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A matéria da vida

por Thynus, em 28.11.14
 

 
 
Se seus pais não tivessem se unido exatamente quando se uniram – possivelmente naquele segundo exato, possivelmente naquele nanossegundo exato –, você não estaria aqui. E se os pais deles não tivessem se unido igualmente no momento certo, você tampouco estaria aqui. E se os pais dos pais deles não tivessem feito o mesmo, e os pais dos pais dos pais deles antes, e assim indefinidamente, é claro que você não estaria aqui.
Volte para trás no tempo, e essas dívidas para com os ancestrais começam a aumentar. Recue apenas oito gerações, até mais ou menos o tempo em que Charles Darwin e Abraham Lincoln nasceram, e já existem mais de 250 pessoas de cuja união oportuna sua existência depende.
Continue retrocedendo até o tempo de Shakespeare e dos peregrinos do May flower, e você terá não menos de 16 384 ancestrais trocando com ardor material genético de uma maneira que, com o tempo e milagrosamente, viria a resultar em você.
Vinte gerações atrás, o número de pessoas procriando em seu favor aumentou para 1 048 576. Cinco gerações antes, existem nada menos que 33 554 432 homens e mulheres de cujas uniões dedicadas depende a sua existência. Trinta gerações atrás, o número total de seus ancestrais – lembre-se de que não se trata de primos e tias e outros parentes secundários, mas apenas de pais, e pais dos pais, em uma linhagem que leva inevitavelmente até você – supera 1 bilhão (1073741824, para ser preciso). Se você retroceder 64 gerações, até o tempo dos romanos, o número de pessoas de cujos esforços cooperativos sua existência eventual depende aumentou para aproximadamente 1 000 000 000 000 000 000, que é milhares de vezes o total de pessoas que já viveram na Terra.
É evidente que há algo errado em nossa matemática aqui. A resposta, talvez lhe interesse saber, é que sua linhagem não é pura. Você não poderia estar aqui sem um pouco de incesto – na verdade, muito incesto –, embora a uma distância geneticamente discreta. Com tantos milhões de ancestrais nas costas, várias foram as ocasiões em que um parente do lado materno de sua família procriou com algum primo distante do lado paterno. Na verdade, se você está unido a alguém de sua própri a raça e país, são excelentes as chances de possuírem algum nível de parentesco. De fato, se você olhar à sua volta em um ônibus, parque, café ou qualquer lugar apinhado, a maioria das pessoas que verá provavelmente é seu parente. Quando alguém se vangloria de descender de Guilherme, o Conquistador, ou dos peregrinos do May flower, você deve responder imediatamente: “Eu também!”. No sentido mais literal e fundamental, somos todos da mesma família.
Somos todos misteriosamente semelhantes. Compare seus genes com aqueles de qualquer outro ser humano: em média, serão 99,9% iguais. É isso que nos torna uma espécie. As diferenças minúsculas naquele 0,1% restante – “aproximadamente uma base de nucleotídeo em cada mil”, para citar o geneticista britânico John Sulston, recentemente premiado com n Nobel{Sulston e Ferry , The common thread, p. 198} – são o que nos proporciona nossa individualidade. Muito se avançou nos últimos anos no desvendamento do genoma humano. Cada genoma humano é diferente. Senão seríamos todos idênticos. São as recombinações incessantes de nossos genomas – todos quase idênticos, mas não totalmente – que fazem de nós o que somos, como indivíduos e como espécie.
Mas o que é exatamente essa coisa a que chamamos de genoma? E o que vêm a ser os genes? Bem, comecemos com uma célula de novo. Dentro da célula existe um núcleo, e dentro de cada núcleo estão os crommossomos – 46 pequenos feixes de complexidade, dos quais 23 vêm de sua mãe e 23, de seu pai. Com pouquíssimas exceções, cada célula em seu corpo – 99,999% delas, digamos – possui o mesmo complemento de cromossomos. (As exceções são os glóbulos vermelhos, algumas células do sistema imunológico e o óvulo e o espermatozóide, os quais, por diferentes motivos organizacionais, não possuem o paco genético pleno.){Woolfson, Life without genes, p. 12}. Os cromossomos constituem o conjunto completo de instruções necessárias para formar e preservar você e são feitos de longos filamentos do pequeno milagre químico chamado ácido desoxirribonucléico ou DNA – “a molécula mais extraordinária da Terra”, como foi chamado.
 
O DNA existe por um único motivo – criar mais DNA – e existe em grande quantidade dentro de você: cerca de dois metros espremidos dentro de quase todas as células. Cada extensão de DNA compreende aproximadamente 3,2 bilhões de letras de codificação, o suficiente para fornecer 103 480 000 000 combinações possiveis, “garantidamente únicas contra todas as chances concebíveis”, nas palavras de Christian de Duve.{De Duve, A guided tour of the living cell, vol. 2, p. 314}. Trata-se de numerosas possibilidades – um seguido de mais de 3 bilhões de zeros. “Seriam precisos mais de 5 mil livros de tamanho normal para imprimir tal cifra”, ressalta de Duve. Observe-se no espelho e reflita sobre o fato de que você está contemplando 10 mil trilhões de células, e que quase todas elas contêm 1,8 metro de DNA densamente compactado, e você terá uma ideia da enormidade desse material que carrega consigo. Se todo o seu DNA fosse reunido em um único filamento fino, seria comprido o bastante para se estender da Terra à Lua e de volta, não uma ou duas vezes, mas várias vezes.{Dennett, Darwin’s dangerous idea, p. 151}. No todo, de acordo com um cálculo, você pode ter até 20 milhões de quilômetros de DNA empacotados no seu interior.{Gribbin e Gribbin, Being human, p. 8}.
Seu corpo, em suma, adora produzir DNA, e sem ele você não conseguiria viver. Mas o próprio DNA não está vivo. Ao contrário de qualquer outra molécula, ele é, por assim dizer, especialmente “inanimado”. Está “entre as moléculas mais não reativas e quimicamente inertes do mundo vivo”, nas palavras do genesticista Richard Lewontin.{Lewontin, It ain’t necessarily so, p. 142}. Por isso pode ser recuperado de restos de sangue ou sêmen secos há muito tempo, em investigações de homicídios, e obtidos dos ossos de antigos homens de Neandertal. Daí também o longo tempo que os cientistas levaram para decifrar como uma substância tão contida – isto é, tão sem vida – poderia estar no cerne da própria vida.

(BILL BRYSON - Breve história de quase tudo)
Um grão de arroz, uma mosca, um chimpanzé e um ser humano apresentam muitas diferenças, mas ainda assim, a semelhança genética é bem grande!

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publicado às 17:30


1 comentário

De A Vertigem a 28.11.2014 às 18:04

É verdade. Somos provenientes do mesmo par, que nasceu neste planeta. Desdobramos em infinitas formas. 

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