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O excesso mesmo com que ele afirmou sua verdade não é, por sua natureza, fácil de se admitir. Mas é possível, a partir das afirmações que ele nos propõe, que a ternura não muda nada no jogo que associa o erotismo à morte. O comportamento erótico se opõe ao habitual, como o gasto à compra. Se nos conduzimos de acordo com a razão, tentamos adquirir bens de todas as espécies, trabalhamos para aumentar nossos recursos — ou nossos conhecimentos —, nos esforçamos por todos os meios para enriquecer e possuir mais. É, em princípio, em tais comportamentos que se funda nossa posição no plano social. Mas no momento de excitação sexual, nós nos conduzimos de uma maneira oposta:
gastamos nossas forças desmedidamente e, às vezes, na violência da paixão, dilapidamos à toa recursos consideráveis. A volúpia está tão próxima da dilapidação ruinosa que nós chamamos de petite mort* o momento de seu paroxismo. Em conseqüência disso, os aspectos que evocam para nós o excesso erótico representam sempre uma desordem. A nudez arruína a decência que nos damos através de nossas roupas. Mas, unia vez dentro da via da desordem voluptosa, não nos contentamos com pouco. A destruição ou a traição acompanham às vezes a escalada do excesso genético. Acrescentamos à nudez a estranheza dos corpos semivestidos, cujas roupas não fazem senão salientar a desordem de um corpo, que é tanto mais desordenado quanto mais está nu. As sevícias e o homicídio prolongam esse movimento de ruína. Do mesmo modo, a prostituição, o vocabulário de baixo calão e todos os laços do erotismo e da infâmia contribuem para fazer do mundo da volúpia um mundo de degradação e ruína. Não encontramos felicidade verdadeira senão no gasto inútil, como se uma ferida se abrisse em nós: queremos sempre estar seguros da inutilidade, às vezes, do caráter ruinoso de nosso gasto. Queremos nos sentir bem distantes de tudo, onde o aumento dos recursos é a regra. "Bem distantes" diz muito pouco. Queremos um mundo subvertido, queremos o mundo pelo avesso. A verdade do erotismo é traição.
O sistema de Sade é a forma ruinosa do erotismo. O isolamento moral significa a suspensão dos freios: ele dá o sentido profundo do gasto. Quem admite o valor de outro se limita necessariamente. O respeito a outrem o obscurece e o impede de medir o alcance da única aspiração que não subordina a nada o desejo de aumentar recursos morais ou materiais. A cegueira pelo respeito é banal: de ordinário, nós nos contentamos com rápidas incursões no mundo das verdades sexuais, que são acompanhadas, o resto do tempo, pelo desmentido aberto dessas verdades. A solidariedade em relação a todos os outros impede um homem de ter uma atitude soberana. O respeito do homem pelo homem leva a um ciclo de servidão onde não temos mais que momentos de sujeição, onde finalmente faltamos ao respeito que é o fundamento de nossa atitude, uma vez que privamos o homem em geral de seus momentos soberanos.
No sentido oposto, "o centro do mundo sádico" é, como diz Maurice Blanchot, "a exigência da soberania que se afirma através de uma imensa negação". Uma liberdade desenfreada abre o vazio em que o possível responde à mais forte aspiração que negligencia as aspirações secundárias: uma espécie de heroísmo cínico nos desobriga dos respeitos, das ternuras, sem os quais, normalmente ,não podemos nos suportar. Tais perspectivas nos deixam tão longe do que somos comumente que a grandeza da tempestade está bem distante de uma hora ensolarada ou do tédio de um tempo coberto.
Não dispomos, na verdade, desse excesso de força sem o qual não podemos alcançar o lugar onde nossa soberania se realizaria. A soberania real, por mais desmesurada que seja no sonho silencioso dos povos, está ainda, em seus piores momentos, bem abaixo do arrebatamento que os romances de Sade nos propõem. O próprio Sade não teve, sem dúvida, nem a força nem a audácia de chegar ao momento supremo que ele descreveu.
Maurice Blanchot determinou esse momento que domina todos os outros, e que Sade chama de apatia. "A apatia", diz Maurice Blanchot, "é o espírito da negação aplicada ao homem que escolheu ser soberano. É, de alguma maneira, a causa e o princípio da energia. Sade, parece, raciocina quase dessa maneira: o indivíduo hoje representa uma certa quantidade de força; a maior parte do tempo ele gasta suas forças alienando-as em benefício desses simulacros que se chamam os outros, Deus, o ideal; por essa dispersão, ele comete o erro de esgotar suas possibilidades, desperdiçando-as, e, mais ainda, de fundar sua conduta na fraqueza, pois, se ele se desgasta pelos outros, é porque acredita ter necessidade de se apoiar sobre eles. Erro fatal: ele se enfraquece gastando sua forças em vão e, se as gasta, é porque se acha fraco. Mas o homem verdadeiro sabe que é só, e aceita sê-lo; ele nega tudo o que nele, herança de dezessete séculos de fraqueza, se refere a outros que não ele; por exemplo, a piedade, a gratidão, o amor são sentimentos que ele destrói; destruindo-os, ele recupera toda a força que teria precisado consagrar a esses impulsos debilitantes e, o que é ainda mais importante, ele tira desse trabalho de destruição o começo de uma energia verdadeira — é preciso bem entender, com efeito, que a apatia não consiste somente em arruinar as afeições "parasitárias", mas também em se opor à espontaneidade de qualquer paixão. O viciado que se abandona imediatamente ao seu vício não passa de um aborto que se perderá. Mesmo libertinos de gênio, perfeitamente dotados para se tornarem monstros, se se contentam em seguir suas tendências, estão destinados à catástrofe. Sade exige: para que a paixão se transforme em energia, é preciso que ela esteja comprimida, que se mediatize, passando por um momento necessário de insensibilidade; ela será então a maior possível. Nos primeiros tempos de sua carreira, Juliette não pára de ouvir constantemente as repreensões de Clairwill: ela não comete o crime a não ser no entusiasmo, não acende a tocha do crime a não ser na chama das paixões, colocando a luxúria, a efervescência do prazer acima de tudo. Facilidades perigosas. O crime importa mais que a luxúria; o crime de sangue frio é maior que o crime executado no ardor dos sentimentos; mas o crime "cometido no enrijecimento da parte sensitiva", crime sombrio e secreto, importa mais que tudo, porque é o ato de rima alma que, tendo tudo destruído nela, acumulou uma força imensa que se identifica completamente com o movimento de destruição total que ela prepara. Todos esses grandes libertinos que vivem somente para o prazer não são grandes senão porque aniquilaram em si toda capacidade de prazer. É por isso que levam a si mesmos a assustadoras anomalias, de outro modo a mediocridade das volúpias normais lhes seria suficiente. Mas eles se fizeram insensíveis: pretendem gozar de sua insensibilidade, dessa sensibilidade negada, aniquilada, tornando-se ferozes. A crueldade não é senão a negação de si levada tão longe que se transforma numa explosão destruidora; a insensibilidade toma conta de todo o ser. Diz Sade: "A alma passa a uma espécie de apatia que se metamorfoseia em prazeres mil vezes mais divinos que os que lhes proporcionavam as fraquezas" (Maurice Blanchot, op. cit., pp. 256-8.).

(Georges Bataille - O Erotismo)

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publicado às 14:05



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