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A DÚVIDA E O COGITO

por Thynus, em 09.03.15
Desde René Descartes (1596-1650) conhecemos o famoso princípio Cogito, Ergo
Sum (Penso, Logo Existo). Descartes procurava pensar acerca da única coisa
sobre a qual ele poderia ter certeza absoluta. Poderia ele dizer que aquela
árvore que vemos ali é real? Não, pois essa árvore poderia ser apenas uma
ilusão, uma peça pregada por um “demônio” invisível que estivesse
constantemente nos enganando. Assim, Descartes foi questionando uma a
uma todas as suas noções sobre a realidade, tentando encontrar aquilo que
não pudesse ser resultado de uma ilusão. Em suma, ele queria responder à
pergunta “Qual é a única coisa da qual podemos ter absoluta certeza?”. Daí,
concluiu: eu sei que existo, pois estou pensando agora, não há como me iludir
acerca disso. [comportamento] O Idealismo passou por diversos
estágios, mas hoje em dia é meramente assunto de discussão filosófica entre
estudantes. Mesmo assim, o Idealismo foi importante, pois suas proposições
alimentaram instigantes questões.
(Sergio Navega - Pensamento Crítico e argumentação Sólida)
 
O "eu" continua sendo algo muito semelhante ao
que era no tempo de Homero — quer dizer, o
ser consciente de si mesmo, que usa símbolos
verbais, que é capaz de usar a razão, que
vê o antes e o depois. Esse "eu" foi definido
em sua forma essencial por Descartes como
a criatura que pensa: "cogito ergo sum" —
penso, logo existo. Mais recentemente,
começando com Maine de Biran, no século
XVIII, e continuando com Schopenhauer,
Nietzsche, e depois Henri Bergson, William
James e John Dewey, o "eu" também foi
definido como a criatura que quer. Em vez
de cogito ergo sum, a frase deveria ser volo
ergo sum — quero, logo existo.
(Aldous Huxley - A SITUAÇÃO HUMANA)
 
É preciso inverter o famoso cogito ergo sum de Descartes: o ser não se funda sobre o pensamento ao qual se identificaria, é o pensamento que se funda sobre o ser.
(ANDRÉ DARTIGUES - O QUE É A FENOMENOLOGIA?)
 
Descartes provavelmente preferia nunca ter dito "Cogito ergo sum" ("Penso, logo existo"), porque é só isso que todo mundo lembra a seu respeito - isso e o fato de que ele disse isso sentado dentro de um forno de pão. Como se não bastasse, seu "cogito" é constantemente mal interpretado como se quisesse dizer que Descartes acreditava que pensar era uma característica essencial do ser humano. Bom, na verdade, ele realmente acreditava nisso, mas isso não tem absolutamente nada a ver com cogito, ergo sum. Descartes chegou ao cogito por meio de um experimento sem dúvida radical para descobrir se havia alguma coisa de que pudesse ter certeza; ou seja, alguma coisa de que ele não pudesse duvidar. Ele começou duvidando da existência do mundo exterior. Isso é fácil. Talvez ele estivesse sonhando ou delirando. Aí, tentou duvidar da própria existência. Mas, por mais que duvidasse, continuava esbarrando no fato de que era um duvidador. Tinha de ser ele mesmo! Não podia duvidar do próprio duvidar. Podia ter se poupado de muita interpretação errada  se tivesse dito apenas "Dubito ergo sum".
(THOMAS CATHCART, DANIEL KLEIN - PLATÃO E UM ORNITORRINCO ENTRAM NUM BAR ...)

 
Descartes insistia em que a primeira tarefa da filosofia é libertar-se de todos os preconceitos, lançando a dúvida sobre tudo aquilo acerca de que pode haver dúvidas. A segunda tarefa do filósofo, depois de ter levantado estas dúvidas, é evitar que elas conduzam ao cepticismo. Esta estratégia pode observar-se claramente nas Meditações de Descartes. Tal como o título sugere, a obra não se destina a ser lida como um tratado académico. Destina-se a ser lida com o estado de espírito de um retiro espiritual, como os Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola. Trata-se de fornecer uma forma de terapia do pensamento, afastando a mente das falsas abordagens à verdade, da mesma maneira que a meditação religiosa afasta a alma do mundo e da carne. Nesta disciplina intelectual são postos em causa os dados dos sentidos, primeiro por considerações resultantes dos enganos dos sentidos e, depois, por um argumento proveniente dos sonhos.
Aquilo que até agora aceitei como verdadeiro par excellence chega até mim vindo quer dos sentidos, quer por meio dos sentidos. Ora, já houve alturas em que os sentidos me enganaram; e um homem sensato nunca confia inteiramente naqu eles que alguma vez o enganaram. Mas, embora os sentidos possam, por vezes, enganar-nos acerca de objectos diminutos ou remotos, há muitos outros factos acerca dos quais a dúvida é claramente impossível, embora provenham da mesma fonte; por exemplo, que estou aqui, sentado junto ao fogo, vestindo um casaco de Inverno, com este papel na mão, etc. Notável argumento! Como se eu não fosse um homem que habitualmente dorme de noite e tem, a dormir, as mesmas impressões (ou impressões ainda mais estranhas) que estes homens têm acordados! Com que frequência tenho, na calma da noite, a convicção familiar de que estou aqui, de que visto este casaco, de que me encontro sentado junto do fogo — quando na realidade estou despido e deitado na minha cama!
 
