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A Origem do Terrorismo islâmico

por Thynus, em 14.04.15
"Os homens nunca fazem o mal tão plenamente 
e com tanto entusiasmo 
como quando o fazem por convicção religiosa".
Blaise Pascal
 

 

 

A maioria dos muçulmanos não é fundamentalista, e na sua maioria os fundamentalistas não são terroristas, mas os terroristas de hoje são na sua maior parte muçulmanos e identificam-se orgulhosamente como tal. De modo compreensível, os muçulmanos queixam-se de que os média falam dos movimentos e acções terroristas como «islâmicos» e perguntam por que razão não identificam eles, de modo semelhante, os terroristas e o terrorismo irlandeses e bascos como «cristãos». A resposta é simples e óbvia - eles não se designam como tal. A queixa dos muçulmanos é compreensível, mas devia ser dirigida àqueles que fazem as notícias e não àqueles que as dão. Osama bin Laden e os seus sequazes da Al-Qaeda podem não representar o Islão, e muitas das suas afirmações e das suas acções contradizem claramente os princípios e ensinamentos islâmicos básicos, mas eles surgem do interior da civilização muçulmana, tal como Hitler e os nazis surgiram do interior da cristandade, e também eles devem ser vistos no seu contexto cultural, religioso e histórico.
Actualmente há várias formas de extremismo islâmico em curso. As mais conhecidas são o radicalismo subversivo da Al-Qaeda e de outros grupos semelhantes em todo o mundo muçulmano, o fundamentalismo dissuasor do governo saudita, e a revolução institucionalizada da hierarquia iraniana no poder. Todas elas são, num certo sentido, islâmicas na sua origem, mas algumas desviaram-se muito das origens.
Todos estes diferentes grupos extremistas santificam a sua acção através de referências religiosas aos textos islâmicos, sobretudo ao Corão e às tradições do Profeta, e cada um dos três afirma representar um Islão mais verdadeiro, mais puro e mais autêntico do que aquele que é normalmente praticado pela vasta maioria dos muçulmanos e sancionado pela maior parte, mas não pela totalidade, dos líderes religiosos. São todavia muito selectivos na escolha e interpretação dos textos sagrados. Na apreciação dos dizeres do Profeta, por exemplo, descartam os métodos tradicionais desenvolvidos pelos juristas e teólogos para testar a exactidão e a autenticidade das tradições transmitidas oralmente, e em vez disso aceitam ou rejeitam até textos sagrados, conforme estes apoiam ou contrariam as suas posições dogmáticas e militantes. Alguns vão ao ponto de banir certos versículos corânicos, dando-os como «anulados» ou «abolidos». O argumento que usam para justificar isso é que os versículos revelados durante os primeiros anos da missão do Profeta podem ser substituídos por outros que são revelações mais tardias e presumivelmente mais ponderadas.
Um exemplo revelador desse desvio foi a famosa fatwa lançada pelo Ayatollah Khomeini a 14 de Fevereiro de 1989 contra o escritor Salman Rushdie por causa do seu romance intitulado Os Versículos Satânicos. Na. fatwa, o Ayatollah informava «todos os zelosos muçulmanos de todo o mundo que o sangue do autor deste livro [...] que foi coligido, impresso e publicado em oposição ao Islão, ao Profeta e ao Corão, bem como o de todos os implicados na sua publicação e que conheciam o seu conteúdo, é pela presente declarado como a pena a pagar pelo seu crime. Apelo a todos os muçulmanos zelosos que os despachem depressa, onde quer que sejam encontrados, para que mais ninguém se atreva a insultar de novo os sentimentos sagrados do Islão. Se alguém for morto ao dar este passo, será considerado um mártir», (O texto completo dãfatwa foi publicado na imprensa iraniana e internacional naquela altura).
Para complementar e antecipar as recompensas do paraíso, uma caridosa trust islâmica de Teerão ofereceu um prémio a quem matasse Salman Rushdie, constituído por 20 milhões de tumans (naquela altura cerca de 3 milhões de dólares ao câmbio oficial, e cerca de 170.000 dólares ao câmbio do mercado livre) se fosse um iraniano, ou 1 milhão de dólares se fosse um estrangeiro. Alguns anos mais tarde o valor do prémio, ainda não reclamado, foi aumentado pela trust.

Não surpreende que muitos leitores pouco informados do mundo ocidental tenham ficado com a impressão de que «emitir uma fatwa» era o equivalente islâmico de «encomendar um assassínio» - isto é, ter uma vítima como alvo e oferecer uma recompensa monetária pelo seu assassínio. Tal como aconteceu com o termo madrasa, a palavra, fatwa adquiriu, no uso comum internacional, uma conotação totalmente negativa. Isto é, de facto, uma enorme incongruência. Fatwa é um termo da jurisprudência islâmica que designa um parecer ou decisão jurídica sobre uma questão de direito. Na shari’a, é o equivalente à responsa prudentium do direito romano. O jurisconsulto islâmico que tem autoridade para emitir uma fatwa chama-se mufti, que é um particípio activo proveniente da mesma raiz que fatwa. Ao fazer uso de uma fatwa para pronunciar uma sentença de morte e recrutar um assassino, o ayatollah desviava-se consideravelmente do uso islâmico clássico.
