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A máquina de experiências

por Thynus, em 11.02.16
Suponha que exista uma máquina de experiências capaz de realizar qualquer experiência que você desejasse. Superneuropsicólogos poderiam estimular o seu cérebro para que você pensasse e sentisse que estava escrevendo um grande romance, ou fazendo um amigo, ou lendo um livro interessante. O tempo todo você estaria flutuando num tanque, com eletrodos conectados ao seu cérebro. Você ficaria plugado nessa máquina a vida inteira, programando todos os seus desejos? …Claro que estando no tanque você não perceberia que está lá; você pensaria que tudo estaria acontecendo de verdade… Você se plugaria nessa máquina? O que é mais importante para nós, além do modo como sentimos a vida em nosso interior?

O criador dessa experiência sobre o pensamento de 1974, o filósofo norte-americano Robert Nozick, acha que as respostas para as perguntas finais acima são, respectivamente, “Não” e “Muita coisa”. Na aparência, a máquina de experiências se parece bastante com a cuba de Putnam (veja a página 4). As duas descrevem realidades virtuais nas quais um mundo é simulado de tal modo que se torna completamente indistinguível, pelo menos do lado de dentro, da vida real. Mas, enquanto o interesse de Putnam reside na situação do cérebro dentro da cuba e o que isso nos diz sobre os limites de ceticismo, a preocupação maior de Nozick é com a situação das pessoas antes de serem ligadas à máquina: será que escolheriam passar a vida na máquina e, caso escolhessem isso, o que podemos aprender com a escolha delas? 

« Entre a dor e nada, prefiro a dor. » 
William Faulkner, 1939 

A escolha é entre uma vida simulada de puro prazer na qual cada ambição e cada desejo são realizados e uma vida real marcada por expectativas frustradas e desapontamentos, a mistura usual de sucessos parciais e sonhos incompletos. Apesar da óbvia atração da vida ligada à máquina de experiências, Nozick pensa que a maioria das pessoas escolheria não ficar plugada nela. A realidade da vida é importante: queremos fazer certas coisas, não apenas experimentar o prazer de fazêlas. No entanto, se o prazer fosse a única coisa que afetasse o nosso bem-estar, se fosse o único componente da boa vida, certamente faríamos outra escolha, uma vez que mais prazer seria alcançado se estivéssemos plugados na máquina de experiências. Com base nesse fato, Nozick conclui que existem outras coisas além do prazer que consideramos intrinsecamente valiosas.

O utilitarismo clássico 
Essa conclusão é prejudicial a qualquer teoria ética hedonista (baseada no prazer), em particular ao utilitarismo, pelo menos na formulação clássica feita por seu criador, Jeremy Bentham, no século XVIII. O utilitarismo afirma que as ações devem ser julgadas certas ou erradas na medida em que aumentam ou diminuem o bem-estar humano, sua “utilidade”. Várias interpretações de utilidade foram propostas desde os tempos de Bentham, mas, para o filósofo, ela consistia em prazer ou felicidade humanos, e sua teoria da ação certa às vezes é resumida como a promoção de “mais felicidade para o maior número de pessoas”.
O utilitarismo não receia conclusões morais que contrariam nossas instituições normais (veja a página 68). Na verdade, uma de suas principais recomendações, segundo Bentham, seria prover uma base racional e científica para tomadas de decisão morais e sociais, em contraste com as instituições caóticas e incoerentes nos quais se baseavam os chamados direitos naturais e a lei natural. Para estabelecer tal base racional, Bentham propôs um “felicific calculus”, de acordo com o qual diferentes quantidades de prazer e dor produzidas por diferentes ações poderiam ser medidas e comparadas; a ação certa numa dada ocasião poderia então ser determinada por um simples processo de adição e subtração.

