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A formosa moça

por Thynus, em 10.11.16
Duas mulheres, uma de cada lado, puxam o rapazote de 15 anos para si, quase arrancando seus braços. Luciano, o jovem, exorta-as a trocar aquela disputa de força bruta, cuja vítima maior era ele próprio (“pouco faltou para que me despedaçassem”), pelo diálogo. Seria de uma das duas, concedia, mas queria decidir por argumentos.
A primeira a lhe falar chama-se Escultura. É-lhe familiar. O tio materno, assim como o avô, era exímio no ofício de extrair do mármore as mais belas formas. Luciano mesmo gostava de moldar bonecos de cera. A moça promete-lhe uma vida sã e livre de preocupações se ele optar por ficar com ela. Seu discurso logo se encerra. Não é de muitas palavras.
A segunda a discursar e tentar convencê-lo chama-se Cultura, é prolixa. Lá pelo meio de sua fala, descreve o caminho das virtudes mais caras:
Se, porém, me deres ouvidos, antes de mais, revelar-te-ei as numerosas obras dos antigos, falar-te-ei dos seus feitos admiráveis e dos seus escritos, tornar-te-ei um perito em, por assim dizer, todas as ciências. E, quanto ao teu espírito — que é, afinal, o que mais importa —, ornamentá-lo-ei com as mais variadas e belas virtudes: sabedoria, justiça, piedade, doçura, benevolência, inteligência, fortaleza, o amor do Belo e a paixão do sublime. Sim, que tais virtudes é que constituem verdadeiramente as incorruptíveis joias da alma.1
Luciano já então não se deixava enganar por discursos. As palavras de uma e de outra acabam por não influenciar muito sua decisão. Escolhe Cultura por sua beleza física e por estar mais bem trajada.
Estamos em Samósata (atual Samsat, Turquia), então capital do reino de Comagena, no provável ano de 140. As moças descritas por Luciano apareceram-lhe em sonho, sonho que o fez decidir pela carreira das letras, iniciando por exercer o bem remunerado ofício de advogado, na Grécia, na Itália e na Gália.
Sabendo que fazia má escolha, Luciano de Samósata, como ficou conhecido, perdeu boa parte do tempo que poderia dedicar ao direito para se entregar à filosofia, em diálogos, obras ficcionais, especialmente em narrativas críticas sobre personagens de seu tempo.
Notabiliza-se pelo humor corrosivo, um Voltaire da Antiguidade, porém menos crédulo e ingênuo do que o francês. Luciano é inimigo declarado de todo e qualquer dogmatismo, metafísico ou filosófico, das seitas “racionais” às práticas das religiões de mistério. Denuncia os farsantes, as falácias dos filósofos, o servilismo e a tendência à bajulação dos historiadores. Mas o faz sem granjear inimigos. Acabará a vida, na casa dos 65 anos, como bem remunerado funcionário público da administração romana no Egito. Do ponto de vista financeiro, valeu a pena escolher a moça Cultura em vez de Escultura.
Numa de suas obras, biografa Peregrino Proteu, grego da Mísia que Luciano viu suicidar-se nos Jogos Olímpicos de 165, aos 70 anos, precipitando-se sobre uma pira funerária. Entre muitas peripécias vividas por esse personagem de historicidade comprovada, tendo sido professor do ilustre juiz Aulo Gélio, esteve uma passagem pela Palestina.