O desvio não ocorria apenas no veredicto e sentença, mas também na natureza da acusação. Insultar o Profeta - acusação feita a Salman Rushdie - é sem dúvida um crime no direito muçulmano, e os juristas discutem-no com uma certa minúcia. Quase todas essas discussões giram em torno da questão de um súbdito não-muçulmano de um estado muçulmano que insulta o Profeta. Os juristas dedicam grande atenção à definição do crime, às normas da apreciação de provas e ao castigo adequado. Mostram preocupar-se muito com o facto de as acusações desse crime não poderem ser usadas como um estratagema para levar a cabo alguma vingança particular, e insistem numa cuidadosa averiguação das provas antes que seja pronunciado qualquer veredicto ou sentença. Na opinião da maioria, o açoitamento e um período de reclusão são castigo suficiente - dependendo a severidade do açoitamento e a duração do período de reclusão da gravidade do crime. O caso do muçulmano que insulta o Profeta dificilmente é tido em apreciação e deve ter acontecido muito raramente. Quando é discutido, a opinião habitual é que esse acto é equivalente à apostasia.
Foi essa a acusação específica feita a Salman Rushdie. A apostasia é um crime grave no direito muçulmano e para os homens conduz à pena de morte. Mas a palavra importante nesta afirmação é «direito». A jurisprudência islâmica é um sistema de direito e justiça, não de linchamento e terror. Formula processos, de acordo com os quais uma pessoa acusada de um crime é levada a julgamento, é confrontada com o seu acusador e é-lhe dada a oportunidade de se defender. Depois, um juiz emite o veredicto e, se achar que o réu é culpado, pronuncia a sentença.
Há no entanto outro parecer, sustentado por uma minoria de juristas, de que o crimecometido por um muçulmano que insulta o Profeta é tão grave que se pode, ou melhor, deve-se, dispensar as formalidades do processo criminal, julgamento e condenação, e proceder imediatamente à execução. Este parecer fundamenta-se num dito atribuído ao Profeta, mas de modo nenhum aceite por todos como autêntico: «Se alguém me insultar, então qualquer muçulmano que ouça o insulto deve matá-lo imediatamente». Mesmo entre os juristas que aceitam este dito como autêntico existe desacordo. Alguns deles insistem em que é necessário que haja alguma forma de processo ou autorização, e que a execução sumária sem essa autorização é assassínio e como tal deve ser punida. Outros argumentam que o texto daquele dito, tal como foi transmitido, não deixa dúvidas de que a execução sumária e imediata do blasfemo não é apenas legal mas obrigatória, e que aqueles que o não fizerem estão eles próprios a cometer um crime. Mesmo os mais rigorosos e extremistas de entre os juristas clássicos só exigem que um muçulmano mate alguém que insulte o Profeta se ouvir o insulto e estiver na sua presença. Nada dizem acerca de um assassínio encomendado, por causa de um insulto de que se teve conhecimento ocorrido num país distante.
A santificação do assassínio contida na fatwa de Khomeini surge duma forma ainda mais avançada na prática - e no culto - do assassino suicida.
Se observarmos os registos históricos, a abordagem dos muçulmanos à guerra não difere muito da dos cristãos, nem da dos judeus em tempos muito antigos e muito recentes, quando essa opção lhes foi dada. Enquanto os muçulmanos, talvez com mais frequência que os cristãos, fizeram guerra contra os seguidores de outras religiões para os trazerem para o campo do Islão, os cristãos - com a excepção, digna de nota, das Cruzadas - propenderam mais para empreender guerras religiosas internas contra aqueles que eles consideravam cismáticos ou hereges. O Islão, devido, sem dúvida, ao envolvimento político e militar do seu fundador, tem aquilo a que se pode chamar uma visão mais pragmática das realidades da sociedade e do Estado do que os Evangelhos. A sua posição está mais próxima da dos primeiros livros do Antigo Testamento e da doutrina de perseguição aos Amalecitas, do que dos Profetas e dos Evangelhos. Os muçulmanos não são ensinados a oferecer a outra face, nem esperam converter as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices de podar (Isaías, 2:4).
É claro que estes preceitos não impediram os cristãos de fazer uma série de guerras religiosas sangrentas no âmbito da cristandade e guerras de agressão fora dela.
Isto levanta a questão mais vasta da tendência das religiões para a força e para a violência, e mais especificamente para o terrorismo. Seguidores de vários credos têm invocado uma vez ou outra a religião para justificar a prática do assassínio, tanto a retalho como por grosso. Duas palavras derivadas desses movimentos nas religiões orientais entraram até na língua inglesa: thug [assassino], proveniente da índia, e assassin, do Médio Oriente, ambas celebrando seitas religiosas fanáticas cuja forma de culto era assassinar aqueles que consideravam inimigos da fé.
A prática e depois a teoria do assassínio no mundo islâmico surgiram em tempos muito antigos, com as disputas pela chefia política da comunidade muçulmana. Dos quatro primeiros califas islâmicos, três foram assassinados: o segundo, por um escravo cristão descontente, o terceiro e o quarto por rebeldes muçulmanos piedosos que se arvoraram em
executores que desempenhavam a vontade de Deus. A questão levantou-se de forma enérgica em 656 d.C. com o assassínio do terceiro califa, ’Uthman, por rebeldes muçulmanos. Travou-se a primeira de uma série de guerras civis à volta da questão de saber se os assassinos estavam a executar ou a desafiar as ordens de Deus. O direito e a tradição islâmicos são muito claros no que respeita ao dever de obediência ao soberano islâmico. Mas também citam duas frases atribuídas ao Profeta: «Não há obediência em pecado» e «Não obedecei a uma criatura contra o seu criador». Se um soberano ordena algo que é contrário à lei de Deus, então o dever de obediência é substituído pelo dever da desobediência. A noção de tiranicídio - a eliminação justificada de um tirano - não foi uma inovação islâmica; era familiar na Antiguidade entre os judeus, os Gregos e os Romanos de igual modo, e os que o praticavam eram muitas vezes aclamados como heróis.
