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A fabulosa origem do mundo

por Thynus, em 20.02.18
 
Corria o ano de 1866, nem eu era nascido ainda, mas todo ser humano que perambulava pelo planeta na época tinha vindo à luz, sem exceção, depois de transitar por uma vagina. Deve ter sido por isso que Gustave Courbet, o pintor realista francês, chamou de A origem do mundo sua pequena obra-prima executada naquele ano, uma xota pentelhuda em voluptuoso close. Conhece o quadro? Ele pode ser apreciado ao vivo no Museu D’Orsay, em Paris, ou em ótimas reproduções na tela do seu computador. A imagem oferecida pelo site do museu é das melhores e você a encontra com facilidade. Aquilo enche a vista de um vivente: um apetitoso e piloso baixo-ventre feminino visto da perspectiva de alguém que se aproximasse daquela maravilha anatômica com intenções cunilinguais. A imagem, de fato, parece um convite à minette.
A origem do mundo foi uma encomenda feita a Courbet por um diplomata otomano milionário lotado em Paris, Khalil-Bey, que tinha escolhido servir na capital francesa para se tratar de uma sífilis, segundo se dizia. O turco libidinoso, que colecionava quadros de mulheres nuas, cavalos de corrida e amantes, teve a curiosa ideia de instalar a icônica buceta no banheiro de sua mansão, coberta, porém, por uma cortina verde, cor do islã, sua fé religiosa.
Dá pra imaginar o conviva de uma das requintadas festas que o diplomata dava em Paris indo ao banheiro dar sua mijadinha ou cagadinha e, movido por natural curiosidade, resolvendo correr o cortinado pra ver o que ele escondia. Quão grata não devia ser a surpresa dessa pessoa, sobretudo se homem hétero, ao se deparar com o sexo desinibido da mulher anônima em primeiro plano, sem cara mas com um delicado peitinho de róseo mamilo visível no quadro. E quase posso ver as filas que deviam se formar diante desse banheiro, assim que a notícia se espalhava na festa, com gente batendo na porta para apressar o ocupante da vez, o qual, diante do quadro atrás da cortina, na certa se esbaldava num frenesi masturbatório. Eu, se fosse o diplomata turco, ainda poria um aviso no pé da tela: “Favor não ejacular no quadro.”
Especula-se que a modelo daquele pictórico monte de Vênus teria sido uma das amantes de Khalil-Bey, uma francesa gostosérrima chamada Jeanne de Tourbay, das mais requisitadas cocotes parisienses. Outros afirmavam que a exuberante perereca pertencia a uma irlandesa ruiva, Joanna Hiffernan, amante do próprio Courbet e de outros pintores, como o inglês Whistler. De minha parte, mesmo sem ter sido convidado pras festanças do nababo otomano, nem tampouco deitado e rolado com Jeanne ou Joanna, eu apostaria que a famosa perseguida tá mais pra francesa que pra irlandesa, se considerarmos que os pelos púbicos de uma mulher tendem a ser da mesma cor de seus cabelos. Ora, como miss Hiffernan era um incêndio de ruiva (veja o quadro A garota branca, do Whistler, que a retrata vestida com sua cabelama vermelha), e a xana d’A origem do mundo apresenta um pentelhal moreno ou castanho-escuro, creio que eu ganharia fácil tal aposta.
Em todo caso, a vocação do quadro de Courbet para objeto itinerante do desejo iria ter início quando Khalil-Bey, atolado em dívidas de jogo, resolveu vender sua coleção de arte. A Origem foi parar, então, nos domínios de um marchand parisiense que, por pudicícia ou temor de um escândalo, o ocultou atrás de outra tela do mesmo Courbet representando uma inocente igrejinha num campo nevado. A ideia subliminar aqui talvez fosse a de que atrás da fé religiosa, e sufocada por ela, borbulha um vasto e animalesco tesão. Tinha sido assim com o cortinado da cor do islã que encobria o quadro na casa do turco milionário, era assim agora com o inocente quadro da igrejinha mocozando o bucetão.
