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A natureza e o homem

por Thynus, em 16.09.16
O homem é uma parte da natureza, não algo que contraste com ela. Seus pensamentos e movimentos corporais seguem as mesmas leis que descrevem os deslocamentos de estrelas e átomos. O mundo físico é grande comparado ao homem – maior do que se pensava à época de Dante, mas não tão grande quanto parecia cem anos atrás. Em todos os sentidos, tanto no micro como no macrocosmo, a ciência parece estar atingindo limites. Acredita-se que o universo possua dimensão espacial finita e que a luz possa percorrê-lo em algumas centenas de milhões de anos. Acredita-se que a matéria consista de elétrons e prótons, os quais são finitos em tamanho e dos quais há no mundo apenas um número finito. Provavelmente suas trans­for­mações não sejam contínuas, como se costumava pensar, mas ocorram aos saltos, estes nunca menores que um salto mínimo. Ao que parece, as leis que governam essas transformações podem ser resumidas em um pequeno número de princípios bastante gerais, que determinam o passado e o futuro do mundo no momento em que se conhece uma pequena parte qualquer de sua história.

Logo, a ciência física está se aproximando do estágio em que se tornará completa e, portanto, desinteressante. Dadas as leis que governam os deslocamentos de elétrons e prótons, o resto é meramente geografia – uma coleção de fatos particulares relativos à sua distribuição ao longo de alguma parcela da história do mundo. A soma total de fatos geográficos necessários para determinar essa história é provavelmente finita; em tese, eles poderiam ser anotados em um grande livro a ser mantido em Somerset House, junto com uma máquina de calcu­lar cuja manivela, uma vez girada, possibilitaria ao pesquisador descobrir os aconte­cimentos de outras épocas que não as regis­tradas. É difícil imaginar algo menos atraente e mais distante dos deleites apaixonados da descoberta incom­pleta. É como escalar o topo de uma alta montanha e nada encontrar senão um restaurante onde se venda gengibirra – envolto pela neblina, mas equipado com aparelho radiotelegráfico. Quiçá nos tempos de Ahmes a tábua de multiplicação fosse excitante.

Deste mundo físico, em si mesmo desin­teressante, o homem é parte. Seu corpo, como qualquer outro tipo de matéria, é compos­to por elétrons e prótons, que, até onde sabemos, obedecem às mesmas leis a que se submetem os elétrons e prótons que não constituem animais e plantas. Alguns sustentam que a fisiologia jamais poderá ser reduzida à física, mas seus argumentos não são muito convincentes, de sorte que parece prudente supor que estejam errados. Aquilo que chamamos de nossos “pensamentos” parece depender da disposição de trilhos em nosso cérebro, do mesmo modo que as jornadas dependem das rodovias e das estradas de ferro. A energia utiliza­da no ato de pensar parece ter uma origem química; por exemplo, uma deficiência de iodo fará de um homem inteligente um idiota. Os fenômenos mentais parecem estar intimamente vincu­lados a uma estrutura material. Se assim é, não podemos supor que um elétron ou um próton solitário seja capaz de “pensar”; seria como espe­rar que um indivíduo sozinho pudesse jogar uma partida de futebol. Tampouco podemos supor que o pensamento individual possa sobre­viver à morte corporal, uma vez que ela destrói a organização do cérebro e dissipa a energia por ele utilizada.

Deus e a imortalidade, dogmas centrais da religião cristã, não encontram respaldo na ciên­cia. Não se pode dizer que uma ou outra dessas doutrinas seja essencial à religião, na medida em que nenhuma delas é encontrada no budismo (com respeito à imortalidade, tal afirmação, feita de maneira inadequada, pode ser enga­nosa, mas, em última análise, está correta). Entretanto, nós ocidentais passamos a concebê-las como o mínimo irredutível da teologia. Sem dúvida, as pessoas continuarão a alimentar essas crenças, visto que lhe são aprazíveis, como aprazível é atribuir-nos a virtude e aos nossos inimigos o vício. De minha parte, porém, não vejo nelas qualquer fundamento. Não pretendo provar que Deus não existe. Tampouco posso provar que o Diabo seja uma ficção. É possível que exista o Deus cristão, assim como é possível que existam os deuses do Olimpo, do Egito antigo ou da Babilônia. Mas nenhuma dessas hipóteses é mais provável do que a outra: residem fora da região do conhecimento provável e, portanto, não há razão para considerar qualquer uma delas. Não me estenderei sobre essa questão, tendo em vista que já a tratei em outra oportunidade.(*)

