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A PSICOLOGIA DO PRAZER

por Thynus, em 17.03.16
Eu acho que você já percebeu na sua vida que tem horas que você está voando baixo, está bem, está ligado. Em compensação, tem horas que você está bem borococho. Que você está deprimido, indisposto.
Então eu espero que você tenha percebido que existe uma energia que te anima. E esta energia oscila. Tem horas que você está com a energia em alta e horas em baixa.
A esta energia cada pensador chama de um jeito. Hobbes chamava de conatus, Spinoza de potência de agir, Nietzche de vontade de potência, Bergson de elan vital, Clóvis (o palestrante) de tesão pela vida.
Tesão pela vida é isso - potência de agir. Tem horas que sobe e horas que desce..
 
(Professor Clóvis de Barroa Filho)

 
Magia do Caos
Prazer, para o homem, não é um luxo, mas uma necessidade psicológica profunda.
Prazer (no sentido mais amplo do termo) é uma concomitante metafísica da vida, a recompensa e a consequência da ação bem-sucedida — assim como a dor é a insígnia do fracasso, destruição e morte.
Através do estado de alegria, o homem experiência o valor da vida, o sentido de que a vida vale a pena ser vivida, de que vale a pena lutar para mantê-la. Para que viva, o homem deve agir a fim de conquistar valores. Prazer ou alegria é, ao mesmo tempo, uma recompensa emocional por um ato bem-sucedido e um incentivo para continuar agindo.
Além disso, devido ao significado metafísico do prazer para o homem, o estado de alegria lhe dá uma experiência direta de sua própria eficácia, de sua competência em lidar com os fatos da realidade, de alcançar seus valores, de viver. Implicitamente contido na experiência do prazer está o sentimento: “Estou no controle de minha, “existência” — assim como implicitamente contido na experiência da dor está o sentimento: “Estou indefeso”. Como o prazer emocionalmente acarreta um sentido de eficácia, então a dor emocional acarreta um sentimento de impotência.
Deste modo, ao permitir que o homem experimente, em sua própria pessoa, o sentido de que a vida é um valor, e que ele é um valor, o prazer serve como combustível emocional da existência do homem.
Assim como o mecanismo prazer-dor do corpo do homem funciona como um barômetro de saúde ou doença, o mecanismo prazer-dor de sua consciência funciona pelo mesmo princípio, agindo como barômetro do que é a favor ou contra si, do que é benéfico ou prejudicial a sua vida. Mas o homem é um ser de consciência volitiva, não possui ideias inatas nem conhecimento infalível ou automático a respeito do que depende sua sobrevivência. Ele tem de escolher os valores que devem guiar os seus atos e determinar suas diretrizes. Seu mecanismo emocional trabalha de acordo com o tipo de valores que escolhe, São os seus- valores que determinam o que o homem sente ser a seu favor ou contra si; são os seus valores que determinam o que procura por prazer,
Se um homem cometer um erro em sua escolha de valores, seu mecanismo emocional não o corrigirá: este não possui vontade própria. Se os valores de um homem forem tais que deseje coisas que, de fato e na realidade, o levem à destruição, seu mecanismo emocional não o salvará, mas, ao invés disso, o incitará em direção à destruição: ele terá de o colocar ao contrário, contra si mesmo e contra os fatos da realidade, contra sua própria vida. O mecanismo emocional é como um computador eletrônico: o homem tem o poder de programá-lo, mas não, absolutamente, de mudar sua natureza — de modo que, se fizer a programação errada, não será capaz de escapar do fato da maioria dos desejos destrutivos terem, para ele, a intensidade emocional e a urgência de atos que salvam a vida. Ele possui, é claro, o poder de mudar a programação — mas apenas pela mudança de seus valores.
Os valores básicos de um homem refletem sua visão consciente e subconsciente de si mesmo e da existência. Eles são a expressão da (a) natureza e grau de sua autoestima ou falta dela, e (b) extensão do que considera o universo aberto ou fechado à sua compreensão e ação — isto é, a extensão até onde sustenta uma visão benevolente ou maléfica da existência. Deste modo, as coisas que um homem procura por prazer ou alegria são profundamente reveladoras do ponto de vista psicológico; são o índice de seu caráter e alma. (Por “alma” quero dizer: a consciência de um homem e seus valores motivadores básicos.).
Há, claramente, cinco áreas (interconectadas) que permitem ao homem experienciar a alegria da vida: trabalho produtivo, relacionamento humano, recreação, arte e sexo.
