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A NECESSIDADE DE SERMOS OLHADOS

por Thynus, em 01.12.16
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A fúria da libido
Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver.

A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anónimos ou, por outras palavras, o olhar do público. É o caso do cantor alemão e da estrela americana, como é também o caso do jornalista de queixo de rabeca. Estava habituado aos seus leitores, e quando o semanário foi proibido pelos russos teve a impressão de ficar com a atmosfera cem vezes mais rarefeita. Para ele, ninguém podia substituir os olhos anónimos. Sentia-se quase a sufocar, até que um dia percebeu que a polícia lhe seguia todos os passos, que o seu telefone estava sob escuta e que chegava a ser discretamente fotografado na rua. De repente, tinha outra vez olhos anónimos a acompanharem-no: já podia voltar a respirar! Interpelava num tom teatral os microfones escondidos na parede. Voltava a encontrar na polícia o público que julgava ter perdido para sempre.

Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de cocktails. São mais felizes que os da primeira categoria porque, quando estes perdem o público, imaginam que as luzes se apagaram para sempre na sala da sua vida. É o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Os desta segunda categoria, estes sim, acabam sempre por conseguir arranjar os olhares de que precisam. Marie-Claude e a filha são deste género.

Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado. A sua condição é tão perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se fecham, a sala fica mergulhada na escuridão. É neste tipo de pessoas que devemos incluir Tereza e Tomas.

Finalmente, há uma quarta categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Foi até à fronteira cambojana unicamente por causa de Sabina. Dentro do autocarro, que a estrada tailandesa faz balouçar violentamente, só sente o seu longo olhar pousado em si.

O filho de Tomas pertence à mesma categoria. Chamar-lhe-ei Simão. (Vai com certeza gostar de ter um nome bíblico como o pai.) O olhar a que aspira, é o olhar dos olhos de Tomas. Por ter-se comprometido com a campanha de assinaturas, foi expulso da faculdade. Namorava a sobrinha de um pároco de aldeia. Casou-se com ela, tornou-se motorista de tractor numa cooperativa, católico praticante e pai de família. Soube que Tomas também vivia no campo e ficou feliz com isso. Afinal o destino tomara as suas vidas simétricas! Foi o que o incitou a escrever-lhe uma carta. Não pedia resposta. Não queria senão uma coisa: que Tomas pousasse o olhar dele sobre a sua vida.

***

Franz e Simão são os sonhadores deste romance. Ao contrário de Franz, Simão não gostava da mãe. Desde a infância que andava à procura do pai. Sempre esteve pronto a acreditar que a injustiça que o pai lhe fizera fora forçosamente provocada por uma ofensa qualquer. Nunca lhe quisera mal por causa disso, recusando-se sempre a aliar-se à mãe, que passava o tempo a dizer mal de Tomas.

Viveu com ela até aos dezoito anos e, depois de acabar o liceu, foi estudar para Praga. Nessa altura, já Tomas andava a lavar janelas. Simão tentou variadíssimas vezes provocar um encontro fortuito na rua com ele. Mas o pai nunca parava.

Se se ligara ao jornalista de queixo de rabeca fora unicamente porque este lhe lembrava o destino do pai. O jornalista nem sequer sabia o nome de Tomas. O artigo sobre Édipo tinha caído no esquecimento e só se lembrou da sua existência quando Simão lhe pediu para ir com ele propor ao pai que assinasse a petição. O jornalista aceitou apenas para ser agradável ao rapaz, de quem gostava bastante.

Quando pensava nesse encontro, Simão tinha vergonha do seu nervosismo. Com certeza que o pai não gostara dele. Em contrapartida, o pai tinha-lhe agradado bastante. Lembrava-se de tudo quanto ele dissera, palavra por palavra, e cada vez lhe dava mais razão. Tinha sobretudo uma fase gravada na memória: “Castigar os que não sabiam o que estavam a fazer, é pura barbaridade." Quando o tio da namorada lhe pôs uma Bíblia entre as mãos, saltou-lhe logo aos olhos o pedido de Jesus: “Perdoai-lhes, que eles não sabem o que fazem.” Bem sabia que o pai era ateu, mas a semelhança das duas frases funcionou para ele como um sinal secreto: o pai aprovava a via que ele escolhera.

Morava no interior já há dois anos, quando recebeu uma carta de tomas convocando-o para visitá-lo. o encontro foi amistoso, Simão sentia-se à vontade, e não gaguejava mais. Provavelmente não chegou a perceber que não se compreendiam muito bem. Uns quatro meses depois recebeu um telegrama dizendo que tomas e sua mulher haviam morrido esmagados sob um caminhão. Foi nessa ocasião que ouviu falar de uma mulher que fora amante de seu pai e que vivia na franca. Procurou seu endereço. Como precisava desesperadamente de um olho imaginário que continuasse a observar sua vida, de vez em quando escrevia-lhe longas cartas.
***

Até ao fim dos seus dias, Sabina nunca mais deixará de receber cartas desse triste epistológrafo aldeão. Muitas não serão sequer abertas, porque o país de onde é originária lhe interessa cada vez menos.

O velhote morreu e Sabina foi viver para a Califórnia. Sempre mais para ocidente, sempre cada vez mais longe da Boémia.

Os seus quadros têm boa aceitação e ela gosta bastante da América. Mas só à superfície. Por baixo, há todo um mundo que lhe é estranho. Sob aquela terra, não tem nem antepassados, nem tios. Tem medo que a encerrem dentro de um caixão e a enterrem debaixo dela.

Fez, portanto, um testamento onde estipula que o seu corpo deverá ser queimado e as suas cinzas deitadas ao vento. Tereza e Tomas morreram sob o signo do peso. Ela quer morrer sob o signo da leveza. Será mais leve do que o ar. Segundo Parménides, é a transformação do negativo em positivo.
 

(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

 
 

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publicado às 17:12



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