assim, terrivelmente próximos da morte. O fato de a literatura
amorosa falar com tanta frequência de morte não é uma
brincadeira macabra ou um sinal de neurose, mas o sintoma de
que no enamoramento o significado da vida é posto em
discussão. Nós nos fazemos verdadeiramente a pergunta
metafísica: quem somos? por que estamos aqui? que valor tem
a nossa vida? Nossa existência não nos aparece mais como algo
natural, que é assim porque assim é o mundo. Mas como uma
aventura em que fomos envolvidos e que podemos escolher ou
recusar. O nosso passado volta-nos à mente e de tudo fazemos
um julgamento. O estado nascente é também o dia do juízo e
de sua condenação; na maioria das vezes, é inapelável
.
(Francesco Alberoni - O erotismo)
 
Somos seres assustados. O mundo nunca
viu gente tão acuada como nós. Não envelhecemos,
apodrecemos. A maturidade está
fora de moda. O espelho é nosso algoz. Os
mais jovens, em pânico, fingindo que não,
sofrem diante de pais e mães ridículos em
seus modos e rostos falsamente juvenis.
Com a morte do amadurecimento, morre o
narrador, como diria o filósofo alemão
Walter Benjamin. Ninguém mais assume a
responsabilidade de falar do significado da
vida. Todos querem fingir que tudo pode
ser uma balada. “Eu me invento”, eis o
mandamento máximo do ressentido.
Denegação absoluta.
(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)
 
Nós, seres humanos, parecemos ser criaturas em busca de significados que tiveram o infortúnio de serem lançadas num mundo destituído de significado intrínseco. Uma das nossas maiores tarefas é inventar um significado consistente o bastante para sustentar a vida e executar a difícil manobra de negar nossa autoria pessoal desse significado. Assim sendo, concluímos, pelo contrário, que essa coisa está "aí fora" esperando por nós. Nossa procura incessante por sistemas substanciais de significados freqüentemente nos lança em crises de significado.
Mais indivíduos buscam terapia por causa de preocupações com o significado da vida do que os terapeutas muitas vezes percebem. Jung relatou que um terço de seus pacientes o consultavam por esse motivo. As queixas podem assumir diferentes formas. Por exemplo: "Minha vida não tem nenhuma coerência", "Não tenho paixão por nada", "Por que estou vivendo? Para quê?" "Com certeza a vida deve ter algum significado mais profundo." "Sinto-me tão vazio — assistir tevê toda noite me faz sentir sem sentido, tão inútil" "Mesmo agora, aos 50 anos de idade, ainda não sei o que quero fazer quando crescer."
Certa vez tive um sonho (descrito em Momma and the Meaning of Lifé) no qual, enquanto pairava próximo da morte num quarto de hospital, subitamente me vi em um passeio no parque de diversões (A Casa dos Horrores). Quando o carro estava prestes a entrar nas sombrias entranhas da morte, repentinamente avistei minha mãe morta no meio da multidão que assistia e gritei para ela: "Mamãe, mamãe, o que faço?"
O sonho, e especialmente meu grito — "Mamãe, mamãe, o que faço?" —, me assombrou durante muito tempo, não por causa do imaginário da morte no sonho, mas por causa de suas implicações sombrias sobre o significado da vida. Seria possível, especulei, que eu vinha conduzindo minha vida inteira com o objetivo primário de obter a aprovação da minha mãe? Por ter tido um relacionamento problemático com minha mãe e não ter dado valor à sua aprovação quando ela estava viva, o sonho foi tanto mais mordaz.
A crise de significado descrita no sonho me incitou a explorar minha vida de maneira diferente. Num conto que escrevi imediatamente depois do sonho, travei uma conversa com o fantasma da minha mãe para curar a brecha entre nós e para entender como nossos significados de vida se entrelaçavam, e, ao mesmo tempo, conflitavam um com o outro.
Alguns workshops experienciais empregam truques para estimular o discurso sobre o significado da vida. Talvez o mais comum seja perguntar aos participantes o que eles poderiam desejar como epitáfio em suas lápides. A maioria dessas indagações sobre o significado da vida leva a uma discussão de metas como altruísmo, hedonismo, dedicação a uma causa, generatividade, criatividade, auto-realização. Muitos sentem que projetos com um sentido assumem um significado mais profundo e mais poderoso se forem autotranscendentes — isto é, dirigidos para algo ou alguém fora deles mesmos, tais como o amor por uma causa, uma pessoa, uma essência divina.
O recente sucesso precoce de jovens milionários do setor de alta tecnologia freqüentemente gera uma crise existencial que pode ser instrutiva sobre os sistemas de significado de vida não autotranscendentes. Muitos desses indivíduos iniciam suas carreiras com uma visão bem clara — realizar-se, ganhar muito dinheiro, viver a boa vida, receber o respeito dos colegas, aposentar-se cedo. E um número sem precedentes de jovens na casa dos trinta fizeram exatamente isso. Mas, então, surgiu a pergunta: "E agora? E quanto ao restante da minha vida — os próximos quarenta anos?"
A maioria dos jovens milionários do setor de alta tecnologia que tenho visto continua a fazer muito do mesmo: iniciam novas empresas, tenta repetir seus sucessos. Por quê? Eles dizem a si mesmos que precisam provar que não foi um golpe de sorte, que conseguem vencer sozinhos, sem um determinado sócio ou mentor. Eles aumentam o nível de exigência. Para sentir que eles e sua família estão seguros, que não precisam de mais um ou dois milhões no banco — precisam de cinco, dez, até cinqüenta milhões para se sentirem seguros. Percebem a falta de sentido e a irracionalidade de ganhar mais dinheiro quando já têm mais do que conseguiriam gastar, mas isso não os detém. Percebem que estão tirando o tempo de suas famílias, das coisas mais próximas ao coração, mas simplesmente não conseguem desistir de jogar o jogo. "O dinheiro está lá fora à espera" eles me dizem. "Tudo que preciso fazer é apanhá-lo." Eles precisam fazer negócios. Um empreendedor imobiliário me disse que sentia que desapareceria se parasse. Muitos têm medo do tédio — mesmo o menor indício de tédio faz com que voltem correndo para o jogo. Schopenhauer disse que o próprio desejo nunca é satisfeito — assim que um desejo é satisfeito, aparece um outro. Embora possa existir alguma pausa bem breve, algum período fugaz de saciedade, ele é imediatamente transformado em tédio. "Cada vida humana", ele disse, "é lançada para trás e para frente, entre dor e tédio."
Diferentemente da minha abordagem das outras preocupações existenciais supremas (morte, isolamento, liberdade), penso que o significado da vida é mais bem abordado obliquamente. O que devemos fazer é mergulhar num dos muitos significados possíveis, particularmente um com uma base autotranscendente. É o compromisso que conta, e nós, terapeutas, fazemos mais bem quando identificamos e ajudamos a remover os obstáculos ao compromisso. Como ensinou Buda, a questão do significado da vida não é edificante. Devemos mergulhar no rio da vida e deixar que a questão seja carregada pela corrente.

(Irvin D. Yalom - Os desafios da terapia)

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publicado às 13:05



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