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A FORÇA

por Thynus, em 01.12.16
Na cama de um dos inúmeros hotéis onde faziam amor, Sabina apalpava um braço a Franz e exclamava: “Tens uns músculos incríveis!”

Franz gostava de ouvir este elogio. Levantou-se da cama, agarrou mesmo rente ao chão o pé de uma pesada cadeira de castanho e começou lentamente a tentar levantá-la no ar. Enquanto isso, dizia para Sabina:

Já não tens que ter medo de nada: agora tens-me a mim para te defender! Fui campeão de judo na minha juventude!”

Conseguiu endireitar o braço na vertical sem largar a cadeira e Sabina disse-lhe: “É bom saber que és tão forte!”

Mas, bem lá no fundo, acrescentou para si própria: Franz é forte, mas a força dele está unicamente voltada para fora. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama. é muito fraco. A fraqueza de Franz chama-se bondade. Franz seria incapaz de dar uma ordem a Sabina. Nunca lhe ordenaria, como Tomas dantes fazia, que deitasse o espelho no chão e se pusesse a passear toda nua em cima dele. Não que a sensualidade lhe falte - não tem é força para dar ordens. Há coisas que só se podem fazer com violência.

O amor físico é impensável sem violência.

Sabina olhava para Franz a passear no quarto brandindo a sua cadeira bem lá no alto; a cena parecia-lhe ridícula e sentiu-se invadida por uma estranha tristeza.

Franz pousou a cadeira e sentou-se com o rosto voltado para Sabina.

“Não que eu não goste de ser forte, disse, mas para que é que me servem uns músculos destes em Genebra”? Uso-os para me enfeitar. São penas de pavão. Nunca parti a cara a ninguém.”

Sabina prosseguia as suas melancólicas reflexões. E se tivesse tido um homem que lhe desse ordens? Que tivesse querido dominá-la. Durante quanto tempo suportaria isso? Nem durante cinco minutos! Portanto, não havia homem que lhe conviesse. Nem forte nem fraco.

Então, perguntou a Franz: “E porque é que de tempos a tempos não te serves da tua força contra mim?

- Porque amar é renunciar à força”, disse Franz, com doçura.

Sabina percebeu duas coisas: primeiro, que aquela frase era bela e verdadeira; segundo, que, com aquela frase, Franz acabara de se desvalorizar para sempre na sua vida erótica.


(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser) 

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publicado às 03:22



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