Peregrino Proteu viveu entre os cristãos. Nesse período, caracterizava-se como típico filósofo andarilho do tempo: cabelos longos, bastão, alforje e manto sujo. Chegou a ser preso pelo governador da Síria e foi tido e havido como sábio na comunidade dos seguidores do “sofista crucificado”, como Luciano de Samósata descreve Jesus. Para os objetivos deste livro, é precioso o breve depoimento de Luciano sobre a então nascente religião cristã:
Os pobres desgraçados se convenceram, em primeiro lugar, de que eles estão indo para uma vida imortal onde viverão eternamente. Em consequência disso desprezam a morte e até mesmo, de bom grado, a maioria deles, se dá sob custódia. Além disso, o primeiro legislador dos cristãos os persuadiu de que todos eles seriam irmãos uns dos outros, após terem finalmente cometido o pecado de negar os deuses gregos, adorar o sofista crucificado e viver de acordo com as leis que ele deixou.2
De um modo geral, as referências de Luciano aos cristãos são positivas: pessoas ordeiras, que trabalham e se mobilizam por causas comuns, apoiam-se e compreendem uns aos outros. Porém, aponta como defeito a ingenuidade crédula daquela gente, capaz de se deixar enganar e dar muito dinheiro a charlatães como Peregrino Proteu, que acabaria abandonando o cristianismo. Seguiriam uma tradição oral, o que é coerente com a muito restrita circulação dos Evangelhos e demais textos do Novo Testamento ainda em meados do século II.
Uma crença “sem fundamento” e “sem evidência concreta”, com base nos ensinamentos de um mestre palestino, sofista que fora crucificado. O termo “sofista”, empregado por Luciano, refere-se à chamada segunda sofística, própria de sua época. A sofística original, datada do século V a.C., havia sido depreciada por Platão e Aristóteles dado seu relativismo amoral. Nunca chegou a ser uma seita filosófica clássica.
No tempo de Luciano, a sofística era arte retórica e dizia-se “sofista” para um professor de retórica ou, aplicado especialmente à corrente chamada asianista, a um orador público popular, que, entre outros métodos, se utilizava fartamente de metáforas. “Sofista”, no caso, estava quase que em oposição a “filósofo”. Não que Luciano tivesse os filósofos em alta conta e tendo exercido a advocacia certamente valeu-se de sofismas, próprios à retórica forense. Mas parece evidente, no caso específico, ter-lhe chamado atenção o farto uso de metáforas, algumas na forma de parábolas, pelo “crucificado”.
Nada indica que Luciano tivesse tido acesso a uma versão escrita de qualquer Evangelho. Aliás, ele é explícito ao mencionar “tradição oral” dos cristãos. Para que chegasse a “sofista crucificado”, essa tradição deveria incluir algumas das parábolas do Evangelho, que devem ter parecido a ele, Luciano, criativas ou originais, mas pobres de conteúdo filosófico, tanto que não merecem dele nenhum comentário específico.
Jesus prega, por parábolas, simples metáforas ou frases diretas, de modo a ser compreendido não necessariamente por qualquer homem, mas certamente pelos ministros de suas palavras, os líderes das primeiras comunidades, os padres e pastores do futuro. O conteúdo todo, porém, não apresenta uniformidade. Há, num extremo, ditos que qualquer um pode compreender, histórias muito simples ou mandamentos insofismáveis. Noutro extremo, como vimos no capítulo 8 sobre o Sermão da Montanha, em nome da harmonia evangélica, há frases e comparações que requerem do intérprete conhecimentos avançados não de mera retórica, mas de filosofia.
Os teólogos, como o calvinista Robert Charles Sproul, alertam para os estragos que uma decupagem palavra por palavra pelos filósofos, especialmente das parábolas mais difíceis, pode causar ao “significado central”, ou moral da história, de cada parábola. Os teólogos, em geral pertencentes a determinada corrente do cristianismo, estão em seu papel de estabelecer uma harmonia evangélica conforme o “significado central” de sua corrente ou denominação. Porém, o Evangelho é de domínio público e os filósofos são livres para entender o “sofista” Jesus como quiserem.
Os primeiros filósofos cristãos enriqueceram a mensagem evangélica com suas interpretações mais ou menos livres. Foi um trabalho fundamental para transformar o cristianismo numa obra completa, capaz de convencer tanto a elite cultural de cada época quanto falar de perto às grandes massas.
