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A política como salvação

por Thynus, em 18.07.16
No século XVIII, o filósofo Jean-Jacques Rousseau criou a política moderna e contemporânea em grande parte. Não estou dizendo que ele tenha sido o maior filósofo da política – ao contrário, julgo-o um dos primeiros intelectuais picaretas da história. Estou dizendo que ele foi importante no modo como a política moderna e contemporânea se constituiu. O mundo atual vê a política como uma teoria da salvação do mundo. Alguns descrevem esse fato dizendo que a política se fez teologia. Não é por outra razão que idiotas de todos os matizes intelectuais gostam e usam a palavra utopia como se ela descrevesse algo distinto de um resort numa praia imaginária. Levar a sério uma utopia política é um atestado de retardo mental ou mau-caratismo. Mas voltemos às implicações de uma política como instrumento de salvação.
Antes de tudo, o que é política? Assumo, aqui, uma visão mais maquiaveliana (Maquiavel, filósofo italiano da virada do século XV para o XVI). Política é a arte de conquistar, manter, ampliar ou destruir o poder. E, assim fazendo, tornar a vida dos seus súditos mais ou menos instável. Ponto final. Uma engenharia de algum tipo, descolada de qualquer idealização. O bem político é uma sociedade em que o poder está organiza do de forma tal que as pessoas andam razoavelmente bem nas ruas. Não há um bem moral de qualquer tipo na política. A política não deve discutir modelos de sociedade, a política deve organizar essa coisa violenta chamada poder. Na democracia, a política deve levar em conta a opinião popular (já falamos disso antes). Parece-me importante que as pessoas possam ser protegidas do poder do Poder, e isso só se alcança dividindo institucionalmente o Poder, como dizia o francês Montesquieu no século XVIII. E quando o Poder se identifica com o bem moral, normalmente ele entende que qualquer divisão nele é uma redução de sua capacidade de realizar o bem que carrega em si. E aí chegamos à política de Rousseau e seu caráter salvacionista.
Não se deve esperar da política um mundo melhor. Deve-se esperar um mundo em que o Poder fique tão controlado que ele nos deixe em paz e nem lembremos dele ao acordar. Ele deve cuidar de coisas técnicas e deixar que a sociedade cuide do restante. Mas, como vemos em muitos casos desde o final do século XVIII, a política se transformou no “lugar” de onde virá a salvação. Toda vez que a política deve curar o mundo (como a graça de Deus na teologia, por isso dizemos que a política tomou o lugar da graça), ela é temerária, porque seu instrumento e objeto por excelência, o poder, é sagrado em sua função redentora. Assim como um Deus todo-poderoso pode ser um poder perigoso, a política endeusada como divina se torna maléfica.
Não vejo muita saída para isso. O mundo contemporâneo da democracia tem uma vocação para ser devorado pela política como linguagem das coisas. Tudo é política porque em tudo há poder – como diria Michel Foucault. Na minha opinião, Foucault era um autoritário, como todo filósofo que traz a verdade libertadora do mundo em sua cabeça, mas que ele tinha razão ao apontar a capilaridade do poder nas relações, ele tinha. E sendo a política na democracia, em parte, construída na conversa entre as pessoas (Tocqueville dizia que a democracia é tagarela), não há como escapar da política no mundo contemporâneo e sua vida passar por ela. Autores como o próprio Tocqueville, Montesquieu e Maquiavel (ambos citados também há pouco), Locke (século XVII), Oakeshott (século XX) discutem a importância da política sem fazer dela um credo, como Rousseau, Marx, Foucault, Bourdieu, Badiou e outros membros do clero. O risco da política como salvação total é que ela vai degenerar em violência sagrada. Melhor lidar com a fragilidade de um sistema que depende da opinião de idiotas do que lidar com um regime em que idiotas não aceitam a opinião dos outros porque supõem que carregam um mundo melhor na barriga.
Observe uma coisa: todo filósofo ou similar que julga ser o sacerdote da política redentora é arrogante. Não é à toa que Edmund Burke, no final do século XVIII, chamava Rousseau (o pai da política como teologia) de o “filósofo da vaidade”. Assim como o clero cristão era vaidoso em se achar mais perto de Deus, o clero intelectual fazendo política salvacionista é vaidoso. Não confie em ninguém que queira salvar o mundo. Melhor confiar em grandes pecadores.
Por isso tudo, como diz Michael Oakeshott, filósofo inglês do século XX, prefiro políticos sem concepção de como deve ser o mundo. A pior coisa é um líder político que queira me salvar.

 (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos)

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publicado às 20:34



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