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A FASE INSTINTIVA DO CÉREBRO

por Thynus, em 30.08.14

Organismos unicelulares de bilhões de anos de idade podem reagir a seu ambiente. Muitos, por exemplo, nadam em direção à luz. A partir desse início se desenvolveu a fase mais antiga do cérebro, o cérebro instintivo. Ele corresponde ao comportamento que está expressamente programado em nosso genoma para a sobrevivência. Centenas de milhões de anos de evolução refinaram esse instinto. Quando existiam os enormes dinossauros, seu comportamento só requeria um cérebro estúpido, não maior do que uma noz ou um damasco.

No modelo trino do cérebro, a parte mais antiga é o cérebro reptiliano, ou tronco
cerebral, concebido para a sobrevivência. Ele abriga centros de controle vital, que
controlam a respiração, a deglutição e os batimentos cardíacos, entre outras coisas.
Também incita a fome, o desejo sexual e a reação de fuga ou luta.
O sistema límbico foi o próximo a se desenvolver. Ele abriga o cérebro emocional
e a memória de curto prazo. Emoções de medo e desejo se desenvolveram para servir
aos impulsos instintivos do cérebro reptiliano.
O desenvolvimento mais recente foi o do neocórtex, região do intelecto, da
tomada de decisões e do raciocínio superior. Enquanto nosso cérebro reptiliano e
nosso sistema límbico nos impulsionam a fazer aquilo de que precisamos para
sobreviver, o neocórtex representa a inteligência para alcançar nossos fins, mas
colocando limites a nossas emoções e impulsos instintivos. A mais importante parte
para o supercérebro, o neocórtex é o centro da autoconsciência, do livre-arbítrio e
das escolhas, tornando-nos usuários plenos e potencialmente senhores do nosso
cérebro.
As criaturas que só possuem essa fase do cérebro, como os pássaros, podem apesar disso revelar um comportamento muito complexo. Por mais reptiliano que seja seu cérebro, o papagaio–cinzento africano é capaz de repetir centenas de palavras, e, se as atuais pesquisas estiverem corretas, entender o significado delas. Mas, se olharmos nos olhos de um lagarto ou de um avestruz, de um sapo ou de uma águia, não detectaremos nenhuma emoção. Essa ausência pode parecer assustadora, porque a igualamos ao bote cruel de uma cobra ou ao ataque de um predador à presa. O instinto precedeu a emoção na escala evolucionária.
Esse cérebro instintivo fornece os impulsos naturais do corpo físico que garantem a sobrevivência, como fome, sede e sexualidade. (Alguém escreveu, referindo-se ao desejo sexual como “fome de pele”, uma franqueza bastante precisa em se tratando do cérebro instintivo.) Ele inclui também processos inteiramente inconscientes, como a regulação do sistema digestório e circulatório – basicamente todas as funções corporais que ocorrem automaticamente.
A ansiedade que permeia a sociedade moderna nasce em parte de nosso cérebro instintivo, que incansavelmente nos impele a prestar atenção ao impulso de medo, já que nossa sobrevivência depende dele. Ninguém morre em uma visita ao dentista, e, como outras partes do cérebro intervêm, o medo não nos impele a pular da cadeira do dentista e fugir. Mas o cérebro instintivo só sabe liberar o impulso, e não avaliálo.
Se você se observar, verá que a trégua que estabeleceu com o cérebro instintivo é incômoda. Tentar ignorar nossos impulsos nos torna agitados, inseguros e ansiosos. Rudy lembra de seus primeiros anos de universidade, pouco depois que perdeu o pai, vítima de um ataque do coração. Ele escrevia incessantemente em seu diário sobre os avassaladores sentimentos de ansiedade e desejo que dominam nossa adolescência. Quando surgiram os hormônios pós-pubescentes, Rudy ficou frustrado diante de sua incapacidade em ignorá-los. (A famosa escritora americana gastronômica M. F. K. Fisher conta a história de um homem que, arrasado pela morte súbita da mulher, percorreu a autoestrada da costa do Pacífico de cima a baixo, parando em cada restaurante de estrada para pedir um filé.)
Rudy sabia intelectualmente que sua ansiedade em festejar com os amigos a cada ano que começava vinha de uma necessidade irracional de aceitação social, de validação por seus pares. Mas não conseguia resistir à necessidade de confraternizar quando devia estar estudando. Cada início de ano letivo se transformava numa batalha aparentemente infinita de encontrar disciplina para permanecer na biblioteca estudando, enquanto seu cérebro instintivo saía vitorioso da maioria das batalhas.
A ansiedade levou vantagem até que a situação atingiu seu ponto crítico em 1979, durante seu último ano na universidade. Era noite de ano-novo na Times Square. Rudy fazia parte da multidão. O clima era tenso. O aiatolá Khomeini mantinha 52 reféns americanos no Irã. Bandos de jovens gritavam ofensas contra o Irã e atiravam garrafas de cerveja. Rudy se afastou de seus colegas de fraternidade e sentou-se na calçada, recostado contra as grades da estação de metrô, sentindo a ansiedade aumentar com a agressividade à sua volta.
Nesses momentos de crise pessoal, exatamente quando o cérebro instintivo parece levar vantagem, uma mudança radical pode ocorrer. Soldados em batalha podem experimentar uma repentina calma e silêncio interior enquanto as bombas explodem à sua volta. Naquele momento na Times Square, Rudy percebeu que toda a sua ansiedade tinha na origem impulsos de medo e desejo. O medo gerava dúvidas sobre sua segurança. O desejo criava apetites que requeriam satisfação, mesmo quando as circunstâncias eram inadequadas.
Sem saber ainda que os circuitos cerebrais estão ininterruptamente integrados (essa descoberta só foi feita décadas depois), Rudy sentiu que isso era verdade. O medo e o desejo não são estranhos – eles estão ligados. O medo alimenta o desejo de atividades capazes de aliviá-lo; reciprocamente, o desejo cria o medo de não poder, ou não dever, obter o que os apetites demandam. Recorremos a cientistas e poetas para validar os conflitos que essa fase instintiva do cérebro cria. Freud falou da força de impulsos inconscientes por sexo e agressividade, formas inominadas primitivas que ele chamou de “id”. O id é poderoso, e a máxima que Freud criou para curar seus pacientes foi: “Onde o id está, o ego deve estar”. O mundo testemunha constantemente a força destrutiva de nossos impulsos primitivos. O medo e a agressividade estão à espreita para derrubar as portas da razão.
Shakespeare sabia que corria atrás de mulheres e chamou sua luxúria de “desperdício de espírito”. Um de seus sonetos pode servir de lição sobre a anatomia do cérebro, uma vez que descreve o conflito entre impulso e razão.
O desperdício de espírito em um deserto de desonra
É a luxúria em ação; e, enquanto não é ação, a luxúria
É perjura, homicida, sanguinária, cheia de culpa,
Selvagem, extrema, rude, cruel, traiçoeira.