Algumas parábolas já foram analisadas neste livro. Outras não o serão, ou porque sejam anódinas; ou por ter conteúdo explícito; ou, ainda, porque há muitos livros especializados em exegese de parábolas. Uma delas, aparentemente banal, é um verdadeiro achado por si mesmo e, como se verá logo em seguida, ainda mais rica quando desvendada pela filosofia:
Se alguém de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser “Amigo, empresta-me três pães, pois um amigo meu acaba de chegar à minha casa, de uma viagem, e não tenho nada para lhe oferecer”; e se ele responder lá de dentro “Não me incomodes; a porta já está fechada, meus filhos e eu estamos deitados; não posso levantar-me para te dar os pães”; eu vos digo: no caso de não se levantar para lhe dar os pães por ser seu amigo, certamente por causa da sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães necessitar. E eu vos digo: pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede recebe; aquele que procura acha; e ao que bater se lhe abrirá. (Lucas, 11:5-10)
Um filósofo derrisório e dado a um moderado ceticismo, como Luciano de Samósata, diria que a parábola é mais um exemplo do quanto a amizade é um laço interesseiro, facilmente quebrantável, e que convém escolher bem os amigos para não ter entre eles importunos como esse que vai à meia-noite atrapalhar o sono do outro.
Santo Agostinho considerava a Bíblia um livro difícil. Era preciso buscar sentidos místicos em passagens como essa. Nada do que está no Evangelho pode ser gratuito, banal, sujeito a uma interpretação derrisória ou crua. Para o santo filósofo, os três pães da parábola podem representar as três pessoas da Trindade: o Pai Eterno, o Filho coeterno, o Espírito Santo coeterno. Eles são o pão da vida, alimento eterno.
O próprio Santo Agostinho propõe uma interpretação adicional para os pães. Eles seriam: fé, caridade e esperança, os três dons de Deus. Quanto à fé, não há dúvida, ela só pode ser provida por Deus, nisso estarão de acordo São Tomás, Luis de Molina, Calvino e Armínio, representando as principais correntes do cristianismo ocidental.
Sobre a caridade, gosto de unir num só pensamento as lições de São João Crisóstomo e Mestre Eckhart. O santo bizantino diz: “Não olhe para o céu, olhe para o pobre que lhe estende a mão, pedindo.” Mestre Eckhart, em resumo, diz que Deus está no outro, em prestar atenção no outro, em amar o próximo. Ora, todo aquele que estende a mão, pedindo ajuda, está na situação do pobre, por mais que some haveres contabilizáveis como tais. Pois a carência de ser compreendido pelo outro não é contabilizável. É evidente que é mais provável alguém olhar para o rico carente de compreensão do que para o pobre com a mesma carência ou simplesmente de uma esmola para a próxima refeição ou a próxima bebida. “Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”, dizia o filósofo ao mesmo tempo cristão e derrisório, que deve tanto a Luciano de Samósata quanto a Santo Agostinho, o brasileiro Nelson Rodrigues.
Eu não duvido do poder dos haveres, mas eles não livram ninguém da incompreensão. Santo Agostinho diz que dos três pães o maior é a caridade. Se há algo que compreendi de importante é a escala de valor desse magnífico filósofo. Como cristão, embora eu não tenha alcançado a fé, pois Deus ainda não a concedeu a mim (Ele costuma se manifestar aos pequenos, não aos filósofos, já alertava Jesus), pude compreender o que é verdadeiramente a caridade. Em consequência, tomo como verdade a mim: para falar com Deus, não olho para o céu, olho para o outro que me estende a mão ou o olhar em busca de carinho, apoio, compreensão e, eventualmente, ajuda material.
