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Pã começa a soprar seu instrumento (a flauta),
 e os sons que saem são roucos e rústicos, à imagem de quem os toca.
Têm muitos encantos, é claro, mas são brutos, para não dizer bestiais; o som que o
sopro tira dos tubos de cana é idêntico ao que o vento produz na natureza, entre as
taquaras. A lira de Apolo, em contrapartida, é um instrumento sofisticadíssimo; explora
com precisão matemática as relações entre o comprimento das cordas e sua respectiva
tensão, garantindo uma perfeita justeza em suas relações, mais ou menos simbolizando
a harmonia, igualmente sofisticada, que os deuses estabeleceram na escala do universo.
É um instrumento ao mesmo tempo delicado e civilizado, o oposto da rusticidade da
flauta, sendo a sedução suscitada pela lira inteiramente originada na suavidade
..
(Luc FerrY) 
Aimé Millet: Apolo entre as Musas da Poesia e da Música, c. 1860–1869. Ópera Garnier, Paris

Hermes é um dos filhos preferidos de Zeus, que inclusive faz dele seu principal embaixador, enviando-o quando uma mensagem realmente importante tem que ser transmitida. Sua mãe é uma ninfa muito bonita, Maia, uma das sete Plêiades, que, por sua vez, são filhas de uma certa Pleioneia (é o que o nome delas significa em grego) e do Titã Atlas, que Zeus puniu obrigando-o a carregar o mundo nas costas. O mínimo que se pode dizer é que o pequeno Hermes mostra-se incrivelmente precoce. “Tendo nascido pela manhã”, conta o autor do hino homérico, “ele já tocava cítara à tarde e, à noite, roubou vacas do arqueiro Apolo...”. Ou seja, um primeiro dia de existência bastante intenso; recém-nascido com poucas horas de vida, Hermes já era um músico de mão cheia e um ladrão fora de série! Assim que abre um olho, mal sai da barriga da mãe, imagine que o pequeno Hermes se põe imediatamente em busca das vacas do rebanho de Apolo. No caminho, vê uma tartaruga na montanha e estoura de rir; assim que olha a infeliz, percebe tudo que pode fazer com ela. Volta rapidamente para casa, esvazia o pobre animal, mata uma vaca, estica a pele em torno do casco, fabrica cordas com as tripas e chaves para esticá-las, com canas. Acabava de nascer a lira, e ele pôde produzir sons perfeitamente justos, bem mais harmoniosos do que os da flauta de Pã! Não satisfeito com essa primeira invenção, Hermes parte de novo à procura das vacas imortais do irmão mais velho.
 Avistando o rebanho, ele separa cinquenta animais e, para que o roubo passe despercebido, leva-os andando para trás, tendo tomado o cuidado antes de amarrar em seus cascos uma espécie de raquete feita com mato, que ele fabrica às pressas para camuflar seus passos. Conduz as reses até uma gruta. Mais alguns minutos se passam e ele reinventa por conta própria o fogo. Sacrifica duas vacas em homenagem aos deuses e passa o restante da noite a espalhar as cinzas do fogo. Em seguida volta para a casa em que Maia lhe dera à luz e onde está o seu berço; ele volta a dormir com ares de recém-nascido, inocente como um cordeirinho. Ouvindo as reclamações da mãe, responde simplesmente que não suporta a pobreza e quer ser rico. Compreende-se bem por que se torna o deus dos comerciantes, dos jornalistas e dos ladrões. De fato, um primeiro dia bem intenso de um bebê divino.