Trabalho produtivo é a mais fundamental delas: através do trabalho, o homem ganha o seu sentido básico de controle sobre a existência — seu sentido de eficácia —, que é a fundação necessária da habilidade de aproveitar qualquer outro valor, O homem era cuja vida falta direção ou propósito, o homem que não possui um objetivo criativo, necessariamente sente-se abandonado e fora de controle; o homem que se sente abandonado e fora de controle, sente-se inadequado e impróprio para a existência; e o homem que se sente impróprio para a existência, é incapaz de aproveitá-la.
Uma das marcas distintivas de um homem que sente autoestima, que considera o universo aberto ao seu esforço, é o profundo prazer que experimenta no trabalho produtivo de sua mente; sua alegria de vida é alimentada por seu interesse constante em crescer em conhecimento e habilidade — pensar, alcançar, mover-se para frente, encontrar novos desafios e ultrapassá-los — de ficar orgulhoso de uma eficácia em constante expansão.
Um tipo diferente de alma é revelada peio homem que, predominantemente, tira prazer em trabalhar somente na rotina e naquilo que lhe é familiar, que está inclinado a aproveitar o trabalho em um estado de semi-atordoamento, que vê felicidade na ausência de desafios ou de lutas ou esforços: a alma de um homem profundamente deficiente em autoestima, para quem o universo surge como desconhecido e vagamente ameaçador; o homem cujo impulso motivador central é a ambição por segurança, não a segurança obtida pela eficiência, mas a de um mundo no qual a eficiência não é exigida.
Ainda um tipo diferente de alma é revelado pelo homem que acha inconcebível que o trabalho — qualquer forma de trabalho — possa ser agradável, que considera o esforço de ganhar a subsistência como um mal necessário, que sonha somente com os prazeres que começam quando o dia de trabalho termina, o prazer de afogar sua mente em álcool ou televisão ou bilhar ou mulheres, o prazer de não ser consciente: a alma de um homem sem um fiapo de autoestima, que nunca esperou que o universo fosse compreensível e toma seu pavor letárgico por ele como algo certo, e cuja única forma de alívio e única noção de alegria são breves faíscas de prazer produzidas por sensações que não demandam esforço algum.
Ainda um outro tipo de alma é revelado pelo homem que tem prazer, não em realizações, mas em destruição, cuja ação é dirigida, não a atingir a eficiência, mas a dominar aqueles que a atingiram: a alma de um homem tão miseravelmente desprovido de autovalor e tão dominado pelo terror da existência, que sua forma única de auto realização é desencadear seu ressentimento e ódio contra aqueles que não partilham seu estado, aqueles que estão aptos para viver — como se, pela destruição do confiante, do forte e do saudável, pudesse converter impotência em eficiência.
Um homem racional e autoconfiante é motivado por um amor por valores e por um desejo de alcançá-los, Um neurótico é motivado pelo medo e pelo desejo de escapar dele. Esta diferença em motivação é refletida, não apenas nas coisas que cada tipo de homem procura por prazer, mas na natureza do prazer que experimenta.
A qualidade emocional do prazer experimentado pelos quatro homens descritos acima, por exemplo, não é a mesma. A qualidade de qualquer prazer depende de processos mentais que lhe dão origem e acompanham, e da natureza dos valores envolvidos. O prazer de utilizar a consciência do indivíduo adequadamente e o “prazer” de ser inconsciente não são os mesmos — assim como o prazer de alcançar valores reais, de ganhar um sentimento autêntico de eficiência, e o “prazer” de diminuição temporária do sentido do indivíduo de medo e abandono, não são os mesmos. O homem que sente autoestima experimenta a alegria pura e não-adulterada de utilizar suas faculdades adequadamente e de alcançar, na realidade, valores verdadeiros — um prazer do qual os outros três homens podem não ter noção, bem como ele não tem noção do estado confuso e sombrio que eles chamam de “prazer”.
Este mesmo princípio aplica-se a todas as formas de alegria. Deste modo, no domínio das relações humanas, uma forma diferente de prazer é experimentada, um tipo diferente de motivação é envolvido e um tipo diferente de caráter é revelado pelo homem que procura por alegria a companhia de seres humanos com inteligência, integridade e autoestima, que divide seus critérios rigorosos e pelo homem que está apto a divertir-se apenas com seres humanos que não possuem critérios, quaisquer que sejam, e com quem, e por conseguinte sente-se livre para ser ele mesmo — ou pelo homem que encontra prazer somente na companhia de pessoas que despreza, que pode comparar consigo mesmo favoravelmente — ou pelo homem que encontra prazer apenas entre pessoas que pode enganar e manipular, de quem ele tira o mais baixo substituto neurótico para um sentido de genuína eficiência: um sentido de poder.