Os membros da seita muçulmana conhecida por «os Assassinos» (do árabe Hashíshiyya), activos no Irão e depois na Síria entre os séculos XI e XII, parecem ter sido os primeiros a transformar o acto que deles recebeu o nome num sistema e numa ideologia. As suas acções, contrárias à crença popular, foram inicialmente dirigidas não contra os cruzados mas sim contra soberanos muçulmanos que eles consideravam usurpadores ímpios. Neste sentido os Assassinos são os verdadeiros antecessores de muitos dos chamados terroristas islâmicos dos nossos dias, alguns dos quais fazem questão disso explicitamente. O nome Hashíshiyya, com a sua conotação de «consumidores de haxixe», foi-lhes atribuído pelos seus inimigos muçulmanos. Eles auto-intitulavam-se fidayeen, do árabe fida’t - aquele que está pronto a sacrificar a vida pela causa.
Após a derrota e eliminação dos Assassinos no século XIII, a palavra deixou de se usar. Foi ressuscitada por breve tempo em meados do século XIX, por um pequeno grupo de conspiradores turcos que tramaram para depor e talvez assassinar o sultão. A trama foi descoberta e os conspiradores foram presos. O vocábulo reapareceu no Irão, no chamado Islão fida ’iyan-i, os fida’is do Islão, um grupo terrorista político-religioso de Teerão que entre 1943, ano em que iniciou a sua actividade, e 1955, quando foi eliminado, levou a cabo uma série de assassinatos políticos. Depois de um atentado frustrado contra a vida do primeiro-ministro em Outubro de 1955, foram presos, julgados em tribunal e os seus líderes executados. A palavra foi de novo recuperada pela ala militante da Organização para a Libertação da Palestina, e a partir dos anos 60 passou a designar as actividades terroristas das organizações palestinianas.
Os Assassinos diferenciavam-se claramente dos seus actuais sucessores em dois aspectos: na escolha das armas e na escolha das vítimas. A vítima era sempre uma individualidade, um líder político, militar ou religioso de categoria elevada que era visto como a fonte do mal. Ele, e apenas ele, era morto. Esta acção não era terrorismo no sentido actual da palavra, mas antes aquilo a que agora se chama assassínio com um alvo fixo. A arma era sempre a mesma: o punhal. Os Assassinos desdenhavam o veneno, as bestas e outras armas que podiam ser usadas à distância, e esperavam - segundo parecia, até o desejavam - não sobreviver ao seu acto, que acreditavam lhes garantiria a bem-aventurança eterna. Mas em nenhuma circunstância cometiam suicídio. Morriam às mãos dos seus captores. Os Assassinos foram por fim vencidos por expedições militares que se apoderaram dos seus refúgios e bases no Irão e na Síria, os dois principais países onde actuavam. Pode muito bem acontecer que os assassinos dos dias de hoje também venham a ser vencidos, mas o caminho será longo e difícil. Os Assassinos medievais eram uma seita extremista, muito afastada da corrente principal do Islão. O que não se aplica aos seus actuais imitadores.
O século XX trouxe um ressurgimento dessas acções no Médio Oriente, embora de tipos diferentes e com objectivos diferentes, e o terrorismo passou por diversas fases. Durante os últimos anos do Império Britânico, os Ingleses enfrentaram movimentos terroristas nas suas possessões no Médio Oriente, os quais representavam três culturas diferentes: gregos em Chipre, judeus na Palestina e árabes em Aden. Os três agiam mais por motivos nacionalistas do que religiosos. Apesar de muito diferentes nos antecedentes e circunstâncias políticas, eram os três bastante semelhantes nas suas tácticas. O seu objectivo era persuadir a potência imperial de que permanecer na região não compensava o que isso lhe custava em sangue. O seu método era atacar pessoal e instalações militares e, em menor proporção, pessoal e instalações administrativas. Cada um dos três actuava apenas dentro do seu território e geralmente evitava provocar danos indirectos. Os três foram bem sucedidos nos seus esforços.
Para os terroristas modernos, o massacre de civis inocentes e não implicados não é «danos indirectos». É o objectivo principal. Inevitavelmente, a retaliação contra os terroristas - que, evidentemente, não usam uniformes - também tem civis como alvo. A confusão de distinções que daí resulta é imensamente útil aos terroristas e aos seus simpatizantes.
Graças ao rápido desenvolvimento dos média, e em especial da televisão, as mais recentes formas de terrorismo não são dirigidas a objectivos inimigos específicos e limitados, mas à opinião mundial. O seu propósito fundamental não é derrotar ou sequer enfraquecer militarmente o inimigo, mas obter publicidade e inspirar medo - uma vitória psicológica. A mesma espécie de terrorismo foi praticada por diversos grupos europeus, sobretudo na Alemanha, Itália, Espanha e Irlanda. Um dos mais bem sucedidos e mais persistentes nesta actividade tem sido a Organização para a Libertação da Palestina.