Se a regra de ouro, a regra de prata e o imperativo categórico são falácias, pois partem de uma absurda presunção de sabedoria, o “dá a quem pede” será a melhor forma, quiçá a única, de usarmos bem a parte que nos cabe de livre-arbítrio. Não se será complacente com o abuso, evidentemente, mas não se julgue quem pede ajuda antes de fazer todo o possível para tentar compreendê-lo. O que nos faz lembrar outra passagem do Evangelho:
Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisso todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros. (João, 13:34-35)
Amar é parar de olhar para o céu, para os próprios haveres, para o quer que seja, e atender à mão estendida ou ao olhar de súplica do outro. É desarmar-se das próprias razões para tentar compreender as razões e carências do outro. Por mais que não esteja em nosso poder supri-las, está em nosso poder não as ignorar, respeitá-las.
Por fim, a esperança. O cristianismo popular, assim como o milenarista, terá compreendido muito mal o significado de “esperança”. Esperança não deve ser interpretada como um deus-dará, coisas como chuva, boas colheitas, bens materiais, sem um correspondente esforço do crente. Também não se aplica a uma antecipação do Juízo Final (milenarismo), tanto menos à implantação de um Reino de Deus na terra, um paraíso aqui e agora, que, aliás, nem sequer foi prometido no Evangelho.
Esperança, no cristianismo, tem um significado maior, que é a eleição pela graça divina para a vida eterna; e um significado mais direto, que é a confiança, o erguer sua casa “sobre sólidos alicerces”, como diz o Evangelho. Quem confia e, assentado na confiança, investe e trabalha, terá justa esperança e provavelmente receberá. Nesse sentido, o dom da esperança de Deus é aquele que empresta ao fiel pedinte a confiança para esperar pelas recompensas. Não é mero “toma lá, dá cá”, mas um “buscai e achareis”, como está na parábola.
Devemos dar à esperança ainda um significado imprevisto por Santo Agostinho, mas que deve a ele e ao Evangelho muito. Preciso discorrer sobre alguns pressupostos antes de explicar do que se trata.
Espero ter deixado mais ou menos claro que o Evangelho e, mais do que o Evangelho, o cristianismo devem à filosofia greco-romana pelo menos tanto quanto devem à tradição judaica. Mesmo esta terá sofrido influência daquela. A meu ver, Heráclito e os estoicos — o primeiro com os conceitos de Logos e de devir permanente, os segundos com os conceitos de Uno (uma ideia monista sobre divindade), de autarcia (independência) e de ataraxia (o coração simples, o desapego, a imperturbabilidade) — muito contribuíram para as ideias religiosas e filosóficas do tempo e do ambiente de Jesus.
Também procurei historiar o efeito do Evangelho e de toda a pregação cristã não tanto sobre a filosofia propriamente dita, mas sobre as mentalidades, sobre o pensar e agir das gentes, especificamente de Bizâncio e do Ocidente.
Voltando agora à esperança segundo Santo Agostinho. O Ocidente foi capaz de criar três novidades na história global: ciência, democracia e capitalismo. Outros povos tinham invenções a mostrar, assim como havia comércio e esboços de propriedade privada. Ciência sistemática, contínua, com método, porém, é criação ocidental. A democracia o é sem dúvida. A regulamentação da propriedade privada e a proteção a ela pela lei, o desenvolvimento de um complexo sistema bancário e de contabilidade e os descobrimentos permitiram uma forma superior de capitalismo, capaz de gerar riquezas e inovações numa velocidade nem ao menos imaginada antes por povo algum.
Essas três inovações fundamentais e entrecruzadas são cristãs? Como já disse antes, não, ou teriam acontecido em Bizâncio, na Armênia, na Etiópia. De um tipo especial de cristianismo? Sim, mas...
