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A esperança

por Thynus, em 01.09.16
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — “Vem!

Quer para a bem-aventurança
Leves de um mundo espiritual
A minha essência, onde a esperança
Pôs o seu hálito vital;

Quer no mistério que te esconde,
Tu sejas, tão-somente, o fim:
— Olvido, imperturbável, onde
Não restará nada de mim!”

Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.

Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.

E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
 
 
 
— Pandora trouxe o vaso(1) que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado "vaso da felicidade". E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente; então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer; pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens — é a esperança. — Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.

(Fridrich Nietzsche - Humano, Demasiado Humano)
"A esperança é muito mais estimulante que a sorte" (Nietzsche)
 

NOTAS:
(1) "vaso": Faß, no original. Habitualmente se fala em "caixa de Pandora", mas a consulta a uma edição bilíngüe de Os trabalhos e os dias, de Hesíodo (trad. Mary de Camargo Neves Lafer, São Paulo, Iluminuras, Biblioteca Pólen, 1990, p. 28), revela que o termo grego original é pithos, que corresponde a "vaso, recipiente, jarro" (esta a opção da tradutora), em português, e a Faß, em alemão. O comentário de Nietzsche sobre o mito de Pandora, nesta seção, tem afinidade com um belo poema de Manuel Bandeira, intitulado "A vida assim nos afeiçoa".

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publicado às 23:12



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