A questão da imortalidade pessoal assenta-se sobre uma base um tanto diferente. Aqui, a evidência é possível em ambos os sentidos. Os indivíduos fazem parte do mundo cotidiano de que se ocupa a ciência, sendo possível descobrir as condições que determinam sua existência. Uma gota d’água não é imortal; pode ser decomposta em oxigênio e hidrogênio. Assim, se uma gota d’água alegasse possuir uma qualidade aquosa que sobreviveria à sua dissolução, estaríamos inclinados ao ceticismo. Da mesma forma, sabemos que o cérebro não é imortal e que a energia organizada de um corpo vivo é, por assim dizer, desmobilizada à hora da morte, estando consequentemente indisponível para uma ação coletiva. Todas as evidências vêm demonstrar que o que consideramos nossa vida mental está intimamente relacionado à estru­tura do cérebro e à energia corporal or­ga­ni­zada. Logo, é razoável supor que a vida mental cesse no momento em que cessa a vida material. Por mais que esse argumento seja apenas uma proba­bilidade, ele é tão consistente quanto aqueles em que se baseia a maior parte das conclusões científicas.

Há várias áreas em que essa conclusão poderia ser atacada. A pesquisa psíquica alega ter evidências científicas verdadeiras da sobrevi­vência, e não há dúvida de que seu procedi­men­to, em princípio, está cientificamente correto. Evidências dessa espécie poderiam ser de tal forma esmagadoras que a ninguém com espírito científico seria dado rejeitá-las. Porém, a relevância a ser atribuída a elas deve depender da proba­lidade a priori da hipótese de sobrevivência. Há sempre maneiras diferentes de explicar cada conjunto de fenômenos, e, dentre eles, devemos prefe­rir aquele que é, a priori, menos impro­vável. Os que já consideram provável sobrevivermos à morte estarão prontos para ver nessa teoria a melhor explicação para os fe­nô­me­nos físicos. Aqueles que, baseados em outros critérios, julgarem-na implausível partirão em busca de outras explicações. De minha parte, considero as evidências até aqui aduzidas pela pesquisa psíquica em favor da sobrevivência muito mais frágeis do que as evidências fisiológicas apresentadas pelo outro lado. Mas admito plenamente que poderiam a qualquer momento tornar-se mais fortes, e, nesse caso, seria pouco científico descrer da sobrevivência.

A sobrevivência à morte corporal é, no entanto, um assunto diferente da imortalidade: só pode significar um adiamento da morte psí­quica. É na imortalidade que os homens desejam crer. E os que creem na imortalidade irão se opor a argumentos de cunho fisiológico, a exemplo dos que venho utilizando, sob a alegação de que alma e corpo são coisas totalmente díspares e que a alma é algo absolutamente diverso às suas manifestações empíricas por meio de nossos órgãos. Creio ser essa uma superstição metafísica. Espírito e matéria, para certos propósitos, são termos igualmente convenientes, mas não realidades supremas. Os elétrons e os prótons, a exemplo da alma, são invenções lógicas; cada qual constitui uma história, uma série de acontecimentos, e não uma entidade permanente isolada. No caso da alma, tornam-no óbvio os fatos relativos ao desenvolvimento. Quem quer que considere a concepção, a gestação e a infân­cia não pode acreditar seriamente que ao longo de todo esse processo a alma seja algo indivisível, perfeito e completo. É evidente que ela se desen­volve como o corpo e se origina tanto do esper­matozoide como do óvulo, de sorte que não pode ser indivisível. Não se trata aqui de materialismo: é simplesmente o reconhe­cimento de que tudo o que é interessante é uma questão de organização, e não de substância primor­dial.

Os metafísicos aventaram incontáveis argu­­mentos no intuito de provar a imortali­dade da alma. Mas há um simples teste por meio do qual todos esses argumentos podem ser demolidos. Provam todos, igualmente, que a alma deve penetrar a totalidade do espaço. Mas, da mesma forma como não estamos tão ansiosos para engordar quanto para ter uma vida longa, nenhum dos metafísicos em apreço jamais percebeu essa aplicação de seu raciocínio. Eis um exemplo do poder assombroso exercido pelo desejo ao cegar até mesmo homens competentes ante falácias cuja obviedade seria de outro modo imediatamente reconhecida. Se não temêssemos a morte, creio que a ideia de imortalidade jamais houvesse surgido.

O medo é a base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana. O medo dos seres humanos, individual ou cole­tivamente, domina muito de nossa vida social, mas é o medo da natureza que dá origem à religião. A antítese entre espírito e matéria, como vimos, é mais ou menos ilusória; mas há uma outra antítese mais importante, a saber: aquela entre as coisas que podem e as que não podem ser afetadas por nossos desejos. A linha que as divide não é nítida nem imutável – à medida que a ciência avança, cada vez mais o controle humano exerce seu domínio sobre as coisas. Todavia, há coisas que permanecem definitivamente do outro lado. Entre elas encontram-se todos os grandes fatos de nosso mundo, os tipos de fatos de que se ocupa a astronomia. São apenas os fatos que se verificam sobre ou perto da superfície da terra que podemos, em certa medida, moldar aos nossos desejos. E mesmo sobre a superfície da terra nossos poderes são muito limitados. Acima de tudo, não podemos evitar a morte, ainda que muitas vezes consigamos adiá-la.

