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A condição humana

por Thynus, em 25.11.16
A grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.
 

Em nome de interesses pessoais, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem abusos e sorriem para quem desprezam. Abdicar de pensar também é crime.
Hannah Arendt   

"Visto que a autoridade sempre exige obediência, ela é comumente confundida com alguma forma de poder ou violência. Contudo, a autoridade exclui a utilização de meios externos de coerção; onde a força é usada, a autoridade em si mesma fracassou. A autoridade, por outro lado, é incompatível com a persuasão, a qual pressupõe igualdade e opera mediante um processo de argumentação. Onde se utilizam argumentos, a autoridade é colocada em suspenso. Contra a ordem igualitária da persuasão ergue-se a ordem autoritária, que é sempre hierárquica. Se a autoridade deve ser definida de alguma forma, deve sê-lo, então, tanto em contraposição à coerção pela força como à persuasão através de argumentos. (...) A autoridade implica uma obediência na qual os homens retêm sua liberdade”.
(Entre o passado e o futuro - Hannah Arendt )
 


O Filho de Deus nascido, 1896, Munique
 
 

“De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?” Concebidos em suprema simplicidade por Paul Gauguin na tela de sua obra-prima taitiana, esses são de fato os problemas centrais da religião e da filosofia. Seremos capazes de resolvê-los um dia? Às vezes parece que não. Mas talvez sejamos.

A humanidade hoje é como um sonâmbulo, imprensada entre as fantasias do sono e o caos do mundo real. A mente procura mas não consegue achar o lugar e a hora precisos. Criamos uma civilização de Guerra nas estrelas, com emoções da Idade da Pedra, instituições medievais e tecnologia divina. Nós nos debatemos. Ficamos perplexos com o mero fato de nossa existência, e nos tornamos um perigo para nós e para o resto dos seres vivos.

A religião jamais resolverá esse grande enigma. Desde o Paleolítico, cada tribo — as quais têm se multiplicado aos milhares e milhares — inventou seu próprio mito da criação. Durante esse longo tempo do sonho de nossos ancestrais, seres sobrenaturais falaram com xamãs e profetas. Identificaram-se aos mortais alternadamente como Deus, uma tribo de deuses, uma família divina, o Grande Espírito, o Sol, espíritos dos ancestrais, serpentes supremas, híbridos de diversos animais, quimeras em parte humanas, em parte animais, aranhas celestes onipotentes — qualquer coisa que pudesse ser evocada pelos sonhos, por alucinógenos e pela imaginação fértil dos líderes espirituais. Foram moldados em parte pelos ambientes de seus inventores. Na Polinésia, os deuses separaram o céu do solo e do mar, e a criação da vida e da humanidade se sucedeu. Nos patriarcados do judaísmo, do cristianismo e do islamismo que habitavam o deserto, não surpreende que os profetas concebessem um patriarca divino, todo-poderoso, que fala com seu povo através da escritura sagrada.

As histórias da criação davam aos membros de cada tribo uma explicação de sua existência. Faziam com que se sentissem amados e protegidos acima de todas as outras tribos. Em troca, os deuses exigiam crença e obediência absolutas. E com razão. O mito da criação era o elo essencial que mantinha a tribo unida. Ele fornecia aos seus crentes uma identidade singular, exigia sua fidelidade, fortalecia a ordem, garantia o cumprimento da lei, encorajava a bravura e o sacrifício e dava sentido aos ciclos de vida e morte. Nenhuma tribo conseguia sobreviver por muito tempo sem que o sentido de sua existência fosse definido por uma história da criação. A opção era enfraquecer, dissolver-se e morrer. Na história inicial de cada tribo o mito, portanto, se tornou uma verdade absoluta.

O mito da criação é um dispositivo darwiniano para a sobrevivência. O conflito tribal, contrapondo os crentes de dentro aos infiéis de fora, foi uma importante força propulsora que moldou a natureza humana biológica. A verdade de cada mito vivia no coração, não na mente racional. A criação de mitos, sozinha, jamais conseguiu descobrir a origem e o sentido da humanidade. Mas a ordem inversa é possível. A descoberta da origem e do sentido da humanidade poderia explicar a origem e o sentido dos mitos, e, portanto, o núcleo da religião organizada.

Essas duas visões de mundo poderão se reconciliar? A resposta, em termos sinceros e simples, é não. Elas são irreconciliáveis. Sua oposição define a diferença entre ciência e religião, entre confiança no empirismo e crença no sobrenatural.

Se o grande enigma da condição humana não pode ser resolvido pelo recurso à base mítica da religião, tampouco será resolvido pela introspecção. A investigação racional pura não consegue conceber seu próprio processo. A maioria das atividades do cérebro sequer é percebida pela mente consciente. O cérebro é a cidadela, como disse certa vez Darwin, que não pode ser conquistada pelo ataque direto.