Mas mesmo que os sentidos sejam enganadores e que a vida em vigília seja tão ilusória como um sonho, certamente que podemos confiar na razão e que o conhecimento de ciências como a matemática é seguro!
Quer eu esteja acordado quer a dormir, dois mais três são cinco, e um quadrado tem apenas quatro lados; e parece impossível que estas verdades óbvias estejam sob a suspeição de ser falsas.
Mas foi implantada na minha mente a opinião antiga de que existe um Deus que tudo pode fazer e que me fez tal como sou. Como sei eu que ele não fez as coisas de maneira que, embora nem a Terra nem o céu nem os objectos extensos, nem formas, nem dimensões, nem lugares existam, ainda assim todas estas coisas pareçam existir, como parecem neste momento? Além disso, constato que os outros homens por vezes se enganam acerca do que julgam conhecer perfeitamente; não poderá Deus enganar-me igualmente, sempre que eu somo dois e três, ou conto os lados de um quadrado, ou faço a coisa mais simples que se possa imaginar? Mas talvez não seja vontade de Deus enganar-me; afinal, Ele é considerado sumamente bom
.Mas, mesmo que Deus não seja enganador, como posso ter a certeza de que não existe um espírito maligno, sumamente poderoso e inteligente, que faz os possíveis por me enganar? Para evitar a possibilidade de aquiescer à falsidade, tenho de considerar que todos os objectos exteriores são sonhos enganadores e que não possuo um corpo, mas apenas uma crença falsa num corpo.
O famoso argumento de Descartes a favor da sua própria existência suspende estas dúvidas. Por muito que possa enganá-lo, um génio maligno nunca poderá levá-lo a pensar que existe quando não existe. «Não há dúvida que se ele me engana, eu existo; ele pode enganar-me sobre o que quiser, mas nunca poderá fazer com que eu não seja nada quando estou a pensar que sou alguma coisa.» «Eu existo» é algo que não pode deixar de ser verdade quando é pensado; mas tem de ser pensado para poder ser objecto de dúvida. Quando se percebe isto, «eu existo» torna-se indubitável porque, sempre que tento duvidar disso, percebo automaticamente que é verdade.
O argumento de Descartes costuma ser apresentado sob a forma lapidar por ele utilizada no Discurso: Cogito, ergo sum — «Penso, logo existo». Destas poucas palavras, não só deriva Descartes uma prova da sua existência, como ainda procura descobrir a sua própria essência, demonstrar a existência de Deus e fornecer um critério que conduza a mente na sua procura da verdade. Não é de espantar que todas as palavras do Cogito tenham sido mil vezes pesadas pelos filósofos. «Penso». O que significa «pensar», neste contexto? Por aquilo que Descartes afirma noutros passos, é claro que qualquer forma de activ idade consciente interior conta como pensamento; mas é evidente que o pensamento que está aqui em questão é o pensamento auto-reflexivo que ele está a pensar. «Penso» é uma abreviação de «Eu penso». Que importância tem o termo «eu» nessa expressão? Na vida comum, a palavra «eu» deriva o seu significado da relação com o corpo que lhe dá expressão; terá uma pessoa que duvide do facto de ter um corpo o direito de utilizar o termo «eu» num solilóquio? Alguns críticos pensaram que Descartes devia ter dito apenas: «Está a ocorrer pensamento».
«Logo». Esta palavra dá ao cogito a forma de um argumento, que parte de uma premissa para chegar a uma conclusão. Noutras passagens, Descartes fala como se a sua própria existência fosse algo que ele intui imediatamente. Tem havido, por isso, uma grande discussão sobre se o cogito é uma inferência ou uma intuição . É provável que Descartes pretendesse que fosse uma inferência, mas uma inferência imediata e não uma inferência que pressupusesse um princípio mais geral como «Tudo aquilo que está a pensar existe».
«Existo». Se a premissa devia ser «está a ocorrer pensamento», não deveria a conclusão ser apenas «está a ocorrer existência»? Alguns críticos argumentaram que um Descartes dubitativo não tinha o direito de retirar a conclusão de que existe um eu estável e substancial. Talvez ele devesse ter concluído antes que existe um sujeito fugidio de um pensamento transitório; ou talvez possa haver pensamentos sem donos. Poderá Descartes presumir que o «eu» revelado pela dúvida metódica é a mesma pessoa que, não purificada pela dúvida, respondia pelo nome «René Descartes»? Uma vez cortados os laços entre o corpo e a mente, como pode alguém ter a certeza quanto à identidade do pensador das Meditações?
Estas questões tiveram uma grande importância na filosofia dos dois últimos séculos. No tempo do próprio Descartes, houve quem perguntasse de que forma «penso, logo existo» se distingue de «passeio, logo existo». A resposta de Descartes é que, como argumento, o primeiro é tão bom como o segundo; mas a premissa do primeiro é indubitável, enquanto a premissa do segundo é vulnerável à dúvida. Se eu não tiver corpo, não passeio, mesmo que pense que estou a passear; mas, por muito que duvide, pelo próprio facto de duvidar, estarei a pensar. Já «penso que estou a passear, logo existo» é uma forma perfeitamente válida do cogito .

(Anthony Kenny - História Concisa da Filosofia Ocidental)
 
 
Se o "Eu penso, logo existo" é a única certeza que é possível ter, a princípio, então não é possível ter a certeza sequer de que se tem corpo. Essa idéia vai inspirar, por exemplo, teorias como a do filme Matrix.

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publicado às 13:09



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