« A natureza colocou a humanidade sob o domínio de dois senhores soberanos, a dor e o prazer. Só a eles cabe indicar o que devemos fazer. »
Jeremy Bentham, 1785

Variedades de utilitarismo
O utilitarismo é, historicamente, uma versão significativa do consequencialismo, que diz que as ações devem ser julgadas certas ou erradas segundo suas consequências (veja a página 69). No caso do utilitarismo, o valor das ações é determinado por sua contribuição ao bem-estar, ou “utilidade”. No utilitarismo clássico (hedonista) de Bentham e Mills, a utilidade é entendida como prazer humano, mas desde então essa ideia foi modificada e ampliada de vários modos. Essas abordagens diferentes reconhecem tipicamente que a felicidade humana depende não só do prazer, mas também da satisfação de um amplo leque de desejos e preferências. Alguns teóricos sugeriram estender o alcance do utilitarismo além do bem-estar humano para outras formas de vida sensível.
Também existem pontos de vista diferentes sobre como o utilitarismo pode ser aplicado às ações. Segundo o utilitarismo direto ou utilitarismo de ato, cada ação é avaliada diretamente em termos de sua contribuição à utilidade. Em contrapartida, de acordo com o utilitarismo de regra, um curso de ação apropriado é determinado tendo como referência vários conjuntos de regras que irão, se seguidas por todos, promover a utilidade. Por exemplo, matar uma pessoa inocente, em certas circunstâncias, resulta na salvação de muitas outras vidas, portanto, aumenta a utilidade geral; então, para o utilitarismo de ato, esse seria um curso de ação correto. No entanto, como regra, matar uma pessoa inocente diminui a utilidade, então o utilitarismo de regra poderia dizer que essa mesma ação foi errada, mesmo que possa ter tido consequências benéficas numa ocasião específica. O utilitarismo de regra pode assim estar mais de acordo com as nossas intuições comuns sobre questões morais, embora isso não o tenha recomendado aos mais recentes pensadores utilitaristas, que por diversas razões o julgam incoerente ou sujeito a objeções



Assim, para Bentham, prazeres diferentes diferem apenas no que diz respeito à sua duração e intensidade, não à sua qualidade; uma concepção bastante monolítica de prazer que parece vulnerável às implicações da máquina de experiências de Nozick. Dada sua natureza descompromissada, podemos supor que Bentham teria pisoteado de bom grado a intuição extraída da experiência de pensamento de Nozick. No entanto, J. S. Mill, outro dos fundadores do utilitarismo, estava mais preocupado em aparar algumas das arestas da teoria.

Prazeres maiores e menores
Críticos contemporâneos foram rápidos em apontar como era limitada a concepção de moralidade oferecida por Bentham. Ao supor que a vida não tinha objetivo maior que o prazer, ele parecia ter deixado de fora muitas outras coisas que costumamos considerar inerentemente valiosas, como conhecimento, honra e realização; ele havia proposto (como registrou Mill) “uma doutrina digna de porcos”. O próprio Bentham, de modo esplendidamente igualitário, confrontou a acusação de cabeça erguida: “Preconceitos à parte”, declarou ele, “o jogo pushpin tem o mesmo valor que as arte e as ciências da música e da poesia”. Em outras palavras, se um prazer maior for alcançado por meio de um jogo popular, o jogo tem, sim, mais valor que os mais refinados produtos do intelecto.
Mill sentiu-se incomodado com a conclusão sem rodeios de Bentham e procurou modificar o utilitarismo para evitar ataques dos críticos. Além das duas variáveis usadas por Bentham para medir o prazer – duração e intensidade –, Mill escolheu uma terceira – qualidade –, apresentando assim uma hierarquia de prazeres maiores e menores. De acordo com essa distinção, alguns prazeres, tais como os do intelecto e da arte, têm mais valor que os prazeres físicos e, ao dar-lhes mais peso no cálculo do prazer, Mill pôde concluir que “a vida de Sócrates insatisfeito é melhor que a vida de um tolo satisfeito”. Essa alteração, porém, teve um custo. A princípio, algo que aparentemente era atraente no esquema de Bentham – a simplicidade – foi diminuído, embora, de qualquer modo, a operação do “felicific calculus” apresente dificuldades. Mais que isso, a noção de diferentes tipos de prazer apresentada por Mill parece exigir outros critérios além do prazer para diferenciá-los. Se algo além do prazer constitui o que Mill considera utilidade, isso o ajuda a enfrentar a questão levantada por Nozick, mas por outro lado nos faz questionar se a teoria dele continua sendo utilitária.

« Ações são corretas na na medida em que tendem a promover a felicidade, erradas quando tendem a produzir o oposto da felicidade. » 
J. S. Mill, 1859
 
a ideia resumida: 
A felicidade basta?
 
(Dupré, Ben - 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer)

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publicado às 23:30



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