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A Queda

por Thynus, em 24.11.15
.  Não há insatisfação profunda que não seja de
natureza religiosa: nossos fracassos provêm
de nossa incapacidade para conceber o
Paraíso e aspirar a ele, como nossos mal-estares
da fragilidade de nossas relações com o
absoluto. “Sou um animal religioso incompleto,
padeço duplamente de todos os males”
– adágio da Queda, que o homem se repete
para consolar-se. Ao não consegui-lo, recorre
à moral, decide seguir, expondo-se ao
ridículo, seu conselho edificante. “Resolve-te
a não estar mais triste”, lhe responde esta. E
ele se esforça por entrar no universo do Bem
e da Esperança... Mas seus esforços são ineficazes
e antinaturais: a tristeza remonta à
raiz de nossa perdição..., a tristeza é a poesia
do pecado original..
(Emil Cioran - Breviário de Decomposição)
 
"O primeiro ato de liberdade do homem é um ato de desobediência, e através dêle o homem transcende sua união original com a Natureza, adquire consciência de si e de seu próximo e de sua condição de estranhos. No processo histórico, o homem se cria. Cresce até à autoconsciência, ao amor, à justiça e quando atinge a finalidade da compreensão plena do mundo, pelo seu poder da razão e do amor, torna-se uno novamente, desfaz o “pecado” original, volta ao Paraíso, mas no nôvo nível da individualização e da independência humana. Embora o homem tenha “pecado” no ato de desobediência, seu pecado se justifica no processo histórico. Não sofre uma corrupção de sua substância, mas seu pecado mesmo é o comêço de um processo dialético que termina com sua autocriação e auto-salvação." 
(Erich Fromm – O Dogma de Cristo e outros dogmas). 
.
Os mitos da Árvore da Vida, da Árvore do Bem e do Mal e da Queda – a expulsão de Adão e Eva do paraíso após comerem o fruto da árvore proibida, em busca da imortalidade e do saber – também encontram paralelos na mitologia mesopotâmica. A mesma lenda também está na Torah e no Corão (2:29). Embora bastante conhecida, merece aqui ser recontada, em síntese. Conforme o relato do segundo capítulo do Gênesis, depois de haver criado Adão, Iahweh colocou-o no jardim do Éden, juntamente com várias plantas e árvores, formosas de ver e boas de comer, além das árvores da vida e a do conhecimento do bem e do mal, advertindo-o de que se comesse o fruto desta última, morreria. Eis que Eva, feita das costelas de Adão, seduzida pelas palavras da serpente que disse que se eles comessem do fruto proibido não morreriam, mas se tornariam como deuses, porque os seus olhos se abririam e teriam o discernimento do bem e do mal, vendo que o fruto da árvore era formoso à vista e apetitoso, saboreou-o e ofereceu-o ao seu marido, que também o comeu. “Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus.” (Gn 3:7).
Iahweh Deus, que passeava no jardim à brisa do dia, notou que homem e mulher dele se escondiam. Embora já sabendo do ocorrido, Deus pergunta a Adão por que eles se escondiam. Covardemente, Adão diz que, induzido por Eva, comera do fruto proibido. Esta, por sua vez, afirma que foi “seduzida” pela serpente. Seguiu-se, então, a maldição lançada por Deus contra a serpente e Eva: “À mulher ele disse: ‘Multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos. Teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará’.”[Gn 3:16] Neste ponto da história foram lançadas as raízes de todos os preconceitos e difamações que marcaram as mulheres durante séculos de civilização; os fundamentos da dominação masculina; a base para a caça às bruxas na Idade Média, tudo porque a mulher havia, supostamente, feito conluio com Satã (a serpente) e espalhado o pecado pelo mundo. Eis a mulher: a responsável pelos males que acometem a humanidade, tal como Pandora, do mito grego. O mal e a morte decorrem de Eva, Lilith, Pandora, as pecadoras e demônios que seduzem os homens e os colocam no rumo do pecado. “O judeo-cristianismo defende a ideia de que Eva [...] foi criada secundariamente (Surata III,1)! Um pedaço inferior removido do corpo princeps. Antes o macho, depois, como fragmento retirado, resto, migalha: a fêmea.”[Michel Onfray. Tratado de Ateologia: física da metafísica. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007, p. 85]
