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A ÉTICA COLETIVIZADA

por Thynus, em 24.03.16
Certas perguntas, ouvidas com frequência, não representam dúvidas filosóficas, mas confissões psicológicas. isto é particularmente verdade no campo da ética. E especialmente em discussões de ética que se deve revisar as próprias premissas (ou lembrá-las), e mais: deve-se aprender a revisar as premissas dos adversários.
Por exemplo, os objetivistas seguidamente ouvirão uma pergunta como esta: “O que será feito pelos pobres ou deficientes numa sociedade livre?” A premissa altruísta-coletivista, implícita nesta pergunta, é que os homens são “protetores de seus irmãos”, e que o infortúnio de alguns é uma hipoteca que recai sobre os outros, O questionador está ignorando ou fugindo das premissas básicas da ética Objetivista e tentando mudar a discussão para sua própria base coletivista. Observe que ele não pergunta: “Deve algo ser feito?”, mas: “O que será feito”, como se a premissa coletivista tivesse sido tacitamente aceita e tudo o que restasse fosse uma discussão dos meios para implementá-la.
Uma vez, quando Barbara Branden foi questionada por um estudante: “O que acontecerá aos pobres numa sociedade objetivista?” — ela respondeu: “Se você quiser ajudá-los, ninguém vai impedi-lo”.
Esta é a essência de toda a questão e um exemplo perfeito de como alguém recusa-se a aceitar as premissas de um adversário como a base da discussão.
Apenas os homens individualmente possuem o direito de decidir quando, ou se desejam ajudar os outros; a sociedade — como um sistema politico organizado — não possui nenhum direito no assunto.
Sobre a pergunta de quando e sob quais condições é moralmente adequado a um indivíduo ajudar aos outros, recomendo o discurso de Galt em A Revolta de Atlas. O que nos interessa aqui é a premissa coletivista de considerar esta questão como política, como um problema ou um dever da “sociedade com um todo”.
Já que a natureza não garante segurança automática, sucesso e sobrevivência para qualquer ser humano, somente a presunção ditatorial e o canibalismo moral do código altruísta-coletivista que permitem ao homem supor (ou fantasiar) que ele pode, por alguma razão, garantir esta segurança a alguns homens às custas de outros.
Se um homem reflete sobre o que a “sociedade” deve fazer pelo pobre, aceita com isso a premissa coletivista de que as vidas dos homens pertencem à sociedade, e que ele, como um membro desta, possui o direito de dispor deles, fixar seus objetivos ou planejar a “distribuição” de seus esforços.
Esta é a confissão psicológica inferida em tais perguntas e em muitas questões do mesmo tipo. Na melhor das hipóteses, revela o caos psico-epistemológico de um homem; revela uma falácia que pode ser chamada de “a falácia da abstração congelada” e que consiste em substituir uma determinada ideia concreta por uma ciasse abstrata mais ampla à qual pertença — neste caso, substituindo uma ética específica (altruísmo) pela abstração mais ampla da ética. Desse modo, um homem pode rejeitar a teoria do altruísmo e afirmar que aceitou um código racional — mas, ao não obter a integração das suas ideias, continua irrefletidamente tratando as questões éticas nos termos estabelecidos pelo altruísmo.
Com maior frequência, entretanto, esta confissão psicológica revela um mal mais profundo: quão extensamente o altruísmo corrói a capacidade dos homens de compreenderem o conceito de direitos ou o valor da vida de um indivíduo; revela uma mente da qual se apagou a realidade de um ser humano.
A humildade e a presunção são sempre dois lados da mesma premissa e sempre dividem a tarefa de completar o espaço deixado pela autoestima numa mentalidade coletivizada. Um homem que está disposto a servir como meio para os fins dos outros, necessariamente considerará estes como meio para seus fins. Quanto mais neurótico ou consciencioso for, na prática do altruísmo (e estes dois aspectos de sua psicologia atuarão reciprocamente para reforçar um ao outro), mais ele tentará planejar esquemas “para o bem do gênero humano ou da sociedade” “ou do público ou de gerações futuras” — ou de qualquer coisa, exceto seres humanos reais.
Daí o apavorante atrevimento com o qual os homens propõem, discutem e aceitam projetos humanitários que devem ser impostos por meios políticos, isto é, pela força sobre um número ilimitado de seres humanos. Se, de acordo com as caricaturas coletivistas, os ricos gananciosos se entregam disso juntamente ao luxo material — sob a premissa de “não se importar com o quanto custa” — então o progresso social trazido pelas mentalidades coletivizadas de hoje consiste em satisfazer um planejamento político altruísta sob a premissa de “não se importar com quantas vidas humanas custa”.