É claro, Apolo acaba descobrindo a tramoia. Vai atrás do filhinho de Zeus e ameaça lançá-lo no Tártaro se não lhe devolver as vacas. Hermes jura por todos os deuses (é o caso de se dizer) ser inocente. Apolo levanta-o acima da cabeça para jogá-lo longe, mas Hermes diz algo muito engraçado e o outro o põe de volta no chão. A discussão acaba sendo levada ao tribunal de Zeus — que cai na gargalhada diante de tanta precocidade. Na verdade, se sente todo orgulhoso do caçula. O conflito entre Apolo e Hermes continua, mas este último mostra sua arma definitiva, a lira, e começa a tocar com tanta arte que Apolo, assim como Zeus, se desmancha e literalmente sucumbe ao charme da criança. Fascinado, Apolo, deus da música, está siderado pela beleza dos sons que saem do instrumento que ele ainda não conhecia. Em troca da lira, promete a Hermes torná-lo rico e célebre. Mas o menino continua a negociar, a pechinchar, e ainda consegue a guarda dos rebanhos do irmão mais velho! Completando o negócio, Apolo inclusive oferece o chicote de pastor e a vareta mágica de riqueza e opulência, a mesma que vai servir como emblema de Hermes, o famoso caduceu do qual vou contar a história daqui a pouco.
É nesse contexto que a lira aparece como o protótipo do instrumento divino, o atributo por excelência de Apolo. Para entender o alcance do mito de Midas — que em geral é considerado secundário, mas de forma totalmente errada — deve-se sempre lembrar que Apolo está do lado de Zeus, ou seja, dos olímpicos que lutam sempre para o estabelecimento da ordem cósmica e sua sustentação. É uma ordem ao mesmo tempo justa — pois resultante da divisão original estabelecida por Zeus após a vitória sobre os Titãs — e bela, boa e harmoniosa. No entanto, as forças telúricas de Caos e de seus múltiplos e variados descendentes, desde Tífon, ameaçam incessantemente a frágil harmonia. Apolo aqui representa uma força olímpica, anticaótica, antititânica e ligada ao famoso “conhece-te a ti mesmo” que orna seu templo em Delfos, isto é, como já expliquei, “Saiba qual é o seu lugar, seu lugar natural, e nele permaneça!” Sem hybris, sem arrogância, sem descomedimento que venha a perturbar a bela ordenação cósmica! Se Apolo gosta de música, é por ser uma metáfora do cosmos. Dioniso, sob muitos aspectos, é o contrário de Apolo. Evidentemente, Dioniso é também um olímpico, um filho de Zeus, e veremos mais adiante como ele reúne em si o cosmos e o caos, a eternidade e o tempo, a razão e a loucura. Num primeiro relance, porém, o que chama a atenção nele é o seu lado “acósmico”: ele gosta de festa, de vinho e de sexo até a loucura mortal, que toma conta das mulheres participantes de sua trupe. Dioniso é também um deus da música, é claro, mas a música que ele ama não é a de Apolo; não é suave e harmoniosa, mas bestial e louca. Ou seja, ela de forma alguma acalma os sentidos, e sim, pelo contrário, exprime de maneira propositadamente indecente o canto das paixões mais arcaicas. É o que explica que o seu instrumento-fetiche seja a flauta de Pã e de Mársias.
Veja como o jovem Nietzsche explicou, com muita justeza e profundidade, a diferença entre Apolo e Dioniso:
Apolo, deus ético, pede comedimento aos seus e, para que o preservem, indica o conhecimento de si mesmo. Por isso “conhece-te a ti mesmo” e “nada em excesso” acompanham a exigência estética, enquanto o orgulho exagerado e o descomedimento que, dentre todos os demônios, são os principais inimigos da esfera apolínica, foram considerados atributos dos tempos pré-apolínicos, da Idade dos Titãs ou do mundo extra-apolínico, ou seja, bárbaro [...] O grego apolínico deve igualmente ter considerado titânica e bárbara a ação do dionisíaco, sem, no entanto, poder esconder que, no fundo do seu ser, mantinha-se um parentesco com aqueles Titãs [...] Mais do que isso, deve ter compreendido que sua existência inteira, com toda beleza e comedimento, repousava sobre um fundo oculto de sofrimento e de conhecimento que o dionisíaco o fazia redescobrir. Desse modo, Apolo não pode viver sem Dioniso! O