O fruto da árvore do conhecimento é proibido ao homem na mitologia cristã e judaica, que marcam fortemente a civilização e a cultura ocidentais. O mito do pecado original sufoca o livre pensamento, o sexo sem culpa e a busca pelo prazer saudável. Passar por cima de Deus, buscar o conhecimento: eis o crime de Eva. Não questionar os misteriosos desígnios de Deus faz parte da proibição ao homem de comer o fruto da árvore do conhecimento. Manter o indivíduo na ignorância, proibir as pesquisas científicas, genéticas, a pílula, o casamento gay, as relações sexuais fora do casamento, o uso de preservativos são parte dessa crença de que não se pode optar pelo pensamento livre e pela lógica, devendo ficar com a religião e seus dogmas, a ignorância e a superstição. O fracasso de Adão denunciou sua desobediência e o seu orgulho em querer ser igual a Deus, o maior pecado que uma criatura poderia cometer, resultando, dessa forma, o conceito do pecado original, pilar das religiões judaica e cristã.
Proibidos de comer do fruto da árvore do conhecimento expulsos do paraíso, Michel Onfray pergunta:
Que destino Deus reserva então aos homens: a imbecilidade e a mortalidade?
É preciso imaginar um Deus perverso para oferecer esse presente a suas criaturas ... Celebremos, pois, Eva, que opta pela inteligência ao preço da morte, enquanto Adão não entende imediatamente as implicações do momento paradisíaco: a eterna ventura do imbecil feliz.[Tratado de Ateologia: física da metafísica, p.54]
O mito de Adão e Eva deve ser revisto e reinterpretado sob uma ótica moderna. Uma Eva criada da costela do homem servia como uma poderosa metáfora da submissão feminina ao poder masculino, em uma época na qual não existia a ideia de igualdade entre os seres humanos. Nos primórdios da história, esse símbolo continha uma mensagem explícita de que a mulher era inferior ao homem porque o próprio Criador assim o quis, ao fazê-la da costela do seu macho. Eva fez o homem consciente de sua inteligência, poder e capacidade. Não era suficiente apenas viver no Éden e encontrar ali o seu alimento e sossego eterno. Ela libertou a humanidade do cativeiro ao propiciarlhe a capacidade de pensar e de distinguir o que era bom do que era ruim, podendo, a partir desse raciocínio, escolher as melhores (em alguns casos, infelizmente, as piores) opções de vida e de fazer toda a sua história.
O relato bíblico da Criação, na segunda versão (J), levanta uma série de perguntas cujas respostas teológicas carecem de racionalidade, por fazerem as pessoas acreditarem na narrativa somente porque assim foi escrito. Na versão J é proibido ao homem comer do fruto da árvore do conhecimento porque ele passaria a ter o conhecimento do bem e do mal e morreria. Três questões e uma conclusão emergem desse fato. Primeiro, a conclusão: o mal já existia antes que Adão e Eva comessem da fruta. Agora as perguntas: Se eles não comessem do fruto seriam imortais? Se o mal existia, quem o criou? Afinal, Deus não fez tudo a partir do nada? Teólogos se debatem sobre a questão para tentar explicar a existência do mal, que não poderia ter sido feito por Deus. A resposta encontrada e mais aceita é que o mal decorre de Satanás, que leva a mais perguntas: Quem criou Satã? Se o criou, por que permite que ele ainda exista? São indagações que levam a respostas prontas feitas por teólogos e que mais confundem do que esclarecem, ao apelarem para os desígnios misteriosos de Deus.
Excluindo o devaneio teológico há uma resposta mais simples para essas perguntas: o homem é o responsável pelo bem e pelo mal; por Deus e pelo Diabo, porque é da mente humana e dos seus mitos que esses personagens surgem, para compor a realidade e o imaginário das pessoas; dar sentido à vida e à morte; explicar o que, para muitos, é inexplicável ou mesmo complicar o que seria facilmente entendido por qualquer um.
Na Bíblia, envergonhados, Adão e Eva são expulsos do Éden por Deus, que coloca na entrada do jardim “os querubins e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida.” (Gn 3:24). Aqui, mais uma semelhança com a mitologia sumério-babilônica. Os querubins eram de fato representações de animais (touro ou leão) com um par de asas estendidas. O nome corresponde ao dos karibus babilônios[Extraída da nota explicativa referente ao Livro do Êxodo (25:18f), da Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002], que eram representações iconográficas metade homens, metade animais, que vigiavam as entradas dos templos mesopotâmicos. Esses seres alados estavam esculpidos no Templo de Jerusalém e na Arca da Aliança.[Cf. Ex 25:18; I Reis 6: 32 e 35)]
A iconografia dos querubins que guardavam a Arca e o Templo era bastante semelhante às usados pelos povos da Mesopotâmia, conforme a figura, um baixo-relevo de um boi alado com a cabeça humana, retirado do palácio do rei Sargão II, da Assíria, datado entre 716-713 a.C..
baixo-relevo de um boi alado com acabeça humana
 
