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O homem tende, por natureza, à inconstância no amor; a mulher, à constância. O amor do homem diminui sensivelmente tão logo é satisfeito: quase todas as outras mulheres o excitam mais do que aquela que ele já possui, por isso sente a necessidade de variar. Em contrapartida, o amor da mulher aumenta justamente a partir desse momento. Isso constitui uma conseqüência do objetivo da natureza, que visa conservar a espécie e, portanto, multiplicá-la o máximo possível. Com efeito, o homem pode comodamente gerar mais de cem crianças em um ano se tiver à disposição outras tantas mulheres; já a mulher poderia, por mais homens que tivesse, dar à luz apenas um filho por ano (exceto no caso de gêmeos). Por essa razão, o homem está sempre à procura de novas mulheres, enquanto estas prendem-se firmemente a apenas um homem: pois a natureza as leva a conservar, instintivamente e sem reflexão, aquele que nutrirá e protegerá a futura prole.
(Arthur Schopenhauer - "A Arte de Insultar")
 
 
 

Nos homens, após o ato sexual, há em geral um decréscimo desinteresse pela mulher É um fenômeno que tem muitas gradações, muitas nuances. Está apenas esboçado no homem apaixonado que abraça com força a amada, como se não quisesse mais separar-se dela. Atinge seu ponto máximo no relacionamento com a prostituta porque, neste caso, o desejo desaparece imediatamente, e o homem gostaria de já se ver vestido, fora do quarto, fora do hotel, bem longe. Existem ainda as situações intermediárias, em que o homem perde o interesse momentaneamente. Depois, aos poucos, reacende-se nele o desejo sexual e com este, a ternura, a vontade de ficar ao lado da mulher, de acariciá-la, olhá-la, fazer novamente amor. Num encontro amoroso o homem prefere falar, ler, brincar antes do ato sexual, e concluir o encontro com o êxtase amoroso. Depois do que, parte contente, realizado, enriquecido. Para ele, esse é o momento mais oportuno, mais bonito por causa da separação. É como largar um livro policial quando se revela o nome do criminoso. O que vem depois pode até ser útil, interessante, mas não é mais essencial. Ou como quando, depois de um longo esforço, resolve-se um difícil problema. A demonstração mais acurada, o teor da relação podem vir mais tarde. O grito de Arquimedes, “Heureka”, exprime esse estado de realização feliz, que é também vontade de mexer-se, de sair, de correr.
A mulher interpreta esse comportamento como rejeição, desinteresse. Sente-se tratada como um alimento delicioso que provoca grande desejo antes de ser saboreado, mas que depois, quando já se está saciado, torna-se enjoativo. Só que ela não é um alimento, é uma pessoa. O homem, antes, a cortejava, mimava, desejava. Não queria apenas seu corpo, suas pernas, seus seios, seu sexo. Queria sentir seu desejo, admirava sua inteligência. Queria conversar com ela, conhecer sua história, participar de sua vida, fazer projetos. Depois do orgasmo — ou de um certo número de orgasmos —, é como se ela desaparecesse como pessoa, restando apenas um corpo rejeitado.
Essa experiência de ser tratada como um corpo (rejeitado) é pré-datada. A mulher é levada a pensar que na verdade o homem queria apenas descarregar sua tensão, que seu interesse por ela como um ser total não existia, nem ao menos antes. Era apenas para satisfazer seu desejo sexual que ele falava, que ouvia. O encontro intelectual e emotivo, a intimidade, eram apenas um meio para atingir um fim. Porque, se ele a tivesse verdadeiramente desejado como pessoa, teria continuado a desejá-la. Ficaria junto dela, ternamente abraçado. Satisfeito o impulso sexual, permaneceria feliz a seu lado, acariciando-a, aspirando seu perfume. Não se teria levantado. Pelo menos, antes que ela estivesse cansada.
O desejo da mulher de permanecer ao lado do homem depois do orgasmo (ou orgasmos) é muito mais forte quando ela está apaixonada. Porém, existe sempre, desde que aquele homem lhe agrade. Isso porque o orgasmo da mulher é mais prolongado, mas, acima de tudo, porque ela sente a necessidade de ser desejada, de agradar de modo contínuo, duradouro. A separação do homem lacera, interrompe essa continuidade. Uma vez que o prazer na mulher se manifesta como necessidade de continuidade, a interrupção não pode significar outra coisa a não ser desinteresse, rejeição.