A OLP foi fundada em 1964, mas ganhou importância em 1967, após a derrota dos exércitos árabes aliados na Guerra dos Seis Dias. A guerra formal tinha falhado; era altura de tentar outros métodos. Os alvos desta forma de luta armada não eram militares nem outras instituições governamentais, que habitualmente estão muito bem guardadas, mas lugares públicos e ajuntamentos de qualquer espécie, que são esmagadoramente civis e em que as vítimas não estão necessariamente relacionadas com o inimigo declarado. Como exemplos desta táctica contam-se, em 1970, o desvio de três aviões - um suíço, um inglês e um americano - que foram todos levados para Amã; o assassínio de atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique de 1972; a ocupação da embaixada saudita em Cartum, em 1973, onde foram assassinados dois americanos e um diplomata belga; a tomada do barco de cruzeiro italiano Achille Lauro, em 1985, com o assassínio de um passageiro paraplégico. Foram perpetrados outros ataques contra escolas, zonas comerciais, discotecas e até contra passageiros em filas de espera em aeroportos europeus. Estas e outras operações da OLP foram notavelmente bem sucedidas em atingir os seus objectivos imediatos - a ocupação dos cabeçalhos dos jornais e dos ecrãs de televisão. Também obtiveram um grande apoio em lugares por vezes inesperados e elevaram os seus executantes ao estrelato, vindo a desempenhar papéis no drama das relações internacionais. Não admira que outros tenham sido encorajados a seguir-lhes o exemplo. Os terroristas árabes das décadas de 70 e 80 deixaram bem claro que estavam a fazer uma guerra por uma causa nacional árabe ou palestiniana, e não em nome do Islão. Com efeito, uma percentagem significativa dos líderes e activistas da OLP eram cristãos.
Mas apesar dos seus êxitos mediáticos, a Organização para a Libertação da Palestina não obteve resultados significativos onde isso importava - na Palestina. Em todos os territórios árabes, com excepção da Palestina, os nacionalistas alcançaram os seus objectivos: a derrota e consequente retirada dos dominadores estrangeiros e a instituição da soberania nacional com líderes nacionais.
Durante algum tempo, liberdade e independência foram usadas como palavras mais ou menos sinónimas e permutáveis. No entanto, a experiência inicial da independência revelou que isso era um triste erro. Independência e liberdade são coisas muito diferentes, e em muitos casos a obtenção de uma significou o fim da outra e a substituição dos suseranos estrangeiros por déspotas domésticos mais entendidos, mais familiarizados e menos contidos na sua tirania.
Houve a necessidade urgente e crescente de um esclarecimento daquilo que estava errado, e de uma nova estratégia para o corrigir. As duas coisas foram encontradas no sentimento religioso e na identidade religiosa. Esta escolha não era nova. Na primeira metade do século XIX, quando os impérios europeus avançavam por muitas das terras do Islão, a resistência mais significativa ao seu avanço foi inspirada e definida pela religião. Os Franceses na Argélia, os Russos no Cáucaso e os Ingleses na índia, todos eles enfrentaram grandes tumultos de natureza religiosa, que só conseguiram vencer após longas e amargas lutas.
Uma nova fase de mobilização religiosa principiou com o movimento conhecido nas línguas ocidentais por pan-islamismo. Iniciado nas décadas de 60 e 70 do século XIX, é provável que devesse alguma coisa aos exemplos dos Alemães e Italianos, bem sucedidos nas suas lutas pela unificação nacional naqueles anos. Os seus contemporâneos muçulmanos, seus imitadores, inevitavelmente identificaram-se e definiram os seus objectivos em termos religiosos e comunais e não em termos nacionalistas ou patrióticos, que ao tempo eram ainda estranhos e desconhecidos. Mas com o alastrar da influência e da educação europeia, essas ideias ganharam raízes e durante um certo tempo dominaram o discurso e a luta em terras muçulmanas. Contudo, a identidade religiosa e a lealdade à religião eram ainda profundamente sentidas, e encontraram expressão em vários movimentos religiosos, sobretudo o dos Irmãos Muçulmanos. Com o retumbante fracasso das ideologias seculares, esses movimentos ganharam uma nova importância e tomaram a seu cargo o combate - e muitos dos combatentes - dos fracassados nacionalistas.
Tanto para os fundamentalistas como para os nacionalistas, as diversas questões territoriais são importantes, mas de uma forma diferente, mais intratável. Por exemplo, para os fundamentalistas em geral não é possível a paz nem nenhum acordo com Israel, e qualquer concessão feita é apenas um passo no sentido da verdadeira solução final - a dissolução do estado de Israel, a restituição da terra aos seus verdadeiros donos, os Palestinos muçulmanos, e a morte ou a retirada dos intrusos. Todavia, isso de modo nenhum bastaria para satisfazer as exigências dos fundamentalistas, as quais se estendem a todos os outros territórios em disputa - e a própria obtenção destes seria apenas um passo no sentido da luta mais longa e final.