O leitor poderá pesquisar e descobrir outras lendas e iconografias semelhantes, tais como as dos anjos, cuja descrição no Antigo e Novo Testamento tem total semelhança com vários personagens da mitologia grega, entre eles as divindades antropomórficas com asas, como Eros, as Nikés (deusas da vitória), os ventos e as Lasas da arte etrusca, seres divinos que acompanham a alma dos mortos.

Niké Éphèse

 É de reconhecer que embora diversas representações modernas dos querubins da Arca e do Templo tenham a forma de homens alados, conforme a figura a seguir, a sua origem é assíria ou mesopotâmica.
querubins da Arca e doTemplo
 
A narrativa da busca da árvore do conhecimento e da vida eterna pelo homem é um tema presente na mitologia dos povos da Mesopotâmia. A narrativa épica Gilgamesh retrata esse objetivo. Na mitologia dos babilônios e sumérios, o fruto não é proibido e a vida é concedida ao homem e basta que ele estenda a mão para pegá-la com a devida vontade e ânimo de recebê-la. Não há pecado na busca da vida e do conhecimento, pois este liberta!
O primeiro pecado provocou não só a expulsão do paraíso e a modificação da condição humana, mas tornou-se a fonte de todas as desventuras que recaíram sobre a humanidade, na teologia judaico-cristã.