A marca característica dessas mentalidades é a defesa de algum objetivo público em grandiosa escala, sem considerar contexto, custos ou meios. Fora de contexto, este objetivo pode geralmente ser considerado desejável; deve ser público porque os custos não serão cobertos com recursos legítimos, mas sim com recursos expropriados, e um denso e asfixiante nevoeiro deve encobrir a questão dos meios — porque estes são vidas humanas.
“Medicare [Programa governamental de assistência médica especial para idosos. (N. T.)] ” é um exemplo desse projeto. “Não é desejável que os idosos devam ter assistência médica em momentos de doença?”, seus defensores clamam. Considerado fora de contexto, a resposta seria: sim, é desejável. Quem teria uma razão para dizer não? E é neste ponto que os processos mentais de um cérebro coletivizado são interrompidos; o resto é nevoeiro. Somente o desejo permanece em sua visão — é o bem, não é? — não é para mim mesmo, é para os outros, é para o público, para um público desamparado, doente,., O nevoeiro esconde fatos, como a escravização e, portanto, a destruição da ciência médica, a arregimentação e a desintegração de todos os consultórios médicos, o sacrifício da integridade profissional, da liberdade, das carreiras,  das ambições, das conquistas, da felicidade, das vidas dos próprios homens que devem prover este objetivo desejável — os médicos.
Após séculos de civilização, a maioria dos homens — com exceção dos criminosos — aprendeu que a atitude mental acima não se aplica a suas vidas privadas, nem na prática, nem moralmente, e não deve ser empregada na conquista dos objetivos particulares. Não haveria controvérsia a respeito do caráter moral de um jovem criminoso que declarara: “Não é desejável ter um iate, morar numa cobertura e beber champanha?” — e teimosamente recusa-se a considerar o fato de que ele roubou um banco e matou dois guardas para alcançar este objetivo “desejável”.
Não há diferença moral entre estes dois exemplos; o número de beneficiários não muda a natureza da ação, simplesmente aumenta o número de vítimas. Na verdade, o criminoso particular possui uma pequena vantagem moral: não tem o poder de devastar uma nação inteira, e suas vítimas não estão legalmente desarmadas.
A ética coletivizada do altruísmo afastou da marcha da civilização a visão que os homens têm de sua existência pública ou política, mantendo esta área como um reservatório, um santuário de vida ]selvagem, dominado pela selvageria pré-histórica. Embora os homens compreendam alguma fraca manifestação de respeito por direitos individuais em suas relações particulares uns com os outros, esta manifestação desaparece quando se voltam para questões publicas — e o que salta para a arena política é um homem das cavernas, que não pode conceber por qualquer razão o porquê da tribo não poder bater no crânio de qualquer indivíduo no caso de assim o desejar.
A característica que distingue esta mentalidade tribal é: o axiomático, a quase “instintiva” visão da vida humana como o alimento, combustível ou meio para qualquer projeto público.
Os exemplos desses projetos são inumeráveis: “Não é desejável acabar com as favelas?” (desconsiderando o contexto do que acontece àqueles na faixa de renda seguinte) — “Não é desejável ter cidades lindas e planejadas, todas num estilo harmonioso?” (desconsiderando o contexto da escolha de quem deve forçar estilos aos construtores de casas) — “Não é desejável ter um publico educado?” (desconsiderando o contexto de quem educará, o que será ensinado, e o que acontecerá aos dissidentes) — “Não é desejável liberar os artistas, os escritores, os compositores do fardo dos problemas financeiros e deixá-los livres para criarem?” (desconsiderando o contexto de perguntas como: quais artistas, escritores e compositores? — escolhidos por quem? — às custas de quem? — à custa dos artistas, escritores e compositores que não possuem influência política e cujos rendimentos miseravelmente precários serão taxados para “liberar” esta elite privilegiada?) — “A ciência não é desejável? Não é desejável para um homem conquistar o espaço?”.
E aqui chegamos à essência da irrealidade — a selvagem, cega, assustadora e sangrenta irrealidade — que motiva uma alma coletivizada.
A pergunta não-respondida e irrespondível sobre todos os seus objetivos “desejáveis” é: para quem? Desejos e objetivos pressupõem beneficiários. A ciência é desejável? Para quem? Não aos servos soviéticos que morrem de epidemia, sujeira, fome, terror e diante de pelotões de fuzilamento — enquanto alguns jovens brilhantes acenam a eles de cápsulas espaciais circulando sob seus chiqueiros humanos. E não ao pai americano que morreu de insuficiência cardíaca ocasionada por excesso de trabalho, lutando para enviar seu filho à faculdade — ou ao garoto que não pôde sustentar a faculdade — ou ao casal morto no desastre de um automóvel porque não pôde adquirir um carro novo — ou à mãe que perdeu seu filho porque não teve os recursos para mandá-lo ao melhor hospital — não para estas pessoas que pagam impostos para o sustento de nossa ciência subsidiada e projetos de pesquisa pública.
