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A origem do Autóctone

por Thynus, em 10.11.15

  Cadmos tinha um dia decidido fundar sua cidade no lugar de uma fonte
vigiada por um dragão. Esse dragão, no entanto, pertencia a Ares, o deus da guerra.
Cadmos, aliás, você se lembra, se casara com Harmonia, uma das filhas que Ares teve
com Afrodite, mulher de Hefesto (que, diga-se de passagem, não gostou de ser traído,
mas isso já é uma outra história). Para poder liberar o acesso à água, vital para a
cidade, Cadmos foi obrigado a matar o dragão. Atena e Ares recolheram os dentes do
dragão — pois sabiam que semeados na terra fazem imediatamente nascer terríveis
guerreiros. A metade dessas sementes mágicas eles deram a Cadmos, para que pudesse
povoar sua nova cidade, e a outra metade, justamente, deram a Eetes, nosso rei da
Cólquida, para que, em caso de necessidade, usasse-as para proteger o Tosão de Ouro.
Os guerreiros que saem da terra têm o nome de “Espartanos” — spartoi em grego quer
dizer “semeados”, aqueles que foram, como grãos, postos na terra para que algo brote.
Os semeados têm uma ligação direta com a terra (são “autóctones”, termo que em grego
quer dizer “vindo da terra”). A proximidade com o solo evoca, nesse caso (nem
sempre é assim, mas nesse contexto é do que se trata), a violência dos primeiros
deuses, os filhos de Gaia, a terra, que existiam antes dos olímpicos e estavam próximos
do caos original, sendo por ele animados. Novamente encontramos essa ideia com
relação à cidade de Esparta, inteiramente dedicada à guerra, em que os homens são
soldados rudemente educados, calados ou, como também se diz, “lacônicos” —
Lacônia sendo o nome grego da região de Esparta.

Jasão então semeia os dentes do dragão e, imediatamente, guerreiros assustadores
saem da terra. Mas Medeia também havia lhe dado um truque — o mesmo que Cadmos
já utilizara na sua época:(De fato, Cadmos também semeou os dentes do dragão e viu sair da terra os terríveis spartoi. Ele então jogou uma pedra entre eles, que começaram a lutar como imbecis entre si... até sobrarem vivos apenas cinco deles. São os que vão povoar a cidade de Tebas, já que os companheiros de Cadmos tinham sido dizimados pelo dragão que vigiava a fonte de Ares.) esses homens de armas são praticamente imbatíveis, têm uma força e habilidade no combate das mais temíveis; em contrapartida, como se diz são burros como uma porta. Para ser franco, são uns perfeitos cretinos, uns brutamontes
grosseiros que não enxergam nada além da ponta do nariz. Basta jogar uma boa pedra
no meio deles, que, achando ser uma provocação do companheiro ao lado, começam a
brigar um com o outro, de tal modo que se exterminam até o último deles, sem que
Jasão precise intervir minimamente. O caminho fica quase livre. Mas o rei, mau
jogador e mau perdedor, se recusa a manter a promessa. Trama, aproveitando a noite
que acaba de cair, pôr fogo no Argo e matar todos os seus tripulantes. Jasão então toma
à força o que injustamente lhe recusam. Precisa apenas se livrar do dragão que protege
o Tosão de Ouro, pregado na árvore. Medeia o adormece com uma das poções que são
a sua especialidade e Jasão tem apenas que desprender a preciosa lã, voltar a seu
navio e ganhar o largo.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 

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Autóctone (latim autochthones) vem do grego autos: si mesmo, e chthon: terra, país, ou seja: da mesma terra, do mesmo país, indígena. Autóctonos era como chamavam os gregos aos primeiros habitantes de um país, para diferenciá-los dos povos que se estabeleciam em outra parte. Uma “língua autóctone” é a primeira de um país, aquela falada por seus primeiros habitantes.

Exemplos de uso: 

A face primordial da questão ficou assim aclarada. Que resultem do "homem da Lagoa Santa" cruzado com o pré-colombiano dos sambaquis; ou se derivem, altamente modificados por ulteriores cruzamentos e pelo meio, de alguma raça invasora do Norte, de que se supõe oriundos os tupis tão numerosos na época do descobrimento — os nossos silvícolas, com seus frisantes caracteres antropológicos, podem ser considerados tipos evanescentes de velhas raças autóctones da nossa terra” (Euclides da Cunha: “Os Sertões”). / “A lei   pombalina da abolição da servidão dos autóctones melhorou as condições de vida destes, apesar das muitas violências que ainda se praticaram no decurso da segunda metade do século contra os desprotegidos e ingênuos habitantes das antigas aldeias do real padroado” (Visconde de Taunay: “História da Cidade de São Paulo”). / “Aceitando a aparição do homem sobre a Terra na época terciária, no período do eoceno, segundo os mais ousados antropologistas, nada se sabe de positivo sobre os habitantes pré-históricos da Península Ibérica. Têm-se de admitir ali populações autóctones, que viriam prolongando-se pelos períodos geológicos seguintes – mioceno, plioceno, pós-plioceno” (Sílvio Romero: “História da Literatura Brasileira”).

 

(Etimologista Iba Mendes)

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publicado às 13:57



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