elemento titânico e bárbaro mostrava-se definitivamente tão necessário quanto o apolínico. Que se imagine o efeito produzido pela festa dionisíaca, com suas enfeitiçantes músicas, sobre aquele mundo artificialmente protegido, construído sobre a aparência e o comedimento [...] Que se imagine o que podia significar, diante dos demoníacos cantos populares, o artista apolínico, cantando salmos e com suas fantasmagóricas sonoridades de harpa [...] O descomedimento se revelou verdade; a contradição e a alegria nascida da dor falaram uma linguagem que brotava do coração da natureza. De forma que, em todos os lugares conquistados pelo dionisíaco, o apolínico foi abolido e destruído.(O Nascimento da Tragédia, § 4)
Nietzsche, que era bom músico, compreendeu perfeitamente três coisas essenciais. A primeira delas é que o tema do concurso musical não é anedótico, e sim essencial na mitologia, por uma razão básica: a música, trazendo ao cerne da arte a ideia de harmonia, é uma metáfora, em analogia com o cosmos ou, como o próprio filósofo escreveu, “uma réplica e uma segunda versão do universo”.(Ibid., § 5) A segunda é que na oposição entre Apolo e Dioniso — com este último representado por Pã ou Mársias, mas que foram, todo mundo percebe, postos em cena como substitutos, tratando-se de personagens que apenas representam Dioniso — é de novo a questão do caos e do cosmos, do titânico caótico e do olímpico cósmico que surge constantemente desde as origens do mundo. E a terceira é que, evidentemente, apesar de os dois universos divinos, o harmonioso e calmo, simbolizado por Apolo, e o outro, contraditório e dilacerado, que Dioniso representa, se oporem radicalmente nas aparências, eles, na verdade, são inseparáveis. Sem a harmonia cósmica, o caos vence e tudo fica devastado, mas sem caos, a ordem cósmica se paralisa, desaparecendo toda vida e toda história.
Na época em que escreveu o livro sobre a tragédia grega, Nietzsche estava profundamente influenciado por um filósofo, Schopenhauer, que ele considerava seu mestre (depois se afastou). Schopenhauer acabava de publicar um livro importante, com um título à primeira vista pouco compreensível: O Mundo como Vontade e Representação. Sem querer dar um resumo — é um livro volumoso e bem difícil —, posso, mesmo assim, fazer com que você compreenda uma das suas principais insistências: a convicção de Schopenhauer, e que Nietzsche segue em sua leitura dos gregos, é a de que nosso universo se encontra dividido em duas metades. De um lado, há um imenso fluxo caótico, desordenado, dilacerado, absurdo e sem sentido, na maior parte inconsciente, que ele denomina “vontade”; do outro lado, há, pelo contrário, uma desesperada tentativa de esclarecimento das coisas, tentando pô-las em ordem, voltar à calma, à consciência, dando sentido e, justamente, harmonia: é o que se chama “representação”. Nietzsche aplica essa distinção ao mundo grego: ao universo da vontade, absurda e dilacerada, corresponde o caos inicial das forças titânicas, e a divindade que, pelo menos dentro do Olimpo, encarna isso é Dioniso. Ao mundo da representação corresponde a ordem cósmica estabelecida por Zeus, com sua harmonia, calma e beleza. É óbvio, a lira de Apolo pertence ao mundo da “representação”, no sentido de Schopenhauer, e a flauta, dionisíaca, titânica, caótica, não civilizada e anticósmica, se remete ao outro mundo, o da vontade, também no sentido de Schopenhauer. Inclusive há sempre duas músicas que se disputam: a harmônica, suave, cósmica e civilizada, de um lado, e aquela dissonante, caótica, rouca, que imita as paixões inconscientes da vontade em estado bruto, de outro. Na verdade, a boa música, à imagem do cosmos grego, deve conter os dois universos. Midas, um ser grosseiro e próximo da natureza, se inclina para o lado dionisíaco. Não por acaso Dioniso é seu amigo, assim como Sileno e Pã, e também não por acaso os membros do séquito dionisíaco muitas vezes são seres meio-animais, meio-homens, com apetite sexual exagerado e apreciando imoderadamente as festas delirantes.