A ciência é um valor apenas porque desenvolve, enriquece e protege a vida do homem. Nada é um valor fora deste contexto, E a “vida do homem” significa as vidas únicas, específicas e insubstituíveis de cada homem individualmente.
A descoberta de novo conhecimento é um valor para os homens apenas quando e se eles são livres para usar e desfrutar os benefícios do previamente conhecido. Novas descobertas são um valor em potencial para todos os homens, mas não ao preço de sacrificar todos os seus valores reais. Um progresso estendido ao infinito que não traz benefício à ninguém, é uma coisa absurdamente monstruosa. E também o é a "conquista do espaço' ’ por alguns homens, quando e se for executada expropriando o trabalho de outros que são deixados sem meios para adquirir um par de sapatos.
O progresso pode advir apenas daquilo que sobra dos homens, isto é: do trabalho daqueles homens cuja habilidade produz mais do que o seu consumo pessoal requer, aqueles que são intelectual e financeiramente capazes de aventurar-se na busca do novo, O capitalismo é o único sistema onde homens são livres para agir, e onde o progresso é acompanhado, não por privações forçadas, mas por um aumento constante no nível geral de prosperidade, de consumo e de prazer da vida.
É apenas para a irrealidade congelada dentro de um cérebro coletivizado que as vidas humanas são intercambiáveis — e apenas este cérebro pode contemplar como “moral” ou “desejável” o sacrifício de gerações de homens vivos para os supostos benefícios que a ciência pública ou indústria pública ou acordos públicos trarão aos que estão por nascer.
A Rússia Soviética é a mais clara, mas não a única ilustração das conquistas da mentalidade coletivizada. Duas gerações de russos viveram, trabalharam e morreram na miséria, esperando pela abundância prometida por seus dirigentes, que suplicaram paciência e austeridade, enquanto construíam uma “industrialização” pública e matavam a esperança pública em prestações de cinco anos. No princípio, as pessoas morriam de fome esperando geradores elétricos e tratores; e hoje continuam morrendo de fome, enquanto esperam pela energia atômica e as viagens interplanetárias.
Esta espera não tem fim — os aproveitadores que ainda não nasceram desta chacina de sacrifício em massa, nunca nascerão — os animais de sacrifício simplesmente alimentarão novas hordas de animais de sacrifício — como a história de todos os tiranos tem demonstrado — enquanto os olhos desfocados de um cérebro coletivizado se fixarão, inalteráveis, e falarão de uma visão a serviço do gênero humano, misturando intercambiavelmente os defuntos do presente com os fantasmas do futuro, mas sem enxergar homens.
Assim é o status da realidade na alma de qualquer Milquetoast [Milquetoant: Caspar Milquetoast, personagem de quadrinhos criado pelo cartunista americano H, T, Webster; uma pessoa tímida, dócil e humilde, (N.T.)] que olha com inveja para as conquistas de industriais e sonhos de parques públicos lindos, os quais poderia criar se apenas as vidas, esforços e recursos de todos virassem em sua direção.
Todos os projetos públicos são mausoléus, nem sempre em formato, mas sempre em custos.
A próxima vez que você encontrar um destes sonhadores “com espírito público”, o qual lhe contará rancorosamente que “alguns objetivos muito desejáveis não podem ser atingidos sem a participação de todos”, diga-lhe que, se ele não puder obter a participação voluntária de todos, seus objetivos ainda serão excelentes, mas inatingíveis — e que as vidas dos homens não estão ã sua disposição.
E, se você desejar, dê-lhe o seguinte exemplo dos ideais que defende, Do ponto de vista médico, é possível retirar as córneas dos olhos de um homem imediatamente após sua morte e transplantá-las para os olhos de um outro, vivo, que é cego, restaurando assim a visão deste (em certos tipos de cegueira). Agora, de acordo com a ética coletivizada, isto traz um problema social. Deveríamos esperar até a morte de um homem para retirar seus olhos, quando outros homens precisam deles?
Deveríamos considerar os olhos de todos como propriedade pública e planejar “um método justo de distribuição”? Você defenderia a retirada de um olho de um homem vivo e dá-lo-ia a um cego, para então “igualá-los”? Não? Então não lute mais por questões sobre “projetos públicos” em uma sociedade livre. Você sabe a resposta. O princípio é o mesmo.


(Janeiro de 1963)
(Ayn Rand - A Virtude do Egoísmo - a verdadeira ética do homem: o egoísmo nacional)

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publicado às 21:53



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