Grande parte da velha táctica foi conservada, mas numa forma bastante mais vigorosa. Tanto na derrota como na vitória, os terroristas religiosos adoptaram e melhoraram os métodos em que foram pioneiros os nacionalistas do século XX, sobretudo a ausência de preocupação com o massacre de pessoas inocentes. Essa despreocupação atingiu proporções novas na campanha de terror lançada por Osama bin Laden no início dos anos 90. O primeiro grande exemplo foi o ataque à bomba a duas embaixadas americanas na África Oriental, em 1998. Para matarem doze diplomatas americanos, os terroristas não se importaram de chacinar mais de duzentos africanos, muitos deles muçulmanos, que se encontravam por acaso nas imediações. Na sua edição logo a seguir a estes ataques, uma revista fundamentalista em língua árabe chamada Al-Sirât al-Mustaqim, publicada em Pittsburgh, Pensilvânia, manifestava o seu pesar pelos «mártires» que deram as suas vidas nestas operações e apresentava uma lista dos seus nomes, tal como lhe fora fornecida pela agência da Al-Qaeda em Peshawar, no Paquistão. O colunista acrescentava uma expressão de esperança «de que Deus [...] possa juntar-nos a eles no paraíso». O mesmo desprezo pela vida humana, a uma escala muito mais vasta, esteve na base dos ataques a Nova Iorque e Washington em 11 de Setembro de 2001.
Uma figura importante nestas operações foi o terrorista suicida. Num certo sentido isto representava uma nova evolução. Os terroristas nacionalistas das décadas de 1960 e 70 geralmente tinham o cuidado de não morrer juntamente com as suas vítimas, arranjando maneira de realizar os ataques a uma distância segura. Se tinham o azar de ser capturados, as suas organizações habitualmente tentavam, às vezes com êxito, obter a sua libertação fazendo reféns e ameaçando fazer-lhes mal ou matá-los. Homicidas mais antigos de inspiração religiosa, sobretudo os Assassinos, desdenhavam sobreviver às suas operações, mas na verdade não se suicidavam. O mesmo se pode dizer dos soldados juvenis iranianos na guerra de 1980-1988 contra o Iraque, que caminhavam através de campos de minas armados apenas com um passaporte para o paraíso, para abrir o caminho às tropas regulares.
O novo tipo de missão suicida no sentido exacto da palavra parece ter tido como pioneiras organizações religiosas como a Hamas e a Hizbullah, que a partir de 1982 executaram algumas dessas missões no Líbano e em Israel. Continuaram ao longo dos anos 80 e 90, com repercussões em outras zonas, como na parte oriental da Turquia, no Egipto, na índia e no Sri Lanka. Pela informação de que dispomos, parece que os candidatos escolhidos para estas missões eram, com excepções ocasionais, do sexo masculino, jovens e pobres, muitas vezes originários de campos de refugiados. Era-lhes oferecida uma dupla recompensa: no além-túmulo, as delícias do paraíso minuciosamente descritas; neste mundo, donativos e remunerações para as suas famílias. Uma inovação notável foi a utilização de mulheres como bombistas suicidas - pelos terroristas curdos na Turquia em 1996-1999, e pelos Palestinos a partir de Janeiro de 2002.
Ao contrário do guerreiro sagrado ou assassino medieval, que estava disposto a enfrentar a morte certa às mãos dos seus inimigos ou captores, o novo terrorista suicida morre às suas próprias mãos. Isto levanta uma questão importante dos ensinamentos islâmicos. Os livros de direito islâmico são muito claros acerca do tema do suicídio. É um pecado grave e é punido com a danação eterna sob a forma de repetição interminável do acto através do qual o suicida se matou. As passagens que se seguem, tiradas das tradições do Profeta, elucidam claramente a questão:
O Profeta disse: Aquele que se matar com uma lâmina será atormentado com essa lâmina no fogo do Inferno. O Profeta também disse: Aquele que se estrangular a si próprio continuará a estrangular-se no Inferno, e aquele que se apunhalar continuará a apunhalar-se no Inferno. [...] Aquele que se atirar de uma montanha e se matar, há-de atirar-se para o fogo do Inferno para todo o sempre. Aquele que beber veneno e se matar, levará esse veneno na sua mão e bebê-lo-á no Inferno para todo o sempre. [...] Aquele que se matar seja de que maneira for, será atormentado dessa mesma maneira no Inferno. [...] Aquele que se matar neste mundo seja de que maneira for, será atormentado de igual maneira no dia da ressurreição (Esta tradição e outras semelhantes poderão encontrar-se nas compilações oficiais de hadiths, por exemplo o Sahih de al-Bukhârí, Recueil des Traditions Mahométanes, vol. 1, ed. M. Ludolf Krehl (Leiden, 1862), p. 363; vol. 2 (Leiden, 1864), pp. 223-224, 373; vol. 4, ed. Th. W. Juynboll (Leiden, 1908), pp. 71, 124, 243, 253-254, 320, 364. Para um debate completo ver Franz Rosenthal, «On Suicide in Islam», Journal of the American Oriental Society, vol. 66 (1946), pp. 239-259).
As autoridades mais antigas fazem uma clara distinção entre enfrentar a morte certa às mãos do inimigo e morrer às próprias mãos. Uma tradição muito primitiva do tipo conhecido por hadith qudsi, indicando uma afirmação do Profeta que cita o próprio Deus, dá-nos um exemplo óbvio. O Profeta estava presente quando um homem mortalmente ferido na guerra santa se matou para abreviar o sofrimento. Após o que, Deus disse: «O meu servo antecipou-se-me, arrancando a sua alma com as próprias mãos; por conseguinte não será admitido no paraíso». De acordo com outra tradição primitiva, o Profeta recusou-se a orar sobre o corpo de um homem que provocara a própria morte, (Citado, inter alia, em Ibn Hanbal, Musnad (Cairo, 1313; 1895-1896), vol. 5, p. 87).