Em outras palavras, o que está em jogo, ou melhor, volta a estar em jogo na pequena fábula de Midas, que pode — mas apenas muito superficialmente — parecer banal, é, de novo, a vitória de Zeus contra os Titãs. E se Apolo fica tão furioso, não é, como facilmente se pode achar, por ter ficado “contrariado” — por que ele, divindade sublime, se importaria com o que acha ou não acha esse bobalhão do Midas? —, mas por precisar, por sua própria natureza, lutar contra a hybris sob todas as suas formas. Sua missão divina, olímpica, é combatê-la assim que germina. Punição para Midas — punido por onde pecou, no caso, as orelhas; cuidadosamente mantida a proporção entre a culpa e o castigo. Suplício atroz para Mársias: Midas é um tolo, um grosseirão que nada entendeu da dimensão cósmica da competição musical. Merece então ser colocado em seu devido lugar, o do animal estúpido, o asno. Para ele, uma simples punição basta. Mas com relação a Mársias, é preciso dar exemplo. Mársias é uma ameaça. Diferente de Midas, ele desafia diretamente um deus, e a violência do seu castigo só se explica se considerarmos que tal desafio se torna intolerável pelo fato de a ordem cósmica ser uma conquista frágil, superficial, por assim dizer; sob a superfície aparentemente ordenada e apaziguada, o mar revolto do caos não para de ameaçar voltar. Como não se entendia bem tanto furor por parte de Apolo, alguns mitógrafos chegaram a inventar que ele teria se arrependido da morte de Mársias, mas trata-se de invencionice particular e não da veracidade do mito.
Como você pode ver, a história de Midas, que tinha começado de forma mais ou menos cômica, termina estranhamente trágica. Diga-se, aliás, que essa brutalidade com que o cosmos — que é o que se ofende quando se ofendem os deuses — recupera seus direitos contra a hybris humana vai se tornar um dos mais seguros e poderosos recursos da tragédia grega.
Mas não vamos nos antecipar. Como disse, ainda não chegamos aí e, apesar desse pequeno desvio que serve mais ou menos como aperitivo, no estágio em que nos encontramos, o lugar dos mortais, e sobretudo o dos homens (pois há também os animais), ainda não está fixado. Sabemos onde estão os Titãs, e com eles Tífon — no Tártaro, solidamente acorrentados e vigiados pelos Hecatonquiros —, e podemos medir a ameaça de caos que eles representavam, mas que já está bem-controlada. Também conhecemos o lugar ou a missão que compete a cada deus em particular: o mar a Poseidon, os infernos a Hades, a terra a Gaia, o céu a Urano, o amor e a beleza a Afrodite, a violência e a guerra a Ares, a comunicação a Hermes, a inteligência e a astúcia a Atena, o fundo das trevas a Tártaro etc. Mas qual é, nesse universo organizado sob a égide de Zeus, o lugar reservado aos mortais? Ninguém ainda poderia dizer, nesse estágio.
No entanto, a questão é evidentemente crucial, pois, uma vez mais insisto, foram seres humanos que inventaram todas essas histórias, todo esse dispositivo teológico e cosmológico prodigiosamente sofisticado. E se o inventaram, certamente não foi à toa, somente para se distrair, e sim para dar sentido ao universo que os circunda e à vida que nele se deve levar, para tentar compreender o que fazem nessa terra e discernir o sentido de sua existência. Com três mitos inseparáveis entre si, o mito de Prometeu, o de Pandora (a primeira mulher) e o famoso mito da idade de ouro, a cultura grega começa a responder a essa interrogação fundamental. Num poema intitulado Os Trabalhos e os Dias, Hesíodo teve o cuidado de juntar estreitamente esses três grandes relatos, destinados a uma formidável posteridade, até os dias de hoje, na literatura, na arte e na filosofia. É então a eles que proponho seguir agora. Podemos depois ir às grandes narrativas míticas abordando hybris e diké, aos loucos descomedimentos perpetrados por alguns seres, assim como aos atos heroicos e justos cometidos por alguns, aqueles que em geral chamamos heróis.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

 (Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
Bernini: Apolo e Dafne, 1624. Galleria Borghese, Roma

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