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A origem de tudo

por Thynus, em 30.01.16
 
 
Primeiro havia o Caos, uma matéria completamente crua, indiferenciada, indefinível, indescritível que existia desde toda a eternidade e que era o princípio de todas as coisas. É impossível saber o que havia antes – como acontece no Universo do mundo real, em que os físicos não se arriscam a dizer o que havia antes do Big Bang.
Para os gregos, o Caos não diferenciava o úmido do seco, a direita da esquerda, o leve do pesado, o concreto do abstrato, o quente do frio (embora para os físicos era definitivamente mais quente que o inferno). O sol não iluminava o dia, pois o dia não existia, nem havia a lua para sucedê-lo, pois tudo era obscuro demais para que a noite fosse noite. Não havia o espaço, o tempo, as coisas, a vida, o amor. Nada, senão uma tremenda confusão.
 
Mas, em meio ao próprio Caos, eis que surge o seu oposto – a fértil deusa Terra “dos seios fartos”, que os gregos chamam de Gaia. Em vez da confusão obscura do Caos, Gaia apresenta uma forma distinta, nítida, precisa, firme e estável. É a Mãe Natureza, o conjunto de todas as partículas do mundo físico que darão origem aos seres e à força que os nutre, formando tudo o que existe no mundo natural – das mais altas montanhas às mais profundas grutas subterrâneas; às florestas, aos rios, ao céu, ao mar.
Os gregos, como qualquer povo da época, acreditavam que a Terra fosse o centro do universo – o que faz nosso paralelo com o Big Bang parar por aqui. Localizada bem no centro do Universo, ela não cai nem sobe. É o chão sobre o qual pisamos, o fundamento para todos os seres, ponto de referência para tudo o que existe, a partir do qual surgem as relações de espaço. É o alicerce eternamente inabalável de onde as coisas podem começar a se organizar e fazer sentido.
Mesmo sendo o ponto de referência de tudo, Gaia tinha limites físicos, tanto acima quanto abaixo dela. Se atravessássemos em suas entranhas a distância percorrida por uma bigorna de bronze em queda livre por nove dias, chegaríamos novamente à desordem e à escuridão. Esse, no entanto, não era mais o Caos, mas uma derivação sua: o Tártaro, abismo das trevas insondáveis, terror de qualquer deus. Para eles, essa versão grega do inferno era pior que a morte. Em vez de morrer, eles passariam a eternidade presos sem ver um raio sequer de luz. Bom, com Gaia, que trouxe a matéria da qual o mundo é feito, nasce uma insaciável força motriz capaz de unir elementos diferentes para criar novos seres, sejam eles deuses, animais, vegetais ou minerais. Seu nome é Eros, o “amor”. E, com sua flecha, a história do Universo começava para valer. Eros não era o amor entre humanos. Afinal, o mundo estava tão no princípio que nem sequer existiam os seres sexuados. Caos, em grego, é um substantivo neutro, nem masculino nem feminino. E, ainda que a Gaia fosse indiscutivelmente feminina, ainda não havia a quem ela amar, senão ao indiferenciado nada do Caos.
A vontade de gerar vida impulsionada por Eros faz com que Gaia crie à sua imagem o céu – ou Urano, em grego. E assim o Universo se divide em três camadas – a superior, que dará morada aos imortais deuses; a intermediária, dos homens; e a inferior, da morte e dos deuses subterrâneos. Tudo isso parido de Gaia sozinha, como que por partenogênese.
Mas Urano, que é tão grande e tão forte quanto ela, tem algo de especial. É o oposto de Gaia, só que numa relação diferente daquela ordem versus desordem que há entre Gaia e Caos. O nascimento de Urano cria o princípio do masculino, que complementa a feminilidade da fértil Gaia. Assim que Gaia gera Urano, o céu se deita sobre a Terra, e os dois ficam bem colados, como se um fosse o reflexo do outro num espelhod’água. É claro que Eros não demoraria a agir sobre o primeiro casal do mundo. A princípio, a virgem e solitária Gaia fica feliz por poder contemplar o céu estrelado sobre seu leito. Mas, ao se dar a ligação entre o macho e a fêmea, algo novo acontece. O ventre de Gaia começa a estufar, estufar de vidas que acabam de ser criadas.
Primeiro são gerados os seis terríveis Titãs – Oceano, Céos, Crios, Hipérion, Jápeto e Cronos – e as seis Titânidas – Teia, Reia, Têmis, Mnemosine, Febe e Tétis. Gaia já está um pouco cansada de segurar tanto filho dentro da barriga, mas Urano não quer por nada deste mundo sair de cima da esposa. Sua essência masculina manda que não faça nada senão fecundá-la. Nada de permitir que seus filhos saiam do ventre da mãe para povoá-la.
