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A ontologia da vergonha em Sartre

por Thynus, em 03.04.14
Nesse momento os olhos dos dois se abriram, 
e eles perceberam que estavam nus. 
Então costuraram umas folhas de figueira para usar como tangas.
(Gn. 3,7)

Enquanto a experiência da vida quotidiana está aí, da forma mais
conclusiva, é curioso constatar a recusa em considerar que se “conhecer
[con-naître]” é antes de tudo, e em seu sentido estrito, nascer-com [naîtreavec].
Se existe uma lei universal que rege o gênero humano, é que não
se é aquele que se vê no espelho, mas, sim, aquele que se reconhece no
olhar do Outro. É a alteridade que me faz existir. Trata-se aí de uma dessas
banalidades que se teria algum escrúpulo em lembrar, se o conformismo
lógico, a opinião intelectual, a correctness ambiente não nos
forçassem a fazê-lo.

(Michel Maffesolo - Homo Eroticus, comunhões emocionais)


 


 
 
 

Falar da vergonha a partir de um senso comum, não parece ser uma tarefa complicada. Afinal, quem nunca a sentiu? No entanto, o pensamento contemporâneo raramente tem se debruçado sobre esta problemática, sobretudo, quando se trata de analisar a vergonha num plano estritamente filosófico. Daí que o pouco que se vê ou lê sobre isto tem sido marcadamente influenciado pela concepção cristã (Religiosamente, isto é, dentro de uma pressuposição moral, a vergonha é um sentimento atribuído com o intuito de mostrar que os homens são seres imperfeitos, em contraposição a idéia do ser absolutamente perfeito: Deus. Além disso, na maioria das situações, a vergonha é ilustrada como enfrentamento às questões do corpo, sobretudo na idéia de que fazer sexo (com o outro, com vários outros, consigo mesmo, etc.) ou ficar nu é pecado. Contudo, em Sartre “O sentimento de vergonha perante Deus, por exemplo, não poderia sobreviver, salvo como uma aberração mental e impureza conceptual, à conversão ao ateísmo”. Cf. DANTO, As idéias de Sartre, 1975, p. 86.) que prega o recatamento e a preservação da honra como um meio de adquirir a virtude no sentido religioso.
Profundamente comprometido em entender a questão, Sartre resgata de forma inovadora a problemática da vergonha, situando-a numa perspectiva ontológica (Isso não descarta a possibilidade de se estudar a problemática da vergonha num sentido ético. No entanto, a questão que se vislumbra é a da prioridade ontológica do problema supramencionado) que tenciona distanciá-la do plano psíquico. Desde então, a compreensão da questão da vergonha em Sartre perpassa um complexo trabalho investigativo que busca demonstrar os efeitos modais da relação eu - outro. A complexidade aparenta situar-se em dois motivos: primeiro, porque ele não dedica uma análise clara e exaustiva sobre a questão e, segundo, porque o que percebemos da vergonha é que ela se encontra em seu pensamento como um elemento adicional exemplificador para fortalecer os argumentos que defendem a relação eu - outro a partir da estrutura do olhar e do corpo.
A questão da vergonha principia factualmente quando Sartre parte para a investigação da existência ontológica do outro e sua conseqüente relação conflituosa com o eu descrita na terceira parte de O ser e o nada. Com efeito, a vergonha é o primeiro aspecto que Sartre coloca para delinear a relação eu – outro e ela é minuciosamente descrita como modo de ser da consciência do eu e é precisamente na consciência que a vergonha adquire o caráter da intencionalidade (a intencionalidade sartriana aponta para a essência da consciência e, isto implica que ela tem de se colocar sobre o objeto, ou seja, posicionar-se sobre ele. Esse aspecto está elaborado inicialmente na Transcendência do Ego e desenvolvida na primeira parte de O ser e o nada.). Por ser intencional, ela se dá para a apreensão de algo ou alguma coisa que provoca o ato de se envergonhar, isto é, a vergonha é sempre vergonha de alguém ou alguma coisa.
Visto assim, a vergonha efetiva uma relação entre o eu e a sua consciência, pois é a partir de uma apreensão vergonhosa consigo mesmo que o eu descobre um aspecto de seu ser. Sartre tenciona, neste primeiro momento, trazer a vergonha para o plano da reflexão, porém, admite que ela não seja um fenômeno de reflexão devido ao simples fato dela ser algo vivenciado na ação, o que a distancia do plano da disposição reflexiva e discursiva.
Explicitando de outra forma, toda a conjuntura estrutural da vergonha está situada no fato de que entre o eu e o outro ocorre uma apreensão censurável. E como se dá essa apreensão? Através daquilo que Sartre denomina “formas organizadas”, consistindo em atos e condutas que revelam ao outro certas atitudes subjetivas por parte do eu, isto é, quando o eu é percebido pelo outro gesticulando, a vergonha instaura-se sobre a estrutura ontológica do eu. Sartre justifica seu argumento de modo claro quando diz:

Acabo de cometer um gesto desastrado ou vulgar: esse gesto gruda em mim, não o julgo nem o censuro, apenas o vivencio, realizo-o ao modo do para-si. Mas de repente, levanto a cabeça: alguém estava ali e me viu. Constato subitamente toda a vulgaridade de meu gesto e sinto vergonha (SARTRE, O Ser e o Nada, 1997, p. 289; Etre et Neant, 2001, pp. 259-260).

Claramente, Sartre admite a necessidade indispensável da presença do outro para que haja a condição da vergonha revelar-se sobre o eu. Mas toda esta apreensão de fato é concretizada através do olhar, pois o sentimento de experimentar a vergonha encontra-se fortemente ligado ao fato do eu ser visto pelo outro (Segundo Danto “Contudo, sentir vergonha é estar comprometido com a crença de que não se está sozinho, pois faz parte do próprio conceito a existência de outros como uma estrutura de nossa própria consciência.... a estrutura da vergonha é tal que não se poderia supor capaz de envergonhar-se alguém que não tivesse o conceito de outras pessoas: o sentimento só pode surgir com referência a outras pessoas”. Cf. DANTO, As idéias de Sartre, 1975, p. 86).
Especificamente, a vergonha se comporta em duas estruturas fundamentais distintas: primeiramente, a vergonha é experimentada diante de alguém que não o eu. Logo, em sua estrutura primordial a vergonha é sentida diante do outro a partir do instante em que ele olha o eu e este olhar é devolvido (Fiel a leitura e interpretação de Sartre, Giles afirma que: “A vergonha em sua estrutura primeira é vergonha de alguém. O outro não só me revelou aquilo que eu era. Ele me constituiu um tipo de ser novo que deve suportar qualificações novas. Esse ser não estava em potência em mim antes do aparecimento do outro. Mas por outro lado, ele não reside no outro, pois sou eu o responsável. A vergonha é vergonha de si diante do outro”. Cf. GILES, História do existencialismo e da fenomenologia, 1975, p. 342). Com efeito, Sartre realça o fato da vergonha não ser reflexiva, por ter sido ocasionada pela presença do outro à consciência do eu de um modo que ele denomina catalisador, porque faz o eu estancar perante a presença do outro e isto incompatibiliza a atitude reflexiva, já que segundo ele, a consciência possível de reflexão é a consciência do eu. Mesmo assim, o outro é e sempre será um elemento indispensável ao eu, porquanto a vergonha do eu é apreendida ao modo como ele aparece ao outro. O questionamento que nos motiva agora é: de que modo o outro aparece ao eu?
Num primeiro instante, o outro é visto no plano da experiência mundana quando o eu o descobre como uma inexorável realidade existencial. Em um momento posterior, o eu descobrirá o outro a partir do olhar e daí advém o  sentimento de vergonha por estar sendo visto. Traçado este caminho, surgirá uma relação profundamente conflituosa em que um tentará objetivar o outro e vice-versa. Logo, a vergonha também é vivenciada na realidade humana perante a presença do outro, devido a algo que o eu é ou faz.
Nesse sentido, a relação eu - outro ainda não se mostra em toda a sua amplitude (o que acontecerá quando vislumbrarmos a perspectiva do olhar e do corpo), resguardando-se no fato de que a vergonha é, por natureza, aquilo que Sartre denomina de reconhecimento. Isto implica que o eu é como o outro o vê (reconhece).
Entretanto, Sartre afirma claramente que o reconhecimento não pode ser entendido como uma tentativa de fazer qualquer comparação entre aquilo que o eu é para si mesmo e aquilo que ele é para o outro. Primeiro, porque a possibilidade de se fazer esta ou aquela comparação não se encontra inerente ao plano do psiquismo humano, não requerendo qualquer elucubração discursiva. Segundo, porque é impossível determinar um padrão que relacione o que a consciência do eu é para ele mesmo e o que ela é para o outro.
Desde então, a vergonha é simplesmente um sintoma corporal, manifestada a partir do olhar e que diz respeito ao modo como o corpo do eu se encontra diante do outro, exigindo a efetivação desta presença. Como exemplo claro, Sartre afirma que a noção de vulgaridade não pode ser vivenciada sozinha, visto ser uma relação intermonadária, isto é, travada entre dois seres (o eu e o outro evidentemente) na simples existência do cotidiano que sem determinação ou qualquer afinidade constrói cada qual uma subjetividade.
Neste caso, o outro passa a revelar um eu notívago que sustenta novas qualidades. Trata-se de um ser que não estava em potência antes do outro vir à tona, pois como diz Sartre,

