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A corrupção nossa e alheia

por Thynus, em 04.07.16
A corrupção é um crime sem rosto.
 
Políticos no Brasil não são eleitos pelas pessoas que leem jornais, 
mas pelas quais se limpam com ele.
Conde Von Noble  
 
A corrupção não é uma invenção brasileira.
Mas ainda não inventamos como botar na cadeia os corruptos.


As raízes sociais da corrupção

 A corrupção não é uma invenção brasileira.
Essa é a conclusão (tola e científica) a que cheguei depois de ler dezenas de livros sobre o assunto. O que talvez seja brasileira neste assunto é a incompetência no seu combate. Por exemplo: os três governos mais corruptos dos Estados Unidos foram os de Grant, Harding e Truman. No tempo de Grant, como disse o senador Paul Douglas, “as ferrovias do país compravam legisladores como se fossem gado”. E o próprio secretário do presidente participava da “quadrilha do uísque”. Já o presidente Harding, como lembram alguns historiadores, morreu por causa dos escândalos na sua administração. Para fugir à atmosfera desses escândalos, embarcou numa viagem para o Alasca. E para distrair-se, começou a jogar pôquer desvairadamente. O trem seguia e ele seguia jogando por até 15 horas consecutivas. Os assistentes se revezando na mesa de jogo, em turmas que descansavam de três em três horas. Quando a comitiva presidencial chegou em São Francisco, o presidente teve um ataque cardíaco.
Mas Truman teve uma administração ainda mais corrupta. “Nunca houve tanta corrupção praticada por tantos funcionários públicos, em tantos lugares. A máquina arrecadadora de impostos da nação estava infestada de alto a baixo de suborno”. Como diz Francisco Bilac Pinto, “Harry Truman, longe de tomar medidas efetivas para aniquilar a corrupção, em alguns casos protegia os culpados, em outros permanecia indiferente ou empregava a máquina da administração para bloquear e desviar os investigadores da corrupção. As fraudes foram reveladas, não por causa da administração, mas apesar dela”.
E tem mais. O governo Eisenhower teve inúmeros casos na mesma linha. E o santo Abraham Lincoln, como relata em sua biografia Carl Sandburg, também usou práticas corruptoras, ainda que para conseguir resultados louváveis, como a libertação dos escravos em Nevada. E para quem não sabia, o governo Reagan já processou 113 membros e assessores, alguns dos quais foram para a cadeia.
E aí é que está o busílis da questão. A corrupção não é uma invenção brasileira. Mas ainda não inventamos como botar na cadeia os corruptos. Esse desalento que sentimos é o mesmo do senador Fullbright, que sobre os escândalos da era Truman, disse: “Escândalos no governo não constituem fenômeno novo. O que parece ser novidade, a respeito desses escândalos, é a insensibilidade ou a apatia com que aqueles que exercem posições de responsabilidade se conformam com as práticas que os fatos comprovam. É sumamente lamentável ter a corrupção no nosso meio, mas o mais grave é perdoá-la ou aceitá-la como inevitável”.
Segundo os historiadores, há dois séculos “a Grã-Bretanha era uma cloaca de corrupção”. Muitas famílias finíssimas se estabeleceram a partir daí e algumas deram até primeiro-ministro. Alguns dizem que a moralização se deve à Rainha Vitória; outros, à religião metodista criada por John Wesley. O fato é que, orgulhosamente, Paul Douglas diz: “A vida política inglesa hoje é exercida em nível moral relativamente alto. Os servidores civis que fazem andar a administração dos negócios públicos são quase incorruptíveis e as eleições para o Parlamento são conduzidas com um mínimo de suborno, calúnias e afrontas”.
E na Rússia?
Quem quiser saber que leia “A kleptocracia — A corrupção na União Soviética”, de Patrick Meney, onde há até a tabela de “taxas de corrupção”. Autores como Jean-François Revel e Fred Riggs estudam a corrupção nos países do Terceiro Mundo e no universo sindical. E outros, como Michael Johnston, consideram o “custo e benefícios da corrupção” e nos ensinam a “viver com a fera”.
Parece, portanto, que todos estão acordes em que a corrupção existe em qualquer época e regime. O que se quer é o “mínimo de suborno”. Ou seja: em vez de deixar a fera solta devorando indistintamente tudo e todos, colocá-la na jaula. Mantê-la sob dieta. E no Brasil?
Aquele entrevero entre o Presidente Sarney e Dom Luciano Mendes deixou uma série de ambiguidades no ar. Existe ou não existe corrupção? Existem ou não meios de combatê-la? Um ministro chegou a dizer que era muito difícil, porque os corruptos não deixam pista. Será que nossos corruptos são mais hábeis do que os de outros países? Ou será que nossas leis são mal elaboradas? Lei é que não falta. Acabo de descobrir uma ótima: Lei n. 3.502, de Bilac Pinto, que “regula o sequestro e o perdimento de bens nos casos de enriquecimento ilícito, por influência ou abuso de cargo ou função”. É de 1958. E gostaria de saber o que fizeram com ela. Por que será que esta lei não “pegou”?

(Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)
Não é a corrupção o grande mal do Brasil, mas a hipocrisia

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