Socorro-me no pensamento de Alain Peyrefitte: “Fé e confiança são os pares, religioso e laico, da mesma raiz.”3
Para ele, a confiança na confiança permitiu o que chama de “milagre do Ocidente”. No sentido dado por Santo Agostinho, em que “fé” tem a ver com graça, eu substituiria sem medo de errar “fé” por “esperança”. Portanto, esperança e confiança, mais do que um par, são sinônimos do que se consegue quando se aplica algo que Luciano de Samósata viu nas primitivas comunidades cristãs e Santo Agostinho propunha como “Cidade de Deus”: uns confiam nos outros.
Nos mosteiros do Ocidente, no contínuo exercício da filosofia, no obrar sem descanso da Igreja em prol da ciência (criação das universidades) e de estabelecer sociedades mais pacíficas e mais colaborativas, plantaram-se as bases que permitiram fazer brotar, crescer e frutificar o par, como se queira, esperança-confiança.
Portanto, o Ocidente e seus “milagres”, notáveis milagres, reconheça-se, não devem diretamente ao Evangelho ou à Bíblia. Devem ao que em nome do Evangelho, em nome da religião baseada em Jesus Cristo, mas também na razão greco-romana, na fé na razão de Cícero, Santo Agostinho, Pedro Abelardo e tantos outros, operou-se nos campos da filosofia, diplomacia, comércio, propriedade privada, organização social.
Penso que devem também ao amor cortês. Aqui discordo frontalmente de Schopenhauer. Não se trata de um amontoado de atos ridículos para bajular as mulheres. É antes a eleição do mérito como pressuposto da conquista. O germânico, sensível, sensual e impetuoso, motiva-se pelo ideário cortês a adotar linguagem e postura heroicas, uma noção de devir interiorizada, individual e, como nada é perfeito, idealista.
Numa representação popular na França católica do século XIX, o camponês fica horas na pequena igreja e declara, simplesmente: “Eu O vejo, Ele me vê.” Volta para casa, muitas vezes um humilde casebre, e tem com a esposa momentos de floreios românticos, já então vistos como naturais e espalhados por toda a Europa, hoje por todo o mundo. Essa internalização de um desejo por um contato íntimo com Deus e com o outro eleito terá sido obra desse conjunto de fatores que terá bebido em fontes evangélicas, cristãs, a partir do desenvolvimento filosófico que Evangelho e cristianismo experimentam no Ocidente, apenas no Ocidente.
A utopia, por sua vez, não é um fenômeno exclusivamente ocidental. Os tupis, entre muitos outros povos, imaginavam esse paraíso terreno perdido ou possível. É no Ocidente, porém, que a utopia experimentará um desenvolvimento de extensas consequências práticas. Terá no milenarismo cristão uma inspiração sempre presente.
Os bogomilos, em Bizâncio, causaram problemas, infiltraram-se no clero, mas acabaram dominados. Não terão sido eles os responsáveis pela queda final de Constantinopla, de resto ocorrida mais de quatro séculos depois. Há quem diga que inspiraram os cátaros, milenaristas ocidentais que se aliaram a nobres locais para se opor à hierarquia cristã, espalhando uma mensagem ao mesmo tempo evangélica (eles, como Marcião, só aceitavam o Evangelho) e de fé no homem, com seus perfectos e perfectas.
Jan Huss, filósofo checo, bebia de uma fonte racional: o reformista inglês John Wycliffe. Huss tornou-se um tanto mais radical que seu inspirador, mas não se pode acusá-lo de milenarismo. Como foi mesmo assim queimado na fogueira pela Inquisição, acabou inspirando seitas que fugiram do controle e espalharam o germe milenarista pela Europa Central.
Thomas Müntzer, pouco tempo depois do extermínio de todas as seitas hussitas, inspira e em parte lidera a Revolta dos Camponeses do século XVI, a partir não de um milenarismo clássico, como o dos cátaros ou de algumas seitas gnósticas do cristianismo primitivo. Seu milenarismo, focado no livro do Apocalipse tanto quanto no que via como mensagem social do Evangelho, pela primeira vez na história funde-se com ideias socialistas que os próprios marxistas definirão como cosmopolitas, ou seja, um projeto global de poder político para efetivamente implantar o Reino de Deus na terra.
