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A metafísica da barba

por Thynus, em 28.05.16
Em todas as épocas e em todos os países civilizados, o costume de barbear-se derivou da noção correta do contrário, motivo pelo qual se pretendia sobretudo ser um homem, de certo modo um homem in abstracto, sem levar em conta a diferença animalesca do sexo. Em contrapartida, o comprimento da barba sempre acompanhou a par e passo a barbárie, assemelhando-se a esta inclusive no nome.
(Arthur Schopenhauer - A Arte de Insutar)


Não se conhece bem o homem que nunca deixou a barba crescer. Digo isto sem preconceitos, porque não pertenço mais à confraria dos barbados. Mas estou convencido de que se conhece mal o homem que nunca deixou irromper na floresta de seu rosto o outro, o selvagem, o agente adormecido, o hirsuto.
Não quero tirar a sabedoria de imberbe algum. Apenas fazê-lo cogitar do quão basta ela poderia ser estampada no seu rosto. Os deuses sempre tiveram barbas. Jeová sem barba não ditaria sequer o primeiro dos mandamentos. Por isto, Moisés subiu a montanha barbudamente. Vejam Napoleão, sem barba, um desastre. Já os generais brasileiros do século XIX, barbados, não perderam uma guerra. Claro que estou brincando. E falando sério. Mas a ambiguidade não é minha. Cristo até o século VI era apresentado como imberbe. Sacerdotes egípcios raspavam todos os pelos do corpo, mas algumas rainhas, para representarem o poder, usavam barba postiça.
Barba é um assunto seriíssimo. O leproso era obrigado a usar um véu sobre a barba. Pedro, o Grande, declarou a barba infame e cobrava impostos dos barbados. Os hippies e Fidel Castro, nos anos 1960, reinventaram a barba para disputar o poder.
Ninguém deixa a barba crescer de um dia para o outro impunemente. Claro que em alguns períodos isto pode ser moda pura, e aí o gesto perde sua gravidade. A barba autêntica é aquela que nasce de uma crise que precipita o indivíduo nas cavernas do seu ser. Grandes místicos acordam um dia com a cabeleira encanecida após uma luta mortal entre anjos e demônios. Também da face de um profano podem escorrer os pelos da metamorfose numa inesperada manhã.
Há mulheres que, tendo conhecido a sabedoria erótica da barba nos lençóis do dia, nunca mais se contentarão com a banalidade barbeada de outros amores. Conheci uma que só alcançou o himalaia do seu erotismo quando o santo amante a elevou aos píncaros de sua barba. Conheci também casos dramáticos: um dia o marido foi ao barbeiro e, aceitando uma provocação, ordenou-lhe que raspasse de vez o cavanhaque e o bigode. Aceitava o desafio. Ia mudar a cara da vida. Contudo, ao regressar para casa os vizinhos já o estranharam e alguns nem o cumprimentavam. Ao abrir a porta, a filha deu um grito. A esposa acorreu, viu e desfaleceu. Depois, um conselho da família condenou o réu. O que pensava ele? Aquele cavanhaque pertencia à família. Resultado: o humilhado pai, o abatido esposo, ficou uma semana num consternado face a face com a família até que, recomposto, o cavanhaque pudesse desfilar pela vizinhança.
Se isto acontece a um simples cavanhaque, imaginem o que sucede a quem, de repente, não mais que repentinamente, raspa a sua peluda imagem do olho alheio.
As pessoas pensam que a sua imagem é delas. Não é. É também incalculavelmente dos outros. A comunidade exerce um controle sobre a imagem alheia. Passa por aí todo o fenômeno de estar na moda, inserir-se num padrão social. Tentem divorciar-se, mudar de religião, hábitos sexuais etc. Os demais sentem um terremoto nos pés. Foram traídos. Acham que o outro rompeu o equilíbrio do sistema. Um presidente não pode botar e tirar a barba à revelia, como edita decretos.
Quando se tem barba descobre-se um outro lado do homem-idade; os barbudos são uma confraria. Deveria até haver uma sociedade que os abrigasse, tipo maçonaria. Eles se observam se estudando minuciosamente, discretamente, nos teatros, bares e até num relance de olhos na calçada. Avaliam a barba do parceiro como só as mulheres sabem avaliar um penteado, uma joia ou vestido na outra. Quem tem espessa barba olha sempre condescendente para quem tem a rala barba de bode. Ter aquela barbona é coisa de animal macho, conferindo a superioridade de seus chifres na campina para o controle da fêmea.
Indizível prazer é esse de cofiar a barba. Inconsciente. Ritualisticamente. Enquanto se lê, enquanto se aguarda o outro dizer uma frase estúrdia, enquanto se toma um vinho ou se afaga o cão junto à lareira. No inverno, barba é ótimo. Coisa de urso. Sabiam que o urso cresce o tamanho do pelo de acordo com o rigor do inverno? Por que não o homem?
O misterioso fascínio dos barbudinhos
 Bem dizia Walmor Chagas outra noite, num jantar, quando se discutia a metafísica da barba: a barba é uma máscara como no teatro; é o outro em nós, um modo de o personagem se experimentar em cena.
A verdade é que a barba faz o sujeito, mas o sujeito faz a barba. Por isto, complementando o que se disse na primeira frase desta crônica, e invertendo-a, não se conhece bem o homem que nunca cortou a barba. A barba, como a sabedoria, administra-se. Não pode vir de fora para dentro.
Raspar a barba na manhã. Recuperar um ritual abandonado. O rosto se amplia. Santos óleos escorrem perfumando o dia. O cara a cara consigo mesmo. Também o desbastar, rejuvenescer. Toda manhã aquele barulhinho; croque-croque, rosque-rosque. O filho dentro e fora do pai vendo-o barbear-se. A luta contra o tempo (croque-croque, rosque-rosque), o tempo agreste, selvagem, que nos olha por trás do espelho irreversivelmente.

  (Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)

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publicado às 03:59


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