Poucas descrições dos impulsos primitivos, e de como as pessoas se comportam quando o sexo supera todo o resto, seriam tão perfeitas. Se dois carneiros selvagens batendo cabeça no cio escrevessem poesia, assim descreveriam suas necessidades descontroladas. Mas, sendo humano, Shakespeare via a luxúria com remorso:

Apenas desfrutada, logo se deprecia;
Loucamente perseguida; e assim que possuída,
Loucamente odiada, como isca engolida.

 Ele se compara a um animal que foi atraído a uma armadilha. A satisfação da luxúria trouxe uma nova perspectiva, uma perspectiva de autocensura. (Não temos provas de que Shakespeare tivesse uma amante, mas ele era um homem casado, com uma filha e dois gêmeos recém-nascidos, quando deixou a família em Stratford para tentar a sorte em Londres, em 1585.)
 Por que a armadilha foi lançada? Shakespeare não culpa as mulheres. Diz que a armadilha foi colocada pela nossa natureza, para nos enlouquecer:

Louco na perseguição, e também na posse…
Uma felicidade na prova e, provada, uma verdadeira desgraça.

 Ele saiu do cérebro instintivo para o cérebro emocional, que se desenvolveu em seguida. Os poetas elisabetanos revelavam sempre fortes paixões, fossem de amor ou ódio. Mas Shakespeare tinha se entregado demais a seus sentimentos, e agora o cérebro racional era invocado. Ele vê toda a loucura e profere uma triste moral:

 Tudo isso o mundo sabe, e no entanto ninguém sabe
Evitar o céu que conduz o homem a esse inferno.

 Nos momentos em que estamos divididos, o cérebro pode representar fisicamente cada aspecto de nossa guerra mental. Para Rudy, naquele momento na Times Square, a causa de medo e de desejo que controla o comportamento lhe pareceu cristalinamente clara. Os jovens descontrolados que gritavam contra o Irã e atiravam garrafas também eram ele, que se mantinha um observador passivo. O medo e o desejo os impulsionavam. Um desejo instintivo de poder e status, como qualquer bom psicólogo nos dirá, cria uma ansiedade impulsionada pelo medo da rejeição e de perda de poder. Um forte desejo de sucesso gera um medo ainda mais forte de fracasso, e, se o medo surge, pode criar o fracasso. O cérebro instintivo nos prende numa armadilha entre querer muito alguma coisa e não consegui-la.
Como qualquer outra fase do cérebro, os instintos podem se desequilibrar.
Se você é impulsivo demais, sua raiva, seu medo e seu desejo vão se descontrolar. Isso leva a atos irrefletidos e ao arrependimento posterior.
Se você controla demais seus impulsos, sua vida se torna fria e reprimida. Isso produz uma falta de laços com os outros e com os seus impulsos básicos.

Pontos essenciais: seu cérebro instintivo
• Entenda que os instintos são uma parte necessária de sua vida.
• Tenha paciência com o medo e a raiva, mas não se entregue a eles.
• Não tente discutir com seus impulsos.
• Não reprima pensamentos e sentimentos por culpa.
• Esteja consciente de seus medos e desejos. A consciência ajuda a equilibrá-los.
• Só porque você é impulsivo, não aja sempre por impulso. As partes superiores do cérebro também devem ser consultadas.

(Deepak Chopra - Super Cérebro)

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publicado às 05:33



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