Estamos diante de uma estrutura temporal, diversa nos dois sexos. Há uma preferência profunda do feminino pelo contínuo e uma preferência profunda do masculino pelo descontínuo (A explicação mais racional do fenômeno é a apresentada por Lillian B. Rubin: Intimate strangers, Nova York, Harper Colophon, 1983. Rubin lembra que a mulher, de modo diferente do homem, não se deve diferenciar do seu objetivo primário de amor e de identificação, que ê a mãe. Essa experiência leva-a a experimentar um senso de continuidade com as pessoas que ama. Ela tende à fusão e, às vezes, à confusão com o amado. De modo menos claro veja também, sobre este assunto, E. Newmann: La psicologia dei femminile, trad. ital., Roma, Astrolabio, 1975, e Silvia di Lorenzo: La donna e la sua ombra, Milão, Emme Edizioni, 1980). Quando as mulheres dizem que apreciam a ternura, os carinhos, e que por isso mesmo os preferem ao ato sexual, não se referem apenas ao aspecto tátil, sensível da experiência. Indicam a necessidade de atenção amorosa prolongada, de interesse contínuo com relação à sua pessoa. A prevalência do tátil é somente uma manifestação dessa mais profunda prevalência do contínuo.
A contraposição contínuo-descontínuo é ponto fundamental da diferença feminino-masculino. No decorrer deste livro tornaremos a encontrá-la várias vezes em todos os relatos, inclusive nos modos de pensar ou de descrever a experiência subjetiva. Para a mulher, os vários estados emotivos são menos diferenciados que no homem. Para a mulher, a ternura e a doçura combinam com o erotismo, inserem-se nele harmoniosamente. Para o homem, isso acontece com muito menor frequência. A mulher sente como erótica tanto a emoção provocada pelo contato do corpo do filho como aquela provocada pelo contato com o corpo do amante. As vezes, gostaria de tê-los a seu lado juntos, juntos na mesma cama. Para o homem são experiências completamente diversas. Também a diferença entre amizade e amor é mais tênue na mulher. Dorothy Tennov observou que as mulheres confundem mais facilmente a enfatuação erótica e a paixão (Dorothy Tennov: Love and limerence, Nova York, Stein and Day, 1979.). O homem, ao contrário, tende a acentuar as diferenças, a separar as diversas emoções (A confusão feminina, em contraste com a ordem, o logos masculino, é um mito antiqüíssimo. Na mitologia babilônia, “Ti Amat é o ventre primordial eternamente jovem e fecundo... é a confusão do pântano onde vapores infectos, águas doces e águas salgadas se misturam e se confundem. Não possui nenhuma estabilidade, no próprio seio gera toda sorte de criaturas monstruosas, anormais, inferiores, recalcitrantes. Daí a necessidade de uma severa atuação para pôr as coisas em ordem, da parte das forças masculinas”. Ti Amat será então aprisionada por Marduk, deus dos ventos e da chuva. Gabriella Buzzatti: L’immagine intollerabile, i labirinti dell’Eros, Atas da Convenção de Florença, 27-28 de outubro, 1984, Milão, Libreria delle donne. A psicologia junguiana identificou melhor que a freudiana a tensão intrínseca do erotismo feminino. Neste, uma imagem é Afrodite, que tende à fusão, à participação mística com o homem. A outra é Ártemis, a virgem, que o rejeita e vive para si mesma. Ver Silvia di Lorenzo: La donna e la sua ombra).
Daí decorre uma curiosa consequência. Como o homem experimenta emoções diversas, não comparáveis, não tem necessidade de mudar rapidamente a sua orientação emocional. Não passa do amor à rejeição, do não ao sim, e vice-versa. A mulher, ao contrário, exatamente porque se move entre emoções semelhantes, quando precisa estabelecer uma diferença, o faz em termos de aceitação ou de recusa, de sim ou de não. Tende a fazer um julgamento de valor, não de qualidade. Por isso, às vezes, ela parece mais descontínua que o homem. Porque antes amava, sentia ternura, erotismo, amizade, admiração, e depois, quando acontece a rejeição, não sente mais nada. Todas as emoções, enquanto indiferenciadas, desabam juntas. A descontinuidade se apresenta como tudo ou nada.

(Francesco Alberoni - O Erotismo)

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publicado às 15:55



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