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As mentiras maximizam os ganhos, principalmente aqueles entre
cobertas e travesseiros, porque ela era uma maravilha na cama!
E que dizer das mentiras híbridas? - Aquelas mentiras que tanto um
quanto outro conta. Ela e ele mente. H. L. Mencken: “É difícil acreditar
que um homem esteja dizendo a verdade quando você sabe muito bem
que mentiria se estivesse no lugar dele” ou, “Toda pessoa que diz sempre
a verdade acaba sendo apanhada em flagrante” (Oscar Wilde), são frases
célebres que explicam o nosso comentário. No caso dela, nas
conversinhas com as amiguinhas, o que vigora é a frase de Thomas Szacz: 

“O pênis não mente jamais”.
(Albertino Aor da Cunha - A Mentira Nua e Crua)
 
 
A ideia oficial que nos governa, de que o sexo e o amor caminham em plena sintonia, não se confirma quando, num casal que está em processo de encantamento recíproco, o homem se vê totalmente travado sexualmente. É claro que essa não é uma regra geral, mas acontece com regularidade suficiente para servir de exemplo aqui. O homem sente-se envergonhado e incapaz de explicar o que está acontecendo, posto que em geral é a primeira vez que isso ocorre – e, quando eles dizem isso, não costuma ser uma mentira para atenuar seu constrangimento. A mulher, por sua vez, sente-se pouco atraente, tendo a sensação de tê-lo decepcionado, de não ser tão interessante quanto ele pensava – esse tipo de reação, mais que lógica, não tem nenhuma correspondência com a realidade; muitos desses homens já estiveram com mulheres bem menos atraentes e nada disso lhes aconteceu.
Como explicar um fato dessa natureza? Por que essa inibição justamente quando o envolvimento parecia crescer e evoluir para um elo intenso e promissor? E tudo isso acontecendo com um homem que nunca teve problema sexual? Não há explicação conhecida para o nosso nível oficial de consciência, e sempre que isso acontece o mais sábio é consultar o segundo nível. Essa consulta pode ser feita de duas maneiras. A primeira seria buscar um fundamento de natureza patológica, ou seja, averiguar se haveria um problema escondido por trás dessa dificuldade. Esse modo de pensar, a meu ver simplificador, é comum a muitos profissionais de psicologia. A outra maneira, bem mais a meu gosto, seria tentar entender a boa e lógica razão para o acontecido.
Prefiro partir do ponto de vista de que, em casos como esses, caracterizados por um envolvimento amoroso intenso e em alguém sem antecedentes de dificuldades sexuais, deve haver um motivo justo para a inibição.
De acordo com minha experiência, acompanhando várias dezenas de histórias desse tipo, a razão para a inibição é uma espécie de freada que o homem provoca em seu ímpeto na direção do envolvimento amoroso. Ou seja, a fusão romântica é um anseio forte em todos nós, mas também assusta bastante. Num contexto desses, o medo reina e inibe a sexualidade, talvez como último recurso para tentar levar o homem – e o casal – a ir mais devagar, ponderar acerca de todas as variáveis envolvidas no caso deles e, principalmente, aprender que o elo amoroso intenso provoca muito medo, medo esse que tem consequências.
Os homens costumam pensar e dizer que seu pênis não lhes obedece, que eles são governados por uma “cabeça própria”. De certa forma, têm razão: não é o nível oficial de consciência que determina a ereção, e sim esse segundo nível; ou seja, o que governa o pênis é a nossa cabeça, mas não aquela parte que obedece às regras oficiais, e sim a que produz uma atividade racional mais sofisticada, governada por processos muito relevantes que as pessoas deveriam conhecer melhor. Em vez de se insurgir contra os ditames propostos pelo segundo nível de consciência, sempre é bom verificar se eles não contêm pontos de vista interessantes, ligados antes de tudo ao nosso próprio bem-estar e a mecanismos saudáveis de sobrevivência.
Em outras palavras, em vez de buscar a ajuda dos urologistas, valer-se de medicações que, em princípio, estimulariam a função erótica até mesmo contra a vontade dessa consciência maior – talvez esse seja um nome mais adequado para os processos que acontecem dentro de nós, muitas vezes submersos e camuflados pela consciência oficial –, o mais sábio seria acatar seus ditames, dar continuidade ao namoro sem insistir na intimidade sexual e deixar que ela flua quando for chegada a hora. Nos assuntos sentimentais, serenidade, competência e paciência para esperar que todas as variáveis amadureçam são requisitos fundamentais para aumentar as chances de sucesso.
Muitos outros exemplos podem ser dados para mostrar a influência da consciência maior sobre a função sexual que, sem dúvida nenhuma, a ela está submetida. Cito apenas de passagem o fato de que muitos homens se sentem totalmente inibidos sexualmente diante de mulheres que consideram ousadas e agressivas em sua abordagem, aquelas que tomam a iniciativa e provocam neles uma reação desagradável, como se estivessem sendo pressionados. E estão! Aqui, outra vez, o pênis está agindo com mais sabedoria do que a consciência oficial, que sugere que todos os homens devem estar sempre dispostos e disponíveis para qualquer possibilidade erótica, mesmo que seja do tipo “atração fatal” (lembram-se do filme de mesmo título?). Em situações em que se pressente que seja esse o caso, nada mais justo que a inibição do interesse erótico.
Em tom de brincadeira, mas pensando em transmitir a serenidade necessária aos homens que se veem diante desse tipo de dificuldade, escrevi o seguinte em Homem: o sexo frágil? (1989, p. 183): “[...] me baseio na ideia de que o pênis tem sempre razão! Ele só participa de festas para as quais foi convidado e nas quais se sente absolutamente à vontade. E de nada adianta impor alguma coisa ao pênis, pois ele é anarquista por vocação e se rebela contra qualquer tipo de ordem”. Seus ditames foram feitos para ser respeitados e não contestados, e muito menos para ser entendidos como indícios patológicos. Nem tudo que escapa à nossa consciência oficial é ruim e, de alguma forma, está operando contra nós. O problema pode estar justamente nessa consciência oficial que, por vezes, consideramos depositária de todas as nossas verdades e talvez não seja tudo isso.

(Gikovate, Flávio - Mudar, caminhos para a transformação verdadeira)

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publicado às 03:48



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