Após Müntzer, virá a multiplicação da literatura utópica, quase toda baseada em interpretações etnográficas a partir da divulgação na Europa de hábitos dos povos contatados ao redor do globo. Nascerá disso o mito do “bom selvagem” (que com esse nome não é de Rousseau, embora nele a ideia esteja presente), o culto à natureza e a associação entre um culto à razão, ao homem transparente, e a revolução política. A inspiração não é mais declaradamente evangélica, mas a matriz evidentemente ocidental do pensamento utópico tal como se desenvolve na Europa aponta para uma paródia do Evangelho.
O positivismo assumirá Jesus como um herói popular, despido de sobrenatural, todavia. Marx, para parecer científico, declara a religião o “ópio do povo”. Raymond Aron identificará mais tarde o marxismo como o “ópio dos intelectuais”. O marxismo, aliás, não passa de uma codificação supostamente rigorosa da utopia. O fascismo é um desenvolvimento do positivismo, um “culto à razão”, sem romper explicitamente com o catolicismo, até porque este se curva obedientemente. Por fim, o nazismo, baseado numa utopia racista batizada “arianismo”, misturando também socialismo (Partido Nacional-Socialista), patriotismo, mitologia nórdica e a evocação de Lutero para justificar de modo cristão o extermínio judeu.
A tudo isso resiste o cristianismo e até acaba se fortalecendo como contraponto, caso da Polônia e da Lituânia. Permanece com grande influência nas mentalidades nas Américas e em parte da África, e se expande notavelmente na Ásia. Como para o cristianismo vale o número absoluto de fiéis, não o poder econômico deles, um Vietnã vale mais do que uma França. Pode-se estimar que, para cada cristão praticante perdido na França nos dias de hoje, dois vietnamitas são ganhos.
Os coreanos, que importaram a ciência, a democracia e o capitalismo do Ocidente e se transformaram de um país absolutamente miserável em potência econômica de primeira grandeza no espaço de duas gerações, por via das dúvidas resolveram importar também o cristianismo.
Mesmo na Europa, se há menor frequência a reuniões, cultos e missas, generaliza-se um cristianismo individual, bastante focado no Evangelho, livro que, muito mais do que a Bíblia, está vocacionado a conviver bem com valores cosmopolitas e mesmo politicamente corretos. As mensagens de paz, amor ao próximo, de empatia, enfim, presentes no Evangelho parecem ter triunfado no Ocidente, excluindo-se um tanto os imigrantes da parte da empatia, justamente porque muitos deles negam esses valores.
Em resumo, a versão ocidental do cristianismo é de longe o mais importante e bem-sucedido desenvolvimento da mensagem evangélica original. Se perdeu adeptos aqui e ali, ganhou acolá. Não acredito que irá acabar tão cedo, se é que acabará. Torço para que não acabe e se fortaleça, não por ser cristão, mas porque ciência, democracia e capitalismo, esses três milagres que transformaram para melhor a vida humana global, se talvez não precisem mais do cristianismo, talvez ainda venham a precisar. Como disse Kant no fim da vida, se a moral cristã for descartada, não espere boa coisa.
Ciência, capitalismo e democracia precisam também do complemento moral e até hoje não vislumbrei regras morais melhores do que as presentes no Evangelho e, por extensão, na lei mosaica. Seguem atualíssimas.
Uma amiga, Liane o nome dela, quando soube que eu estava escrevendo este livro, candidamente me perguntou:
— Aurélio, você que estudou o Evangelho e a filosofia, me diga: o que fazer?