Pensar sobre o pensamento é o processo central das artes criativas, mas é algo que nos diz muito pouco sobre como pensamos assim, e nada nos informa sobre por que as artes criativas se originaram. A consciência, tendo evoluído por milhões de anos de luta de vida ou morte, e sobretudo devido a essa luta, não foi projetada para o autoexame. Ela foi projetada para sobrevivência e reprodução. O pensamento consciente é movido pela emoção, estando totalmente comprometido com o propósito de sobrevivência e reprodução. As distorções intricadas da mente podem ser transmitidas pelas artes criativas em detalhes refinados, mas são construídas como se a natureza humana jamais tivesse uma história evolutiva. Suas metáforas contundentes não nos aproximaram da solução do enigma mais do que o teatro e a literatura da Grécia antiga.

Os cientistas, examinando os contornos da cidadela, buscam brechas potenciais em suas muralhas. Com tecnologia projetada para esse propósito, penetraram-na e agora leem os códigos e rastreiam as vias de bilhões de células nervosas. Dentro de uma geração, provavelmente teremos progredido o suficiente para explicar a base física da consciência.

Mas quando a natureza da consciência for solucionada, saberemos então o que somos e de onde viemos? Não, não saberemos. Entender as operações físicas do cérebro até seus fundamentos nos aproxima do Graal. Para achá-lo, porém, precisamos de muito mais conhecimentos coletados da ciência e das humanidades. Precisamos entender como o cérebro evoluiu da maneira que evoluiu, e por quê.

Além disso, buscamos em vão na filosofia a resposta ao grande enigma. Apesar de seus nobres propósito e história, a filosofia pura há muito abandonou as perguntas básicas sobre a existência humana. Essa própria investigação é uma assassina de reputações. Tornou-se uma Górgona para os filósofos, cujo semblante até os melhores pensadores temem olhar. Eles têm boas razões para sua aversão. A maior parte da história da filosofia consiste em modelos fracassados da mente. O campo do discurso está coalhado dos destroços de teorias da consciência. Após o declínio do positivismo lógico, em meados do século xx, e das tentativas desse movimento de fundir ciência e lógica num sistema fechado, os filósofos profissionais se dispersaram em uma diáspora intelectual. Eles emigraram para as disciplinas menos espinhosas ainda não colonizadas pela ciência — história intelectual, semântica, lógica, fundamentos da matemática, ética, teologia e, mais lucrativamente, problemas de ajuste na vida pessoal.

Os filósofos florescem nesses vários empreendimentos, mas, ao menos por enquanto, e por um processo de eliminação, a solução do enigma ficou a cargo da ciência. O que a ciência promete, e já ofereceu em parte, é o seguinte: existe uma história da criação real da humanidade, e somente uma, e não é um mito. Ela vem sendo elaborada, testada, enriquecida e fortalecida, passo a passo.

Sustentarei que os avanços científicos, especialmente aqueles das duas últimas décadas, são agora suficientes para abordarmos, de forma coerente, as questões sobre de onde viemos e o que somos. Para isso, porém, precisamos de respostas a duas questões ainda mais fundamentais levantadas pela investigação. A primeira é por que a vida social avançada chegou a existir e tem ocorrido tão raramente na história da vida. A segunda se refere à identidade das forças propulsoras que a fizeram surgir.

Esses problemas podem ser resolvidos reunindo-se informações de várias disciplinas, variando entre genética molecular, neurociência e biologia evolutiva e arqueologia, ecologia, psicologia social e história.

Para testar qualquer dessas teorias de processo complexo convém apresentar outros conquistadores da Terra, com estrutura social altamente desenvolvida, formigas, abelhas, vespas e cupins, o que farei. Eles são necessários para fornecer uma perspectiva ao desenvolvimento da teoria da evolução social. Creio que posso ser facilmente mal interpretado ao colocar insetos junto das pessoas. Já bastam os macacos, você poderia alegar, mas insetos? Na biologia humana, é sempre bom fazer essas justaposições. Existem precedentes em comparar os menores com os maiores. Os biólogos voltaram-se com grande sucesso às bactérias e leveduras para aprender os princípios da genética molecular humana. Eles dependeram de nematódeos e moluscos para aprender a base da nossa organização neural e da nossa memória. E as drosófilas nos ensinaram muito sobre o desenvolvimento dos embriões humanos. Também com os insetos sociais temos bastante a aprender, nesse caso para esclarecer com mais precisão a origem e o sentido da humanidade.


(Edward O. Wilson - A Conquista Social da Terra)

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publicado às 18:52


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