Para um homem racional, psicologicamente saudável, o desejo pelo prazer é o desejo de comemorar seu controle sobre a realidade. Para o neurótico, o desejo por prazer é a desejo de escapar da realidade.
Agora considere a esfera da recreação. Por exemplo, uma festa. Um homem racional desfruta uma festa como uma recompensa emocional de uma realização, e pode tirar prazer dela apenas se, de fato, envolve atividades agradáveis, como ver pessoas de que gosta, encontrar pessoas novas que acha interessantes, participar de conversas nas quais algo que valha a pena dizer e ouvir esteja sendo dito e ouvido. Mas um neurótico pode “desfrutar” uma festa por razões não relacionadas a atividades reais, que estão acontecendo: pode odiar ou desprezar ou temer todas as pessoas presentes, pode agir como um bobo espalhafatoso e sentir-se secretamente envergonhado disto — mas sentirá que está aproveitando tudo porque as pessoas estão emitindo as vibrações de aprovação, ou porque é uma distinção social ter sido convidado para essa festa, ou porque outras pessoas manifestam estar alegres, ou porque a festa já o dispensou, pela duração de uma noite, do terror de estar sozinho. O “prazer" de estar bêbado é obviamente o prazer de escapar da responsabilidade da consciência. E assim o são reuniões sociais realizadas com nenhum outro propósito senão a expressão do caos histérico, onde os convidados vagueiam num torpor alcoólico, tagarelando ruidosa e insensatamente e desfrutando a ilusão de um universo onde não se é sobrecarregado com propósito, lógica, realidade ou consciência.
Observe, nesta sequência lógica, os beatnicks modernos — por exemplo, sua maneira de dançar. O que se vê não são sorrisos de alegria autêntica, mas de olhos fixos, vagos, movimentos desorganizados, convulsivos, corpos que parecem corpos descentralizados, todos trabalhando muito — com um tipo de histeria determinada — para projetar um ar de despropósito, sem sentido, sem memória, Este é o “prazer” da inconsciência.
Ou considere o tipo mais calmo dos “prazeres” que preenche a vida de muitas pessoas: piqueniques familiares, chás de damas ou happy hours, bazares de caridade, férias vegetativas — todas as ocasiões de tédio sossegado que a todos interessam, nas quais o tédio é o valor. Tédio, para tais pessoas, significa segurança, o conhecido, o habitual, a rotina — a ausência do novo, do excitante, do não-familiar, do exigente.
O que é um prazer exigente? Um prazer que exige a utilização da mente do indivíduo; não no sentido de resolver problemas, mas de exercitar o discernimento, o julgamento, a consciência. Um dos principais prazeres da vida e oferecido ao homem pelas obras de arte. A arte, em seu mais alto potencial, como a projeção das coisas “como elas podem e ‘devem ser’” pode prover o homem de um combustível emocional inestimável. Mas, de novo, o tipo de obra de arte a que o indivíduo responde, depende de seus valores e premissas mais profundas.
Um homem pode procurar a projeção de heroico, inteligente, eficiente, dramático, resoluto, com estilo, engenhoso, desafiante; ele pode procurar o prazer da admiração, de estar em busca de grandes valores. Ou pode procurar a satisfação de contemplar as variantes da coluna de fofocas dos colegas vizinhos, com nada a exigir de si, nem em pensamento, nem em critérios de valor; pode sentir-se prazerosamente aquecido pelas projeções do conhecido e familiar, procurando sentir-se um pouco menos “estranho e amedrontado num mundo de que nunca participou”. Ou sua alma pode vibrar afirmativamente a projeções de horror e degradação humana, pode sentir-se gratificado peio pensamento de que não é tão ruim quanto o anão viciado em drogas ou a lésbica aleijada de que leu a respeito; ele pode saborear uma arte que lhe diz que o homem é mau, que a realidade é incognoscível, que a existência é intolerável, que ninguém pode ajudar em nada, que seu terror secreto é normal.
A arte projeta uma visão implícita da existência — e é a própria visão do indivíduo da existência que determina a arte à qual responde, A alma do homem cuia peca favorita é Cyrano de Bergerac é radicalmente diferente da alma daquele que prefere Esperando Godot.
Dos vários prazeres que o homem pode oferecer a si mesmo, o maior é o orgulho — o prazer que consegue em suas próprias realizações e na criação de seu próprio caráter. O prazer que consegue no caráter e realizações de outro ser humano é a admiração. A expressão maior da união mais intensa destas duas respostas — orgulho e admiração — é o amor romântico. Sua celebração é o sexo. É nesta esfera, acima de tudo — em respostas romântico-sexuais de um homem —, que sua visão de si mesmo e da existência permanece eloquentemente revelada. Um homem se apaixona e sexualmente deseja a pessoa que reflete seus próprios valores mais profundos.