Queria conselhos práticos, orientações para a vida. Na hora, fiquei um tanto embaraçado com a pergunta. Em primeiro lugar, porque, como já disse, não sei o que é a verdade, policio meus pressupostos tanto quanto os dos outros. Adicionalmente, nunca pensei nesta obra como uma forma de autoajuda, mas depois elaborei respostas, porque se espera do Evangelho um guia moral, portanto um manual de como se portar nas relações de reciprocidade, e da filosofia uma reflexão sobre os problemas da vida. Direi apenas sobre aquilo que seguramente mal não faz.
A primeira resposta é evangélica, mas custou a pegar na Europa. Só pegou por insistência da Igreja e com a ajuda da literatura cortesão-romântica. Hoje todas as pesquisas da psicologia experimental e mesmo médicas confirmam seus excelentes efeitos, tanto sobre a longevidade quanto sobre a felicidade:
— Case-se. Se já for casado, mantenha-se casado.
A menos que seja o caso, raro, de comum acordo entre os cônjuges, a dissolução do pacto conjugal, embora absolutamente livre hoje em termos legais, lega a mágoa a um e possivelmente legará o remorso a quem, muitas vezes por falta de empatia, resolveu quebrar o pacto unilateralmente. Os casais de velhinhos que passaram por essa tentação e resistiram a ela via de regra contam que valeu a pena — reforçaram a confiança um no outro, amparam-se e, o mais importante, sabem que terão uma testemunha íntima até o fim. O solitário morre mais.
A segunda resposta eu já antecipei neste mesmo capítulo quando discorri sobre a caridade segundo Santo Agostinho, São João Crisóstomo e Mestre Eckhart: empatia. Não é o caso de usar empatia com quem não quer ser desvendado, compreendido, ajudado, apoiado. O segredo é sagrado, eis outro bom legado do Ocidente. Mas a quem lhe dá a oportunidade de poder ajudar a partir da empatia, ou seja, da aceitação das razões e desejos de quem pede ou permite a ajuda, convém praticar a caridade. Fará bem a ambos. Se a empatia fosse um princípio universalmente internalizado, haveria mais cooperação voluntária, menos violência, menos guerras. É um palpite meu, não tenho como provar, mas experimente. Mal não fará, isso é certo. Apenas no casal há que se respeitar o espaço do não dito. Ou como dizia Benjamin Franklin: “Abra bem os olhos antes de casar; mantenha-os semicerrados depois.”
Entendi também que Liane queria uma resposta às questões espirituais, às dúvidas metafísicas (sobre Deus, existência, vida após a morte), aos problemas profundos d’alma.
Começo por duas preliminares: ser cristão de verdade é repudiar crendices. Não considero aceitável, depois de todas as provas em contrário, que se siga acreditando em superstições pseudocientíficas — astrologia, por exemplo. Deve-se repudiar igualmente crenças messiânicas ligadas à utopia e ao milenarismo. Qualquer tentativa de implantar o paraíso na terra é certeza de contratar o inferno. Não há um único exemplo em contrário. Todas as tentativas produziram miséria, totalitarismo e, em alguns casos, extermínios em massa.
Quanto às denominações, já dei minha opinião sobre o luteranismo, mas isso não quer dizer que um luterano não possa ser um bom cristão. Conheço alguns e espero que sigam onde estão, é seguro e condizente com boas práticas éticas e morais, além de corresponder à graça da fé. Já os cristianismos chamados “de fronteira”, como testemunhas de Jeová e mórmons, não me atraem pessoalmente, mas têm minha simpatia.
Não gosto de quem faz do criacionismo a primeira bandeira de batalha na arena política. A evolução é absolutamente compatível com o cristianismo e com a própria Bíblia. Qualquer tentativa de ler as Escrituras apenas literalmente, sem exegese ou hermenêutica filosófica, leva a choques com o princípio filosófico da não contradição. A Igreja católica, entre outras, já reconhece isso há bom tempo. De resto, a Bíblia não foi escrita para invalidar leis de evidência. Se em alguns pontos aponta uma cosmologia cientificamente inválida, por exemplo, só pode ser mantida como texto sagrado, inspirado por Deus, Todo-poderoso, Criador do Universo e onisciente, se entendermos a mensagem como mais adequada à leitura da época em que seus livros foram escritos. De outra forma, há que se abrir mão da racionalidade no cristianismo, o que é um absurdo à luz do desenvolvimento ocidental dessa religião.