Não teria encontrado lugar no para-si; e mesmo se algo se satisfizesse em me dotar de um corpo inteiramente constituído antes que esse corpo fosse para os outros, nem minha vulgaridade nem minha inépcia poderiam alojar-se nele em potência, pois estas são significações e, como tais, transcendem o corpo e remetem ao mesmo tempo a uma testemunha capaz de compreendê-las e a totalidade de minha realidade humana (SARTRE, SN, 1997, p. 290; EN, 2001 p, 260)

Apesar deste “novo” eu manifestar a sua aparição a partir do outro, Sartre é categórico quando explicita que o eu não reside no outro, ou seja, a consciência do eu é responsável por si mesmo e pelo independente condicionamento da totalidade humana, incluindo o outro. Isto implica também que não é o fato do outro se presentificar simplesmente que o eu vai tomar a consciência de sua existência. Do contrário, para que essa existência seja vista além da pura conjectura, será necessária a mediação entre os dois opostos para que se estabeleça uma apreensão inicial da relação eu - outro e o olhar geratriz da vergonha pode ser entendido como elemento que propicia este empreendimento.
Na estrutura de O ser e o nada, Sartre não traça linearmente o itinerário de exposição da problemática da vergonha. É bem verdade que ele inicia a terceira parte da obra analisando-a, porém, apenas mais adiante, quando intensifica a sua investigação sobre o olhar é que se torna possível vislumbrar melhor a sua exposição subjetiva sobre a vergonha. Analisado o primeiro momento passaremos a expor a vergonha na perspectiva do olhar, pois a vergonha é estruturalmente originária da condição do olhar.
Visto assim, no segundo momento a vergonha é pensada de modo análogo a um sentimento original em que o ser do eu passa a encontrar-se comprometido com o ser do outro de tal forma que se encontre suspenso em sua ação. Isto implica que aquele sujeito original da relação eu - outro cede lugar à objetivação em prol do outro, ou seja, a vergonha faz com que o eu se torne “degradado, dependente e determinado” (Idem, SN, ibid, p. 369, Idem, EN, ibid, p. 328) para o outro. Assim, Sartre aponta que: “A vergonha é sentimento de pecado original, não pelo fato de que eu tenha  cometido esta ou aquela falta, mas, simplesmente pelo fato de ter “caído” no mundo, em meio às coisas, e necessitar da mediação do outro para ser o que sou” (Idem, SN, ibid, p. 369;Idem, EN, ibid. p. 328).
De fato, não é possível reconhecer-se o eu apenas através dele mesmo. O outro é um elemento vital como instância reconhecedora do eu porque é a única estrutura ontológica capaz de travar uma relação em que possa superá-lo, mesmo que ele não saiba. Daí o recatamento e o medo como símbolo da vergonha original que a consciência do eu tem de ser surpreendida em ato como, por exemplo, a nudez, é a prova incontestada de que o outro reconhece o corpo do eu como um objeto.
Por isso, Sartre diz que quando alguém está vestido dissimula a sua objetidade, ou seja, a vestimenta é uma forma de manipulação moral do corpo do eu como um corpo que se vê sem ser visto, isto é, vê-lo camuflado e nunca em sua pureza (nu) (Aparentemente é possível percebermos uma perspectiva moral, muito embora, seu valor não seja elevado ao mesmo nível do ontológico. Nesse caso, a perspectiva da moral é relevada até aqui, mas será enfatizada no final do trabalho, de modo que se possa complementar o sentido fundamental da relação eu-outro.). A idéia de dissimulação apenas comprova que o sujeito não é revelado na sua pureza (estado de nudez), mas num estado social, com regras e convenções que determinam e impõem a vergonha. Daí nos determos na descrição ontológica do mito de Adão e Eva (O mito narra a história do pecado original ocorrido segundo relatos bíblicos, após Adão comer o fruto proibido que houvera sido dado por Eva que por sua vez, foi tentada pela serpente. Evidentemente, a maioria das passagens bíblicas são puramente alegóricas. O mito do primeiro casal humano é um deles. Quando Eva come do fruto proibido e o oferece a Adão, que também come, “nesse momento os olhos dos dois se abriram, e eles perceberam que estavam nus. Então costuraram umas folhas de figueira para usar como tanga”.). Essa passagem é significativa: reconhecer a nudez e ter vergonha dela é a condição crucial para a constituição do sujeito ontológico, visto que a necessidade do determinismo divino cai por terra. Cf. SAGRADA, Bíblia, 2000, p. 4) após o pecado original para exemplificar a vergonha deles quando se percebem nus diante de Deus (É possível entender a questão a partir do que diz Danto: “Pode perfeitamente ocorrer que um homem não tenha qualquer sentido do pecado, se ignorar o conceito de Deus e da desobediência humana, pois essas noções estão interligadas. Mas não podemos argumentar com o fato de existirem homens que vivem com o sentimento do pecado, para asseverar que Deus existe ou que Adão desobedeceu – ou então acharíamos uma prova da existência de Deus em qualquer templo batista”. Eis aí uma preocupação em situar o problema da vergonha numa ontologia. Cf. DANTO, As idéias de Sartre, 1985, p. 89).