O paraíso como o inverso do real
O que é o paraíso, na visão dos judeus, cristãos e muçulmanos? Ele pode ser definido como o inverso do mundo real. Nas três religiões monoteístas, a visão do paraíso mudou com o tempo, mas a essência permaneceu.
Para os cristãos, o paraíso é o lugar para onde a alma migra depois da morte. Nos primeiros anos do cristianismo, a noção desse lugar idílico decorreu, inicialmente, da promessa feita por Jesus ao bom ladrão, de que ambos estariam juntos no paraíso, mas para os judeus da época, significava o lugar no qual os justos aguardariam pela Ressurreição e pelo Messias (lembre-se de que Jesus Cristo não era considerado o enviado aguardado para libertar o povo de Israel da opressão). Somente mais tarde é que a noção de uma terra luxuriante ganhou forma. Esse local seria o ponto de espera e passagem para uma eternidade bem-aventurada.
Quer seja uma terra cheia de prazeres ou um sítio de passagem para uma eternidade bemaventurada ou este próprio universo etéreo e espiritual, a visão mais tradicional do paraíso é a da terra cheia de verde, uma versão perfeita da natureza, um jardim abençoado.
No século XII, a teologia cristã criou um lugar intermediário para aqueles que não cumpriram os seus deveres na Terra e não tinham, de imediato, o seu lugar no céu garantido. O purgatório - prisão e lugar de passagem - permeou o imaginário religioso de todo o Ocidente como o lugar em que os cristãos pecadores podiam garantir a sua passagem de ida para o céu, salvando-se do inferno. Foi fonte de inspiração para obras literárias, como a Divina Comédia, de Dante Alighieri e inúmeros quadros e afrescos do Renascimento. Era uma alternativa aos que não podiam pagar as indulgências cobradas pela Igreja para ser absorvido dos pecados e garantir acesso ao paraíso. Como uma criação da teologia, o purgatório não existia para os Luteranos e já neste século, foi declarado como inexistente pela mesma Igreja que o criou.
Para os muçulmanos o paraíso tinha o frescor e a amenidade de um jardim, com rios de água fresca e fontes das quais jorram leite e mel, além de huris (mulheres jovens) para os mártires. Durante suas pregações, o profeta Maomé seduziu os seus seguidores e aqueles a quem dirigia a palavra com descrições do paraíso para quem abraçasse sua fé. A visão árabe de um paraíso cheio de prazeres era perfeita, exatamente por ser o oposto do mundo no qual viviam: um deserto quente e árido.
A ideia do paraíso para os seguidores do Islã vem de dois lugares distintos.[Wadih Atallah. Maomé no País das Delícias. In: História Viva, Especial Céu e Inferno n.º 25, p.36] A primeira é da cidade de Damasco, que possuía jardins magníficos e onde nenhum dos encantos do paraíso deixaria de ser ali encontrado, conforme descrição do geógrafo sírio do século XIII, Yakut, que a classificou como a primeira cidade mais paradisíaca da Terra. A segunda fonte de inspiração do paraíso muçulmano vem das histórias e da cultura greco-romana, com a representação dos banquetes, orgias e festas nas quais circulavam belos jovens e lindas mulheres.
O paraíso era oferecido pelo profeta aos seus seguidores e àqueles que morressem pela causa do islã. No ano 624, na batalha de Badr, o primeiro grande embate entre Maomé e os politeístas da cidade de Meca para estimular os seus homens, Maomé disse: “Todo homem dentro de vós, eu juro, que lutar hoje contra os coraixitas e morrer com coragem, entrará no paraíso.” As huris são um dos prazeres mais apreciados no paraíso, afinal, para uma cultura que oprime a mulher, coloca-a quase como uma serva e a impede de mostrar qualquer parte do corpo que não o rosto –isso quando permite -, a promessa de mulheres sensuais aguardando os combatentes no paraíso é irresistível. É o paraíso como o oposto do mundo real, uma visão sedutora para os homens - bomba de hoje.
Sempre na lógica do paraíso como antimundo desejável para fazer aceitar o mundo real, frequentemente indesejável: o islã é originalmente uma religião do deserto de clima rude, quente e violento; no paraíso reina uma eterna primavera, nem sol, nem lua, eterna claridade, nunca de dia, nunca de noite. [Michel Onfray. Ob. cit., p.83]
Essa visão idílica do paraíso muçulmano é combatida por muitos intérpretes e estudiosos do islã moderno – assim como foi contestada por filósofos islâmicos da Idade Média – que veem nessas descrições apenas uma metáfora na qual o verdadeiro muçulmano que busca o paraíso está à procura da felicidade “proporcionada pela vida eterna ao lado de Deus.”[Wadih Atallah. Maomé no País das Delícias, p. 39] Mas esta parece não ser a percepção do paraíso existente na mente dos mais fanáticos.

(Élvio Gusmão Santos - As Histórias da Bíblia e os Mitos da Antiguidade)

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publicado às 02:14



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