As respostas romântico-sexuais de um homem são psicologicamente reveladoras em dois aspectos cruciais: na sua escolha da parceira — e no significado, para ele, do ato sexual. Um homem de autoestima, um homem apaixonado por si mesmo "e pela vida, sente uma necessidade intensa de encontrar seres Humanos a quem possa admirar — encontrar um igual espiritual a quem possa amar. A qualidade que mais o atrai é a autoestima — autoestima e um sentido não-nebuloso do valor da existência. Para este homem, o sexo é um ato de celebração, seu significado é um tributo a si mesmo e à mulher que escolheu a forma última de experimentar concretamente e em sua própria pessoa o valor e a alegria de estar vivo.
A necessidade de tal experiência é inerente à natureza do homem. Mas se um homem carece de autoestima para obtê-la, tenta falsificá-la — e escolhe sua parceira (subconscientemente) pelo padrão de sua habilidade em ajudá-lo a disfarçar esta necessidade, dando-lhe a ilusão de autovalor que não possui e de uma felicidade que não sente.
Assim, se um homem sentir-se atraído por uma mulher de inteligência, confiança e força, se sentir-se atraído por uma heroína, revelará um tipo de alma; se, ao invés, sentir-se atraído por uma irresponsável, indefesa e distraída, cuja fraqueza o permita sentir-se masculino, revelará outro tipo de alma; se sentir-se atraído por uma desmazelada assustada cuja falta de julgamento e critérios permitam-lhe sentir-se livre de reprovação, revelará outro tipo de alma, ainda.
O mesmo princípio, é claro, aplica-se às escolhas romântico-sexuais da mulher.
O ato sexual tem um significado diferente para a pessoa cujo desejo é alimentado pelo orgulho e admiração, a quem a auto-experiência prazerosa que proporciona é um fim em si mesma — e para a pessoa que procura no sexo a prova de masculinidade ou (feminilidade), ou o alívio do desespero, ou a defesa contra a ansiedade, ou uma fuga do tédio.
Paradoxalmente, estão os assim chamados caçadores-de-prazer — os homens que aparentemente vivem apenas pela sensação do momento, que estão apenas preocupados em “divertir-se” — que são psicologicamente incapazes de aproveitar o prazer como um fim em si mesmo. O neurótico caçador de prazer imagina que ao passar pelos movimentos de urna celebração, está apto a fazer a si mesmo sentir que possui algo para celebrar.== Uma das marcas de autenticidade do homem que carece de autoestima — e a punição real de sua omissão moral e psicológica — é o fato de que todos os seus prazeres são prazeres de fuga dos dois perseguidores a quem ele traiu e de que não há escapatória: sua própria mente.== Já que a função do prazer e proporcionar ao homem um sentido de sua própria eficiência, o neurótico é apanhado num conflito mortal: é compelido, por sua natureza de homem, a sentir uma necessidade desesperada por prazer, enquanto uma confirmação e expressão de seu controle sobre a realidade — mas pode encontrar prazer apenas numa fuga da realidade. Esta é a razão por que seus prazeres não funcionam, por que lhe trazem, não uma sensação de orgulho, realização, inspiração, mas de culpa, frustração, desesperança e vergonha. O efeito, do prazer num homem que sente autoestima é o de uma recompensa ou confirmação. O efeito do prazer num homem que carece de autoestima é de uma ameaça — uma ameaça de ansiedade, o tremor de uma fundação precária de seu pseudo-autovalor, o aguçamento de um medo sempre-presente de que a estrutura entre em colapso, e ele encontre-se frente a uma realidade imperdoável, desconhecida, absoluta e austera.
Uma das reclamações mais comuns dos pacientes que procuram a psicoterapia é que nada possui o poder de dar-lhes prazer, a alegria autêntica lhes parece impossível. Este é o beco sem saída da política do prazer-como-escape.
Preservar uma clara capacidade para desfrutar a vida é uma realização moral e psicológica in comum. Ao contrário da crença popular, esta capacidade é a prerrogativa, não a irresponsabilidade ou a inflexão, consistente numa devoção irrenunciável ao ato de perceber a realidade, e de uma integridade intelectual escrupulosa. É a recompensa da autoestima.

(Fevereiro de 1964)
Nathaniel Branden
 (Ayn Rand - A Virtude do Egoísmo - a verdadeira ética do homem: o egoísmo nacional)
Psicologia do Prazer

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publicado às 15:22



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