A religião representa uma tentativa de supe­rar essa antítese. Se o mundo é controlado por Deus, e Deus pode ser movido pela prece, somos detentores de uma parcela dessa oni­­­po­tên­­cia. Em tempos passados, os milagres acon­te­­ciam em resposta a súplicas; na Igreja Ca­tó­li­ca eles ainda ocorrem, mas os protes­t­an­tes perderam tal poder. Contudo, é possível prescindir desses milagres, uma vez que a Providência decretou que a operação das leis naturais produzirá os melhores resultados possíveis. Logo, a crença em Deus serve para humanizar o mundo da natureza e para fazer com que os homens sintam que as forças físicas são realmente suas aliadas. Da mesma forma, a imortalidade rechaça o pavor da morte. Os que creem que na morte herdarão a bem-aventurança eterna quiçá possam encará-la sem horror, ainda que, para a felicidade dos médicos, isso não aconteça com frequência. De toda forma, essa crença alivia um pouco os temores dos homens, mesmo quando não pode atenuá-los de todo.

A religião, por ter no terror a sua origem, dignificou certos tipos de medo e fez com que as pessoas não os julgassem vergonhosos. Nisso prestou um grande desserviço à humanidade, uma vez que todo medo é ruim. Acredito que quando morrer apodrecerei e nada de meu ego sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenharia estremecer de pavor diante do pensamento da aniquilação. A felicidade não deixa de ser verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim; tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos. Muitos homens preservaram o orgulho ante o cadafalso; decerto o mesmo orgulho deveria nos ensinar a pensar verdadeiramente sobre o lugar do homem no mundo. Ainda que as janelas abertas da ciência a princípio nos façam tiritar, depois do tépido e confortável ambiente fami­liar de nossos mitos humanizadores tradi­cionais, ao fim o ar puro nos confere vitali­dade, e ademais os grandes espaços têm seu próprio esplendor.

A filosofia da natureza é uma coisa; a filoso­fia do valor é totalmente distinta. Confun­di-las não gera senão prejuízo. O que consideramos bom, aquilo de que deveríamos gostar, não tem qualquer relação com o que é – questão esta concernente à filosofia da natureza. Por outro lado, não nos podem proibir de dar valor a isso ou àquilo pelo fato de o mundo não humano não fazê-lo; tampouco nos podem compelir a admirar alguma coisa por ser uma “lei da natureza”. Sem dúvida somos parte da natureza, que produziu nossos desejos, esperanças e temores de acordo com leis que os cientistas estão come­çando a descobrir. Nesse sentido, somos parte da natureza, estamos a ela subordinados, somos consequência das leis naturais e, em última instância, suas vítimas.

A filosofia da natureza não deve ser indevi­da­mente terrena; para ela, a terra não é senão meramente um dos menores planetas de uma das menores estrelas da Via Láctea. Seria ridículo perverter a filosofia da natureza a fim de apresentar resultados aprazíveis aos diminutos parasitas deste planeta insignificante. O vita­lismo como filosofia, não menos que o evolu­cionismo, revela, a esse respeito, falta de senso de proporção e relevância lógica. Toma os fatos da vida que nos são pessoalmente inte­ressantes como detentores de um significado cósmico, e não de um significado restrito à superfície terrestre. O otimismo e o pessimismo, na qualidade de filosofias cósmicas, revelam o mesmo humanismo ingênuo; o universo, até onde o conhecemos pela filosofia da natureza, não é bom nem mau, nem se ocupa em nos fazer felizes ou infelizes. Todas essas filosofias nascem da presunção humana e são mais bem corrigidas com um quê de astronomia.

Entretanto, na filosofia do valor a situação se inverte. A natureza é apenas parte daquilo que podemos imaginar; todas as coisas, sejam elas reais ou imaginárias, podem por nós ser aprecia­das, e não há padrão externo a mostrar que nossa apreciação está errada. Somos nós os árbitros máximos e irrefutáveis do valor, e do mundo do valor a natureza constitui apenas uma parte. Logo, nesse universo, somos maiores que a natureza. No mundo dos valores, a natureza em si é neutra – nem boa nem ruim, merecedora nem de admiração nem de cen­sura. Somos nós quem criamos valor, e são nossos desejos que o conferem. Desse império somos reis e de nossa realeza nos tornamos indignos se à natureza nos curvamos. Estabelecer uma vida plena cabe portanto a nós, e não à natureza – nem mesmo à natureza personificada como Deus.

(Bertrand Russell - No Que Acredito)

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