E a mãe Terra não para de gerar novas vidas, cada vez mais gigantes e monstruosas.
Nascem os três Ciclopes – criaturas fortes e engenhosas, com um único potente olho na testa que trarão consigo a luz do relâmpago, as nuvens de tempestade e o rugir do trovão – e três Hecatônquiros, gigantes com cem braços e cinquenta cabeças cada um, capazes de estremecer o mundo lançando rochas com a maior facilidade.
Sim, eram duros os primeiros tempos do Universo, quando não havia o que limitasse o egoísmo e a crueldade de Urano. Para que dividir algo tão perfeito e tão simétrico? Para Urano, era como o amor ideal, em que dois corpos se complementam em um só ser. Tudo o que podia sentir por seus filhos era ódio, pois sabia que, tão logo viessem à luz, tentariam destroná-lo.
Se os filhos vivem frustrados por estar presos e não poder se tornar deuses individualizados, mais triste ainda está Gaia, inchada e sufocada pelos 18 enormes filhos que guarda na escuridão de sua barriga. Gaia sabe que não adianta apenas lamentar a tirania de seu marido-irmão celeste. E então decide tomar uma iniciativa. Numa explosão de raiva, arranca um pedaço de seu corpo e com ele produz o ferro, com o qual molda uma grande foice dentada. Chega até seus filhos e lhes propõe um plano:
– “Filhos, se acreditais em mim, revoltai-vos contra vosso pai, pois ele vos ultraja e vos submete a agressões horríveis”.
Sem jamais ter saído da escuridão, nenhum dos irmãos ousa rebelar-se contra um pai tão grande, poderoso e vil. Isto é, nenhum, exceto Cronos, deus do tempo, o mais novo e mais ambicioso dos Titãs.
– “Mãe, prometo que cumprirei essa tarefa. Não temo meu abominável pai, que já tramou contra nós tantas obras indignas.” Gaia fica contente com a resposta. Logo em seguida, põe Cronos em tocaia, dá em suas mãos a foice de ferro e lhe conta o engenhoso estratagema para separar-se do céu. Se não é possível matar um deus, que ao menos ele nunca mais possa deitar-se sobre ela. À noite, Urano se prepara para mais uma vez fertilizar o ventre de Gaia, sem perceber que seu filho Cronos espera por ele escondido. O rapaz salta então de seu esconderijo, agarra com a mão esquerda a genitália paterna e, com a direita, decepa tudo e joga no mar.
Urano dá um longo grito de dor, e, num único movimento, afasta-se de Gaia até instalar-se na abóbada celeste, em cima do mundo, para nunca mais voltar ao solo. E lá do alto dispara uma terrível maldição contra Cronos: “Por terdes estendido os braços alto demais, ireis pagar pelo crime de ter levantado a mão contra vosso pai!”.
* * *
O plano parecia ter dado certo, não fosse um detalhe. Gaia é tão fértil que, tal como a chuva faz brotar as plantas, os jatos de sangue de Urano acabam engravidando-a mais uma vez. Desse sangue não nasceriam deuses, e sim três tipos de personagem, que encarnam a violência, o castigo, a guerra. A paz demorará muito para reinar no Universo.
Primeiro surgem do sangue paterno as vingativas Erínias – terríveis moradoras do Tártaro, de onde saem vestidas de preto, com olhos vermelhos e cabeleira entremeada de serpentes. Com elas vêm as pestes, o rancor e a loucura que punirão quem desobedecer aos pais, desrespeitar os mais velhos, fizer falso juramento ou matar. Depois, brotam os Gigantes, seres enormes, de formas humanas, mas de aparência monstruosa e espírito violento, que inspirarão as guerras. Cabeludos, barbudos e com o corpo terminando em um rabo de serpente, sempre carregam consigo brilhantes lanças de bronze. Nascem já adultos, sem jamais terem conhecido a inocência das crianças, e não ficariam velhos, embora sejam mortais – os Gigantes só podem ser mortos por outro mortal, nunca por um deus. Por fim, vêm as Melíades, ninfas também guerreiras, que vivem nos freixos, árvores das quais são feitas as lanças dos guerreiros. Esses são, pois, os filhos do sangue.
E o pênis de Urano, lançado ao mar bravo? Com o movimento incessante de suas ondas, a genitália imortal de Urano não para de se excitar, e assim que atinge o clímax, ejacula uma imensidão de esperma que se une às espumas da água salgada. E desse movimento de vai e vem nasce Afrodite, a deusa do instinto natural de fecundação, da úmida fertilidade, capaz de agir sobre deuses e mortais, desde os homens até as criaturas do mundo vegetal.
Sangue e esperma, desentendimento e concordância, violência e sensualidade, separação no semelhante e aproximação no diferente. Conforme Cronos, nosso amigo deus do tempo, sai do ventre materno e mutila seu pai, dá origem a duas forças complementares, motoras da criação e da destruição.