Dois aspectos marcam os ataques de 11 de Setembro e outras acções semelhantes: a disposição dos perpetradores para cometerem suicídio e a crueldade daqueles que os enviaram, tanto em relação aos seus emissários como às suas numerosas vítimas. Podem estes aspectos ser de algum modo justificados em termos do Islão?
A resposta só pode ser um claro não.
A indiferença pela chacina de milhares de pessoas no World Trade Center, incluindo muitas que não eram americanas, algumas das quais eram muçulmanos oriundos de países muçulmanos, não encontra justificação na doutrina ou no direito islâmicos e não tem precedentes na história do Islão. Com efeito, há poucas acções de deliberada e indiscriminada perversidade que se lhe possam comparar na história da humanidade. Não se trata aqui simplesmente de crimes contra a humanidade e contra a civilização; com efeito, trata-se também - do ponto de vista muçulmano - de actos de blasfémia, pois aqueles que perpetram tais crimes clamam que o fazem em nome de Deus, do Seu Profeta e das Suas escrituras.
A reacção de muitos árabes e muçulmanos ao ataque ao World Trade Center foi de choque e horror perante a terrível destruição e carnificina, juntamente com vergonha e raiva por isto estar a ser feito em seu nome e em nome da sua religião. Foi esta a reacção de muitos - mas não de todos. Houve relatos e até imagens de regozijo nas ruas de cidades árabes e de outros países muçulmanos, perante as notícias que chegavam de Nova Iorque. A reacção foi, em parte, a reacção da inveja - sentimento que se encontrava também muito difundido, de forma mais silenciosa, na Europa. Entre os pobres e os perversos houve um certo grau de satisfação - para alguns foi mesmo de prazer - por verem que os ricos e comodistas Americanos estavam a levar uma lição.
As reacções na imprensa árabe aos massacres de Nova Iorque e Washington traduziram-se num equilíbrio instável entre a rejeição e a aprovação, bastante semelhante à sua reacção ao Holocausto. Acerca do Holocausto registam-se com certa frequência três posições nos meios de comunicação árabes: nunca aconteceu; foi muito exagerado; de qualquer modo, os judeus escaparam a ele. Sobre esta última posição, alguns colunistas mais atrevidos acrescentam-lhe uma censura a Hitler por não ter terminado o trabalho. Ainda ninguém afirmou que a destruição do World Trade Center nunca aconteceu, embora com o passar do tempo isso não esteja fora do âmbito das capacidades dos teóricos da conspiração. A linha actualmente seguida por muitos comentadores muçulmanos, embora de modo nenhum por todos eles, é a de argumentar que aquilo não podia ter sido feito por muçulmanos nem por Árabes. Em vez disso, propõem outras explicações. Estas incluem supremacistas brancos americanos e milícias, aludindo evidentemente a Oklahoma e a Timothy McVeigh; opositores da globalização; Europeus, Chineses e outros que se opõem ao projecto do escudo de defesa contra mísseis; os Russos, procurando vingar-se do colapso da União Soviética; os Japoneses, numa represália muito retardada por Hiroshima; e outras do mesmo género. Um colunista sugere mesmo que o ataque foi organizado pelo presidente Bush, para desviar as atenções da sua eleição por «uma minúscula minoria que não teria chegado para eleger um conselheiro duma aldeia do Alto Egipto». Este colunista também implica Colin Powell como cúmplice dos dois presidentes Bush.
Mas a explicação que é de longe a mais popular atribui o crime, com variações pouco importantes, aos seus vilões favoritos - a Israel, à Mossad (segundo alguns, em ligação com a CIA), aos Anciões de Sião, ou, de forma mais simples e satisfatória, «aos judeus». Isto permite-lhes de imediato apreciar os ataques e não os reconhecer como seus. O motivo atribuído aos judeus para os realizarem é fazer com que os Árabes, e de modo mais geral os muçulmanos, sejam considerados maus, e semear a discórdia entre estes e os Americanos. Um colunista jordano acrescentou-lhe um interessante tema adicional: que «as organizações sionistas» perpetraram o ataque, para que Israel pudesse destruir a mesquita de Al-Aksa enquanto as atenções mundiais estavam voltadas para a América. Este tipo de explicação não impede - pelo contrário, encoraja - a opinião frequentemente manifestada de que aquilo que aconteceu, embora com carácter criminoso, foi uma justa retribuição pelos crimes da América. Talvez a reacção mais dramática - e mais explícita - tenha sido a do semanário da Hamas, Al-Risâla, publicado em Gaza, na sua edição de 13 de Setembro de 2001: «Alá respondeu às nossas orações».
A medida que a total dimensão de horror da operação foi sendo conhecida, alguns colunistas condescenderam em expressar a condenação dos perpetradores e compaixão pelas vítimas. Mas mesmo esses, raramente perdiam a oportunidade de realçar que os Americanos tinham tido aquilo que mereciam. O catálogo de crimes da América que referem é longo e detalhado, começando com a conquista, colonização e ocupação - palavras emocionantes - do Novo Mundo, e prosseguindo até aos dias de hoje; igualmente longa é a lista dos que caíram vítimas da ganância e crueldade da América, na Ásia, África e América Latina.