A nudez, é a prova incontestada de que o outro reconhece o corpo do eu como um objeto. Quando alguém está vestido dissimula a sua objetidade
 
 

 Visto por essa perspectiva, o eu parece decair cada vez mais na subjetividade do outro, tornando-se objeto para ele. Convém lembrarmos que numa relação anti – solipsista não existem dois sujeitos do mesmo modo que é impossível o eu ser objeto para si mesmo, embora, o possa ser ao pressupor a existência do outro, o que o leva a alcançar sua objetividade apreendida no olhar. Assim, traçamos precisamente o modo como se estrutura uma relação marcada pelo conflito original  e tentativa de objetivação do eu por parte de outro e vice-versa. Também é propício levantar um questionamento: como o eu evitará ser sempre objeto para o outro e recuperar com isso a sua subjetividade?
O caminho apontado por Sartre para que o eu não se deixe objetivar pelo outro é o de reagir à vergonha, isto é, não deixar que a vergonha domine a consciência ontológica do eu e, por conseqüência, captar o outro como objeto.
Então, no momento em que o outro é objetivado, a sua subjetividade vai por água abaixo, degradando-se e passando a ser visto como uma mera conjectura diante do eu. Sartre afirma que: “O outro – objeto “tem” uma subjetividade assim como esta caixa tem “um interior”. E, com isso, eu me recupero, pois não posso ser objeto para um objeto” (SARTRE, SN, 1997, p. 369; EN, 2001, p. 328).
Logo, esta afirmação explicita qualquer possibilidade de assumir o outro como sujeito. Mas ainda assim, ele não nega a intensidade da conexão existente entre o eu e o outro, embora, a consciência do outro como objeto que é para o eu, não produza efeito de natureza dominadora sobre o mesmo.
Enquanto o outro é apreendido pelo eu, a sua existência passa a girar em torno do conhecimento que o eu pôs nesta relação. Isto implica que o eu domina efetivamente o outro lhe impondo a condição de objeto nesta relação. A questão conjuntural da relação sujeito-objeto se clarifica quando um se deixa atingir por outro, isto é, quando um se deixa objetivar. A relação é marcada também por uma permissividade na qual a subjetividade cede lugar à interioridade, a consciência se vê livre de princípios e as possibilidades são transmutadas em propriedades. Assim, despreocupado com tudo que o cerca o eu desgasta o outro.
A vergonha neste sentido nos mostra uma compreensão que abre uma perspectiva: o eu que reconhece a si mesmo a partir do momento em que ele pode decidir se quer ou não ser objetivado pelo outro. Logo, a sua ipseidade é reforçada. Aqui, o discurso atinge o ápice da sua questão, pois quando no primeiro momento falamos que o eu sentia vergonha diante do outro estávamos, com isso, evocando a primeira estrutura da vergonha e no segundo momento, quando ele sentirá vergonha de si, levantamos a segunda estrutura. E isto pressupõe uma terceira estrutura que nada mais é do que a junção das duas primeiras. É a vergonha de si diante do outro. Sartre nos explica:

Com efeito, na estrutura expressa pela frase “Eu tenho vergonha de mim mesmo”, a vergonha pressupõe um eu - objeto para o outro, mas também uma ipseidade que tem vergonha e é imperfeitamente expressa pelo “eu” da fórmula. Assim, a vergonha é apreensão unitária de três dimensões: “Eu tenho vergonha de mim frente ao outro” (Idem, SN, ibid, p. 370; Idem, EN, ibid, p. 329).

Sartre realça que essas três dimensões são imprescindíveis umas às outras e a ausência de um delas faz com que a vergonha não tenha sentido e desapareça. Porém, quando se supõe imparcialmente a existência de um eu que se envergonha diante de um outro - sujeito que em hipótese alguma pode se tornar um objeto e se esse eu se posiciona de modo que admita a possibilidade da existência da unidade absoluta do sujeito presente no outro, então, esse eu sempre será um objeto e sua vergonha, perpétua. Convém mencionarmos que Sartre apenas traça este aspecto como uma pressuposição, visto que ele coloca Deus (Apesar desta pressuposição, a filosofia sartriana é representada como um existencialismo-ateu, na qual ele coloca o homem num estado de abandono inexorável e na própria obra máxima (O ser e o nada), a crítica ao Criacionismo é contundente. Cf. SARTRE, O Existencialismo é um Humanismo, 1987) como exemplo desta unidade absoluta do sujeito no qual o eu se objetiva e a vergonha neste caso é diante de Deus – outro.
Logo, o posicionamento do eu efetiva uma existência alienada, visto que toda a realização dele se encontra em função do absoluto que é divino. O estado de alienação pode ser compreendido como o temor que se tem diante do Deus - outro, a partir do instante em que se reconhece que o eu - objeto é reificado e posicionado em prol deste sujeito absoluto.
Como exemplo de esforços para se objetivar frente ao sujeito absoluto Sartre cita “as missas negras, profanações de hóstias, associações demoníacas, etc.” (SARTRE, SN, 1997, p. 370; EN, 2001, p. 329). Porém, são justamente essas espécies de ações que se contradizem e acabam por fracassar até mesmo no reconhecimento do absoluto divino. Sartre também não esquece de falar do orgulho em dois modos, o que lhe faz pôr em questão a ambigüidade deste sentimento: primeiro, como uma forma de reação à vergonha de ser objeto, quando o orgulho é resignação e isto implica fuga e má-fé porque o eu se deixa dominar pelo outro – sujeito. Segundo, há o orgulho como afirmação da liberdade do eu frente ao outro – objeto e neste caso, o orgulho é visto como vaidade e, segundo Sartre, como um sentimento desequilibrado e dotado de má-fé. Este caso é bem interessante porque coloca o eu como um sujeito manipulador do outro - objeto que se apodera dele por vaidade. O grande problema que Sartre levanta e finaliza esta questão é que quando o eu constitui o outro como objeto, ele (eu) passa constituir-se como imagem no bojo do outro – objeto e, com isso, perde-se e não mais reconhece a sua individualidade.
Então é evidente que o problema não se encerra aí. No entanto, a constatação de que a relação eu – outro é não apenas conflituosa, mas também confusa, traz a nós a idéia de que a existência do outro deve ser experimentada como uma clara evidência presente no mundo cotidiano. Apenas assim, acreditamos que a apreensão desta relação abordada até aqui passa a trazer luz a sua compreensão e a experiência da vergonha é, sem dúvida alguma, o primeiro passo para o eu chegar a reconhecer o outro como elemento vital. Um passo maior é dado quando se analisa a estrutura ontológica do olhar, constituindo-se momento de fundamental importância na constituição teorética de Sartre.

(CARLOS HENRIQUE CARVALHO SILVA - O PRIMADO ONTOLÓGICO DO OUTRO EM O SER E O NADA DE JEAN-PAUL SARTRE)

 

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