O escritor francês Edmond de Goncourt foi um dos poucos privilegiados a quem o marchand mostrou o quadro, em 1889. Goncourt escreveu sobre a sua emoção ao ver a já mítica precheca surgir por detrás da igrejinha: “Esse ventre é belo como a carne de um Correggio”, referindo-se às telas com rechonchudas damas peladas do sensual mestre da Renascença italiana.
A partir daí, a aveludada bacurinha deu uns rolês por locais ignorados, até ser localizada em Budapeste, às margens do rio Danúbio, no castelo dum nobre húngaro, o barão Havatny, já em 1913. A nova residência da Origem, junto a um rio, parecia apropriada. Afinal, o sexo das cocotes, a exemplo dos rios, canaliza não poucos fluidos e corrimentos, e costuma ser intensamente navegado. O barão, pelo que consta, continuou mantendo a Origem oculta atrás da igrejinha.
Eis que, nos anos 1940, a tão resguardada ximbica se vê sob a ameaça das tropas nazistas que invadem a Hungria, e Havatny, que tinha ancestrais judeus, se manda rapidinho de seu castelo, não sem antes depositar a tela do Courbet no cofre-forte de um banco. Claro que isso não impediu os alemães de rapinarem os tesouros guardados nesse banco, como faziam em toda parte por onde passavam, mas não se interessaram pela bucólica igrejinha do Courbet, ignorando o tesouro escondido na sacristia, por assim dizer. Quem descobriu isso foi um oficial do exército vermelho que, por sua vez, invadiu a Hungria poucos anos depois, dando um chute no rabo dos nazis. E lá se foi a ilustre racha peluda pra Moscou comunista, onde com absoluta certeza encontrou quem a apreciasse com o devido fervor, aos goles de vodca estatal e ao som da balalaica oficial.
Finda a guerra, o rico barão Havatny teve a sorte de localizar sua prenda na Rússia e, mediante um suborno pago a um oficial vermelho, conseguiu reaver A origem do mundo e levá-la de volta, não para a Hungria, comunista agora, mas para a França, escondida numa mala diplomática. Finalmente, a boa filha à casa tornava, depois de passar de mão em mão, destino de não poucas de suas congêneres carnais pelo mundo afora.
Morto o barão, a pictórica periquita encontrou abrigo na galeria de outro marchand, até que, em 1955, foi arrematada por um colecionador muito especial, o psicanalista parisiense Jacques Lacan, que a levou pra sua casa de campo. Na psicanálise, como sabemos, o falo é que é considerado pau pra toda obra, sem embargo do nefando trocadalho. O próprio Lacan chegou a escrever que “a mulher não existe”, pois carece do cetro ontológico, o pênis. Mesmo assim, Lacan se apaixonou perdidamente pela sedutora taturana, convidando apenas seus amigos mais íntimos a visitá-la na campagne, entre os quais um com nome mais do que adequado à imagem na tela: Picasso.
Em sua nova morada, por insistência de Sylvia, mulher do Lacan, o belo ventre ficou mais uma vez escondido sob outra obra, só que não mais a igrejinha, substituída por outra pintura encomendada expressamente para esse fim ao pintor André Masson, cunhado de Sylvia. A tela-disfarce de Masson, espécie de comentário modernoso à Origem, funcionava como portinhola que se abria com facilidade, para deliciada surpresa dos amigos do casal “Lacancan”.
Por fim, em 1995, com Lacan e Sylvia já mortos, A origem do mundo é entregue aos cuidados do Estado francês, a título de imposto sobre a herança do casal. E o Estado, com a típica liberalidade francesa, decide pendurar a honorável xavasca no então recém-inaugurado Museu d’Orsay, de novo às margens de um rio — o Sena agora —, às vistas de seja lá quem passe pela frente do quadro. A origem do mundo é agora de todo mundo. Bom proveito!

(Reinaldo Moraes - O cheirinho do amor, Crônicas safadas)
"Thérèse Dreaming"

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