Osama bin Laden deixou bem claro de que modo entende a luta, designando repetidamente os seus inimigos por «cruzados». Os cruzados, lembramos uma vez mais, não eram americanos nem judeus; eram cristãos que combatiam numa guerra santa para recuperar os lugares santos da cristandade que tinham perdido. Uma «carta à América», publicada em Novembro de 2002 e atribuída a Osama bin Laden, enumera com algum pormenor vários crimes cometidos não apenas pelo governo mas também pelo povo dos Estados Unidos, e anuncia, em sete tópicos, «aquilo que vos ordenamos que façam, e aquilo que queremos de vós». O primeiro é que abracemos o Islão; o segundo, «parem com as vossas opressões, mentiras, imoralidade e deboche»; o terceiro, que revelemos e admitamos que a América é «uma nação sem princípios nem maneiras»; o quarto, que deixemos de proteger Israel na Palestina, os Indianos na Caxemira, os Russos contra os Tchetchenos, e o governo de Manila contra os muçulmanos no sul das Filipinas; o quinto, «façam as malas e saiam das nossas terras». Isto é apresentado como um aviso para bem da América, «para que não nos obriguem a mandar-vos de volta como carga, em caixões». O sexto, «deixem de apoiar os líderes corruptos dos nossos países. Não interfiram na nossa política e método de educação. Deixem-nos em paz, caso contrário podem esperar por nós em Nova Iorque e Washington; sétimo, lidem e interajam com os muçulmanos numa base de interesses e benefícios mútuos, em vez das políticas de subjugação, roubo e ocupação». O documento termina dizendo aos Americanos que, se não fizerem caso deste aviso, serão derrotados como todos os anteriores cruzados, e «terão a mesma sorte que os soviéticos, que fugiram do Afeganistão para ir ao encontro da derrota militar, do colapso político, da ruína ideológica e da falência económica».
A causa contra a América apresentada neste documento é muito detalhada. Inclui, além da já familiar lista de afrontas específicas, uma série de acusações gerais e particulares. Estas são de proveniência variada e normalmente reconhecível, reflectindo as sucessivas ideologias que têm influenciado, em épocas diferentes, os políticos e as políticas do Médio Oriente. Algumas datam da era nazi, como por exemplo degeneração e domínio final dos judeus; outras, do período de influência soviética, como por exemplo ganância e exploração capitalistas. Muitas são de origem europeia e até americana recente, e provêm tanto da esquerda como da direita. Incluem a poluição mundial e a recusa de assinar os acordos de Quioto, a corrupção política através do financiamento de campanhas, privilegiar a «raça branca», e, proveniente da direita, o mito supremacista branco neonazi de que Benjamin Franklin alertou contra o perigo judeu. O papel sinistro dos judeus é enfatizado em quase todos esses ultrajes.
Até os propalados méritos do estilo de vida americano se transformam em crimes e pecados. A liberdade das mulheres significa deboche e o uso comercial das mulheres como «produtos de consumo».
As eleições livres significam que o povo americano escolhe livremente os seus líderes e por isso deve ser considerado responsável e punível pelas más acções desses líderes - ou seja, não há «civis inocentes». O mais grave de tudo é a separação entre Igreja e Estado: «Vocês são a nação que, em vez de se regular pela shariah de Alá na sua Constituição e Leis, opta por inventar as suas próprias leis de acordo com a sua vontade e desejo. Vocês separam a religião das vossas políticas, contrariando a natureza pura que confere Autoridade Absoluta ao Senhor vosso Criador». Em suma: «Vocês são a pior civilização presenciada pela história da humanidade». Este juízo é o mais notável, por ser feito numa altura em que as ditaduras nazi e soviética ainda são memórias vivas -já para não falar de antigas tiranias preservadas nos registos históricos que Osama bin Laden e os seus sócios tantas vezes referem.
A razão básica é a América ser actualmente entendida como o líder daquilo que é variavelmente designado por o Ocidente, a cristandade ou, mais em geral, as «Terras dos Infiéis». Neste sentido, o presidente americano é o sucessor de uma longa linha de soberanos - os imperadores bizantinos de Constantinopla, os imperadores do Sacro Império Romano-Germânico em Viena, a rainha Vitória e os seus imperiais colegas e sucessores na Europa. Hoje como no passado, este mundo de infiéis cristãos é visto como a única força séria rival que impede a expansão divinamente decretada do Islão, que resiste e que atrasa, mas não impede, o seu final e inevitável triunfo universal.
Não há dúvida que a fundação da Al-Qaeda e consecutivas declarações de guerra de Osama bin Laden marcaram o início de uma nova e sinistra fase na história do Islão e do terrorismo. Aquilo que desencadeou as acções de Bin Laden, como ele próprio explicou de modo muito claro, foram a presença da América na Arábia durante a Guerra do Golfo - uma profanação da Terra Santa muçulmana - e a utilização da Arábia Saudita pelos Estados Unidos como base para atacar o Iraque. Se a Arábia é o lugar mais simbólico no mundo do Islão, Bagdad, sede do califado durante meio milénio e cenário de alguns dos capítulos mais gloriosos da história islâmica, é o segundo.
Houve outro factor, talvez o mais importante, a impelir Bin Laden. Dantes, os muçulmanos que lutavam contra o Ocidente tinham  sempre a possibilidade de se virar para os inimigos do Ocidente em busca de conforto, encorajamento, e ajuda material e militar. Agora, pela primeira vez em séculos, não existe esse inimigo tão útil. Bin Laden e os seus capangas depressa verificaram que na nova configuração do poder no mundo, se queriam lutar contra a América tinham de ser eles próprios a fazê-lo. Em 1991, no mesmo ano em que a União Soviética deixou de existir, Bin Laden e os seus capangas criaram a Al-Qaeda, na qual se incluíam muitos veteranos da guerra do Afeganistão. A sua tarefa deve ter parecido desencorajante aos olhos de toda a gente, mas eles não a viram dessa maneira. Do ponto de vista deles, já tinham corrido com os Russos do Afeganistão, e com uma derrota de tal modo esmagadora que conduzira directamente ao colapso da União Soviética. Tendo vencido a superpotência que eles sempre viram como a mais formidável, sentiram-se preparados para tomar a outra; nisto foram encorajados pela opinião muitas vezes manifestada por Bin Laden, entre outros, de que a América era um tigre de papel.