Espiritualmente, em termos tanto místicos como de comunhão com Deus, e de moral, não hesito em recomendar:
Ore como calvinista, sabendo que a graça não depende de você, mas você é responsável por seus atos; trabalhe como arminiano, como se tudo ou pelo menos uma parte dos desígnios divinos dependesse de sua colaboração; e ame como católico, para morrer ou ver morrer seu par chorando de amor.
Ah, esqueça esse negócio de essência. Use para tanto as palavras de Voltaire:
A máxima “Conhece-te a ti mesmo” é um excelente preceito, mas preceito que só Deus pode praticar; pois que mortal pode compreender sua própria essência?4
Por fim, lembre-se de que talento é aquilo que se descobre ter quando se obra esforço. Não há talento que prescinda de esforço. Isso quem ensina não é o Evangelho nem a filosofia, mas a história conhecida de cada homem.
 
Moro na ponta de uma península voltada para o sul. De minha varanda, não vejo construções. Contemplo o mar, o horizonte infinito, a variar conforme os ventos e a movimentação das nuvens. No pedacinho de terra entre minha varanda e o oceano, vejo pássaros a acasalar, coqueiros a produzir frutos, um após o outro, a grama a crescer e se renovar. Escrevi toda esta obra tendo essa paisagem como cenário, ou seja, escrevi do Éden, de um dos melhores retratos possíveis do Reino de Deus, da Existência. Da varanda para dentro, porém, digito num notebook, obra humana admirável, habito paredes retas, planejadas e executadas por homens. Quando faz calor, ligo o ar-condicionado, maravilha técnica humana.
O que vejo da varanda é produto da Criação, ou simplesmente a Existência, a dar fé a Espinosa. Mas o melhor dos mundos possíveis, dando razão a Leibniz, é a combinação do que vejo da varanda com o que usufruo da varanda para dentro, produto indiretamente da Existência, produto direto da história, de o homem ter provado do fruto da árvore do conhecimento. Contemplo, portanto, Deus e Logos, Logos e Deus me contemplam e me velam em minha existência efêmera que eu gostaria de estender infinitamente. Embora eu não acredite em vida eterna, bem esse conto evangélico da salvação poderia ser verdadeiro, e essa minha comunhão natural com Deus e com o Logos, com o Éden e com a história, durar infinitamente.
A formosa moça Cultura prometeu a Luciano de Samósata: sabedoria, justiça, piedade, doçura, benevolência, inteligência, fortaleza, o amor do Belo e a paixão do sublime. Não há como saber se ele alcançou tudo isso. Em parte, provavelmente. Foi um homem bem-sucedido. Morreu no Egito, no exercício do cargo público por ele desejado e que exercia bastante satisfeito. Porém, como oito dos dez filósofos e filósofas aqui apresentados encimando capítulos, faltou-lhe uma testemunha íntima no momento final.
Ah, formosa moça Cultura, dê-me tudo que prometeu a Luciano de Samósata, mais a sorte conjugal de Montaigne (ao contrário dele, serei estritamente fiel) e peça a Deus por mim a graça da vida eterna. Eu poderia pedir pessoalmente, mas Ele não gosta de falar com filósofos. Já com moças formosas...

(Aurélio Shommer - O Evangelho segundo a Filosofia)

NOTAS:

1. Luciano de Samósata, 2012, p. 16.
2. Luciano de Samósata, 1962, p. 15 — tradução livre.
3. Alain Peyrefitte, 1995, p. 44 — tradução livre.
4. Voltaire, 1824, p. 179 — tradução livre.

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