O INFORTÚNIO
Algo mais acontecia paralelamente à mutilação do céu. Sem satisfazer-se com o romance e a tragédia de Gaia e Urano, Eros estende seu arco e flecha também para o velho e indiferenciado Caos. E faz brotar dele, por geração espontânea, dois gêmeos, que, de certa forma, são uma continuidade da escuridão caótica. Um é o deus Érebo, o mais absoluto negro, a falta de vida, o vácuo total, que se volta imediatamente para o mundo subterrâneo. Já sua irmã, a deusa Nix, é a noite, a escuridão que paira sobre Gaia, a rainha dos astros noturnos, patrona das feiticeiras.
O masculino de Érebo e o feminino de Nix se aproximam imediatamente, e, no meio de tanta escuridão, Nix faz surgir a luz. De um lado, nasce Hemera, a deusa do dia, o oposto de Nix. Mãe e filha começam então a alternar-se sem parar sobre o manto de Gaia, noite e dia, sem jamais se encontrar. De outro lado, aparece o Éter, o brilho em seu estado mais puro, ar que os deuses respiram, o oposto de Érebo, as trevas confinadas nas profundezas do Tártaro, o inferno dos infernos. Assim, os deuses celestes passarão a viver a luz eterna, e abaixo da Terra, os deuses subterrâneos e os derrotados viverão as trevas eternas.
A pulsão de Eros não sai do corpo feminino de Nix. Ela quer mais filhos, ainda que tenha de concebê-los sozinha. Mas da solidão da misteriosa noite não nasceria nada senão os aspectos mais obscuros da vida dos homens e dos deuses. Assim, Nix pare o inelutável, inflexível, obscuro e invisível Destino (Moros). Sentado em seu trono de ferro, com olhos vendados, um pé sobre o globo terrestre e um cetro na mão, ele ditará leis às quais mesmo os mais poderosos deuses serão submetidos.
Para ajudá-lo numa tarefa tão árdua, Moros ganha três irmãs chamadas Moiras: Cloto, que tece o fio da vida de todos os homens, Láquesis, que determina o tamanho desse fio e o enrola num novelo, estabelecendo a qualidade da vida que cada um teria, e Átropos, que o corta quando chega a hora da morte.
Em seguida, Nix tem os gêmeos Morte (Tânatos) e Sono (Hipnos). Tânatos, com sua espada de sacrifício, desfaz as amarras que separam os morimbundos do mundo subterrâneo. O Sono é sua versão mais suave: Hipnos sobrevoa a Terra para fazer os mortais dormir. Com eles vêm também os Sonhos (os Oneiros), espíritos com grandes asas de morcego que toda noite emergem da tenebrosa caverna de Érebo, uns para contar presságios verdadeiros (saídos de um portal de marfim), outros para mentir (estes, vindos de um portal de osso de chifre). Mais temíveis, porém, são as irmãs Mortes Violentas (Queres), seres negros alados, com grandes dentes e unhas, que sobrevoam às centenas os campos de batalha para antecipar o destino, dilacerar corpos e tomar o sangue dos mortos.
Nix não se satisfez em dar à luz tanta infelicidade. Teve ainda a Ternura (Filotes), que alimenta as pequenas mentiras; o Escárnio (Momo), que mais tarde seria expulso do céu por ridicularizar os deuses; a Indignação (Nêmesis), que retribui àqueles que agem mal ou que se dão bem sem merecer; a Miséria (Oizys); as três ninfas do pôr do sol (Hespérides), guardiãs dos jardins dos deuses; a Fraude (Apate), que encanta mostrando sua amável cabeça, escondendo sob as águas dos rios do mundo subterrâneo a cauda de serpente; e a Velhice (Geras), um ancião vestido de preto e coberto de folhas mortas que, apoiado num cajado, segura uma ampulheta para lembrar-nos da decrepitude trazida pelo tempo.
Como se não bastasse tanta desgraça, Nix pare ainda Éris, deusa da discórdia, que sozinha dará continuidade aos infortúnios do mundo com mais uma linhagem de espíritos nefandos: a Fadiga, o Esquecimento, a Fome, as Dores do Corpo e da Alma, as Batalhas, os Combates, os Homicídios, os Massacres, os Litígios, as Mentiras, as Disputas, a Falta de Lei, a Desilusão e o Espírito dos Juramentos. (Não é à toa que, milênios depois, astrônomos nomearam Éris o planeta anão cuja descoberta culminou no rebaixamento de Plutão no panteão dos corpos celestes.)
* * *
Finalmente o céu e a terra estão separados por um enorme espaço livre. Entre o leito de Gaia e a abóbada de Urano, as criaturas poderão viver, reproduzir-se, transformarse. Com a liberação de Cronos do ventre da terra, como vimos, é desbloqueado também o tempo. Nix e Hemera passam a se alternar, dia e noite. E, com a ação de Eros, o amor, agora inspirado pela sensualidade de Afrodite, gerações e gerações de criaturas vão se suceder. O mundo começa a ter cara de mundo.
Mas esse espaço será ocupado também pela rivalidade entre os Titãs, os Ciclopes, os Hecatônquiros e os filhos dos Titãs. Éris, a deusa da disputa, e seus filhos infames, além dos filhos do sangue de Urano, encontrarão um campo para agir livremente. Como poderá haver estabilidade num mundo em que vários deuses coexistem e não param de se reproduzir, lutando entre si para estabelecer seu poder? Quem será o soberano desse Universo para que Gaia não sucumba ao desgosto de uma eterna briga entre irmãos, netos, bisnetos e quantas gerações vierem?

(José Francisco Botelho, Maurício Horta, Salvador Nogueira - Mitologia: Deueses, Heróis e Lendas)

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