Essas convicções já antes tinham influenciado outros terroristas muçulmanos. Uma das revelações mais surpreendentes das memórias daqueles que ocuparam a embaixada americana em Teerão de 1979 a 1981 foi que a sua intenção original tinha sido apoderar-se do edifício e dos reféns durante alguns dias apenas. O que os fez mudar de ideias foram declarações feitas em Washington que mostraram claramente que não havia perigo de uma acção séria contra eles. Acabaram por libertar os reféns, conforme explicaram, unicamente porque recearam que o presidente eleito, Ronald Reagan, pudesse abordar a questão «como um cowboy». Bin Laden e os seus sequazes, é evidente que não têm receios desses, e o seu ódio não é constrangido pelo medo nem diluído pelo respeito. Como antecedentes, referem repetidamente as retiradas americanas do Vietname, do Líbano e - a mais importante de todas na sua opinião - da Somália. As observações de Bin Laden numa entrevista a John Miller, da ABC News, em 28 de Maio de 1998, são particularmente reveladoras:
Nas últimas décadas temos assistido ao declínio do governo americano e à fraqueza do soldado americano, que está pronto para fazer guerras frias e impreparado para combater em guerras longas. Isso provou-se em Beirute, quando os Marines fugiram após duas explosões. O que também prova que são capazes de fugir em menos de vinte e quatro horas, e isto voltou a repetir-se na Somália. [...] [Os nossos] jovens ficaram surpreendidos com o baixo moral dos soldados americanos. [...] Após alguns rebentamentos bateram em retirada. [...] Esqueceram-se que são o líder do mundo e o líder da nova ordem mundial. Foram-se embora, arrastando os seus mortos e a sua derrota vergonhosa.
Para Osama bin Laden, a sua declaração de guerra aos Estados Unidos marca o recomeço da luta pelo domínio religioso do mundo, que teve início no século VII Para ele e para os seus sequazes, este é um momento oportuno. Hoje, a América é o modelo da civilização e encarna a liderança da Casa da Guerra e, tal como Roma e Bizâncio, degenerou-se e perverteu-se e está pronta a ser derrubada. Mas apesar da sua fraqueza, ela também é perigosa. A designação «o Grande Satanás», dada por Khomeini aos Estados Unidos, era reveladora, e para os membros da Al-Qaeda é a sedução da América e do seu estilo de vida depravado e dissoluto que representa a maior ameaça para o género de Islão que eles querem impor aos seus companheiros muçulmanos.
Mas há outros para quem a América apresenta outro tipo de tentação - a promessa de direitos humanos, de instituições livres, e de um governo responsável e representativo. Há um número cada vez maior de indivíduos e até alguns movimentos que têm empreendido a complexa tarefa de introduzir instituições idênticas nos seus países. Não é fácil. Tentativas semelhantes, como já referimos, levaram a muitos dos regimes corruptos do nosso tempo. Dos cinquenta e sete estados que são membros da Organização da Conferência Islâmica, apenas um, a República Turca, teve em funcionamento instituições democráticas durante um período longo de tempo e, apesar das dificuldades e problemas contínuos, fez progressos na instalação de uma economia liberal, de uma sociedade livre e da ordem política.
Em dois países, o Iraque e o Irão, onde os regimes são fortemente antiamericanos, há opositores democráticos capazes de tomar posse e formar governo. Nós, naquilo a que gostamos de chamar mundo livre, poderíamos fazer muito para os ajudar e temos feito pouco. Na maioria dos outros países da região, há pessoas que partilham os nossos valores, que simpatizam connosco e que gostariam de partilhar o nosso modo de vida. Crêem na liberdade e querem usufruir dela no seu país. É-nos mais difícil ajudar essas pessoas, mas ao menos podíamos não lhes colocar obstáculos. Se eles conseguirem, teremos amigos e aliados na verdadeira acepção da palavra, e não apenas em sentido diplomático.
Entretanto, há um problema mais urgente. Se os líderes da Al-Qaeda conseguirem convencer o mundo islâmico a aceitar os seus pontos de vista e a sua liderança, então uma luta longa e amarga apresenta-se pela frente, e não apenas para a América. A Europa, sobretudo a Europa ocidental, alberga hoje uma comunidade muçulmana grande e em rápido crescimento, e muitos europeus começam a ver na sua presença um problema, para alguns até uma ameaça. Mais tarde ou mais cedo a Al-Qaeda e outros grupos semelhantes entrarão em choque com os outros vizinhos do Islão - Rússia, China, índia - que poderão revelar-se menos escrupulosos do que os Americanos em usar a sua força contra os muçulmanos e os seus valores sagrados. Se os fundamentalistas estiverem correctos nos seus cálculos e forem bem sucedidos na sua guerra, então um futuro negro espera o mundo, principalmente aquela parte dele que abraça o Islão.

 

(Bernard Lewis - A crise do islão - Guerra Santa e Terror ímpio)

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